Teoria de Sofia
1 único
Sofia apoiava a caneta com firmeza sobre o caderno, mas não conseguia fazer nenhuma anotação. Sua mente tentava compreender as palavras que saiam da boca de sua professora, mas era impossível. As aulas de física eram sempre assim, para Sofia era como se a professora estivesse falando em uma língua completamente estranha e desconhecida.
Mas ali estava ela, concentrando-se em cada palavra proferida, em cada cálculo rabiscado às pressas no quadro negro. Ela falava sobre a força gravitacional, explicava parte por parte, citava exemplos e realizava cálculos absurdos. Ela falava de fórmulas e números como se fossem as coisas mais simples e fáceis do mundo, falava de leis e teorias com confiança e propriedade, ela transbordava conhecimento e Sofia admirava isso. Admirava a inteligência, a segurança e o autocontrole. Admirava a delicadeza, o sorriso e o tom de voz brando e suave, que ela só usava quando conversava pessoalmente com um aluno em sua mesa. Sofia admirava muitas coisas nela, mais coisas do que deveria.
Era comum que as outras garotas, colegas de Sofia, sentissem admiração por um ou outro professor, Sofia também sentia isso, ela só não esperava sentir isso pela professora de Física.
Ela falava sobre a força gravitacional, e Sofia só sabia sentir a tal da força.
− A atração física que um planeta exerce sobre os objetos próximos é denominada força da gravidade. − Ela explicava calmamente.
Ela não saberia calcular a massa, a distância, o tempo ou a força, mas se esforçava em calcular os sorrisos, as piadas nerds e inteligentes, ou quantas vezes ela direcionava o olhar para Sofia.
− Sabendo que o movimento de translação de um planeta é equivalente ao tempo que este demora em percorrer uma volta em torno do Sol, é fácil concluirmos que, quanto mais longe o planeta estiver do Sol, mais longo será seu período de translação e, logo, maior será o seu ano.− Ela explicava sobre as leis de Kepler.
− Consegue entender, Sofia? – A professora perguntou notando o interesse de Sofia em sua explicação.
Sofia sentiu as bochechas ruborizarem escandalosamente, por alguns segundos temeu que ela estivesse lendo seus pensamentos, temeu que algo estivesse escrito em sua testa, e todos saberiam a verdade.
− Acho que sim... – O coração martelando alto contra o peito.
− Ótimo! – Ela respondeu dando uma piscadela, e Sofia sentiu o coração derreter como uma bola de sorvete no verão.
Sofia esforçou-se um pouco mais nas palavras que ela dizia, e então como que por um milagre ela entendeu que, quanto mais longe o planeta estava do Sol, mais longo era o seu ano. Concluiu que quanto mais longe Sofia se via dela, mais longo era o tempo. Porque os segundos pareciam se transformar em horas, os dias em semanas, era lento, era torturante, era relativo.
Estava apaixonada por sua professora, irreversivelmente.
Admirava todos os aspectos de sua aula, porque era ali que ela se sentia pertencer, era ali que se sentia presente.
Ainda não entendia por que as pessoas não caiam da Terra, ou por que era a Terra que girava em torno do Sol e não o oposto, mas ela entendia por que ainda estava ali, naquela aula. Na teoria de Sofia, ela não era a Terra, ou tampouco a Lua, ela era apenas ela, e ela estava atraída pelo Sol que iluminava a sala, estava presa na força gravitacional do sorriso da professora Luísa.
Notas finais
Até mais!
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