Terrestre

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Pegar carona Nessa cauda de comêta Ver a Via Láctea Estrada tão bonita Brincar de esconde-esconde Numa nebulosa Voltar prá casa Nosso lindo balão azul... tá parei.

Susana estava enjoada, muito provavelmente também irritada com a cena. Ela culpava internamente o mau humor matinal, afinal foi acordada ás duas da manhã com ele tocando a campainha, mas sabia que o real motivo não era esse. Seus pais conversavam animadamente com Jonathan como se nada tivesse acontecido. Como se os últimos cinco anos simplesmente tivesse passado em branco, como se o homem sentado naquela cadeira com um sorriso cínico fosse o mesmo garoto que um dia eles conheceram.

Ela ficou calada por tempo demais, apenas cruzou os braços e voltou para o seu quarto, queria sair dali o quanto antes. Por sorte ninguém a perturbou o resto da noite não dormida, ela não queria falar com ninguém mesmo.

Quando o relógio despertou, Susana já estava de uniforme, somente prendeu os cabelos claros em um coque mal feito e pegou a mochila. Saiu mais cedo naquela manhã. Resolveu ir andando, andar a acalmava. Respirou o ar gelado e admirou a aurora, andar realmente a acalmava.

Era seu primeiro ano na nova escola e ainda não havia se acostumado. Estava em transição do comportamento de cidade pequena para a grande.

Ela chegou atrasada, amarrotada e com o cabelo desgrenhado devido à distância da sua casa até a escola, sem dúvidas seria chamada à atenção.

Refez o coque e puxou a blusa em uma tentativa falha de se ajeitar, ela entrou no meio da aula de matemática onde o caminho das formigas prende mais a atenção do que o quadro negro, que é verde, ou seja, todos repararam enquanto Susana atravessava a sala em um silêncio absoluto. Ela se jogou na cadeira e permaneceu o mais escondida que podia pelo restante das aulas. Se as pessoas já a achavam estranha, continuariam achando.

No intervalo encontrou um espaço no gramado que não estava ocupado e o aproveitou. Jogou-se na grama úmida e colocou seus óculos escuros para o olhar o céu, estava ainda frio apesar da forte claridade.

Uma estranha sensação a fez levantar. Ela observou em volta procurando algo que não sabia o que era. Em um canto do pátio, conversando com a diretora, ela viu Jonathan, o seu irmão que teve um volta repentina e misteriosa.

Ela sabia que ele não voltou por saudades de casa. Jonathan estava em uma posição suspeita, colocava a mão na parte de trás do pescoço muitas vezes em quanto gesticulava, ele fazia isso quando estava tenso.

A estranha sensação aumentava consideravelmente a ponto de incomodar, Susana não estava gostando nadinha disso.

Ele virou para ela e seus olhos se encontraram, ele ficou parado por uns segundos e então relaxou, abaixou as mãos e acenou com a cabeça para ela. Susana o ignorou, apenas virou para o outro lado e bufou, seria um longo dia.

Novamente o sinal gritou levando a massa de estudantes de volta para suas salas de aula. Ela esperou um pouco para que os corredores esvaziassem um pouco, muita gente junta a deixava com sensação de claustrofobia, apesar de não tê-la, talvez ela só não gostasse de pessoas mesmo.

Seguia para o laboratório de química quando um garoto correndo com coisas afiadas, e não prestando atenção ao que fazia, a atropelou jogando o material todo em cima deles.

– Nossa! Desculpe, eu não te vi. – ele disse apressado.

Ela havia notado.

O garoto tentava levantá-la ao mesmo tempo em que juntava o material, traduzido, não estava dando certo.

– Caramba, você está bem? Não se machucou? Eu não posso levar outra advertência... — ele murmurava coisas enquanto recolhia o material.

– Calma pinguim, estou bem. – ela disse tentando fazê-lo parar de falar.

Susana estava verificando se estava realmente inteira, ela limpou sua roupa que a essa altura não estava mais tão limpa. Encontrou uma fina linha de sangue no seu braço, colocou a mão em cima para que ele não percebesse. Ela sorriu sem mostrar os dentes e partiu para o banheiro.

Esfregou água no braço e o secou, como imaginava já não havia mais machucado lá. Um dos seus muitos segredos.

Ao voltar para casa não tinha muita coisa para fazer, Susana dormiu durante toda a tarde e perdeu o horário do jantar. Quando acordou estava um pouco tarde e morrendo de fome.

Ela estava com um pijama larginho estampado com um grande urso e também uma pantufa de gatinho colorido. Seu cabelo estava puro nó e com o rosto inchado, ela andava parecendo bêbada esbarrando nas coisas pelo caminho. Parou no meio do corredor e pensou se era muito importante sair da sua cama quentinha, seu estomago roncou e ela decidiu que precisava continuar em frente. Ela parecia um espantalho.

