Testemunha do Acaso
1 Testemunha do Acaso
Sentado em um banco qualquer daquela grande praça, observei os dois garotos. Bebiam algo que pela cor deveria ser uísque. Ambos de jeans folgado, camiseta larga, tênis e boné. Aparentavam ser novos demais para estarem em um bar. Discutiam, mas a conversa não chegava aos meus ouvidos. O da direita pareceu-me levemente irritado ante ao comentário do outro, retrucando com os punhos cerrados. O da esquerda levantou-se, sendo imediatamente imitado pelo outro garoto. Gesticulavam excessivamente, como se fossem italianos. O uísque escorreu pela mesa. Os dois gritavam, os berros incompreensíveis. A garota de quinze anos, parada na esquina com roupas coladas e curtas, apagou o cigarro com a ponta da bota.
Logo, os dois brigavam. Uma outra garota, ainda mais nova, por volta dos treze, com roupas tão coladas quanto as da mais velha, juntou-se para observar. As duas atentas, sem perder um movimento dos garotos. Pareciam debater sobre qual iria ganhar, como se perguntassem a outra se fizera a lição de casa.
Outro garoto, suponho que de vinte e dois anos, tentou apartar a briga. Em instantes, foi jogado sobre a mesa, derrubando-a, os copos quebrando-se. Ouvi seu gemido de dor, o álcool provavelmente causando ardência nos cortes provocados pelos cacos de vidro. Ele levantou-se, sumindo pela multidão de curiosos que se formava. Comentavam a briga, mas nenhum parecia mover-se para separar os garotos embolados no chão.
As duas focaram a atenção nos homens que passavam, oferecendo seus corpos em troca de dinheiro. As crianças corriam inocentemente no parque próximo a praça, sem notarem o que ocorria ali perto, alguns pais levando-as embora desapontadas, tentando inutilmente preservar a ingenuidade delas em um mundo vulgar e violento.
O cerco de expectadores em torno dos dois aumentava. Uma bela moça gritou por um deles desesperada. O anel em seu dedo indicou-me se tratar de seu namorado um dos rapazes que brigava. Berrou para pararem,que aquilo não tinha sentido. De nada adiantou. Ambos ignoraram-na e seguiram com a troca de socos, chutes e dentadas. Os longos cabelos dela, antes presos em um caprichado coque, soltaram-se em meio a sua aflição.
Alheias a tudo, duas velhinhas remontavam o passado saudosas, sentadas em um banco em frente ao meu. Não se demoraram ali; estava quase escuro, o crepúsculo chegando ao fim.
Um deles retirou uma faca, escondida entre o tecido da calça, e tentou freneticamente acertar o outro. A briga aumentou em tamanha intensidade que as pessoas recuaram alguns passos, temendo agora por suas vidas. A garota berrou novamente.
Um borrão foi tudo que se seguiu. O rapaz que antes desviava, fora atingido. No segundo que levou para ele se recuperar do choque, fora esfaqueado novamente. As facadas continuaram, o sangue brotando das feridas. O outro garoto ofegava, sem parar de atingi-lo. Pouco depois, fugiu.
As garotas olharam de relance, voltando ao bordel em que atendiam; aquilo já não era novidade a elas. As pessoas na multidão chamaram socorro. E a garota parada, chorando sobre o rio de sangue de seus namorado. Logo caiu sobre ele, o choro mais forte.
Admiro a coragem do rapaz que tentou separa-los. Não compreendo os garotos que brigaram. Sinto dó das garotas que, tão cedo, desistiram da vida. Acho a ignorância das pessoas desprezível. Sobre tudo, sinto pena da garota que perdeu o namorado e agora chora sobre o corpo sem vida deste. Porém, nada fiz. Fui apenas uma testemunha do acaso, escolhida pelo destino.
Notas finais
Kissus
Yuki
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