Terra, desligando

3 Metamorfose - dia 7


– Você acredita em mim? – perguntou Ayumi.

– Bom, ou você está dizendo a verdade, ou está muito louca moça. Mas se for verdade, que diferença faz? Vamos morrer e pronto. Para mim é mais fácil ainda, não tenho nada a perder.

– Ai que pensamento horrível – comentou Ayumi.

– É a realidade moça.

– Se vamos morrer como você diz então me faça uma pessoa mais feliz e me chame pelo nome.

– É a realidade Ayumi – repetiu.

– Isso não te deixa desesperado? Olha o tamanho deste planeta! Tantas coisas lindas, tantas maravilhas naturais! Não te faz querer visitar tudo, aproveitar o pouco de tempo que resta?

– Eu nunca tive essa vida. Nunca tive oportunidade de viajar ou ver esses lugares bonitos que todos adoram ir e tirar fotos. Minha vida não vai além de dormir no meio de panos velhos em calçadas e becos. Vai terminar de comer isso?

– Não, pode comer. Já tive minha experiência com comida para pessoas necessitadas – sua voz agora estava desanimada devido o que George disse.

George virou a comida de Ayumi em seu prato e voltou a comer.

– Não tem nenhum lugar onde você queira ir? Nenhum cenário que te traga boas lembranças?

O mendigo parou de comer e suspirou, mostrando que estava entediado com as perguntas de Ayumi.

– Tem uma pessoa na verdade, mas é muito longe, é perda de tempo, e eu prefiro ficar por aqui e esperar minha hora chegar.

Ayumi ficou radiante de repente.

– Não, não quero atravessar o país com uma Chinesa ao meu lado – resmungou.

– Sou japonesa – corrigiu Ayumi.

– Tanto faz...

– Devíamos ir até a pessoa que você quer ver. Nosso mundo vai acabar, e como você mesmo disse, o que você tem a perder?

– Tempo – respondeu sem tirar os olhos do prato.

– Estamos perdendo tempo aqui, parados. Estamos perdendo tempo como nunca perdemos antes.

– Então devíamos voltar a seguir nossos caminhos. Você me pagou um almoço, eu te dei uma experiência de como é minha vida. Estamos quites e felizes.

– Saia dessa vida monótona e chata George. Vamos me diga, quem é a pessoa? Um homem? Mulher? Ex-namorada? Amigo de infância?

– Não é da sua conta.

– Aff... Bem, eu tentei – disse para si mesma.

– Pois é – concordou o sujeito.

– Mas não vou desistir. Vamos atravessar o país, e se você não aceitar agora eu tiro essa comida de você. Fui eu quem pagou, posso muito bem tirar de você.

George riu de Ayumi. Uma oriental tão doce que parecia não ter coragem de matar um inseto iria a tirar a comida de um mendigo?

– Então tente – provocou o homem.

Ayumi acertou a mão no prato. A comida caiu sobre as roupas sujas e velhas de George. Alguns sem tetos próximos assustaram-se, outros começaram a insultar Ayumi.

– Sua cretina! – exclamou George. – Agora você me deve um novo café da manhã!

A moça revirou os olhos com tanta falação. Levantou-se e agarrou na mão de George, arrastando-o para fora do recinto e sendo enxovalhada de insultos. Ignorou a todos.

– Pago um novo café da manhã quando chegarmos do outro lado do país. Mas antes vamos deixar você com cara de gente, tão superficial quanto esses que o chutam durante as manhãs.

George era um mendigo acomodado. Tinha suas opiniões, mas se fosse obrigado a fazer algo, faria o que lhe ordenavam. Os anos de pobreza e humilhação lhe deixaram cansado de discutir e manter suas opiniões firmes do começo ao fim. Preferia acatar ordens alheias para evitar ouvir mais reclamações e mais perda de tempo. Durante a manhã, quando um homem de social esbarrava em George e o xingava e alegava que o ele estava atrapalhando o caminho, George levantava-se e ia para outro lugar, por mais que estivesse confortável ali. Sabia que outras pessoas durante o dias esbarrariam nele, e teria de ouvir as mesmas coisas pelo resto do dia. Apenas queria vive em paz até o dia de sua morte. George havia entrado há muito tempo em um estado de aceitação eterna, com tudo estava bem, e com tudo concordava. Por isso não relutou quando Ayumi começou a conduzi-lo pelas ruas da cidade.

– Quem é essa pessoa? Apenas diga o nome – insistiu Ayumi.

– Ela se chama Ursula Norman, e é minha mãe.

Entraram em uma barbearia.

– Certo – disse ayumi. – Está na hora de você soltar da pedra e ser levado pela correnteza, conhecer e ver paisagens novas. Está na hora do rio fluir em você George Norman. Bom, eu confiei em você e contei um resumo da minha história, sobre meus pais, sobre Lumus e o Nascente. Se quiser contar um pouco sobre você, ficaria muito feliz.

George olhou para Ayumi, pensou na insistência da moça caso ele negasse a contar sobre seu passado. A comodidade tomou conta de seu corpo. Sentou-se na cadeira, ouvindo Ayumi e o barbeiro atrás de si discutindo o que fazer com seu cabelo e barba enormes, sujos e sebosos. Ficou um pouco nervoso com o que fariam, mas logo acalmou-se. George já estava no fundo do poço, qualquer mudança em sua vida, por mais que fosse um simples corte de cabelo e barba, ficariam melhores. Mentalmente, começou a pensar em como contaria um pouco sobre sua vida para a moça oriental.