Notas iniciais
O título do capítulo vem da música "Don't fish in my sea" de Ma Rainey. Provavelmente todos os capítulos terão nomes de músicas antigas.Esse capítulo é curto e mais "devagar", mas as coisas vão esquentar mais pra frente, só acompanhar ^^E, por favor, comentem!

Para um varredor, não existia nada mais tentador do que um cadeado trancado. Principalmente em um baú como aquele, de madeira maciça, decorado. Seven pegou dois grampos, fez as dobras necessárias que aprendeu quando era ainda mais jovem e tentou abrir o cadeado. Nada. Tentou de novo, sem sucesso. Girou, torceu, apertou e mesmo assim, nada.

– Ei, pessoal! Achei uma moeda! – disse Lucky com sua voz robótica saindo do tradutor de seu pescoço. Junto dela também saiu um latido rouco – Ah, espere. É só uma tampinha de garrafa. Foi mal.

O lugar parecia ser um prédio. Estava em ruínas, como quase tudo no Lixão do setor Cinco. Entretanto, Lucky conseguiu farejar uma passagem secreta onde encontraram vários tesouros. Uma garrafa de vinho, talheres, pratos, um castiçal que suportava uma única vela e uma caneca de melhor pai do mundo.

E claro, tinha o baú.

Seven ainda encontrava problemas com o cadeado. Enquanto ela sofria tentando destrancar, uma grande sombra surgiu, cobrindo a garota e o baú por completo. Uma mão gelada tocou o ombro magrelo de Seven, que sentiu um calafrio percorrer todo o seu corpo.

– Posso tentar? – a voz de Carry, que parecia um homem e uma mulher falando por um megafone em uníssono, era fácil de reconhecer. Seven se sentiu muito mais aliviada depois de saber que era o robô. A vida de um varredor era cheia de perigos e era preciso estar sempre alerta. Dessa vez ela estava despreparada.

– Se quiser. Não que eu não conseguisse...

– Não duvido de suas capacidades, Seven – o robô de carga segurou o cadeado com sua mão alaranjada e suja e o puxou sem muito esforço, arrebentando seu elo – Porém, todos precisam de ajuda de vez em quando.

– Sim, claro. Podemos ver o que tem dentro agora?

– Com certeza – Carry levantou a tampa do baú. Os olhos castanhos de Seven chegaram a brilhar esperando várias riquezas, mas isso durou pouco. No baú havia apenas roupas masculinas e um par de sapatos. O rosto de Carry se manteve o mesmo do começo ao fim. Assemelhava-se a uma máscara de Hóquei laranja com olhos amarelos brilhantes. Não era um rosto muito expressivo.

– Sério? Tive esse trabalho todo pra isso? – disse Seven, colocando as mãos na cintura.

– Mas fui eu quem abri o cadeado – Carry olhou para o cadeado quebrado ainda em sua mão – Você não teve trabalho nenhum...

– Eu sei, eu sei. Só – Seven bufou– deixa pra lá. Vamos ver se eu acho alguma coisa interessante aqui.

Mesmo desapontada, Seven começou a procurar para ver se encontrava mais alguma coisa. Os sapatos estavam em boas condições, ao contrário dos que ela usava. Ela calçou os novos e, apesar de serem muito maiores que os seus pés, os achou confortáveis.

Debaixo de algumas das roupas ela encontrou um álbum de fotografias. Tinha apenas duas fotos: uma era de um homem alto usando óculos casando com uma mulher de cabelos castanhos que era muito bonita. A outra era de um casal de gêmeos e a mesma mulher entregando uma caneca para o homem, a mulher estava carregando uma bandeja com bacon e ovos em um prato. Esse café da manhã fez Seven salivar. Todos pareciam estar muito felizes.

– Achei uma moeda! – disse e latiu Lucky. Seven pode ver pela sombra projetada na parede que ele estava abanando o rabo de metal feito um louco – Esqueçam. Outra tampinha. Desculpa de novo.

Seven entregou o álbum para que Carry o guardasse em seu cofre, o que o robô prontamente fez. Seven sempre se confundia se devia chamar Carry de ele ou ela. Geralmente chamava das duas formas, dependendo da situação. Sempre que perguntava qual era, o robô apenas dizia “ambos e nenhum”. Essa resposta fazia a garota ficar ainda mais confusa.