Susana encheu a mão de bolinhos, encontrou o sanduíche na geladeira e o enfiou na boca, agora parecia um espantalho roubando comida.

A mãe estava recebendo visita na sala, ela parou quando percebeu olhares em cima dela. Virou devagar e confirmou que todo mundo a encaravam.

Ela conhecia a mulher elegante de algum lugar, vasculhando sua memória lembrou de vê-la mais nova em porta retrato junto com a mãe, se não havia se esquecido o nome dela é Júlia.

– Essa é a Susana, minha filha mais nova. E ela sempre se comporta assim, caso estejam pensando ao contrário. – disse dona Cecília passando a mão em uma sobrancelha. Sua voz era um grande suspiro.

– Muito prazer. – ela disse com o sorriso forçadamente educado.

Susana colocou os bolinhos no chão e apertou a mão da delicada mulher. Só então pensou que isso pode não ter sido uma boa ideia.

Junto de Júlia estava o marido com cara de sério, uma menininha de tranças e o garoto que a derrubou na escola. Susana esperava que ele não a reconhecesse, mas parece que aconteceu ao contrário.

– É a menina do corredor, não é? – perguntou um pouco surpreso.

Ela falou alguma coisa que ninguém entendeu, pois estava com um sanduíche na boca.

O garoto puxou o sanduíche da boca dela para que pudesse falar.

– Agora pode falar. – ele disse com naturalidade, como se não tivesse tirado o sanduíche de uma garota faminta que acabou de acordar.

Ela apertou os olhos se forçando a repetir.

– Eu mesma. – respondeu.

– Me chamo Lucas. – apresentou-se.

– Susana. – falou encerrando o assunto.

Eles ficaram se encarando por um tempo, até que Lucas percebeu que ela esperava o sanduíche.

– O seu sanduíche. – estendeu para que ela pegasse.

Susana conseguiu equilibrar o sanduíche no meio dos bolinhos e foi indo para o quarto.

– Boa noite, Susana. – desejou enquanto ela se afastava.

– Até mais pinguim. – respondeu sem olhar para trás.

Depois de matar a fome, ela jogou-se na cama sem sono. Alguém bateu na porta. Não era preciso abrir para saber quem estava do outro lado, apenas Jonathan batia na porta daquela maneira, era a batida secreta deles. Ela não respondeu. Ele girou a maçaneta e colocou o rosto para dentro, sem delongar entrou e fechou a porta atrás dele.

– Ainda não tivemos oportunidade de conversar. – ele falou com a voz baixa.

Susana negou com a cabeça.

– Não foi questão de oportunidade, Jonathan. – ela levantou e abraçou os joelhos.

Ele sentou-se na ponta da cama e assim ficou na altura dos olhos dela.

–Porque voltou? – quis saber. Ela não gosta de rodeios.

Jonathan deu um longo suspiro e virou o rosto para a janela.

– Está chateada. – concluiu com uma afirmação.

– Você sumiu por cinco anos, nunca ligou, nunca mandou recado, nunca deu noticia. Nossos pais ficaram ao lado do telefone por dias, porque você só os deixou com um bilhetinho dizendo que ia “viver a vida”. A mãe quase pirou com a parte de não precisa se preocupar. Então Jonathan, eu não estou chateada, afinal eu não tenho motivo para isso, não é? – ela abraçou o joelho mais forte, cada palavra saia como um tapa e o tom de voz foi aumentando até quase gritar.

– Eu precisava disso Ana, precisava de um ar diferente e você sabe como os pais são... Eu sei que não foi nada legal da minha parte.

– Não justifica sua atitude. – respondeu ríspida.

– Você precisa entender que...

– Não respondeu minha pergunta. Porque você voltou? – ela falou sem paciência.

– Susana, eu estou tentando...

Ela pegou um travesseiro e jogou nele com toda força que tinha. Jonathan se assustou com a atitude dela.

– Me convencer de suas mentiras, sei quando está mentido, Jhon!- a essa altura ela queria socá-lo, estava se segurando, muito.

– Não da para conversar com você. – ele se levantou agora com raiva e saiu do quarto.

– Idem. – gritou antes de enfiar a cara no travesseiro.

Ela estava mesmo muito chateada. Jonathan era seu melhor amigo, além de irmão. E ele sempre estava ao lado dela para apoiá-la. Quando ele foi embora, Susana se sentiu traída. As pessoas não podem fazer as outras gostarem de você e depois te abandonar.

Ela sabia que ele escondia algo.

Notas finais
Não tenha medo de dizer ao encontrar algum erro. Espero que tenham gostado :)