Terrível Realidade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Demorei muito para escrevê-la, pois sempre que começava a raiva me consumia e eu era obrigada a parar.
Realmente espero que gostem dela.
Boa leitura.
Eu pensei que não seria mais uma noite terrível. Era nosso aniversário, seria impossível que eles fossem frios aquele ponto. Mas falando dos meus pais isso não era impossível.
Eu estava impecável no quimono dourado que as mulheres daquela família implicaram para eu usar. As mulheres que dividiam a casa comigo. Minhas avós e minha mãe. Obaa-chan e haha como queriam ser chamadas, traduzindo como avó e mãe.
Elas eram japonesas tradicionais, saíram do Japão porque meu pai, o chefe da empresa da família, expandiu sua empresa para outro continente. Não era difícil de achar mercado para uma empresa de robótica.
Hoje era meu aniversário e aniversário de meu irmão, Hiroshi. Minha família era composta de meus avós paternos, sofu/avô Riki e sobo/avó Kaori, meus avós maternos, sofu/avô Tatsuo e sobo/avó Naomi, meu tio Hayato que continuava no Japão com sua esposa coordenado a sede japonesa, meu pais, chichi/pai Tomoko e haha/mãe Katsu, e eu, Akemi e meu ani/irmão gêmeo, Hiroshi. Seja materno ou paterno, nossa família sempre foi ligada a fortuna, respeito e poder, mesmo reconhecendo as origens humildes do sobrenome Koyama e Miyamoto que nossa família trazia.
— Akemi, você está pronta? — ouvi meu irmão do lado de fora do quarto.
— Pode entrar Hiroshi. — eu suspirei.
Eu ainda me encarava no espelho querendo bater nelas por me obrigarem a usar kimono no café da manhã de meu aniversário. Hiroshi percebeu que eu não estava contente e sorriu para o meu reflexo no espelho.
— Você odeia kimono. — ele me lembrou.
Eu sabia daquilo, o que me fez bufar e ir até o closet trazendo mais dois kimonos que haviam sido designados para ser meu vestuário naquele dia.
— Um para o café da manhã. — dei uma volta irônica. — Um prateado para o almoço. — apontei para o prateado em cima da cama e peguei o rosa na mão. — E um rosa para mostrar na festa que eu ainda sou uma boneca deles. Por que você pode usar terno!? — exclamei frustrada.
— Eu sou homem. — ele respondeu tão descontente quanto eu.
— Vai contar a eles? — perguntei.
Ele apenas assentiu e eu o abracei. Fazia três anos que Hiroshi escondia sua homossexualidade de nossa família, porque nós dois sabíamos que aquilo não ia dar certo, mas não poderíamos enrolar mais para contar. Ele iria contar sobre sua opção e eu sobre meu namorado americano e negro. Dylan era um amor, estudou comigo na faculdade em que eu cursava moda que eu demorei muito para conquistar permissão para fazer. Dylan era formado já, em engenharia robótica, o que eu esperava que agradasse minha família.
— Vai ser difícil, sabe disso, não é? — ele falou depois do silêncio. — Eu gosto de homens, eles não vão aceitar isso jamais.
— Dylan é negro. Estamos os dois numa maré de rejeição. — suspirei sentando na cama com cuidado para não amassar nenhum kimono. — Manteremos o plano.
Se algo desse errado, nós dois tínhamos montado uma fuga.
— Akemi! Hiroshi! — ouvi meu pai gritar do andar de baixo. — Venham tomar café.
— Já vamos, chichi! — Hiroshi gritou de volta.
Eu me apressei em arrumar meu cabelo em um rabo de cavalo perfeito e uma maquiagem leve para a manhã enquanto Hiroshi me ajudava a alinhar o kimono. Ir até a sala de jantar foi fácil. Sentar à mesa baixa que minha família mantinha também. Difícil foi engolir o nervosismo e aparentar felicidade por desfrutar mais uma refeição com a minha família.
