Terry

8 Capítulo 8


Notas iniciais
"Existem certas lembranças e memórias, que irão nos atormentar pelo resto de nossas vidas. E por mais dolorosas que sejam, devemos tê-las vivas conosco, para sabermos lidar com novas situações da vida. Muito embora, tenhamos o ímpeto de esquecer, para evitar a dor." - Ricardo Menezes

Uma voz surge do nada. Era uma voz masculina, mas aparentemente, de alguém jovem. Assustado, Terry abre os olhos e percebe que está em um lugar diferente. O chão era feito de madeira. À sua frente, havia várias árvores, como se estivesse perto de uma floresta. Ao olhar em volta, Terry percebe que está na varanda de um lugar, que parecia ser uma casa. Já em pé, ele percebe onde estava. A cadeira de balanço, suspensa por correntes denunciava o lugar. Mas havia alguém sentado na cadeira. E era uma pessoa bastante nova, assim como a voz aparentava ser, com as mãos nas correntes do balanço. Deveria ter uns 15 anos. Terry só conseguia enxergar um pedaço do seu rosto, pois o pôr-do-sol atrapalhava muito para enxergar.

– Quem é você? – disse Terry.

– Você sabe onde nós estamos?

Terry olha ao redor e confirma que sabe onde está. Aquela era a casa onde ele e Laura passaram o feriado. A casa onde Laura havia morrido daquela forma brutal. As chamas. Os gritos. As promessas.

– Sim... a casa onde eu e Laura viemos passar um feriado.

– Errado, Terry.

– Como errado? Eu tenho...

– A imagem que estamos vendo, é do lugar onde você esteve com Laura, de fato. Mas não é real.

– Não? – Terry começa a pisar com força no chão, bate nas madeiras da casa, chega até a se estapear – Para mim, tudo isso parece ser bastante real.

– Mas não é. – Sem mover um músculo do corpo, além dos usados para falar, a pessoa na cadeira fala com bastante calma – Segure em suas mãos a bola que está com você.

Terry olha com estranheza para aquela pessoa sentada, mas faz como mandado. Pega a bola e a segura em uma das mãos.

– Pronto. E agora?

– Você sabe que ela não é uma simples bola, não?

– Já pude perceber. Mas o que é ela afinal?

Em silêncio, aquele que estava na cadeira levanta seu braço e aponta para frente. Para fora da varanda. Terry segue a direção que apontava o jovem na cadeira. Lá longe, bem longe, Terry viu que havia uma pessoa muito pequena. Longe, quase no meio das árvores. Muito concentrado no que estava enxergando, Terry anda lentamente em direção aquela pequena pessoa. E na medida em que se aproximava, ia ficando mais surpreso, com o coração batendo muito forte. Terry já podia perceber que não se tratava de um adulto pequeno. Era na verdade, uma criança. De uns cinco ou seis anos. Ela estava de costas para Terry, brincando com alguma coisa, sentada no chão. E alguma coisa naquela criança estava causando um pavor insuportável em Terry. Pavor que nem ele sabia explicar também o motivo. Mas quando já bem próximo, a criança que estava no chão percebe a presença de Terry, e vira-se. E então, pode-se entender o motivo do espanto. Aquela criança no chão, era Terry, nos seus cinco anos de idade. E o brinquedo que estava em suas mãos, era uma bola. Idêntica a que Terry também segurava. Hipnotizado com o que estava vendo, Terry olha para trás, e já não era possível ver aquele jovem que estava sentado na cadeira de balanço. E o sol, naquele momento, pareceu estar mais ardente e avermelhado no céu, de modo que parecia estar fazendo a casa, lá longe, estar pegando fogo novamente. Uma representação do inferno que Terry e Laura viveram. Terry vira-se e olha novamente para a criança, que ainda o estava fitando com um olhar de medo. Terry não consegue segurar as lágrimas que vem de imediato aos seus olhos. Transbordam uma sensação de abandono que compartilhava com aquela criança. Então, ele se abaixa, olhando com uma sensação de carinho e afeição por aquele que estava em sua frente.