Após ter retirado todas as roupas do baú e guardado uma parte delas no cofre de Carry, Seven estava pronta para ir embora. Foi quando Carry notou algo estranho.

– Veja – disse, apontando – Parece que tem um fundo falso.

– Isso! – comemorou Seven – Abra logo, Carry. Imagina as riquezas que se escondem aí. Pode ter litros e mais litros de Elixir prontos pra usar! Ouro, prata, joias, comida enlatada...

– Um diário – completou Carry.

– ...um diário. Espera, o quê? – Seven se abaixou e viu o baú completamente vazio, apenas com um diário de capa rústica e com um elástico em volta. Ela pulou dentro do baú, procurando por outro fundo falso, mas não encontrou nada.

– E o que eu vou fazer com essa coisa? – berrou Seven, segurando o diário como se estivesse enojada – Ninguém compra diários – ela o balançou e o elástico se soltou. De dentro do diário caiu uma chave e diversas fotos. Ela o abriu e viu que todas as páginas exceto uma tinham sido arrancadas. Ela pegou a chave. Era pequena e com um plástico preto em volta. Era uma chave tão comum que poderia ser de qualquer lugar.

– Está escrito em inglês – disse Seven analisando o diário – E parece que foi escrito à mão. Droga, eu não consigo ler nada, a letra é horrível!

– Se você estivesse estudando, como eu te disse, saberia ler perfeitamente – repreendeu Carry. Ela tomou o diário das mãos de Seven e deu uma olhada – Eu já te disse que se você lesse mais... Nossa, é horrível mesmo.

– Eu falei.

– Pessoal! Achei outra moe... Não. É a mesma tampinha do começo. Foi mal. Foi mal – disse Lucky, com ar de desapontado– O que vocês estão fazendo?

Lucky veio caminhando para perto de Carry e Seven, emitindo um rangido a cada passo. O cão era metade carne e metade metal e possuía um dispositivo que o permitia falar. Lucky alegava ter mais de trezentos anos, mas não era muito sábio. Apesar da ideia de que idade avançada é sinônimo de sabedoria, isso não se aplicava à Lucky. Afinal de contas, ele ainda era um cachorro.

Um cachorro muito azarado.

– Estamos nos decepcionando, Lucky – disse Seven enquanto mexia em algumas fotos.

– Legal, posso participar? – perguntou Lucky abanando a cauda.

Carry estava sentado com o diário em mãos, olhando diretamente para ele com seus olhos redondos, amarelos e inexpressivos. Seus braços alaranjados, longos e grossos seguravam o diário, imóveis. Essas atitudes estranhas, o tamanho, a voz fria e sem emoção e os olhos que nunca piscavam eram aterrorizantes para algumas pessoas, que costumavam se espantar com o robô. Para Seven, Carry era uma amiga, ou amigo. Foi quem a criou e quem a ensinou tudo o que sabia, inclusive a ler. Carry também protegera Seven de diversos perigos e era muito útil em ajudar na exploração. Seu pescoço, abdômen e membros eram todos estendíveis, o que a permitia alcançar lugares que Seven e Lucky não podiam.

– Código decifrado – algumas vezes, a voz de Carry se tornava ainda mais robótica. Isso assustava Seven de vez em quando – Eu consegui analisar os padrões desse diário, posso lê-lo pra vocês se quiserem.

– Bah, depois – Seven se levantou – Vamos embora daqui antes que esse prédio desmorone de vez – Seven pegou algumas das fotos que caíram do diário e as entregou para Carry – Guarde isso pra mim.

Quando estava próxima à porta, Seven ouviu um barulho de motor. Ela ficou imóvel. Gangues rondavam os Lixões como alcateias. Sempre em busca de presas, principalmente as mais fracas. Eles costumavam bater na lataria do carro, anunciando a sua chegada, porém, dessa vez, só se ouvia o ruído do carro passando por cima de entulho. Seven se escondeu e olhou por um buraco na parede. Parecia que a gangue iria ignorar o prédio, até que Lucky derrubou um dos pratos que tinham encontrado.

– Desculpa – choramingou ele, abaixando as duas orelhas. Uma normal e uma metálica.

O motor do carro parou e Seven os viu descendo com bastões, machados e todo tipo de arma branca em mãos.

Lentamente, eles caminharam até o prédio.