Um café da manhã tradicional (asagohan) com arroz, peixe grelhado e legumes. Qualquer americano riria disso, afinal aquilo era considerado um almoço para eles. Eu comia devagar, tentando desfrutar da paz que ainda me restava.
— Chichi... — Hiroshi começou e eu segurei sua mão ao lado do seu corpo. — Eu gostaria de ter palavra para contar algo para a família.
— Claro, musuko. — ele sempre se referia a nós com termos japoneses, ou seja, musuko era traduzido como filho.
— Eu não sei bem como falar isso. — então ele fechou os olhos e eu senti sua mão tremer. — Eu sou homossexual, chichi.
O ar fugiu daquela sala e senti meus avós vidrarem seus olhares no meu irmão ao mesmo tempo em que meu pai e minha mãe soltaram seus hashis. Eu apertei a mão do meu irmão com mais força do que planejava, mas queria que ele soubesse que nosso plano se mantinha de pé, para tudo.
— Como você, musuko, deixou que isso acontecesse? — vovô Riki berrou, me assustando assim como mamãe e a vovó Kaori que estava sentada ao seu lado. — Isso é uma total desonra para essa família.
— Ojii-chan, não tem nada de errado eu gostar de homens! — Hiroshi se exaltou. — Continuo sendo seu mago e isso não vai mudar.
— Vai sim! Você não é meu neto mais, eu jamais iria tolerar uma desonra dessas ligada ao meu nome. — enfim percebi que não teria mais conversa com vovô Riki, ele odiava tratar a família com palavras que não fossem japonesas.
— Chichi, por favor, um minuto de silêncio. — meu pai pediu, mas eu sabia que aquilo era só um pretexto para ele pensar em uma frase mais elaborada para colocar meu irmão para fora de casa. Ele jamais iria contra um desejo de vovô. — Musuko, Riki tem razão. Isso é um absurdo!
— Claro que não, chichi! — Hiroshi suspirou. — Isso é completamente normal, qual o problema de eu ser homossexual?
— Isso não é natural, Hiroshi! Isso é uma doença. — então ele suspirou. — Tenho certeza que algum médico irá te curar, aguarde até segunda e eu procurarei um.
Então minha boca se abriu, completamente espantada com aquilo. Hiroshi, no entanto, fez algo admirável, na minha humilde opinião. Ele riu. Ironicamente, claro, mas ele riu.
— Eu não irei a médico algum, papai. — ele disse com raiva, ironizando a última palavra. — Eu não estou doente, quem está é você. Você e Riki. Dois preconceituosos. Isso é crime aqui sabia? Homofobia é o nome disso. — vi papai ficar espantado junto com mamãe, mas vovô não se abalou.
— Silêncio, garoto malcriado ridículo. — vovô Riki gritou. — Vá para seu quarto agora!
— Com prazer. — Hiroshi jogou seu hachi na mesma com força e se retirou.
Ninguém ousou dizer uma palavra após o evento, o que tornou a refeição mais rápida, para minha felicidade. Eu precisava ajudar Hiroshi. Assim que a refeição terminou, as mulheres tiraram a mesa e todas nós fomos à cozinha para limparmos os utensílios que foram utilizados.
Assim que terminei meu trabalho, pedi permissão para ir até meu quarto, ao lado do de Hiroshi, no entanto, minha mãe me chamou.
— Akemi, venha comigo. — então ela me guiou até o jardim de casa onde passava suas tardes comigo quando eu estava estudando ou fazendo algum trabalho da faculdade. — Você sabe como seu avô é. — ela falava normalmente, sem palavras em japonês, quando meus avós não estavam por perto. — Sabe que seu pai não irá contra a opinião dele, sabe que a minha opinião também não. Quero que você vá até Hiroshi e diga que eu o apoio, mas que a tradição me impede de expor minha ideia nessa casa. — então vi os olhos negros da minha mãe se encherem de lágrimas. — E por mais que doa em mim, minha filha, diga que se for melhor para ele, se isso o fizer bem, ele poderá sair dessa casa que eu ainda o amarei.
