Notas iniciais
O Velho senhor, que passou a ser chamado de João, seguia rumo a antiga construção do convento da Penha, que ficava ao alto de um morro, segundo ele lá seria mais seguro de passar a noite. Lipe, Aymee e Lara o seguiam, temerosos e cheios de dúvida, mas qualquer coisa seria melhor que ficar sentado na praia esperando alguma criatura monstruosa os atacar. Mal sabiam eles que uma bem monstruosa os encontraria.

Eles atravessaram o canal, que parecia ter a corrente contrária naquele momento, provavelmente pela maré estar enchendo. Assim que chegaram do outro lado, Lipe parou, seguido de Aymee e Lara, logo após percebido pelo excêntrico senhor João que retornou ao ver que nenhum dos jovens estavam o seguindo.

— Algum problema meus jovens?

Perguntou o velho senhor com seu semblante um tanto quanto senil.

— O que faremos caso vejamos o lagarto? — perguntou Lipe.
— Correr, óbvio — disse Aymee sarcasticamente.
— Não vai adiantar muito — disse o velho senhor — não o vi ainda, mas se for como o jovem aqui o viu, garanto que teremos que tomar outra atitude.
— Não falei detalhes sobre o lagarto ao senhor — disse Lipe — como sabe como ele deve ser?
— Não precisa — retrucou o velho risonho — eu vi em seus olhos aquela hora. Estava bem claro em sua mente a imagem de uma criatura imensa e laranja.
— Senhor João, certo? — perguntou Lara.
— Sim, gosto de João!
— Como faz isso? Como consegue ver as coisas olhando apenas nos nossos olhos?
— Não saberia explicar minha jovem moça — disse ele risonho — aprendi isso a muito tempo. Nem lembro-me mais como pra ser exato. Só sei que foi algo que desenvolvi. Cada velho eremita de vida eterna desenvolve um dom além do normal. O meu foi o de ver o interior, o passado, o medo.
— Agora o senhor vai me dizer que é imortal — disse Aymee sarcástica e revoltadamente — vocês têm certeza que querem seguir esse velho louco? "Nada contra velhos loucos" — disse ela olhando o senhor que ria com os olhos.
— Não sou imortal. Morro se tentar me matar. Mas se nada me acontece, nunca adoeço, não envelheço mais que envelheci e não morro de velhice logo então. Mas se não confiam em mim, não venham horas — disse ele rindo e começando a caminhar novamente.
— Espere — disse Lipe — eu acredito no senhor. Ay — disse ele olhando para Aymee — olhe à sua volta, já discutimos isso. Acha mesmo que tudo isso é algo normal ou possivelmente feito por alguma tecnologia?
— Sei lá Lipe — disse ela confusa e irritada — nada faz sentido, ainda não descartei a hipótese de alienígenas. Mas acreditar num velho louco e maltrapilho cegamente só porque ele adivinhou algumas coisas sobre nossas vidas não faz dele alguém confiável.
— De fato minha jovem — disse o senhor risonho, mas mais sério agora — assim como eu, outros existem por aí, poucos acredito, mas existem por todo mundo. E nem todos serão bons e prestativos, ou buscarão ensinar aqueles que sobreviveram a entender o que aconteceu e a reaprender a manipular a magia como já fizemos uma vez no passado.
— Me diga — disse Lipe — me fale sobre isso melhor. Nos conte tudo que sabe sobre essa onda de Luz que diz ser "magia" e que transformou o mundo nisso que estamos vendo? Porque sobrevivemos? O que está acontecendo afinal?
— Direi tudo a vocês, assim que chegarmos ao alto daquele morro onde ficava o convento — disse o velho senhor — que espero que ainda esteja de pé.
— Mas queremos saber agora — disse Lara de forma aflita.
— Lá eu conto tudo que precisam saber, não acho que podemos ficar aqui muito tempo. Mas caso queiram, fiquem a vontade de ir onde quiserem, eu estou indo para o convento.
