Tentativas e Azar!
1 Capítulo Único: Tentativas e azar!
Notas iniciais
Tentativas e... azar!
A Taverna
Era um inferninho gay como qualquer outro. Lugar apertado, cheio de gente e impregnado pelo odor de cigarros e bebida. O tipo de lugar que eu adoro! É a proximidade, o calor sufocante, o suor dos corpos e a alegria das bibas de plantão, tudo é meio que contagiante. Nesse tipo de ambiente, as pessoas deixam as máscaras do lado de fora e deve ser por isso que é proibido tirar fotos lá dentro. Eu já vi coisas que deixariam qualquer pessoa com vergonha de “ser gente”.
Não era a primeira vez que eu ia lá, mas era a primeira vez que só iam três de nós, e eu estava na companhia dos dois “mais perigosos”. Amanda era heterossexual “por conveniência”; isso queria dizer que dependia de quem perguntava e eu tenho certeza absoluta de que ela toparia, se estivesse com vontade. O negócio dela era se divertir. Luciano era bissexual, mas eu o considerava gay; na minha opinião, esse era o lado que falava mais alto nele, diferente da Amanda.
E havia eu. Tive dificuldades para assumir minha homossexualidade para mim mesma e reconheço que perdi mais tempo do que gostaria por causa disso. Acho que todos os gays enfrentam problemas mais ou menos parecidos nessa fase da descoberta, por mais precoce ou tardia que seja. Vencida essa etapa, logo surge a necessidade de se fazer alguns ajustes e era exatamente aí que eu me encontrava, pronta para explorar novas possibilidades.
Dia A
Ou não. Decidi que passaria a noite na companhia de várias garrafas de cerveja e da minha carteira de cigarros de canela, o que acontecia sempre. Nas outras vezes em que nós fomos, nem todos que estavam conosco conheciam minha orientação sexual. Mesmo sabendo que ninguém iria achar estranho – se você está no inferno, abrace o capeta! – raramente eu me interessava por alguém. Mas hoje não seria um desses dias.
Ela estava um pouco distante, escondida perto de uma das paredes da boate, na companhia de um amigo – só podia ser, pois era óbvio que ele também era gay. Ela era um pouco mais alta que eu, estava usando uma camiseta e um short muito apertadinho que realçava seu bumbum e pernas. É, foi a primeira coisa que me chamou a atenção. Mas ela também tinha um sorriso bonito. Começamos uma troca de olhares no mesmo instante.
Meus amigos perceberam e assim que eu confirmei meu interesse, eles me deram o maior apoio, claro. O Luciano até disse que iria lá por mim, mas eu dispensei, queria fazer isso por mim mesma. Pode parecer uma coisa bem simples para muitas pessoas, especialmente as que não são tímidas, mas esse não era o meu caso. Achei que já estava na hora de superar esse obstáculo, mas quando eu me voltei na direção dela decidida a ir, outra garota chegou antes de mim e elas começaram a conversar.
Pouco tempo depois, elas saíram juntas e eu fiquei passada. Era sempre assim comigo, eu era totalmente “fora de tempo” e já perdi muitas outras chances por causa disso. Mesmo assim, achei que era cedo para desistir e fui falar com o amigo dela. O nome dele era Marcelo e ele foi muito legal comigo; eu disse que estava interessada nela e ele me respondeu que eu deveria esperar, porque achava que elas não iriam ficar. Dito e feito.
Me enchi de esperança quando ela voltou, menos de cinco minutos depois e sozinha. Ela era ainda mais bonita de perto e eu descobri que era mais nova do que eu. Começamos a conversar e eu cometi meu primeiro grande erro: confessei que era tímida e que não tinha o costume de chegar em garotas desse jeito. Só viria a perceber muito depois que esse tipo de coisa lhe transforma em “vítima” e eu estava lá com o intuito de ser uma “predadora”.
Conversamos mais um pouco e logo veio o segundo grande erro: “você vem sempre aqui?”. Pior do que isso é ficar sem graça pelo próprio erro e se atrapalhar ainda mais na tentativa de corrigi-lo. Experiências futuras me revelariam que o melhor a se fazer nessa situação é fingir que nada aconteceu ou se sair com uma piada. Fui incapaz de fazer qualquer um dos dois. Em uma desesperada tentativa de recuperação, disse a eles que iria pegar uma cerveja com a promessa de que não me demoraria muito.
E esse foi o terceiro e último erro, porque foi fatal. Quando eu voltei, ela estava conversando com a garota de antes, que a beijou segundos depois e ela correspondeu. Só não me senti pior porque tinha consciência de que aquele tinha sido um grande avanço para mim. Me despedi do amigo dela fui aproveitar o resto da noite com os meus. Percebi que elas não ficaram por muito tempo e depois disso, ela veio dançar perto de mim, mas eu não estava mais interessada.