Então chorei com mamãe, eu a abracei não ligando que isso amassasse o meu kimono dourado e seu kimono rosa. Mantivemos-nos assim, enquanto pudemos, mas não durou muito tempo, porque logo escutamos vovô Riki e vovô Tatsuo gritarem por ela. Ela se levantou sem falar nem se despedir e andou a passos apressados para o interior da casa.
Eu fiz o mesmo, no entanto, em direção ao quarto de Hiroshi. Dei seis toques na porta pausados dois a dois. Era nosso código. Logo ele abriu, mas me puxou, sem me deixar muito tempo no corredor.
— Preciso arrumar as roupas essenciais, sapatos, higiene e dinheiro o mais rápido possível, papai vai comunicar a família no almoço que eu serei expulso de casa, mas não quer que eu vá miserável. — Hiroshi disparou quando ele fechou a porta de volta. — Mas isso não mudou sua opinião. — Hiroshi começou a chorar. — Ele me chamou de doente, de verme, de sujo e de tantas outras coisas, Akemi. Ele me humilhou, ele me bateu...
Corri até ele e o abracei, chorando junto com ele. Acabamos sentados no chão, ele com a cabeça em meu kimono desconfortável e eu com as costas encostadas na parede. Eu mexia em seus cabelos lisos enquanto ele chorava.
— Vem, vamos arrumar suas coisas — o chamei para que ele começasse a arrumar suas coisas e não se esquecesse de nada.
Foram necessárias três malas para colocar as roupas que Hiroshi realmente gostava, seus sapatos foram em outra mala e na última mala estavam seus objetos que ele tinha carinho, junto com algumas fotos, kit de higiene e todo o dinheiro que chichi havia entregado para ele. Enquanto ele arrumava suas últimas coisas mandei uma mensagem a Dylan, que nos acolheria por um tempo até que conseguíssemos nos estabilizar novamente.
"Chichi colocará Hiroshi para fora de casa no almoço, você poderia vir buscá-lo?"
Não demorou muito e ele já me respondeu, como sempre fazia.
"Claro! E você, já falou com eles?"
"Vou falar durante a festa e eu quero você aqui."
"Estarei sempre com você, meu amor."
Sorri para o celular, mas logo lembrei qual era o motivo daquilo e meu sorriso morreu.
— Dylan vai vir te buscar. — suspirei. — Estarei com você essa noite, Hiroshi. Prometo para você. — segurei em suas mãos. — Antes quero fazer eles engolirem cada maldita frase que escutei deles durante minha vida toda.
Hiroshi me abraçou e chorou depois que tudo estava organizado para sua saída. Logo estávamos sentados novamente, abraçados, enquanto esperávamos a hora do almoço. Foi uma manhã longa.
Pedi que Hiroshi me acompanhasse até meu quarto e me ajudasse a me arrumar para o almoço enquanto a hora não chegava, mais para esvaziar do que para estar realmente apresentável.
Fui até o banheiro de minha suíte e troquei o kimono dourado pelo prateado que me deixava com dor de cabeça. Minha vontade foi realizada quando peguei o kimono dourado que havia usado durante aquela manhã e levei até o meu irmão e nós dois xingamos e rasgamos aquele kimono com toda a raiva que tínhamos guardado por tanto tempo.
Quando ele finalmente estava em pedaços, sentei em frente ao espelho para refazer o meu penteado e retocar a minha maquiagem. Depois disso puxei Hiroshi pela mão e fiz ele me ajudar a fazer as minhas malas. Foram necessárias mais do que três malas para minhas roupas e mais do que uma para minha grande coleção de sapatos que eu jamais deixaria para trás. Depois disso preenchi uma mala com higiene, maquiagem e produtos para o cabelo, joias e acessórios. E por fim, em outra mala, meus objetos de grande estima, em maioria fotos e pelúcias.
Cronometradamente, quando acabamos minhas coisas, chichi nos chamou para o almoço, então pedi que Hiroshi me ajudasse com o kimono para depois ajudá-lo com as malas para o andar debaixo.
