Terra Morta
1 Capítulo 1
“Eu vi o apocalipse, vi como todos mudaram. Agora são apenas corpos andando por aí. ” – Kléber Novartes.
O sol queimava minha cabeça, eu sentia como se meus miolos pipocassem ali dentro.
E o calor apenas piorava o cheiro de suor e podridão, como não ajudava nos meus ombros queimados que coçavam por conta do mato seco.
Eu mantinha os olhos colados nas costas de Joe, o cabelo negro escondido no boné parecido com o meu.
Andrew caminhava atrás de mim, a espingarda em riste caso algo aparecesse. Eu podia ouvir os passos dele sobre as pedrinhas e o matagal.
Não encontrávamos um rio há tempo e sempre que achávamos que estávamos seguros, uma daquelas coisas aparecia mancando e gemendo, o cheiro de morte tomando conta do local.
Comida também era algo raro. Parecia que todos os animais do país tinham morrido ou então simplesmente evaporado. De vez em quando víamos um pássaro nas árvores, mas era arriscado demais fazer tanto barulho com um tiro de espingarda por uma ave tão pequena.
Angel caminhava ao meu lado, os olhos castanhos tristes e molhados e as costas curvadas, o rabo peludo arrastando na terra. As costelas eram visíveis no peito magro da cadela. Assim como nós, ela não comia há dias, mas se mantinha paciente com a esperança de acharmos abrigo.
Eu não prestava atenção por onde andava e esbarrei em Joe. Ele se virou e ergueu a mão, pedindo que eu ficasse quieta. Havia movimento mais a frente. Ergui-me na ponta dos pés e vi uns trilhos de trem, enferrujados e velhos. Alguns metros adiante, seguindo os trilhos, uma estação de trem jazia acabada. As portas e janelas estavam trancadas por tábuas e correntes grossas de ferro.
–É seguro? – minha voz estava mais rouca do que eu me lembrava. Não falava há horas.
–Talvez sim – sussurrou Joe saindo da proteção do mato e indo para os trilhos. Ele estreitou os olhos tentando enxergar mais longe e, após um tempo, fez um sinal para que fossemos até ali.
Olhei por cima do ombro. Andrew havia colocado a espingarda nas costas e agora empurrava as plantas secas para o lado. O rosto pálido e sujo mostrava uma leve desconfiança, e os olhos azuis perderam o brilho de muito tempo atrás, quando éramos crianças.
Quando tudo isso começou.
Andrew foi para os trilhos e o segui, Angel em meu encalço com as patas sendo abafadas pela terra macia e solta.
Equilibrei-me na parte de madeira dos trilhos e me virei. Não queria olhar para aquelas coisas, pelo menos não de novo.
–São muitos – escutei Andrew murmurando, perturbado.
Eu tentava não dar atenção à eles, apenas andava olhando para meus tênis surrados. O cansaço deixava meu corpo praticamente inútil, e minha garganta estava tão seca que chegava a queimar, como se estivesse em sincronia com o sol.
Cheguei à estação e subi com esforço. Havia uma chave pequena entre o lixo, incluindo garrafas de águas vazias e folhetos sobre o fim do mundo. Peguei a chave e coloquei no cadeado da porta. O cadeado caiu sobre um monte de papéis, então não fez barulho.
Olhei por cima do ombro, para ter certeza de que Joe e Andrew não estavam olhando, mas eles ainda contemplavam a massa escura e distante que eram as criaturas.
Então tirei os cadeados da porta e ela abriu-se rangendo.
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