Terry

5 Capítulo 5


Notas iniciais
"Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão outra escolha senão acreditar com você." - Cynthia Kersey

– QUEM É VOCÊ? POR QUE FEZ ISSO? POR QUE ME TIROU DE LÁ? EU IA DESTRUIR AQUELE...

– POR ISSO MESMO, TERRY! PARA VOCÊ NÃO FAZER ISSO!!! – disse a garota, interrompendo Terry.

– MAS QUE DIABOS VOCÊ TÁ FALANDO?

– Terry, primeiro: acalme-se. Eu não sou sua inimiga.

– E eu tenho inimigos aqui?! Pois existe ALGO na minha vida, que possa ser considerado AMIGO?

– Eu não disse que sou sua amiga. Apenas que não sou sua inimiga. E...

– COMO DIABOS VOCÊ SABE MEU NOME?

– Já falei pra se acalmar, Terry!

– Tá. Tá bom, então. Eu me acalmo. Mas pode POR FAVOR, dizer como sabe meu nome? Ou talvez, dar algum sentido pra tudo isso que tá acontecendo?

– Terry, você não devia estar aqui.

– Aqui onde? Onde é que nós estamos, afinal?

– Eu não posso te dizer. É algo que você vai ter que descobrir por si só. E mesmo que eu dissesse, você não acreditaria.

– O que, aqui é o inferno? É isso?

– Como está sua perna?

– Como estaria? Tá doendo! MUITO! Uma...

– Faca cortou sua coxa. – interrompe a garota.

– Espera. Agora isso ta indo longe demais! Como você sabe até disso?

– Terry, entenda uma coisa. Às vezes, é necessário admitir derrota, mesmo que você não tenha sido derrotado. Não existem coincidências. As coisas acontecem, como elas devem acontecer. Você precisa encontrar paz, Terry. Mas eu sei que não vai adiantar nada eu te dizer isso. Você vai ter que entender por si próprio. Tudo que eu posso fazer por você, é dar um jeito na sua perna e lhe dizer: não deixe que essas visões sobre Laura te tirem do controle. E lembre-se: não olhe diretamente nos olhos daqueles que não te querem bem. O inferno que você encontrará, pode ser uma queda sem volta. Você vai encontrar seu caminho. Vai sair daqui. Mas você vai ter que tomar cuidado. Seu destino está em suas mãos, Terry.

– Mas quem é você? Por que está me dizendo tudo isso? Por favor, eu estou tão perdido! — disse Terry, já em meio a lágrimas — Há muito tempo que eu não sei o que é falar com alguém! Me ajude, por favor!

– A partir daqui, Terry, você será responsável pelo seu próprio destino. Sinto dizer isso desta forma.

– Por favor, me diga seu nome! O que eu tenho que fazer! Alguma... – enquanto Terry terminava sua última frase, a garota começa a sumir no ar. Como se ela fosse apenas um desenho e estivesse sendo apagada por uma borracha, ou talvez, um fantasma. Terry ficou desesperado ao ver a garota sumir na sua frente.

– NÃO! POR FAVOR, NÃO VÁ! EU PRECISO DE AJUDA! POR FAVOR!

Terry se ajoelha diante a garota e tenta abraçar suas pernas, mas elas já não existiam mais. Já estava sumindo por completa. Terry chora desesperado. E da boca daquela garota, saíram as suas últimas palavras:

– Você não precisa de ninguém. Só precisa de si mesmo.