– Não se preocupe garotinho. Não vou te fazer mal. – disse Terry, afagando os cabelos da criança, segurando ao máximo para conter suas lágrimas.

– Quem é você?

– Eu? Bem... eu... – Terry não sabia como explicar o que ele era, ou o que ambos eram – Eu sou alguém muito próximo de você. Pode me considerar um parente.

– Um parente?

– Sim. Como se fosse um primo. Certo?

– Tudo... tudo bem – responde o garotinho assustado.

Uma terceira voz surge na conversa.

– Você sabe quem é essa criança. Não sabe, Terry? – disse o jovem que estava sentado na cadeira, lá na varanda da casa. Calmamente, Terry fecha os olhos e responde.

– Sim, eu sei – Terry vira-se para olhar o jovem, e surpreende-se ao ver que ele está em uma cadeira de rodas. As pernas do jovem eram finas, machucadas, mostrando serem incapazes de manter o jovem em pé. Seu rosto continua escondido por uma sombra inexplicável. Mas isso não causava mais o mesmo terror que já havia causado antes em Terry. Aquela criança presente naquele momento o acalmava. – O que ele faz aqui?

– Isto tudo, é parte de você, Terry.

– Como assim?

– Vê a bola nas mãos dessa criança?

– Sim. É igual a que eu tenho.

– Quem te deu essa bola?

Terry então liga alguns fatos. Aquela criança na escola, que havia lhe dado a bola, não havia se revelado quem era. Terry se quer conseguiu ver sua real silhueta.

– Mas... o que essa criança fazia naquela escola? Aliás... o que eu fazia, sendo que essa criança sou eu?

– Você viveu esses lugares, Terry. No estado em que sua mente se encontra agora, não se lembrará. Mas viveu.

– Eu nunca estive naquela escola antes! Muito menos neste lugar! Não tão novo assim, pelo menos! – Terry não podia acreditar no que estava ouvindo. Percebia que aquele jovem parecia não estar mentindo, mas era tudo muito confuso para ser verdade.

– A bola que está contigo, não é igual a que está com ele, Terry.

Terry olha bem para a bola, mas não consegue ver a diferença.

– A bola que está com ele, não está manchada — diz o jovem.

Então, Terry percebe que de fato, não estava. Confuso, pergunta para o jovem:

– Mas de onde vem essa mancha então?

O jovem apenas aponta na direção contrária que Terry estava olhando. E ele então se vira para ver o que o jovem apontava. E lá longe, ele vê uma mulher correndo, como se estivesse saindo do chalé, com dificuldade para andar, mancando bastante. Terry fica aflito, querendo saber o que estava havendo. Estando a mulher mais perto de Terry, permite que ele veja que ela está muito ferida e sangrando. Imediatamente Terry corre na direção dela, querendo ajudá-la, sem nem perceber que nada daquilo podia ser real. Sem nem se dar conta de que ele não fazia a menor ideia de quem era aquela mulher...

– Moça, o que houve? Quem te feriu?

Ela não responde. Apenas continua correndo na direção de Terry. Já quase cara a cara com ela, Terry se prepara para segurá-la em seus braços. Mas para seu espanto, ela simplesmente atravessa Terry, como se fosse um espírito. Arrepiado com a cena, Terry vira-se, olhando imóvel, para onde a mulher estava indo. E ela foi em direção à criança. Ela abaixa-se na frente do menino, coloca as mãos nos ombros dele e pouco tempo depois, cai em cima da criança. Terry só observa a cena toda, vendo a criança embaixo da mãe, que aparentemente, acabara de morrer. Havia sangue em toda a roupa da mulher, mas não era possível compreender os ferimentos que deviam ter sido feitos nela. Terry dá alguns passos, pasmo com tudo aquilo, e vê a criança debaixo da mãe, tremendo e chorando, com os olhos arregalados e muito assustado. O sangue da mãe estava escorrendo para todo lado, inclusive por cima da criança. Então, sem pensar muito, Terry abaixa-se e retira a criança debaixo da mãe. Ele o carrega no colo, que imediatamente abraça Terry com muita força, que chegava a tremer. Terry estava apavorado com toda aquela situação. A mulher morta, que ele não sabia quem era, mas tinha uma pequena ideia de quem poderia ser. A criança em seu colo, que era ele mesmo, só que mais novo. Terry olha ao redor, procurando o jovem que estava ali até agora, mas não o encontra. E o sol que estava se pondo, fazendo um cenário belo e poético, deu lugar ao cair da noite, fazendo tudo ter um ar mais tenso, causando aquele horror tímido e íntimo dentro de cada ser humano. E Terry já não sabia quem estava mais assustado. Ele, ou a criança em seu colo.