Chichi esperava na saída de casa, como eu pensei, junto com toda a família, enquanto eu e Hiroshi levávamos suas malas até a porta.
— Sua decisão foi tomada, musuko. — chichi afirmou ao ver suas malas, mas não parecia mal com isso. — Você teve sua alternativa, você não aceitou, você está sendo expulso dessa casa e dessa família, Hiroshi. O sobrenome Koyama não passará de um mero detalhe em sua vida, assim como Hiroshi será apenas uma macha a ser coberta por essa família.
— Só quero dizer, papai, que eu me vou com muito orgulho. — Hiroshi disse com todo seu autocontrole, porque eu sabia que o que ele queria era chorar mais uma vez. — Orgulho de não pertencer mais a essa família suja e preconceituosa que a sua é. Em breve você vai notar que esse conservadorismo ridículo que essa família trás como tradição só vai subtrair coisas de você. Você já me perdeu e em breve perderá mais.
Hiroshi pegou duas malas e fez menção de andar, mas quando fui fazer menção de ajudá-lo me espantei com duas coisas. A primeira foi Riki segurando meu braço com muita força, com a intenção de me machucar estampada em seu rosto se eu mexesse meu braço mais um pouco na direção do meu irmão. A segunda foi o som estridente do tapa que meu pai deu em meu irmão.
Minha vontade foi gritar, bater em meu pai como ele havia feito com meu irmão, mas eu não consegui, apenas chorei em silêncio, ao contrário de mamãe que começou a chorar alto e compulsivamente.
— Cale a boca, musume! — Tatsuo, pai de mamãe, gritou a fazendo se silenciar.
Quando a porta abriu pelas mãos de meu pai, vi Dylan parado logo na frente dela, em uma posição desafiadora, mas eu vi a preocupação em seu olhar quando ele notou o aperto de vovô Riki em meu braço. Acenei de leve com a cabeça para as malas de Hiroshi, tentando fazer com que ele entendesse que não deveria arrumar confusão agora, por mais que o desejo estivesse estampado em seu rosto.
Meu namorado negro entrou na minha casa pela primeira vez em uma situação revoltante e a única coisa que eu queria era sair com ele. Vi o nojo no olhar dos homens daquela família quando Dylan entrou se pedir para pegar as malas que Hiroshi não conseguiu carregar, mas assim que tudo havia sido removido, meu pai fechou a porta e ordenou que fossemos almoçar.
Meu ódio era tanto que a comida em meu prato foi quase completamente ignorada, pois dela mal comi. Assim que notei que quase todos estavam no fim de sua refeição, falei, mas sem pedir permissão, pois a minha raiva tinha pulado esse patamar da educação que eu havia recebido.
— Haha, chichi, gostaria de avisá-los que na festa de meu aniversário essa noite, iremos receber alguém importante para mim, alguém de quem gosto e espero que vocês o aceitem, pois gostaria de ter um relacionamento com esse alguém.
Não esperei resposta, não esperei comentários, não esperei que meu pai declarasse o fim da refeição, apenas me levantei e fui até meu quarto. Lá eu chorei novamente, tirei o kimono e rasguei como tinha feito com o último e vesti a roupa que usaria para ir embora daquela casa.
Eu amava a primavera, estação que libertava. E no fim, seria na primavera que eu seria libertada do sufoco que era minha casa. A casa que nunca fora meu lar. Coloquei um vestido florido em tons de amarelo, curto e acinturado, sem decotes e uma sapatilha branca, ficaria escondido por debaixo do kimono rosa que me obrigariam a usar aquela noite.
Sentei-me na cama, usando o notebook pela última vez naquele lugar. Eu tinha acesso as contas da família, então transferi uma grande quantia de cada uma para a conta de Dylan, o mandando pegar tudo aquilo e colocar na conta que havia criado sem a permissão dos meus pais. Logo em seguida fui até o cofre em meu quarto e tirei tudo que ali estava, desde dinheiro, até contratos com as vias originais que estavam em meu nome.
