Tersh - O Planeta Lixão
2 O som do silêncio
Notas iniciais
– Carry, quantos são? – sussurrou Seven.
– Pela minha análise, oito ou doze, não tenho certeza, não pude averiguar com exati... – Carry se interrompeu, abaixando o volume de seus alto falantes – Cuidado!
Carry estendeu um braço até Seven e a puxou. O outro braço envolveu Lucky, que estava encolhido em um canto se sentindo culpado, e o trouxe para perto. Carry aproximou seu indicador de sua cabeça oval e fez sinal de silêncio para os dois companheiros. Depois puxou um sofá para perto de si tentando fazer o mínimo de barulho possível. Carry o usou como um esconderijo para o grupo, aproveitando da parte secreta que Lucky tinha descoberto.
Seven acenou para Carry, que desligou a luz de seus olhos e o tradutor do pequeno cão. O cofre deles estava na camuflagem, tinham cinco minutos até a bateria precisar de recarga. Com isso, o abrigo improvisado se preencheu de trevas, exceto por uma pequena fresta. Seven pôde ouvir então as botas pesadas caminhando sobre os escombros. Pelo buraco, pôde ver dois membros da gangue, caminhando lentamente. Eles usavam máscaras de animais que cobriam totalmente o rosto, deixando apenas os cabelos à mostra. Os olhos sem vida deles pareciam estar encarando Seven. Uma dessas máscaras tinha o formato de um lobo e tinha sangue respingado, como se o lobo tivesse acabado de devorar uma presa. Ele carregava um machado e usava um avental de açougueiro, que também estava manchado de sangue, com respingos por todo o branco da roupa.
O outro membro era uma garota que usava uma máscara de coelho branco. Os olhos vermelhos e a cor branca da máscara davam um ar de pureza que não cabia àquele lugar. O tamanho da garota também contribuía para esse pensamento. Ela carregava um bastão de basebol, que estava quase totalmente pintado pelo rubro do sangue. Ela usava um cachecol da mesma cor de seu bastão e de seus olhos, que cobria um pouco o seu queixo.
Eles levantavam escombros, olhavam nos armários, vasculhavam os buracos. O Lobo encontrou um dos pratos que Lucky tinha derrubado e mostrou para sua companheira. Ele pegou um dos pratos que estavam inteiros, o atirou para o alto e a Coelha o acertou com o bastão, fazendo os pedaços do prato voarem para todo lado. Seven pensou o valor que aquele prato, que não estava nem sujo nem rachado, teria no mercado. Daria até para pagar um lanche decente para ela e para Lucky.
Seven se aproximou mais do buraco para tentar ver mais alguma coisa. Ao olhar pela abertura, um rosto longo e branco o encarou do outro lado. Os seus olhos eram de um amarelo brilhante, as pupilas retangulares fitaram Seven. Sentiu como se aqueles olhos entraram no seu corpo e percorreram sua alma, procurando cada medo dela e os trazendo para fora. Queria gritar, mas não se permitiu fazer isso. Finalmente pôde perceber que era somente uma máscara de ovelha. Uma máscara, como as outras, porém os olhos eram como os de verdade e pareciam seguir os seus. O Ovelha ficou parado em frente ao buraco por um tempo. Uma gota de suor escorreu pelo rosto de Seven. Lucky olhava pra ela com o seu único olho bom esperando alguma reação da companheira. Queria choramingar, mas Seven fez o sinal de silêncio para o cão. Sorriu, tentando parecer calma.
O Ovelha, então, fez o mesmo sinal para ela.
Foi possível ouvir gritos distantes. Os três mascarados olharam para fora e caminharam de volta para o carro. Porém, somente depois que os sensores de Carry não podiam mais “ouvir” o motor, nem mesmo à distância, que Seven se acalmou.
Com um chute, Carry arremessou o sofá para longe. Seven tossiu com a poeira levantada e Lucky já correu para fora, abanando o rabo. Carry acendeu os seus olhos amarelos novamente e Seven religou o tradutor de Lucky.