E o velho senhor de cabelos desgrenhados brancos como seus olhos saiu caminhando com seu bastão de madeira seca, ornado com penas, sementes e cordões amarrados, seguro em suas mãos. Apoiando-o no chão enquanto caminhava para dentro da floresta.
Lipe olhou as jovens e acenou com a cabeça para continuar seguindo o senhor, que foi seguido de Lara e por último e meio relutante, por Aymee.
Caminharam alguns metros até que se depararam com um mangue. A região de Vitória fora aterrada no decorrer dos anos para crescimento da mesma, mas agora com a mudança ocorrida com as ondas de luz misteriosas, grande parte dessa região voltou a ser ocupada pelas águas do mar e manguezais. Com dificuldade eles caminharam em direção à região onde ficava a antiga ponte que ligava as cidades de Vitória a Vila Velha. Essa ficava próxima ao primeiro shopping da cidade, antigo e ponto de referência. Esse, foi construído sobre aterro de pedras a muitos anos atrás, havia ruído após a mudança do mundo e apenas menos da metade dele permaneciam de pé, na verdade, afundado dentro da água que retomou o lugar.
Pessoas eram ouvidas por entre a floresta volta e meia. Choro, discussões, orações desesperadas, nitidamente de pessoas desorientadas ainda e principalmente com medo de tudo aquilo. Era de certa forma curioso como os três jovens que seguiam o velho senhor estivessem de certa forma tranquilos com tudo aquilo, talvez porque mal puderam parar para pensar direito em tudo.
Foi então, ali próximo às ruínas do shopping Vitória, que eles viram a grandiosa ponte, essa porém havia perdido o vão central, um trecho feito de metal, no seu ponto mais alto, havia apenas as bases destruídas pela metadeda da terceira ponte que ligava as duas cidades e uma boa parte dela, do lado da ilha ainda permanecia em pé e aparentemente intacta, coberta por plantas, copos e musgos. O meio de conexão entre as cidades por ali estava destruído, como eles imaginavam. Teriam que atravessar o canal a nado ou construir uma balsa para chegar ao convento como desejava o velho senhor João. Canal esse muito mais largo e profundo que o que eles atravessaram para chegar a ilha de vitória a algum tempo, ali atrás. Quando pararam diante da cena do velho shopping com partes da edificação expostas dentro da água e as ruínas da terceira ponte, um som familiar e terrível ecoou próximo a eles. Seguidos de gritos e após isso silêncio.

— Esse é o lagarto? — perguntou Lara assustada.
— Creio que sim — disse Lipe olhando a sua volta atentamente procurando sinal da criatura ou possíveis rotas de fuga. — ou coisa similar.
— Garotas — disse senhor João — preciso que me escutem. Quero que fiquem aqui próximas à beira do mar, atrás de mim. Você meu jovem rapaz, eu quero que venha aqui perto agora.
Disse o velho homem entrando na água do mangue que se estendia entre pedras, em direção às ruínas do antigo shopping. Seguido sem questionamento pelos três jovens. Aymee e Lara ficaram atrás do velho homem e Lipe se aproximou dele.
— Olhe pra mim — disse o velho senhor — quando olhei em seus olhos mais cedo pude sentir uma veia de magia peculiar em você. Forte, bem forte e talvez nem tão especial nos tempos passados, mas agora nas atuais circunstâncias que o mundo se encontra, creio que será um dom muito útil e poderoso.
— Do que você está falando? — perguntou o garoto assustado e confuso.
Mais uma vez o som de rugido misto a silvar de um lagarto gigante soou mais próximo a eles.
— Eu sei que falei que contaria tudo no convento, mas precisamos despertar esse dom mais fortemente agora, então escute e faça o que eu mandar. Sou um velho eremita de vida eterna, meu papel era ensinar e ajudar jovens a aperfeiçoar seus dons mágicos a muitos milênios atrás — e os jovens apenas o ouviam enquanto procuravam o local de onde a criatura apareceria, que nesse caso, estavam numa área menos vegetada com árvores mais espaçadas e menos densas num alagado de pedras e ruínas — e se estou certo, você possui uma capacidade de ligar sua mente a de outras criaturas. Agora preciso apenas que confie em mim e segure meu bastão.
