Terra dos Sonhos

1 Como tudo começou


É estranho contar a alguém essa história, mas sinto que coisas assim merecem ser eternizadas de alguma forma e qual a maneira mais antiga de fazer isso? Relatar.

Tinha dezoito anos na época, acabara de completar o ensino médio e não fazia a menor ideia de como minha vida prosseguiria depois disso. Senti além de alívio um tremendo vazio quando enfim me livrei da escola, das horas e horas sentada ouvindo alguém me encher de informações, dos trabalhos intermináveis... Da minha adolescência. Observava meu irmão mais novo se preparando para o seu primeiro ano com certo saudosismo.

Não sabia ao certo qual era minha vocação, sempre fiz de tudo um pouco, mas ainda não conseguia focar em uma única coisa para fazê-la o resto de minha vida. Meus pais já começavam a me apertar para que resolvesse logo essa questão, porém a pressão deles não me angustiava mais que ver meus colegas já decididos.

Marisa, minha melhor amiga, estava mais que disposta a encarar quatro anos de faculdade de psicologia, era sua escolha desde o oitavo ano, enquanto isso eu fuçava os sites das faculdades completamente indecisa quanto ao que prestaria no vestibular.

A campainha tocou, larguei meu notebook no sofá e fui atender, era justamente Marisa:

—Oi sumida. –Disse ela e só então me toquei de quanto tempo não nos víamos, de quanto tempo não via minha turma do terceiro ano.

—Oi, bebê, quanto tempo!

—Quer ir numa festa?

—Eita, na lata assim?

Ela riu.

—Aham... Quer ou não?

—Mas agora, menina?

—É, menina!

—... Eu tenho que pedir para os meus pais.

—Então vai!

Nem pensei em abrir o portão para ela entrar, mal havia pegado as chaves. Foi muito rápido, subi correndo até o segundo andar, meu pai falava ao telefone no escritório, tentei chamar a atenção dele, ele gesticulou para que eu esperasse me deixando mais ansiosa, por que estava tão ansiosa? Marisa podia esperar. Quando mamãe saiu de seu quarto fui logo dizendo a ela:

—MãeaMarisatáaquiagentevainumafesta.

—Espera... o que?!-Ela acabara de sair do banho.

—A Marisa... Ela está aqui.

—Ah, Marisa, ela está bem?

—Sim, posso ir?

—Agora?

—Agora.

—E que horas as bonitas voltam?

Pensei por alguns instantes:

—Às dez.

—Tudo bem, dez horas, nada mais que isso e se eu te ligar atenda.

—Pode deixar. Ela tá no portão, avisa que eu já to indo enquanto eu me arrumo.

Não ouvi o que mamãe respondeu, fui direto para o meu quarto tentar escolher uma roupa o mais rápido possível. Coloquei uma calça jeans com um suéter preto e botinhas; nunca arrumei minha bolsa tão rápido. Aquele convite era tudo o que precisava para simplesmente fugir de toda a confusão que se encontrava minha mente.

Desliguei meu notebook e deixei na sala mesmo, por algum motivo achava que Marisa simplesmente não podia esperar mais um minuto, mas quando voltei ao portão ela estava tranquila conversando com minha mãe:

—Tá levando uma sombrinha?-Perguntou a dona Margarida.

—Não vai chover não, mãe.

—Vai sim.

—Ah, não vou levar não.

—Se molha toda então!

—Fechou!

Assim que nos distanciamos consideravelmente de minha casa percebemos as nuvens ficarem cada vez mais escuras, pelo menos ainda estava claro por causa do horário de verão:

—Pelo visto dona Margarida nunca passa frio porque tá sempre coberta de razão. –Disse Marisa.

—Cala a boca! –Respondi rindo.

—A festa é aqui perto, relaxa... Mas conta aí, como que tá a vida?

—Naquelas... To bem perdida, Marisa.

—Nem me fala.

—Ué, como assim, não vai fazer psicologia, não?

—Eu vou prestar o vestibular, mas não tenho mais tanta certeza se é isso que eu quero.

Enquanto praticamente me considerava um caso perdido punha todas as minhas fichas nos outros, Marisa era um exemplo para mim, ouvir aquelas palavras vindas dela foi um susto ao mesmo tempo em que de certa forma um alívio, como se fosse um aviso do universo de que havia mais gente no mesmo barco que eu:

—Que merda!

—Quer dizer, eu quero fazer, mas ao mesmo tempo fico com medo de lá na frente descobrir que na verdade isso não era minha praia e além do mais tem a possibilidade de eu não passar.

—Claro que você passa! E olha... Você definitivamente não tá pior do que eu. Sabe, queria passar o ano viajando pra me encontrar.

—Isso é coisa de gente rica.

—Eu sei.

A gente riu com uma harmonia que pareceu ensaiado. É bizarro que basta uma boa companhia e seus problemas de repente desaparecem, mesmo que por alguns instantes.

A festa acontecia numa casa a uma quadra da minha, por fora se não fosse pela música alta não denunciava que acontecia uma baita festança, o que me fez baixar um pouco as expectativas. As nuvens escuras sumiram, mas já anoitecia. O céu azulado e limpo junto com a antena de TV no telhado da casa seria uma perfeita capa de álbum Indie:

—Ei, vamos dar uma aquecida?-Perguntou Marisa. Não sei quando ela havia arranjado aquilo, mas segurava dois copinhos e uma garrafa com uma bebida vermelha.

—O que é isso?

—Batida de morango.

Meus pais não gostavam que eu bebesse, mas sabiam que eu o fazia, sempre que ia beber pensava neles e tentava ser o mais cuidadosa possível. Peguei um copinho e então Marisa me serviu e se serviu também, brindamos e bebemos tudo num gole. A batida aparentemente inofensiva logo me deu tontura, Marisa até me segurou não contendo a risada:

—Agora sim!

Entrei no lugar meio zonza, sem pensar muito bem no que estava fazendo nem no que me esperava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.