Enfim chegou o momento em que mamãe viria me arrumar então fiquei sentada em minha cama, ao lado das minhas coisas já prontas para serem expulsas da casa, assim como eu. Quando ela entrou, trouxe consigo mais lágrimas. Ela viu minhas malas e colocou-se a chorar mais.
— Vou perder meus filhos.
— Você já os perdeu há muito tempo, mãe. — falei fria. Diferente de meu irmão, eu conseguia desligar minhas emoções ao falar com as pessoas daquela família. — Você nos perdeu a partir do momento que deixou de expressar sua opinião, deixou de lutar pelos seus ideais por um casamento. Você nos perdeu antes de nascermos.
Ela assentiu chorando, mas foi fazer o que tinha sido mandada fazer. Preparou minha maquiagem como deveria, fez um coque simples em meus cabelos longos e negros, vestiu o kimono por cima do meu vestido e o alinhou.
— Eu tenho orgulho de você, Akemi. — ela sussurrou em meu ouvido.
Eu apenas assenti, encarando o reflexo dela no espelho em minha frente.
Não demorou a passar a hora graças a minha ansiedade. Logo os primeiros convidados de papai, sócios da empresa e contatos importantes chegaram, o que me obrigou a dar o ar da graça em uma festa que eu teria que engolir por muito tempo.
Fui feita de boneca perfeito pelos homens de minha família por muito tempo, andando de um lado ao outro com um sorriso falso no rosto, um caminhar suave, palavras doces e um kimono rosa. Nosso aniversário nunca fora uma comemoração por mais um ano de vida, era apenas mais uma reunião de negócios para mostrar que éramos uma família perfeita.
Agradeci quando recebi a mensagem de Dylan em meu celular dizendo que ele havia chegado. Ignorei os chamados do avô Riki para ir até a porta, sentindo seu olhar raivoso me perseguindo pelas costas. Ao contrário do que tinha sido a festa toda, recebi Dylan com um sorriso sincero e um abraço amoroso.
Com a mão de Dylan na minha, o puxei até onde meus familiares se encontravam falando com um senhor que parecia mais um sócio da empresa. Ao ver a minha aproximação com um cara negro, meu pai enxotou educadamente o senhor.
— Chichi, haha, sobo, sofu, esse é Dylan. — apresentei. — A pessoa que comentei no almoço. Dylan, esses são Riki e Kaori, pais de meu pai, Tomoko. — indiquei meus avós e meu pai. — E esses são Tatsuo e Naomi, pais de minha mãe, Katsuo.
— É um prazer finalmente conhecê-los, família Koyama. — Dylan disse sério e pude perceber que não era isso que ele queria dizer.
Minha família não o respondeu, mas eu vi vários olhares diferentes. Em meus avós estava o nojo, em meu pai o espanto e em minha mãe havia um brilho, um misto de orgulho ou alguma coisa assim.
— Onde você o conheceu, musume? — mamãe perguntou sorrindo e eu tive esperança em alguém da minha família.
— Eu o conheci na faculdade, haha. — comentei. — Dylan estava se formando quando comecei meu curso.
— É formado em que, Dylan? — o sotaque de vovô Riki carregou sua frase.
— Sou formado em engenharia robótica, senhor. — Dylan respondeu, mas vi que ele estava se segurando para não se mover em sua direção.
— Ah! Então deve reconhecer o nosso sobrenome. — papai exclamou e eu percebi o que sua frase quis dizer.
— Chichi, ele me conheceu antes disso.
— Silêncio, Akemi! Você anda muito insolente depois dessa manhã. — Tatsuo me censurou e vi os punhos de Dylan cerrarem mais.
Ignorei aquele comentário e puxei Dylan para longe do grupo familiar que logo me colocaria para fora de casa. Fomos até o jardim que minhas avós mantinham com muita dedicação.
— Você não estava brincando quando falou que eles eram ruins, Akemi. — Dylan comentou me envolvendo em seus braços.
Eu sabia que se alguém me visse com ele naquele momento iriam fazer várias reclamações, na melhor das hipóteses. A pior delas já me deixara marcada em outros momentos de minha vida.