— O que o senhor vai fazer?
Perguntou o rapaz, que ouviu a criatura novamente e bem próxima, possivelmente prestes a surgir em meio às árvores.
— Devemos fugir daqui agora — disse Aymee um pouco distante dos dois, de mãos dadas com Lara buscando refúgio em direção às ruínas do velho shopping água a dentro.
— Fiquem paradas onde estão — disse o velho gritando e num tom severo e autoritário.
Lara parou, mas Aymee tentou continuar, mas teve de parar por causa de Lara que não continuou andando com ela e a segurou pela mão para que parasse.
— É loucura ficarmos aqui Lara — disse a jovem garota.
— Eu confio nele. Vamos esperar e ver o que ele planeja.
Disse a garota observando o velho senhor com o bastão estendido a frente do corpo, seguro por suas duas mãos em direção ao Lipe.
O velho senhor joão, sério como não fora desde que o conheceram, gritou veemente a ele.
— SEGURE O BASTÃO!!
E Lipe o fez. Seus olhos brilharam, junto com os olhos do velho senhor e ele pode sentir uma energia forte vinda do bastão do velho homem e seu cérebro formigou estranhamente numa sensação nunca sentida antes. Nesse exato momento a fera laranja e imensa saiu de dentro da floresta a alguns metros deles. Em sua cabeça e costas haviam chifres e espinhos que lembrava a imagem criada dos mitológicos dragões de filmes e livros, porém mais próximo de um lagarto Teiú monstruoso e laranja avermelhado. O lagarto correu em sua direção, soando seu som peculiar misto de rugido com silvar de lagarto, bem mais grave e audível. Antes que esse os alcançasse com sua boca aberta pronta para morde o primeiro que alcançasse, o jovem rapaz largou o bastão aparentemente num impulso, virou-se para a criatura, que estava a poucos metros dele, e disse:
— Pare!!
E a criatura feroz parou abruptamente. Parecia estar encantada, hipnotizada por Lipe. Ela estava o observando e acompanhava com sua cabeça o jovem rapaz, que mantinha a mão direita estendida para ela com o sinal de pare. Então ele disse.
— Vá embora e não volte por muito tempo.
A criatura relutante, que mostrava os dentes feroz, fora desfazendo o semblante e a reação feroz, ficando calma e finalmente, recuou. Virou-se e foi-se embora por onde havia vindo. Lipe simplesmente demorou abaixar a mão. Estava em estado de choque e finalmente se deu conta do que fez, então abaixou seu braço lentamente e virou-se para olhar seus amigos. O velho homem estava com a aparência exausta. Suava como se tivesse corrido quilômetros ao sol de meio dia. Suas amigas estavam estáticas, com olhos arregalados e observavam ele incrédulas do que haviam presenciado e ele sentia uma forte dor de cabeça naquele momento.
— Vamos, precisamos achar algo para atravessar o canal e irmos para o convento.
Disse o velho senhor abaixando-se, lavando o rosto na água salgada do mar e voltando a parte seca dali.
— Ei! João! Espere! O que foi isso? Como fiz isso? — perguntou Lipe ainda digerindo o ocorrido.
Mas o velho senhor nada disse, apenas caminhou. Lara e Aymee se aproximaram de Lipe rapidamente e de forma bem eufórica.
— Como fez isso Lipe? — perguntou Aymee agarrando seu braço como se tentasse ter certeza que tudo aquilo realmente estava acontecendo.
— Não sei — disse ele começando a sair do estado de surpresa e começando a caminhar em direção ao senhor João que havia saído da água e sentado ao longe sobre uma pedra.
