Terceira Dimensão
9 Johanna
Notas iniciais
Ao acordar pela manhã, percebi que havia algo diferente, até mesmo no clima de Richworld. O intenso sol deu lugar a várias nuvens que acabaram por tomar o céu por completo. Uma forte chuva poderia começar a qualquer momento.
– Ei, Harry, onde é que você tava? – Josh perguntou assim que nos encontramos no corredor daquela hospedaria. – Você desapareceu por dois dias! Onde está Miranda?
Expliquei para ele que tínhamos voltado para Terra, que Michael tinha me trago a força de volta e que Miranda tinha ficado.
– Por que não me chamaram? – Alice questionou. – Odeio isso aqui tanto quanto ela!
– Vamos sair daqui. Todos nós. – falei.
– Com certeza. Assim que colocarem os demônios de novo na Terceira Dimensão. – ouvi a voz de Michael aproximando-se de nós.
Virei-me e constatei que era ele mesmo que se aproximava com Ludi ao seu lado.
– Harry, era para você ir sozinho, mas como estou aqui, vou te levar até Johanna. – Michael falou.
– Pelo nome, ela deve ser gata! – Josh falou, seguido por uma Alice que lhe dava um forte tapa no ombro. – Brincadeira, amor, eu te amo. – ele falou e beijou sua parceira.
– Vamos logo, Harry. – Ludi falou. – Tem uma grande tempestade vindo aí.
Concordei e saí da hospedaria com os dois irmãos. Andamos pelas ruas e paramos em frente ao bar que fomos assim que chegamos a Richworld. O homem que tinha nos recebido na primeira vez não estava atrás da bancada. Havia uma mulher de cabelos negros e de olhos puxados.
Michael falou qualquer coisa para ela e ela mesma nos conduziu por um corredor que dava em uma porta, onde estava desenhada uma bola de cristal com duas mãos em volta dela.
A mulher abriu a porta e revelou uma sala meio escura, somente com luzes de vela. O cheiro de incenso tomava conta do local. Havia uma mesa com algumas cartas, uma bola de cristal, velas e incenso e uma mulher por trás. Essa tinha uma aparência velha, com seus cabelos loiros começando a ficar brancos e suas rugas no rosto.
– O que vocês querem, jovens? – ela perguntou atenciosamente.
– Harry veio lhe ver, Johanna. – Michael falou, puxando a cadeira que tinha em frente à mesa daquela mulher.
Então aquela era Johanna? Uma cartomante? Se Josh estivesse com a gente, ele teria quebrado suas expectativas.
Sentei-me forçadamente.
Ludi pegou meu braço direito e levou até a cartomante, que passou os dedos pelas linhas de minha mão e depois cobriu minha palma com suas mãos. Johanna fechou os olhos e deu um longo suspiro. Ao abri-los novamente, seus olhos estavam completamente brancos. A cena foi mais sombria do que eu poderia imaginar. Depois, ela piscou duas vezes e seus olhos voltaram a sua cor normal. Soltou minha mão.
– Neto de Markus... Você tem um destino aqui em Richworld.
Ótimo, mais uma que me fala coisas desse tipo!
– Você deve encontrar imediatamente a espada de seu avô, ela é uma grande arma para destruir os demônios e abrir o portal para a Terceira Dimensão.
– E se eu já tiver com a espada em mãos? Como eu abro o portal para bani-los?
A conversa estava atraindo a minha atenção.
– Como abrir o portal? Simples. Faça um corte no ar com a espada, como se estivesse abrindo uma porta. Mas só faça isso quando a batalha estiver quase ganha, pois o portal irá puxar os demônios de volta para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Michael e Ludi agradeceram a cartomante e saímos daquela sala. O cheiro do incenso de lá já estava começando a me causar uma pequena dor de cabeça.
Ao chegarmos à bancada do bar, o relógio batia meio dia, então pedimos algo para comer.
– Não iremos treinar hoje. – Ludi falou entre uma colherada e outra. – Pode começar a chover a qualquer momento.
Confirmei com a cabeça.
Assim que terminamos nossos pratos, voltamos para a hospedaria. O vento estava tão forte que pude ver sacolas plásticas e folhas voando.
Entramos na hospedaria, e foi só o tempo de fecharmos a porta para que a chuva começasse. Primeiramente, veio uma chuva mais calma, mas logo se intensificou com pingos cada vez mais fortes, além de trovões e relâmpagos.
Ludi e eu fomos para nosso quarto, que abafava um pouco o som da chuva batendo nas telhas porque era forrado. Fomos para nossas camas. Fiquei olhando para o teto, porque não tinha sono. A chuva me ajudava a pensar um pouco. Já meu amigo, por sua vez, estava coberto da cabeça aos pés.
– Tá com tanto frio assim? – perguntei.
Não obtive respostas, mas pude perceber que ele tremia de frio.
– Quer alguma coisa quente para tomar? – questionei novamente.
De novo, sem respostas. Então decidi descer e procurar alguma coisa quente para levar para Ludi. Por sorte, estavam distribuindo chocolate quente no refeitório.
Ao voltar para o quarto, anunciei que tinha chocolate quente e dei para ele.
– Valeu cara. Não gosto muito de chuva. – ele falou com sua caneca de chocolate nas mãos.
– Parece que não vai passar tão cedo. – disse olhando pela janela.
De fato, estava certo. O restante do dia foi regado por aquela chuva, que hora diminuía e hora aumentava. O tempo parecia que não passava. Assim que a noite chegou, resolvi dormir para ter coragem no dia seguinte de treinar muito.
Quando peguei no sono, tive a impressão que Miranda estava dividindo aquela cama comigo, e que nós dois estávamos deitados de conchinha; ela estava tremendo de frio e eu tentava aquecê-la. Acordei de repente e lembrei que Miranda não tinha voltado comigo, mas minha cama estava um pouco desarrumada, como se alguém estivesse ali e depois saído.
A chuva ainda continuava lá fora. Por incrível que pareça, Ludi estava saindo todo molhado do banheiro, com uma toalha na cintura.
– Ué? E você não tava com frio? Por que tomou banho? – perguntei.
– Fui bater uma pra ver se me esquentava.
– E deu certo? – questionei sorrindo.
– Melhora um pouco do frio. Você devia tentar. Putz, já to me tremendo de novo. Acho que vou voltar pro banheiro.
– E se eu quiser usá-lo qualquer hora?
– Se masturba aí mesmo, cara. Deixa o banheiro comigo! A porta do quarto tá trancada e somos homens. Não vou me importar se eu sair do banheiro e der de cara com você fazendo isso.
Balancei a cabeça negativamente, mas com um sorriso no rosto. Estava começando a acatar a ideia dele.
– Entra logo nesse banheiro, cara! – disse.
– É disso que eu to falando! Não se empolgue muito, Harry. Fica a dica. – ele falou seguido por uma piscada de olho e entrou no banheiro.
Meia hora depois, ele saiu novamente do banheiro e ainda me encontrou acordado.
– E então? – ele perguntou. – Conseguiu se esquentar?
– Vai se danar, cara!
Ele deu um sorriso, foi para sua cama e embrulhou-se completamente de novo.
Fui dormir para guardar energias para o treinamento do dia seguinte, que seria mais puxado que de costume.
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