— Papai bateu no Hiroshi hoje. — comentei sentindo a dor que ele sentiu. — Eu vi o nojo no olhar deles quando olharam para você hoje, Dylan, me desculpa, não queria que você passasse por isso.
— Eu jamais iria deixar que você passasse por isso sozinha. — ele disse, beijando o topo da minha cabeça. — Eu cuidei de Hiroshi essa tarde, ele vai ficar com alguns hematomas por um tempo, mas vai melhorar. — então ele levou sua mão até onde vovô Riki havia me apertado. — E você como está?
— Vou ficar marcada também. — comentei. — Não se preocupe, eu e Hiroshi já passamos por isso mais vezes do que realmente gostaria de ter passado.
Passamos algum tempo no jardim, até que vovó Kaori apareceu.
— Akemi! — ela gritou comigo ao ver como e com quem me encontrava. — Se dê respeito! Você, Dylan não é? — ela se dirigiu ao meu namorado. — Nos de licença.
Ele olhou em meus olhos para procurar algo que o fizesse ficar, mas ele não encontrou nada então apenas saiu. Suspirei e encarei minha avó.
— O que foi, ojii-chan?
— Você traz um negro para a sua casa no mesmo dia em que seu irmão traz a vergonha à família. — ela falou séria. — Você é uma criança insolente.
— Primeiro, vovó. — falei irônica como Hiroshi tinha feito durante o almoço. — Eu não sou mais uma criança. — falei me aproximando dela sentindo a adrenalina voar em minhas veias. — Deixei de ser há muito tempo. E ninguém além de vocês ira envergonhar mais essa família.
— Cale a boca, Akemi, você me deve respeito.
— Eu devia respeito a você quando você me respeitava, Kaori. Quando vocês começaram a me espancar a fim de formular meu pensamento igual ao arcaico de vocês, deixaram de merecer respeito. Vocês só merecem meu ódio.
E mais uma vez naquele mesmo dia eu fui agredida pela minha suposta família. Meu rosto ardeu, mas o som do tapa estridente que Kaori me deu só veio algum tempo depois. Eu continuei firme depois daquilo.
Apenas dei a volta nela e segui para dentro da casa, encontrando Dylan parado ao lado da porta do jardim.
— O que aconteceu? — ele me perguntou preocupado.
— Ela me bateu. — suspirei. — Me ajude com as malas, por favor?
Ele concordou e subiu até meu quarto, obsevando as malas que teria que carregar.
— Você tem mais coisas que seu irmão. — ele comentou o óbvio, me fazendo sorrir.
— Hiroshi passou mais tempo que eu tentando se moldar a essa família, então sua coleção de objetos de revolta é menor que a minha.
Aos poucos fomos levando discretamente minhas malas até seu carro, preenchendo completamente o porta-malas e quase o banco traseiro por completo. Quando voltamos eu fiz questão de provocar minha família o máximo que consegui.
Fiquei ao lado de Dylan a noite toda, o apresentei a todos os sócios, investidores e contatos importantes que minha família tinha. Vários deles pareceram realmente se interessar pela formação e dedicação dele, o que deixaria bem claro o racismo de meus pais se eles resolvessem questionar alguma coisa.
Quando quase todos os convidados haviam se despedido e se retirado eu fiz o que mais queria fazer naquela noite. Eu dancei com Dylan ao som de uma música lenta, ele me envolveu nos seus braços que me protegeriam de tudo que ele conseguisse afastar de mim, eu o beijei como estava desejando fazer desde o momento que vi entrando pela porta da minha casa.
Mas aquele momento morreu. Alguém agarrou meu braço com força e me puxou de Dylan. Esse alguém era meu pai e ao seu redor estava o resto da família, menos minha mãe.
— Chega desse show de horrores. — papai gritou. — Saia da minha casa agora.
— Me larga! — gritei de volta para ele. — Se você encostar sua mão em mim mais alguma vez eu vou te denunciar à polícia!