E então, a garota some por completo. E Terry volta ao estado que estava desde o começo disso tudo. Sozinho. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, Terry olha para cima, tentando enxergar estrelas, o céu, Deus, talvez. Mas só o que ele vê, é a escuridão acima de si. Nada além disso. Voltando para a realidade dolorosa que estava enfrentado, ele se levanta. E ao fazer isso, ele percebe que sua perna não dói mais. Terry confere sua coxa e confirma que o corte já não está mais lá. Sentia-se aliviado de ter se livrado de algo ruim. Mas continua atormentado, pois agora sim, não fazia a menor idéia do que fazer. Pois havia saído de casa unicamente por causa do corte na perna e agora, não sabia qual poderia ser o motivo dele estar ali. Parecia estar vagando sem rumo. O cenário à sua volta era muito estranho, pois parecia que ele havia voltado às ruas da cidade onde ele estava antes, mas tudo parecia ser velho agora. Como se a cidade já estivesse ali há séculos. As casas mofadas e sujas. O chão era um asfalto bem destruído. Sem saber o que fazer, Terry resolve então começar a andar e não ficar parado. Fez-se acreditar que andando, mesmo que sem rumo, iria descobrir o que havia de ser feito. As ruas eram tão desertas, que não pareciam apenas que estava faltando pessoas. Faltava tudo. Como se aquilo fosse um vácuo no espaço. As ruas pareciam serem maiores do que o normal. E as calçadas ficavam tão longes umas das outras, que parecia ser preciso atravessar um continente todo para chegar ao outro lado. E nas portas das casas, Terry sempre enxergava Laura fazendo algo para Terry. Em uma porta, Laura estava mandando beijos para Terry, toda apaixonada e logo em seguida, entrando na casa, como se aquela casa fosse dela. Em outra porta, ela escreve uma carta de amor e passa por baixo da porta, como se aquela fosse a casa de Terry. Em outra porta, Laura está toda dengosa falando com Terry ao celular, sorridente e feliz. Em outra porta, Terry estava sentado e chorando, e Laura estava ao seu lado, o abraçando, dando apoio para ele. E Terry passava vendo tudo isso, e não conseguia entender o porque da ambigüidade das imagens que ele via de Laura. Em um instante, tudo que lhe era mostrado era o quanto Laura era doce, gentil e amável com ele. Mas em outras situações, Laura parecia ser um demônio. Tratava Terry mal, sempre transado despudoradamente com outros homens, sempre sorrindo. Talvez, o que fizesse tudo isso mais doer em Terry, era o fato de saber que sua noiva estava morta e que qualquer tipo de pensamento mal sobre ela, caía em suas costas como uma culpa enorme, por pensar mal de Laura depois de sua morte. Não era aceitável para Terry que sua noiva fosse vista de tal forma. A imagem que Terry tinha de Laura era a de uma mulher tão perfeita que era impossível acreditar que algo desse tipo pudesse ser real. E no entanto, ele vê o desprezo de Laura nesses momentos. E a solidão daquele lugar começava a se tornar parte da vida de Terry. Aquele lugar, na verdade, parecia ser como a mente de Terry. Bagunçado, destruído, vazio, e tudo que existe além do nada, são coisas horríveis.

Mais para frente, Terry vê ele mesmo sentado numa calçada. Estava cabisbaixo. Não podia ver o rosto daquele homem sentado na calçada. Aquela cena assusta Terry, que não entende o que poderia ser dessa vez. Terry resolve então ir em direção àquela pessoa sentada, que supostamente, deveria ser ele mesmo. Chegando bem perto, a pessoa sentada na calçada levanta a cabeça bem devagar, e ao olhar para Terry, muda seu olhar para uma expressão de pavor. Começa a chorar e a se afastar de Terry, sentado mesmo. Terry acha estranha aquela reação daquele que parecia ser um clone dele mesmo. Aquilo não parecia ser apenas uma visão, como as que ele vinha tendo até agora.

– Ei, calma. Não precisa se assustar!

– Não! Não chegue perto!

– Acalme-se! Eu não sou como o resto dessa cidade!

– Eu não sei QUEM ou O QUE é você, mas não chegue perto de mim!

Terry para de andar e fica observando aquela pessoa se afastando dele. Mas logo que Terry para, a pessoa também para de se afastar, mas continua sentada no chão, em cima da grama da calçada onde estava. Os dois se olham e não acreditam no que estão vendo.

– Olha, muita coisa estranha tem acontecido aqui. Mas isso tá MAIS do que estranho! – disse Terry.

– Definitivamente! Como... como é possível?

– Eu sei. Também não entendo.

– Como é possível? Você é idêntico a mim! Como se fosse um clone de mim.

– Ei, ei! Calma lá! Eu não sou clone de ninguém! Você que é!

– Mas que besteira! Eu estou há ANOS nesta cidade, tentando sair daqui! E você surge do nada e ainda quer me dizer que EU sou um clone?

– Não... não, não, não, isso não está acontecendo. É coisa da minha cabeça. Coisa desse lugar. Você não é real!

– Escuta aqui, o que você pensa que está fazendo aqui? Olhe para mim! Eu sou real! VOCÊ é um fruto da imaginação desse lugar!

Sem querer, Terry lembra-se o que aquela garotinha disse pra ele há pouco, sobre não olhar nos olhos daqueles que não o querem bem.

– Não devo olhar nos olhos. Não devo olhar nos olhos.

– OLHE para mim, seu desgraçado! Eu não vou deixar que você me convença de que eu não existo! EU SOU REAL! Eu estou aqui há ANOS, tentando arranjar um jeito de sair deste lugar! E não vou desistir agora! Você é só mais uma bizarrice deste lugar!

– Não é real, não é real!

– EU SOU REAL, MALDIÇÃO!!!

Quando diz isso, aquele que era igual Terry corre em direção do mesmo e se joga em cima dele, derrubando Terry. Os dois caem ao chão. Terry além de se assustar, se machuca com a queda. No chão mesmo, o “clone” de Terry começa a chacoalhar Terry pelos ombros.

– EU SOU REAL! ESTÁ VENDO? ESTÁ SENTINDO? EU SOU REAL! EU EXISTO!

– E se eu não fosse, você não estaria conseguindo nem me segurar.

O clone para. Olha paralisado para Terry, sem resposta para aquilo que havia ouvido. Sua expressão era de horror. Ele fica paralisado.

Terry aproveita a oportunidade para se livrar do clone, que estava em cima dele. Com um murro na cara, Terry consegue sair debaixo do clone. Ele fica sentado no chão, sentindo o murro que levou de Terry, e aparentemente, pensando muito.

