Passou a tarde toda em sua sala, com as cortinas fechadas e as luzes apagadas. Quando anoiteceu, o cômodo ficou completamente negro. Tão negro quanto seu coração e mente. Ele não sabia definir o que estava sentindo. Era uma espécie de ódio somado à culpa. Colocou a mão no bolso, sentiu que o anel ainda estava lá. Tirou-o do bolso e abriu a caixinha de veludo vermelho. O anel de outro branco o encarava e debochava. Parecia rir de sua incapacidade de amar e ser amado. Parecia encarar-lhe e colocar mais ódio em seu coração (se é que isso era possível).

Ele levantou-se e ascendeu a luz. Colocou o anel no armário, ao lado da televisão. Foi até a cozinha e procurou alguma coisa para comer na geladeira. Não encontrou nada de interessante. Pegou o telefone e pediu comida chinesa. Em meia hora o rapaz da moto tocou a campainha.

−Obrigado. –disse o homem contando às notas, certificando que o dinheiro estava certo.

Gustavo não respondeu. Simplesmente fechou a o portão de sua casinha. Acompanhou com os olhos o cara da moto sair de dentro do condomínio. Sentou-se em frente à televisão e abriu a caixinha de comida chinesa. Ligou a televisão e começou a comer.

Assistia a um documentário sobre animais venenosos. Ficou ali durante quase duas horas, até que a programação foi interrompida. Sabia sobre o que era... sabia que eram noticias sobre as desavenças entre os estados unidos e o escambau. Trocou de canal rapidamente, queria receber quaisquer noticia que fosse sobre o assunto, da boca daquele que ouvia há muitos anos. colocou na globo.

−...Vamos ao vivo ao comunicado do senhor presidente da republica:

−Boa noite –disse o presidente brasileiro− hoje todos nós fomos informados que os nossos vizinhos americanos foram atacados e querem revidar o ataque. Todos os presidentes aliados aos Estados Unidos foram convocados para uma reunião. Nesta reunião foi dito que realmente estamos começando uma guerra. Os países do oriente se reuniram em massa para atacar-nos. Sim, nós vamos participar disso. Mas não somos apenas nós. Veremos toda a America Latina juntos, ajudando os EUA. Alguns países da Europa também estão à nosso favor. –ele fez uma pausa− nunca em nossa historia participamos de uma guerra severamente. Estamos participando agora. Peço que a população não entre em pânico. Estaremos apenas ajudando a tentar acalmar a situação, não há motivos para sermos atacados. Infelizmente, estamos convocando alguns soldados. Estaremos ligando para a casa dos convocados durante toda esta madrugada. Os convocados devem se apresentar ao posto policial mais próximo. Os que não forem convocados mais quiserem defender o país, sejam bem vindos. Serão aceitos jovens de 17 anos em diante. Obrigado pela compreensão e desejo à todos boa sorte.

A imagem do presidente sumiu. voltou a mostrar a apresentadora.

−Lembrando que se os convocados não se apresentarem, serão presos com pena mínima de dez anos e sem direito à fiança.

−E no próximo bloco, como lidar com o psicológico nessa situação? O doutor Marcos Loushington vai nos dar algumas dicas.

O telefone tocou. Gustavo gelou, os pelos do braço arrepiaram-se e as mãos começaram a tremer. Ele respirou fundo e atendeu de uma vez só:

−Alô!

−Gustavo? Liguei o dia todo no seu celular...

Gustavo sentiu os dentes se chocarem com ódio assim que ouviu a voz de Luciana. Desligou na cara dela. Alguns segundos depois o telefone tocou novamente.

−Gustavo... por favor, me escuta!

−Não me liga nunca mais. Nunca mais quero ouvir a sua voz.

Ele desligou. Levantou-se do sofá e andou em círculos na sala alguns instantes. A guerra... minha nossa... não era possível. Aquilo deveria ser um pesadelo que demorava a acabar. O telefone tocou novamente. Ele atendeu com ódio:

−Já disse para não me ligar! Você é surda, mulher? Faz o que faz e depois fica me ligando, bancando a inocente?! Vai se danar!

−Senhor?! –disse uma voz masculina e desconhecida.

−Quem está falando? –disse ele dando lugar ao constrangimento.

−O senhor se chama Gustavo Mank?

Ele sentou-se no sofá.

−Sim.

−O senhor foi convocado para servir ao exército brasileiro.

Gustavo calou-se alguns instantes. Não era possível!

−O senhor deve apresentar-se na 24º delegacia até as nove da manhã de amanhã, dia 8. É necessário a apresentação do RG. Alguma dúvida?

−Não...

−Então, boa sorte. Espero ver seu nome na lista dos que voltaram sãos e salvos em breve.

−Obrigado...

O homem desligou. Gustavo permaneceu com o telefone na orelha alguns segundos. Colocou-o de volta na base. O cérebro parecia pensar em câmera lenta. O telefone tocou novamente. Ele atendeu pacífico.

−Alô...

−Gustavo! Me escuta! –berrou ela.

−Fala... –disse sem pensar, parecendo um zumbi.

−Ah! Você vai me escutar... olha, você saiu daqui muito transtornado. Fiquei preocupada... ah, ficamos preocupados! Você está bem, né? Está em casa?

−Estou.

−Vai fazer alguma coisa amanhã? Eu arrumei o numero do telefone de uma psiquiatra ótima, talvez você queira ir falar com ela, sei lá... você me parece mais calmo, talvez só de abrir seu coração pra alguém você já se recupere e...

−Tenho compromisso para amanhã.

−O que vai fazer?!

−Vou pra guerra...

Um momento de silencio.

−Ah... éh... eu não sei o que dizer.

