Como estão as porcentagens de água e alimento? – perguntou John, o líder de toda a nação que atualmente habitam as profundezas das terras inabitáveis.

Antes mesmo do ataque aéreo com componentes radioativos acontecer, a população já estava avisada de que esse possível ataque poderia acontecer. O líder da grande comunidade então ordenou que todos ampliassem o porão que havia em suas casas, interligando-os uns aos outros, como forma de manterem-se seguros e também criar uma grande comunidade sob o solo. Não foi fácil, mas também não demorou para que ficassem prontos, todos temiam esse ataque.

Por que o próprio ser humano faria isso? Exterminar a própria raça? Será que são eles mesmos ou estão sendo controlados por extraterrestres? São as perguntas mais freqüentes nas mentes dos adultos e até mesmo crianças de Belfok.

***

“ALERTA: Mantenham-se em local seguro, procure um abrigo mais profundo, aviões carregados com produtos radioativos chegarão à comunidade de Belfok” – disse os jornalistas e logo tocaram as sirenes. Era mais um dia normal, como qualquer outro, ou, nem tanto assim. As pessoas viviam sob essa ameaça, mas nunca sabiam exatamente quando chegaria. Até que, esse dia finalmente resolveu chegar. As pessoas ainda andavam pelas ruas quando escutaram as sirenes, e em questão de segundos, crianças e adultos estavam em seus abrigos subterrâneos, apavorados, temendo que não conseguissem sobreviver além daquele dia. As ruas estavam desertas, quando finalmente puderam sentir o primeiro estrondo, foi extremamente forte, deveriam ter caído muito próximo, as paredes tremeram. Foram os vinte minutos mais assustadores que já viveram.

Após os ataques eles saberiam que não podiam mais voltar à superfície, não tinham a menor ideia de como viveriam e sobreviveriam embaixo dessas terras. As paredes eram de pedra, e o chão também. Por sorte podia-se enxergar a luz do sol em algum dos cômodos, não porque foram danificados, mas em alguns dos porões fizeram com que o teto, ou o antigo piso de suas casas já destruídas, fossem assim. Não faziam ideia do por que disso, mas era uma regra que os novos moradores da comunidade deviam seguir.

Aos poucos foram se acomodando, e em algumas semanas já haviam organizado um grande refeitório, e alguns meses depois, cada família possuía um quarto.

Completara um ano desde o ataque. Algumas famílias ainda tentavam se adaptar, outras não suportavam a ideia de esconder-se do mundo em que viviam, e que, estava apenas alguns segundos de suas cabeças.

— Ligue o rádio Serena – disse John.

— Claro, mas acho impossível alguém ainda estar vivo, a Terra foi exterminada, além do mais, não se vê animais há meses nessas terras, o que o senhor acha que poderemos encontrar?

— Eu não sei, só preciso escutar, talvez possamos reconhecer algo. Tenhamos esperança.

— Tudo bem.

***

Restara agora apenas 390 pessoas, éramos 500 desde o ataque. Muitas cometeram crimes, outras se suicidaram. Se os porões não tivessem sido ampliados, talvez muito mais pessoas já estivessem mortas. Não é difícil respirar aqui embaixo, só é um pouco mais frio do que costumávamos sentir na época de inverno.

Desde então muitas crianças nasceram, agora já estavam prestes há completar 18 anos, idade em que já pode ser julgado para morrer, se preciso. Havia trinta deles. Alguns queriam se alistar na segurança, outros queriam subir para a superfície.

— O que é que vocês dois estão fazendo? – perguntou Jack, um dos mais velhos seguranças de Belfok.

— Nós queremos subir – disse Thea atrás de Dylan.

— Não, vocês não querem, vocês sabem o que poderia acontecer com vocês se subissem, ou, se outro guarda pegassem vocês aqui?

— Provavelmente morreríamos – respondeu Dylan.

— Então sumam da minha frente – pediu Jack – A próxima vez que eu ver vocês fazendo alguma besteira, entregarei vocês – terminou.

Thea e Dylan sempre foram muito ligados, cresceram juntos, são vizinhos de porta. Fazem todas as loucuras juntos, mas não estão sós, seus amigos, Bob, Jordan, Jessica e Alba também fazem parte delas. Todas as noites, após o sinal de recolher, eles saem de seus quartos e vão até uma sala desativada, que fica no fim de Belfok. Lá eles construíram uma sala secreta, e é neste lugar que eles estudam toda a tecnologia da comunidade, os seguranças, e o possível estado da Terra. Eles fariam de tudo para pisar apenas por alguns segundos nela, mas isso é muito arriscado.

— E se nós fizéssemos uma roupa completamente protegida para que possamos usar? – falou Alba, – Eu consigo, mas preciso de alguns metros de tecido, em três meses estarei com nossas roupas completamente prontas, não haverá radiação que nos derrubará – terminou com determinação na voz.

Alba sempre sonhou em ser mecânica, assim como o seu pai era. Ele foi levado à superfície quinze anos atrás por tentar fazer com que Belfok voltasse a Terra, assegurando-lhes que já era possível viver sem nenhum risco.

— Tem certeza? Se nos descobrirem seremos todos mortos – falou Bob.

— Só quero terminar o que meu pai não conseguiu. – disse Alba – Estamos em 2150, passaram-se quase cem anos desde o ataque, já está na hora de tentarmos algo – confessou.

— Concordo com você, não podemos viver eternamente aqui, aliás, andei invadindo o sistema da central e as porcentagens de mantimentos estão baixas... – finalizou Jordan.

— É de se preocupar, aposto que consigo tudo o que você precisar para as roupas – disse Dylan.

— Eu vou com você – falou Thea.

Foram meses difíceis, a única punição que tinham era a morte, e muitos não escaparam dela. Você deve estar se perguntando para onde vão os corpos, e a resposta é simples. Um elevador. Ele é responsável para manter o contato entre a superfície da Terra e onde vivemos atualmente, a princípio, era apenas isso. Mas como ao decorrer dos meses as pessoas começaram a enlouquecer, muitas infringiram as leis que foram determinadas e outras adoeceram, todos eles foram colocados dentro desse elevador e levados até o topo. E lá eram contaminados por todos os componentes químicos, no qual faziam com o corpo do ser humano se desintegrar. Era horrível, mas essa punição era necessária, pois os mantimentos foram calculados para durar determinados anos, e agora esse tempo estava se esgotando, a escassez chegara aos poucos.

Se a central não fizesse nada, esses seis jovens teriam de anunciar, pois eles precisavam saber, e talvez concordassem em subir. Há alguns dias viam-se movimentações na Terra, sombras. Talvez fossem animais, não era possível ver claramente, mas isso apenas lhes deu mais esperanças do que já tinham.

O ar começara a faltar, estava mais difícil respirar. Alba já terminara as roupas, conseguiu fazer exatamente para a quantidade de pessoas que habitavam o subsolo atualmente. Éramos 380, foram dez mortes em pouco mais de três meses, e já estava mais do que na hora de alertar a todos.