— Akemi, cala a sua boca! — Riki gritou comigo mais uma vez naquele dia.
— Cale a boca você! Cansei disso! Não sou uma boneca que vocês podem me controlar, dizer o que eu posso ou não fazer.
— Você é o exemplo dessa família agora que seu irmão jogou o nome dela no lixo. — Kaori riu. — Não que você seja uma boa opção.
— Cale a boca sua velha nojenta! — gritei com ela. — Você é repugnante com esses pensamentos preconceituosos que você. Vocês todos são.
— Rapaz, saia dessa casa. — Tatsuo falou a Dylan. — Você não é bem-vindo, está sujando essa casa, volte para a senzala de onde não deveria ter saído.
Minha raiva falou mais alto. Fechei minha mão em punho e soquei o rosto do meu avô. Ao contrário do que eu imaginava, eu não me senti mal por fazer aqui. Vovó Naomi se espantou e foi olhar o estado de Tatsuo.
Mas papai também me surpreendeu. Ele reagiu de uma forma diferente. Ele não se importou que Dylan estivesse ali. Ele me agrediu, ele puxou meus cabelos até me jogar no chão onde me chutou duas vezes antes de Dylan coseguir revidar.
Minha visão tinha ficada turva, mas eu via que Dylan estava batendo em meu pai com a raiva que ele tinha acumulado dele por muito tempo. Eu me ergui e coloquei a mão no ombro de Dylan o fazendo parar. Ninguém havia movido um dedo para ajudar meu pai, porque aquilo não era uma família, aquilo era uma hierarquia de poder apenas.
Fui até meu quarto e peguei minhas malas restantes, junto com Dylan.
— Onde você pensa que vai? — meu pai perguntou com o rosto inchado, lábio cortado e com sangue dali saindo. Até que Dylan tinha feito um bom trabalho.
— Eu estou saindo dessa casa. — falei firme, mas chorando.
— Você não pode, é a herdeira da empresa. — Naomi falou dando o ar de sua voz que eu não gostava de ouvir.
— Então vocês vão ter que se conformar a entregar ela a alguém que vocês não conseguirão mais controlar.
— Você não vai sair dessa casa. — Naomi gritou.
— Eu cansei de vocês! — eu gritei a plenos pulmões. — Cansei da perfeição que querem, desse caos que vocês trazem pra vida de todos! — respirei fundo mais uma vez, a maquiagem já escorria do rosto e o kimono estava desalinhado. Minhas próximas palavras saíram venenosas. — Eu cansei dos seus preconceitos, vocês dizem ser a ordem natural, mas não passa de um pensamento fechado e arcaico.
No momento seguinte me vi soltando o coque do cabelo, rasgando o último kimono que usaria na minha vida, saindo de casa e arrastando minha última mala, o ultimo som que ouvi foi o do bater da porta.
Dylan em algum momento apareceu em minha frente, abrindo a porta de trás do carro para terminar de acomodar minhas malas ali, enquanto eu sentava no banco da frente. Encostei minha cabeça na janela do carro e me senti adormecer.
Ao acordar, não estava mais no carro, estava no sofá do apartamento de Dylan, com a cabeça no colo de Hiroshi. Ele estava sem camisa e eu vi as últimas marcas que meu pai tinha deixado. Ele finalmente percebeu que eu estava acordado, então soltou um suspiro e levantou meu braço mostrando os dois hematomas que Riki havia deixado em mim.
— Riki não é? — ele perguntou e eu apenas assenti.
Quando tentei me levantar senti uma dor em minha barriga e em minha cabeça, o que me lembrou do que papai havia me feito antes de sair daquela casa.
Levantei a camisa de Dylan que havia substituído o vestido que veio junto comigo da casa deles, vendo duas marcas que mostravam bem o sapato de meu pai.
— Quem fez isso? — Hiroshi falou baixo, surpreso com aquilo.
— Papai. Depois que dei um soco em Tatsuo. — falei me levantando devagar para me olhar no espelho que estava na parede da sala. Ali vi que ainda teria que lidar com o roxo do puxão que recebi em meus cabelos e com o ombro que havia esbarrado no chão quando ele me derrubou. — Mas não fui só eu que apanhei.