−Posso lhe pedir um favor?

−Claro.

−Coloca esse telefone no viva-voz. E chama o Leonardo aí pra perto.

−Ok. Pronto.

−Quero pedir uma coisa pra vocês, posso?

−Éh, pode.

−Vão pro inferno. –disse ele libertando-se de seu transe.

−Nossa Gustavo, não seja tão...

−Tão o que? Tão cruel? Não sejam cínicos! Eu daria a minha vida por vocês! Amava vocês como quem ama uma família, ah, vocês eram a minha família! Vocês dois eram tudo o que eu tinha, vocês dois eram tudo o que me restou. Daí que os dois se juntam para infernizar a minha vida? Acham que isso não é ser cruel?

−Tentei te falar tantas vezes... e todas as vezes eu achava que era cedo demais. Todas as vezes eu escondi para te proteger!

−Me proteger de que? De saber que era um corno manso? Que era amigo do cara que pegava a minha namorada?

−Se isso te faz feliz, Gustavo–disse Leonardo, que provavelmente estava ao lado fazia tempo− também vou para a guerra. Fui convocado no fim da tarde. Não aceitaram o nosso casamento porque meus dados não tinham sido atualizados, não aceitaram meu casamento. Terei que servir ao meu país. Nos vemos lá, meu amigo.

−Não venha me chamar de amigo, Leonardo! Enquanto à você, Luciana... nunca mais quero te ver, te ouvir... então, por favor... me deixe dormir em paz esta noite. Apague meu numero de telefone da sua agenda, apague meu e-mail da sua lista, queime as fotos que tirou comigo e esqueça meu nome de sua vida. É o que eu vou fazer também. Então, vocês dois... tenham uma péssima noite.

Gustavo desligou o telefone. Suspirou com a mão ainda encima do telefone com os olhos fechados.

Foi até o quarto e começou a fazer uma catança de tudo que lhe lembrava de Luciana e Leonardo. Pegou um saco de lixo preto e jogou lá dentro todas as fotos, presentes, roupas...quase metade de suas roupas e fotos... todas as lembranças que os ligavam à sua vida de alguma maneira.

Eram onze e meia quando terminou. Colocou o saco de lixo atrás da porta do quarto. Deitou na cama e demorou a pegar no sono. Sentiu-se uma criança com medo do bicho papão morando atrás da porta. mas seu bicho papão não era um monstro imenso, com três olhos e pele azul desbotado. Seu bicho papão era uma mulher linda, com olhos e cabelos escuros, com um sorriso contagiante e apaixonante. Uma mulher com uma voz que fazia seus pelos do braço se ouriçarem, que tinha uma pele aveludada. A mulher por quem tantas noites, pensou que se casaria, teria filhos... morreria em seus braços quando fosse velho. Aquela que simplesmente roubou seu coração,sua alma, seu corpo... aquela que ele amava.

Tentava desviar o pensamento a todo momento. Assim que dormiu sonhou, infelizmente, com Luciana e Leonardo juntos, fazendo coisas que Gustavo e Luciana deveriam estar fazendo. Acordou três vezes naquela noite, atormentado pelos sonhos cruéis, imagens que sua mente formava e lhe dizia indiretamente: “Ela trocou você por ele”.

Sete da manhã. ele levantou da cama, já que estava acordado fazia mais de uma hora. Tomou banho, colocou uma calça jeans e uma camisa branca. Olhou-se no espelho, pegou gel e esparramou na mão. passou no cabelo, arrepiando os milhares de fios negros que lhe enchiam a cabeça. calçou um par de tênis e foi até sua moto Ligou-a e saiu do condomínio. O posto policial ficava do outro lado da cidade. Ele parou a moto negra e viu um casal olhá-lo. Deveriam ter entre quatorze e quinze anos.

−Gostou da moto? –disse ele.

−Muito bonita, senhor.

−Sabe pilotar?

−Sei sim.

Gustavo deu a chave ao garoto e sorriu.

−Ela é toda sua.

Gustavo deu as costas para o casal chocado e para sua antiga e amada moto. A rua estava cheia de gente. Realmente lotada. Varias cenas emocionavam os que apenas observavam:

Pais que se despediam de esposas e filhos para ir para a guerra. Gustavo não tinha a quem se despedir, a quem chorar sua partida. Parou alguns segundos para observar um homem que falava com a esposa. Ele beijou-a e abraçou-a. Abaixou-se a abraçou o casal de filhos. Ficou longos segundos ali, abaixado. Quando se levantou, deu as costas e foi para dentro do posto policial. Gustavo também entrou. Não seguiu o homem. Ficou de pé cerca de meia hora. Viu muita gente chegando. Os homens eram a grande maioria, mas também haviam algumas mulheres. Quando deram nove horas um homem foi à frente do grupo, subiu em um palco improvisado e começou a falar:

−Meu nome é Adriano Silveira. Mas para vocês, sou simplesmente Capitão. Vocês são pessoas. Meu objetivo é fazer vocês se tornarem soldados. Não temos espaço aqui para quem não é forte o suficiente para o trabalho. Mas também não tem como irem embora, seriam presos... então, ficam meio sem escolha. Partimos daqui com caminhões do exército. Vamos para a base central do exército. Lá treinaremos vocês. Depois de treinarmos, vocês vão para combate. Não vamos jogar homens e mulheres no território inimigo sem que saibam no mínimo apertar o gatilho. Soares, os caminhões estão prontos?

−Sim senhor! –disse o homem na porta.

Soares usava uniforme militar, era baixo. Tinha cabelos pretos e uma barba mal feita.

−Então, meus caros... vamos para os caminhões. –disse o capitão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.