No final da noite, avistei-a passando mal num dos cantos da boate, e nenhuma das duas ou três garotas que ela ficou estavam por lá, ao menos para se certificar de que ela estava viva. Fui ate o bar e apanhei alguns guardanapos de papel para ela, que já não conseguia nem ficar em pé ou perceber com clareza o que se passava à sua volta. Esperei ali até o Marcelo voltar com uma água mineral, tudo isso sob protestos da Amanda, que me censurou por ser “legal demais”. Nunca vou admitir, mas acho que ela tem razão.
Dia B
Era sexta-feira e nós estávamos mais do que prontos para outra noite na Taverna. Eu ainda não tinha esquecido aquela última tentativa, que resultou em catastrófica falha. Por outro lado, não podia dizer que me lembrava dela com tristeza, muito pelo contrário. Amanda e Luciano ainda achavam engraçado e não perdiam uma chance de tirar sarro, fui a “piada do mês” por um período bem maior do que o nome sugere. Naquele dia em particular, não tinha graça nenhuma.
Eu estava de mau humor e só saí de casa por insistência da “dupla dinâmica da perdição”. Não pretendia me esforçar para agradar ninguém e isso incluía meus amigos. Eles tentaram me embebedar, mas eu aleguei que estava dirigindo; eles tentaram me fazer dançar, mas eu disse que meus sapatos estavam me incomodando; eles elogiaram o dj e eu discordei apenas pelo prazer de discutir. Estava a fim de mandar meu manual de “como ser otária” para o espaço.
Sentia meu sangue ferver nas veias e precisava de uma válvula de escape urgentemente. Olhei em volta, à procura de uma vítima em potencial para aliviar todas as minhas tensões, certa de que não iria sair com as mãos abanando dessa vez. Achei o que procurava sem muita dificuldade. Um pequeno grupo de garotas, quatro ou cinco – era difícil saber, as luzes piscando e todas aquelas outras pessoas no meio atrapalhavam bastante – dançava animado há alguns passos de distância de mim.
Sem pensar duas vezes – para não correr o risco de se arrepender – caminhei na direção delas e coloquei no rosto o melhor sorriso que tinha. Uma em particular percebeu a minha aproximação e sorriu de volta, de uma forma bem convidativa. Ignorando as outras três, cheguei junto a ela e começamos a dançar. Ela era baixinha e usava um vestido preto que valorizava suas formas. Coloquei uma das mãos na cintura dela e puxei-a para mais perto de mim, ao mesmo tempo em que a apertava.
Percebi que as outras que estavam com ela riam e cochichavam entre si, pareciam estar se divertindo com aquela situação tanto quanto eu. Continuamos a dançar cada vez mais próximas e eu percebi que ela estava envergonhada e parecia não saber exatamente como retribuir ao meu assédio. Sorri, saboreando a sensação de estar no domínio da situação, sabendo que nossos papéis já estavam muito bem definidos; ela seria minha vítima e eu, sua predadora.
Colei minha boca ao seu ouvido, tendo todo o cuidado necessário para que meus lábios roçassem em sua orelha a cada palavra minha e ela estremeceu quando eu a toquei. Perguntei qual era o seu nome e quando ela abriu um pouco a boca, para responder, eu a beijei. A surpresa da minha investida não lhe permitiu nenhuma reação imediata e ficamos assim por alguns segundos, até que ela finalmente conseguiu se libertar do meu abraço para respirar.
Seu rosto estava incrivelmente vermelho e ela ofegava um pouco. Tentei me aproximar mais uma vez, mas ela se esquivou e me estapeou com violência. Levei a mão ao rosto, chocada com aquela reação e permaneci no mesmo lugar, sentindo a ardência do tapa. Uma das garotas que estava com ela se aproximou de mim rindo e sussurrou no meu ouvido que eu tive azar por ter escolhido a única hétero do grupo. Depois disso, elas foram embora e a garota do beijo nem sequer olhou para trás.
Acendi um cigarro, peguei o copo de cerveja mais próximo que vi e usei para aliviar a sensação de queimação no rosto. Amanda e Luciano se aproximaram de mim pouco tempo depois. Desejei que eles não tivessem visto aquela cena, pois isso me pouparia do constrangimento de recordá-la. Doce ilusão; os dois insistiram para que eu contasse todos os detalhes, incluindo os sórdidos. E assim se acabou mais uma noite, com a certeza de que algo ainda pior me aguardava: ser novamente a “piada do mês”.
“A sorte favorece os bravos e a pressa castiga os impacientes”.
FIM
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