– ... depois disso... jogar... baderneiros... penhasco, certo... Seven? – disse Lucky. Sua voz demorava alguns segundos para voltar ao normal depois que o tradutor era religado.
– Certo amigão – respondeu Seven, ela chutou os restos do prato que estava no chão para longe – Vamos embora, Carry. Eles podem voltar.
– Claro – a camuflagem do cofre acabou no exato instante que Carry respondeu á Seven. O robô colocou o cofre nas costas e abaixou-se – Subam no cofre vocês dois.
O cofre de Carry era imenso. Todos os três cabiam dentro dele, e ainda sobrava muito espaço. Carry o levava como uma mochila e era lá que guardavam todos os tesouros encontrados por eles. Tinha também um compartimento secreto onde cada um guardava alguma coisa que não queriam vender. Havia também uma mini geladeira, um fogão de uma só boca e todos os suprimentos do grupo de viajantes. Era praticamente uma casa que podiam carregar para onde quisessem, graças à Carry.
Seven subiu e ajudou Lucky a subir também. Os dois se acomodaram na parte de cima do cofre, que lembrava uma pequena caçamba, para Carry levá-los até o seu próximo destino.
– Vamos voltar para Abrigo? – Carry se levantou e começou a andar.
– Exato – Seven se deitou no cofre – Carry, pode pegar aquele álbum para mim? E as fotos que eu te dei
Carry esticou seu braço, pegou o que a pequena varredora pediu dentro do cofre e a entregou. Seven o abriu e ficou observando aquela família que parecia tão feliz. Ela se deitou de bruços e começou a colocar algumas das fotos soltas no álbum, tentando organizar uma linha do tempo. O casamento, a viagem de lua de mel, a gravidez da mulher, o batizado dos pequenos, primeiro corte de cabelo... Lucky se aproximou dela, levantou as orelhas e ficou encarando as fotos por um tempo.
– Eu conheço esse homem – disse Lucky enquanto coçava alguma pulga que o incomodava atrás da orelha.
– Você o conhece? – Seven olhou chocada para o cachorro – E a moça? Os garotinhos? – disse, apontando.
– Sim, todos eles – respondeu Lucky, abanando a cauda.
– E quais os nomes deles? – Seven se sentou com as pernas cruzadas e encarou o cachorro. Lucky se coçou novamente e olhou para Seven com ar de confusão.
– Nome de quem? – disse Lucky – Ei! Eu conheço esse pessoal– ele voltou a se coçar, a pulga agora tinha se movido para a outra orelha. Enquanto se coçava, a pata arranhava o metal e fazia um barulho estridente.
– Droga – Seven suspirou e se deitou de costas, olhando para o céu. Já estava escuro e as estrelas salpicavam todo o firmamento como pequenos vagalumes. Lucky se deitou ao lado dela, também de costas. Ela olhou para ele e o cão retornou o olhar, parecendo sorrir. Seven riu da cena.
– Carry? – ela chamou.
– Sim?
– Depois você... poderia... ler aquele diário pra mim. Pra gente – sugeriu.
– É, é. Lê pra gente – disse e latiu Lucky.
– Como quiserem. Mas primeiro, vamos chegar em Abrigo logo.
Carry continuou caminhando. Seven mostrava as constelações para Lucky, que até parecia compreender alguma coisa. Não podia se ouvir nada, além da voz de Seven e dos passos surpreendentemente suaves de Carry. Seven fechou os olhos e tentou imaginar como eram as estrelas de perto. Carry já tinha dito que pareciam grandes bolas de fogo, mas Seven preferia imaginá-las como as estrelas que as crianças desenhavam e que podia pegar uma delas e guardá-la para mantê-la aquecida ou iluminar o seu caminho. Olhou para o álbum ao seu lado, pensou em desenhar estrelas em algumas de suas páginas. Talvez ela pudesse arremessar umas delas como uma estrela cadente e fazer um pedido.
Sorriu com esse pensamento. Lucky dormira ao seu lado e Carry já estava na estrada, seus passos já não faziam barulho. A única coisa que acompanhava Seven agora era o silêncio.
E claro, suas estrelas.
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