— Ninguém vai me dizer que porra é essa que tá acontecendo aqui? — gritou a garota nervosa e pouco se importando agora com o risco de alguma fera se aproximar.
— Ay — disse Lara calmamente — estamos vivas, isso que importa. Não estou mais preocupada em entender nada. Um velho louco que diz viver a milênios, lê mentes com olhos iguais a de um cego e fez Felipe parar um lagarto imenso que mais parecia um dragão saído de um filme — riu ela aparentemente de forma irônica — nada mais me surpreende.
E caminhou em direção a Lipe e o velho senhor João. Aymee pareceu desistir por enquanto de entender algo naquele momento e fez o mesmo.
Lá chegando eles encontraram o velho eremita sentado de cabeça baixa e ofegante. Sem dizerem nada ele mesmo disse:
— Por mais que tudo esteja embebido em magia, eu não tenho a mesma capacidade que tive um dia, eu acho — disse ele sorrindo sem muita força — nós usamos magia com todos os nossos nervos, são por ele que fazemos percorrer essa energia diferente e realizar feitos tidos como impossíveis nos dias de hoje. Como nossos músculos que não são usados em caso de algum acidente ou coisa parecida — respirou o velho eremita — nossa capacidade de usar essa energia embebida no ar, na água, na terra, nas plantas, nos animais e em nós mesmos, em toda atmosfera, está atrofiada e precisa ser reabilitada.
Para um velho aparentemente louco, ele falava coisas um tanto quanto coerentes às vezes. Depois do ocorrido, nenhum deles o via como um velho louco. Então ele mudou de assunto:
— Precisamos juntar troncos e galhos, amarra-los uns aos outros com cipos e atravessar o canal. Creio que isso será mais fácil, ao menos era bem fácil pra mim naquela época. Só estou um pouco sem forças para isso — disse ele ofegante ainda, mas menos que antes.
— Usar magia cansa senhor João? — disse Lipe que agora acreditava cegamente nas palavras do velho homem.
— Sim! Cansa — disse ele sorrindo, feliz em ver que conquistara o jovem rapaz.
— Vamos — disse Ayme — vamos juntar esses galhos e troncos logo, logo anoitecerá e se bem me lembro, ele — disse ela aponta do com o olhar para o velho homem — disse que será mais perigoso que com Lagartos gigantes e cães mutados.
Eles se levantaram e buscaram ao redor árvores mais finas e fáceis de quebrar, uma vez que não tinham faca para cortar a madeira.
— Vai ser difícil sem um faca ou lâmina — disse Lara ao longe.
Ainda próximo do eremita João, Aymee e Lipe viram-o levantar e então ele foi até uma pedra pontuda próxima dentro da água com seu bastão ornado. Ele tocou com a ponta do bastão na ponta da pedra, que parecia quebrada e com uma face lisa. Esse balbuciou alguma coisa, com a cabeça erguida com a face virada para os céus. Os dois viram apenas a água abaixo se dividir, como se uma forte jorrada de vento tivesse soprado de cima para baixo e logo após, uma fatia da pedra caiu na água. O homem abaixou e enfiou a mão dentro da água, que era bem mais clara que antes de todo o ocorrido com as luzes mágicas, mas ainda assim era turva. Então levantou-se com o pedaço de pedra nas mãos. Esse parecia uma grande fatia de melancia feito de pedra.
Ele retornou andando aparentemente ainda fraco e entregou a Lipe que estava mais próximo.
— isso deve servir — disse ele sorrindo e voltou a se sentar. Sentou-se no chão, apoiou as costas na pedra, então fechou os olhos com as mãos entrelaçadas, abraçando o bastão e cochilou.
Lipe pegou o pedaço de pedra em formato de lâmina e foi até uma árvore próxima, usou-a e descobriu que o mesmo era afiado o suficiente para cortar madeira, com um pouco de esforço. Nada disseram Lipe e Aymee sobre aquilo, uma vez que nada mais os surpreenderiam.