Sinto o celular vibrar dentro da minha bolsa, mas pouco antes de conseguir visualizar o que está escrito na mensagem de texto, a tela escurece, a bateria acabou. Estou caminhando há horas pelas ruas da cidade para não voltar para casa, então provavelmente é a Jess me enviando mensagens de dez em dez segundos… Não é que eu não queira vê-la, só não quero envolvê-la nisso, não quero mentir, mas não existe outra saída. Só de pensar em pronunciar o nome dela em voz alta na presença da Jess, o desconforto e o medo sobem pela minha garganta e se instalam sob a minha língua, como se soubessem que não devem sair. Estou em uma rua completamente deserta, e me sinto como se estivesse no mar, como se eu fosse uma espécie de iceberg – bem em frente a um grande navio lotado de pessoas –, que parece inofensivo, mas quanto mais o navio se aproxima, mais destrutiva eu me torno, e mais perigo aquelas pessoas correm. E não há mais como desviar do impacto, as pessoas só podem olhar e esperar que eu não as parta ao meio. É tão fácil ver alguém bem na sua frente, e não enxergar as mentiras e os segredos que ela está escondendo – uma parte submersa e a outra exposta –, e aí, você percebe, você descobre, só que muito tarde. Enganada pela pequena e imperceptível ponta do iceberg, porra.
Tudo nessa cidade me sufoca – o ar, a temperatura instável, as pessoas, os boatos. – e eu só quero ir embora. Sigo freneticamente até o aeroporto, apenas uma ligação, uma passagem e tudo isso termina. Ergo os olhos e me aproximo da cabine telefônica, afrouxo o cachecol e respiro fundo até sentir minha garganta pigarrear por causa do ar frio. Ninguém atende. Ligo mais uma vez – ouço a voz apática do meu pai e depois um súbito silêncio – a ligação cai. Então em um momento involuntário meus dedos discam o numero do Stavo.
— Oi.
— A Jessica tava te procurando, tudo ok com você, May? Ela disse que nem dormir em casa você dormiu…
— Eu não posso ir lá agora, você sabe… E se ela fizer mais perguntas, tudo que eu digo pode nos comprometer, pode te prejudicar também, Gustavo. E aí, o que acontece? Depois de tudo, não dá, não quero passar por toda aquela merda de novo.
— Eu sei. Só me diz aonde você tá que eu vou até aí te buscar, pode ser?
— Diz que tá tudo bem. Tá tudo bem, eu preciso ir agora. Até depois.
Eu desligo e entro no aeroporto, me sento e fico me imaginando lá dentro, com a passagem de ida nas mãos, despachando a minha mala. Mas a ideia parece tão distante que eu me esqueço que é uma opção. O Stavo não devia estar passando por isso, não por minha causa, então se isso é culpa minha, não posso deixar ele aqui enfrentando tudo sozinho. Preciso voltar para casa. Não é como se eu fosse salvar a nossa amizade, mas talvez eu possa reparar alguns danos, com o tempo. Porque a gente tinha que foder tudo, merda.
Retorno alguns quarteirões até encontrar uma lanchonete – me sento perto das janelas, tiro meu casaco e conecto meu carregador na tomada, ouço um pequeno estalo acompanhado de uma faísca que me faz repensar se devo ou não prosseguir, mas insisto mesmo assim. Consigo ler as mensagens deixadas no sopro, ainda desenhadas nas janelas… As gotículas de água escorrendo lentamente. Todas aquelas palavras estavam prestes a perder o significado. A atendente põe gentilmente uma xícara de café queimando em cima da mesa, o vapor contrastando com clima e temperatura embaçados. Retiro uma pequena garrafa da bolsa e discretamente misturo o pouco de vodca que ainda resta com o café, o frescor ardente, queima minha garganta a cada pequeno gole, causando-me náusea. Ouço uma voz macia chamando meu nome.
— Maya? Você é a Maya Duarte? Posso me sentar aqui com você por um instante? – Aquele rosto é tão familiar, o formato do queixo, o nariz e até mesmo a maneira de dizer o meu nome... Mas não é ninguém que eu realmente conheça.
— Não nos conhecemos, o que te faz achar que pode? – Visto meu casaco e começo a juntar as minhas coisas. – Eu já estou indo embora, mas pode ficar com a mesa, claro…
— Não, espere! É que eu queria fazer algumas perguntas relacionadas a sua amiga, a que está desaparecida, será que você poderia – ele comprime os lábios e balança a cabeça de forma apreensiva.
— Olha, eu já falei sobre isso uma vez, e nessa cidade, tudo o que você diz, é usado contra você. Então não deu muito certo para mim, sabe? – Bebi a última gota de café e me levantei.
— Não, espera! Eu só quero conversar. – Diz ele de forma um pouco mais séria do que eu esperava.