Contei que Kaori havia me batido, assim como Riki que havia me puxado e Tomoko havia me derrubado, e como Dylan havia machucado muito bem a cara de dele.
— E mamãe? — Hiroshi perguntou.
— Ela não estava lá.
Então Dylan apareceu entrando pela porta do apartamento com uma caixa de pizza, o que me lembrou de que eu mal havia comido. Comemos em silêncio, Hiroshi e eu não estávamos com esse ânimo e Dylan entendeu bem.
— Eu sei o porquê sua mãe não estava lá no meio, Akemi. — Dylan sussurrou baixo. — Ouvi agora na televisão, quando fui buscar a pizza.
— O que aconteceu? — Hiroshi perguntou preocupado.
Eu já imaginava o que tinha acontecido então não foi surpresa ao escutar a palavra "suicídio" sair de sua boca. Hiroshi começou a chorar, mas eu não deixei nenhuma lágrima cair.
— Ela escolheu ser pisada a vida toda, Hiroshi. — falei seca, indo me deitar na cama de Dylan.
Demorou semanas para que eu e Hiroshi saíssemos do apartamento de Dylan e fossemos morar em nosso próprio apartamento. A empresa de meu pai teve que lidar com muitos escândalos enquanto isso aconteceu, mas isso não nos afetou. Com o dinheiro que eu havia tirado deles e ninguém sabia compramos um apartamento grande para nós dois, decoramos e o transformamos em um verdadeiro lar.
Passamos dias comprando roupas em forma de terapia para nós, o que nos levou a comprar um espaço e termos nossa própria loja de roupas. Contratamos pessoas que seriam recriminadas por preconceitos como o de nossa família.
Nós fomos felizes acima de tudo, mesmo com todas as marcas que eles haviam nos deixado.
Quando Riki, Kaori, Tatsuo e Naomi voltaram para o Japão, papai nos procurou. Ele pediu perdeu.
— Depois de tudo que passamos, depois de tudo que sofremos? — Hiroshi perguntou irônico.
— Você é nosso pai, sempre vai ser. — complete a frase dele e por fim seu pensamento. — Mas o perdão que você veio pedir só poderia acontecer quando tudo aquilo começou.
Infelizmente não foi isso que ele esperava ouvir e assim como mamãe, se matou de tristeza. No seu testamento, a empresa ficou para eu e Hiroshi. Nossos avós tentaram tirar ela de nós, mas usamos unhas e dentes para manter aquilo a salvo deles, seria uma empresa melhor sem ele.
Quando meu namoro com Dylan completou seis anos e nos casamos, eu o tornei o diretor daquela empresa, a qual até hoje ele cuida com muito carinho.
Não foram poucas as noites em que chorei a perda de meus pais, pois no fundo eu os amava, mas eu jamais consegui os perdoar, assim como foram várias as noites que eu acordava gritando tendo pesadelos com todas as vezes que minha família agrediu a mim e ao meu irmão.
Mas depois de tanto tempo livre deles eu percebi que poderia ser feliz. Eu era feliz. Eu estava desconstruindo padrões ridículos. Eu enfrentei uma família racista, homofóbica e machista. Eu fui madrinha do casamento de meu irmão com um rapaz que foi o melhor que aconteceu em sua vida. Eu dei emprego a vários que foram dispensados de outros lugares por causa de seu tom de pele, sua opção sexual ou religiosa.
Minha família me fez muito mal, mas eles conseguiram criar alguém bom no fim de tudo. Eu aprendi com eles que eu deveria ser o oposto do que eles foram a vida toda.
Notas finais
Poderia ser uma família árabe, africana, americana ou brasileira mesmo. A tradição muitas vezes é uma forma de mascarar o preconceito com a minoria.
Realmente espero que tenham gostado da história.
Qualquer problema com os hiperlinks mande no comentário que eu te dou uma ajudinha.
19-07-2016
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