Tendenciosos
3 Não sei, to loko
Destinatário: Bertha H. Smith;
Remetente: James Watson;
"02/04/2016
Sidney, Austrália
Cara Bertha, sinto em oportunar-te com uma carta, porém, ao receber a sua e lê-la senti uma necessidade.
Uma necessidade de pedir ajuda.
Entendi o que quis dizer sobre sua filha, Sônia (Sinto por ela), e queria que ajudasse-me à notar se não é o mesmo que acontece comigo, pois não quero cometer o erro de morrer e perceber que minha família seja ótima, embora eu tenha fortes indícios de que não seja este o caso.
Sou o único filho de um casamento de 17 anos, meus pais casaram-se após meu nascimento. Que só aconteceu após uma falha tentativa de aborto.
Muitas vezes penso, se minha mãe tivesse acertado a agulha de croche naquele dia, ou se antes ela tivesse tomado algum tipo de pílula, ou até mesmo meu pai tivesse gozado fora; se a vida deles não teria sido poupada.
Eles não se amam.
Nunca se amaram.
Para ser mais exato, eles se odeiam, e me odeiam também.
Acredito que me culpam por terem casado-se, afinal, foi meu avô quem os obrigou à casar. Acho que minha mãe me culpa, também, por ter sua juventude arruinada, e seus planos de estudo terem entrado pelo mesmo buraco.
Sinto-me responsável, não por isso. Transaram pois quiseram. Mas por tê-los de mantido juntos todos esses anos.
Meus pais sempre brigaram, sempre. Mas nunca, de fato, se separaram.
Eles chegaram à dividir quarto um dia, mas hoje isso não ocorre mais.
As conversas que ouço são sempre carregadas de mágoa, tais com os os raros elogios e frases dirigidas à mim.
Não sei o quê fazer.
Muitas vezes fico em dúvida entre sianureto e forca. Mas sou covarde.
Nem para tirar minha vida sirvo. Temo.
Temo que, como sua filha, morra em vão.
Temo que, lá no fundo, eles me amem, e eu os faça sofrer.
Temo que não seja essa, realmente, a saída que eu queira.
Aguardo resposta.
Att, James."
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