Teoria do Caos
1 O efeito borboleta
Notas iniciais
“O bater das asas de uma borboleta num extremo do globo terrestre, pode provocar uma tormenta no outro extremo no espaço de tempo de semanas.”
Lorenz, Edward (Teoria do caos).
Sofia era curiosa. Uma devoradora de curiosidades e fatos. Passava seu tempo em total devoção à busca pelo conhecimento.
Na ponta da língua, ela sabia as teorias e seus teóricos. Na ponta dos dedos, as fórmulas, que não eram mágicas, mas eram racionais, lógicas e técnicas.
Sofia se expressava com ciência, com exatidão, com cálculos e probabilidades. Ela só não poderia calcular as probabilidades do coração.
Não foi como em uma letra de música. Ela não estava na fila do cinema, banco ou padaria. Não foi numa esquina, numa mesa de bar ou no meio de uma multidão de cores e sons. Não foi como um resultado exato de fórmulas e cálculos aplicados sobre variáveis.
Foi em uma aula. A aula de cálculo avançado era uma monotonia constante, sem novidades, sem surpresas, até aquele dia em que a porta se abriu abruptamente e a garota de cabelos enrolados entrou. Um mero engano de salas. Uma serendipidade do destino, um efeito borboleta inexplicável.
Sofia, a garota que sabia tanto, que se esforçava em prever cada pequeno passo e desvio em sua vida, não previu a garota dos sorrisos espontâneos na porta. Não foi capaz de prever o poder de alcance daquele pequeno gesto que era sorrir.
E quando esta olhou em sua direção e sorriu, foi como se um furacão a atingisse no peito, varrendo toda a lógica e entendimento para longe.
Uma aula errada, um esbarrão pelo campus da universidade, um livro emprestado, algumas xícaras de café. Era fácil para Sofia descrever a ordem dos fatos. Mas como poderia calcular sua reação ao toque da outra? Qual fórmula poderia usar para entender as borboletas que se agitavam dentro em seu estômago? Não havia uma teoria que explicasse o coração acelerado, ninguém fora capaz de desvendar os sonhos constantes, e a os suspiros apaixonados.
— Eu gosto dos seus olhos, mesmo por trás desses óculos. — Natália confidenciou espontâneamente certo dia.
Sofia esperava que essa confissão fizesse seu coração saltar feliz, mas não pôde interpretar a dor que foi ouvir essas palavras. Como deveria lidar com os sentimentos?
Ela não sabia prever o medo.
Não sabia lidar com o coração.
Coração não era feito uma máquina ou computador. Não poderia formatá-lo, reiniciá-lo e instalar um antivírus contra sentimentos.
O amor não era como um filme romântico, onde bastava dar as mãos e caminhar ao pôr do Sol.
O amor era caótico.
Os sentimentos causavam confusão dentro de Sofia. Uma sucessão de palavras erradas e trocadas, de precipitações e dúvidas.
Ela sentia o que sentia, mesmo que não entendesse, mas como saberia se era correspondida?
A resposta partiu de Natália, enquanto caminhavam pelo campus após um dia de aulas cansativo.
Sofia derrubara os livros, a outra se abaixou para ajudá-la. Fizeram uma pequena pilha, e quando a mão de Natália repousou sobre a sua, foi impossível não viajar dentro do seu olhar, e a ideia de se afastar quando os lábios dela se moldaram aos seus foi inconcebível.
Natália era a personificação da Teoria do Caos. Um sorriso inocente na aula de cálculo, uma profusão de tormentas no coração de Sofia ao longo dos dias que se sucederam. Foi assim que Sofia aprendeu mais uma teoria, uma tentativa ínfima de justificar a vida pela ciência.
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