Terça-feira
1 One shot
Ele é como tarde de terça-feira. Sorriso discreto, voz no timbre certo, olhar de quem já passou por muita coisa, enfim... Talvez seja por isso que ele não foi feito pra mim. Mas eu continuo insistindo em me apaixonar cada dia mais. Abraço a saudade, queria eu ter o dom de saber esperar.
Tanta coisa depende das balas de hortelã, daquela música que você gosta, dos trevos de quatro folhas e de um chuveiro queimado. Tanta coisa depende de mais uma frase de efeito, o roteiro amassado, uma caixa vazia, mais um trago. Ele me atiça, fascina e depois vai embora. Sorri, me enlouquece e a gente se namora. Muitos anos a mais e muito juízo faltando. Uma cadeira quebrada, janela aberta um diretor falando. No dia seguinte, nem sei se estou bem ou mal. Domingo não tem importância. Na quarta ele me liga, pergunta se estou sozinha. Quinta é só silêncio. Sexta ele sonha comigo, mas depois me esquece. Sábado é de preguiça ás escondidas. Segunda abusamos do tempo no chuveiro. Mas terça, ao som do que houver, a gente se cuida. Se tivesse mais um dia na semana, talvez déssemos certo. Eu disse só talvez. Na nossa rotina, trocamos as certezas por e-mails. Pra começar a falar sério, só se inventassem um novo mês. E o nosso mês cabe em uma terça. Entre números de sorte e azar, eu escuto suas histórias. Não estou nelas, nem sei se um dia vou estar, mas gosto de ouvi-las, gosto de distrai-lo. As absolutas incertezas tentam até os anjos e eu nunca sei o que esperar. As vezes penso no que ele me diz, e nas contrariedades que faz. Penso em camarins, sofás e um carro, no banco de trás. O tempo parado, o filme sobre Chaplin rodando sem ninguém assistir, ressaca pós-segunda-feira, gostinho de saudade, cheiro de reencontro, olhar de quero mais. Faz cara de safado, me atenta como o Diabo e ainda tem a audácia de perguntar: “Decorou as falas? Quer café?”. Ah, eu quero muitas coisas. Ele sabe disso. Porque Terça eu sou quase dele; e vice-versa. Terça somos trevos, atores e trancas. Nos outros dias, a gente se perde por aí, como quem vive em outro lugar. Fazer o quê? Eu até gosto. Nos outros dias, assumimos nossos verdadeiros “eus”, mas terça é “eu quero você.” Porque é a verdade e é o que está em todo lado. Finjo que não e tento, sem sucesso, convencer a mim mesma que não é uma boa ideia. Mas basta um sorriso e jogo tudo para o alto. Sexo barato, tatuagens que significam algo. Músicas horríveis e uma bilhete de entrada previamente pago. Hoje ele está aqui, amanhã não está mais. Invadimos a igreja e deitamos no teatro, na sala de trás. As vezes ganho um beijo roubado ou uma bronca por descuido. De sete em sete, eu vou me embebedando de azar. Mas eu não desisto, só para poder ver ele passar.
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