— Tem uma página sobre mim no Facebook, lá você vai encontrar toda a informação que precisa, desde memes a comentários agressivos desejando a minha morte. Tchau, babaca oportunista fodido do caralho.
Desde que tudo começou, todas as acusações recaíram sob o Stavo e eu. E eu fui acusada por algo que eu jamais faria, mas nunca importou, desde que houvesse uma vadia para culpar, a cidade dormiria em paz. Ninguém sabe o meu nome, eu sou só a amiga da garota morta agora, que supostamente pode ser a assassina.
Consigo finalmente responder as mensagens da Jess – talvez assim ela fique menos transtornada até eu decidir voltar… – sinto uma mão apertar o meu braço. – Você esqueceu isso. – Diz o mesmo cretino oportunista da lanchonete me entregando meu cachecol.
— Obrigada, agora posso ir? – Ele já não demonstra vontade de fazer perguntas ou conversar, o que eu considero um triunfo. Talvez ele tenha reparado que estou com bafo de vodca e café às três da tarde em uma terça-feira na periferia da cidade, e talvez tenha entendido o quanto essa merda de jornal local ferrou a minha vida com essa porra de matéria. Ou percebeu que não ia conseguir tirar mais nada de mim. – Obrigada, babaca oportunista fodido do caralho, fico te devendo! – Aceno com a cabeça e dou um sorriso amargo.
“Jess, tá tudo bem, nos vemos daqui a pouco, preciso fazer uma coisa. beijos” – enviar.
Já está anoitecendo quando passo em frente ao nosso lugar favorito, Sin Lounge, um bar onde nós nos encontrávamos sempre. No início do semestre, quando eu vi a Rebeca pela primeira vez – acho que jamais vou me esquecer – os seus olhos claros e as suas sobrancelhas arqueadas, sempre percorrendo por todos de maneira esnobe. Ela fazia questão de encostar amigavelmente em qualquer pessoa que se aproximava, e ninguém sabia identificar se era flerte ou só um hábito particular. O cabelo loiro acentuando as bochechas que sempre acompanhavam o seu sorriso cínico, que eu tanto odiava, mas que agora sinto falta. E a forma que se esgueirou até me alcançar – encaixou as mãos no meu ombro e cochichou no meu ouvido – eu vi que você tem Camel aí, vamos dividir um lá fora? Esse lugar é péssimo… – e eu fiquei surpresa com a sua voz rouca e suave, como se estivesse resfriada. E aceitar aquele convite foi o primeiro de muitos erros que eu cometeria por ela. Nos escondemos bem aqui, nesse estacionamento. Ela mal conseguia acender um cigarro, mas não errava sequer uma sílaba. Senti sua mão segurar minha cintura e com um sorrisinho apagado ela disse “já experimentou um beijo sabor Camel com chiclete de melancia?” e antes que eu pudesse responder ela me beijou. E então não conseguimos mais parar de nos beijar.
A Rebeca sempre foi impulsiva, tanto que às vezes alguém precisava dirigi-la para que não batesse de frente com uma árvore que estava o tempo todo lá. Ou era tudo ou era nada. E ao mesmo tempo que ela podia transformar o meu dia em um inferno, ela também podia me levar até o céu. E todos nós sabemos que para chegar até o céu, primeiro você precisa morrer. Ela adora brincar de ser Deus. E é por isso que mesmo morta, ela ainda pode me controlar.
Mas ainda tem algo que não encaixa, na noite em que ela entrou naquele carro, não parecia ser um cara, parecia ser alguém muito próximo – a Rebeca jamais se comportaria daquela maneira ao lado de um ficante ou namorado. Talvez fossem amigos, amigos muito próximos. Eu devia ter ido com ela...
E lá estava, há poucos metros de distância do “nosso” lugar, como um cristal iluminado esperando ser encontrado, o mesmo carro em que Rebeca entrou e nunca mais foi vista – eu me aproximo devagar – e quando o vidro da janela se abre, minha garganta fecha, meus olhos ardem. É uma moça, e ela está usando o mesmo casaco da Beca, o mesmo batom, e o cabelo tem o mesmo corte… Como se fossem a mesma pessoa. Ela caminha até a loja e volta uns minutos depois com uma caixa de cerveja, entra no carro e antes que a janela se feche, seu olhar se desloca até onde eu estou, sua boca marcada pelo batom vermelho escuro se contrai, consigo vê-la sorrindo. Um breve sorrisinho carregado de cinismo, – não foi minha imaginação, não foi aquela vodca, não é loucura... Ela estava bem ali, com aquele mesmo sorriso que eu já conheço. As janelas se fecham e o carro passa por mim antes de desaparecer na próxima curva.
***
Fale com o autor