Terry sabia que precisava fazer algo. Nada daquilo iria mudar, enquanto estivesse parado naquele lugar. Então, devagar, ele coloca a criança no chão, e percebe algo que fez tudo ter sentido. A bola que a criança segurava nas mãos, continuava firme nas mãos do pequeno. Mas estava toda manchada de sangue. A mancha nas duas bolas agora era idêntica. Ao olhar tudo aquilo, Terry entendeu o porquê daquela bola o levar para esse outro “universo”. Ela era um elo de ligação entre o mundo real e o fantasioso, onde nada fazia sentido algum, marcada com o sangue daquela mulher, que ele acreditava talvez ser sua mãe, sem ter certeza disso. Como esse mecanismo funcionava, Terry não entendia direito. E algumas coisas ainda não estavam explicadas e Terry precisava entendê-las. Abaixando-se para ficar da altura da criança, Terry fala para ela:

– Você pode me prometer que não vai sair daqui, até eu voltar?

A criança não responde. Ainda está traumatizada com o que houve. Então, Terry pergunta novamente.

– Você pode me prometer que vai ficar aqui, até eu voltar, Terry?

O garotinho então acena com a cabeça, dizendo que sim. Terry levanta-se e olha para a casa lá longe. Lugar de onde a mulher veio. Lugar onde Laura havia morrido. Lugar assustador agora, com a ausência da luz do dia. As sombras pareciam ter vida própria. E Terry teve certeza: fosse lá o que houvesse naquele chalé, era algo realmente poderoso e maligno, para ter feito o que fez com ele.

Terry então caminha em direção ao chalé. Desta vez, ciente do que estava fazendo. E preparado para encarar a verdade lá.

Aquele lugar não era mais o mesmo. A floresta estava igual, o chalé estava igual, tudo estava no exato mesmo lugar, mas ainda assim, o lugar não era mais o mesmo. O chalé parecia ter outra aparência. A floresta parecia querer avançar para cima de tudo. A lua parecia sorrir sarcasticamente para Terry, que continuava seguindo em frente, na direção da casa. Já quase na varanda da casa, Terry percebe a porta da cozinha aberta, que era a porta ligando a varanda à cozinha. O banco que ficava ali fora, suspenso por correntes, estava no chão, quebrado, com as correntes jogadas de lado. E dentro da casa, uma escuridão que não era total, mas era apavorante. E mesmo não querendo, Terry sabia que precisava entrar. Precisava saber o que havia acontecido àquela mulher. Mulher, que devia ser sua mãe, mas não tinha certeza, pois as lembranças de seus pais estavam bloqueadas em seu cérebro. Era uma região que Terry não conseguia chegar.

Até agora...

Notas finais
"Esse chalé... o que mais esse lugar quer me mostrar? O que mais quer me fazer sentir? Quanta dor mais eu ainda vou ter que enfrentar e suportar, pra entender o que está acontecendo comigo e com o mundo ao meu redor?" Obs.: Passei um bom tempo sem postar novos capítulos ou dar sinal de vida. Mas tenho agora como meta, ir até o fim desta história. Espero que gostem do rumo que as coisas estão tomando.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.