– EU NÃO SOU UM CLONE! NÃO SEI O QUE VOCÊ É, MAS EU NÃO SOU UM MALDITO CLONE, INFERNO! – disse Terry muito revoltado.

– Eu... Eu sou real... Eu me lembro de tudo que passei aqui nesses anos... Como pode ser possível você também ser?

– Não sei! Eu não entendo mais NADA deste lugar. E sinceramente, não sei de você, mas EU quero sair daqui! PRECISO achar um meio de sair deste lugar. Você pode estar aqui há anos, mas eu estou não faz nem um dia eu acho, e já não agüento ficar mais nem um minuto mais.

– Laura...

– O que??? O que foi que você disse??? – pergunta Terry, com uma expressão de curiosidade junta de indignação – Você disse “Laura”? O que tem ela? Conhece ela?

– Não Laura...

– ESCUTE AQUI, SEU RETARDADO MENTAL, COMO VOCÊ CONHECE LAURA?

Terry levanta o clone pelo colarinho da sua blusa e fala com muita raiva, olhando bem fundo nos olhos do clone.

De repente, o olhar morto do clone por cima do ombro esquerdo de Terry, muda para um olhar de pavor. O mesmo de antes, quando Terry o viu pela primeira vez. E de novo, ele grita a mesma coisa:

– Não! Não chegue perto!

Mas desta vez, o clone não se move. Apenas olha por cima do ombro esquerdo de Terry, como se tivesse algo se aproximando por trás de Terry. Assustado pelo olhar do clone, Terry então vira-se bem devagar, para averiguar se de fato, havia algo. E para horror de Terry, havia. Laura vinha caminhando na direção deles. Mas não andava de maneia assustadora, nem tinha uma aparência bizarra. Ela estava normal, usando uma roupa do seu dia-a-dia. Seu olhar era de estranheza, porque parecia não entender aquela cena. E em meio a isso, o clone estava absurdamente inquieto nas mãos de Terry, querendo se soltar. Mas Terry estava tão compenetrado naquela cena, que não conseguia raciocinar direito. Estava hipnotizado pela imagem de Laura, vindo em sua direção.

– Terry? – disse Laura, confusa com a cena.

– La-Laura! – Terry estava estagnado.

– N-não deixa ela s-se apro-proximar!!! VÁ EMBORA!!! — disse o clone.

– Terry, o que está acontecendo? O que esse... Ei, espere! Ele é igual a você!

Terry estava completamente perdido. Já não sabia mais para que lado olhar ou o que pensar. E num momento de distração, o clone conseguiu se soltar e saiu correndo na direção contrária de Laura. Quando Terry se dá conta, o clone já estava correndo.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO PERTO DESSE MONSTRO??? SAIA DAÍ, SEU LOUCO!!! – gritou o clone.

Terry olha para Laura, que não entende o que está havendo. Os dois ficam com uma expressão de estranheza.

Mas de repente, uma dor aguda e muito forte surge na cabeça de Terry.

– Ahhhhh!!!! Minha cabeça, merda!!!

– Terry, o que houve? — disse Laura.

– Minha cabeça, droga!!! Tá doendo muito!!!

– Meu Deus, Terry! O que está acontecendo?

Uma voz, sussurrada e quase inaudível para qualquer pessoa no mundo, diz para Terry:

– Corra. Agora.

Ainda com os olhos fechados e com a cabeça abaixada, Terry pára de sentir dor e, por um segundo, pára de pensar.

Sem olhar pros lados ou pensar melhor, Terry se levanta e corre. Corre na direção contrária de Laura. Ele não olha para trás. Não dá chance de se arrepender. Terry só ouve:

– Terry? O que está fazendo? Onde está indo? Terry! TERRY!

A voz de Laura vai sumindo, ficando para trás. No passado. Para Terry, estava sendo algo muito doloroso. Dar as costas para Laura. Definitivamente, não era o que ele queria fazer. Ela estava ali. Estava bem. Não era uma daquelas visões horríveis. Não era algo ruim. Era ela. Mas por algum motivo, Terry sabia que não devia ficar ali. E então ele corre. Corre para longe. Sem parar. E a neblina do lugar dificulta que Terry enxergue qualquer coisa. Tudo que vê são as faixas no meio da rua e as calçadas sujas. Inesperadamente, alguém grita para Terry.

– TERRY! AQUI!

Terry olha à sua direita, e o clone estava na porta de um prédio muito grande, acenando com a mão para Terry. Terry não pensou ou reparou muito bem na situação em si. Mas sabia que precisava ir para longe de Laura. Então, entrar naquele lugar pareceu-lhe ser uma boa idéia. Terry anda um pequeno caminho que leva até a porta do prédio, onde o clone estava.

Notas finais
"Deus, não me bastava ter todas aquelas visões de Laura... agora, fico em dúvida se eu sou real... se sou eu mesmo, ou parte do pesadelo de alguém! De alguém que... sou eu mesmo? Mas......... como??"