Notas iniciais
Dedico essa história à minha madrasta, cujo o tempo fugiu.

Tempus Fugit

“Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”

(Publius Vergilius Maro)

Batia a sola do tênis insistentemente contra o chão, causando um ruído quase imperceptível em meio ao barulho da chuva que batia forte contra a janela da sala de sua casa. Estava tão nervoso que poderia comer a madeira da mesinha de canto que estava servindo como apoio para um de seus braços.


Logo que escutou a porta sendo aberta virou para trás, para poder observar a loira que entrava no cômodo toda molhada. Levantou-se em um único impulso e correu até a mesma, com o semblante preocupado.


- Yare, essas chuvas imprevisíveis só atrapalham. – Comentou a jovem, apressando-se em tirar o próprio casaco de lã que parecia pesar vinte quilos, por conta da água acumulada no tecido.


- E então, pegou os resultados? – Perguntou o outro afobado, enquanto alcançava o casaco da mais baixa e o colocava sobre o encosto do sofá, despreocupado se aquilo iria molhar ou não o assento.


Stella suspirou cansada, desviando os olhos do namorado para a bolsa que havia jogado no chão da entrada do apartamento. Abaixou-se e abriu sem pressa o zíper, vasculhando o interior até achar um papel dobrado e parcialmente amassado.


- Acho que você não precisa de um diploma para decifrar isso aí. – Falou calmamente, com pesar entranhado em seu timbre baixo, erguendo para o loiro o pedaço de papel, que logo ele segurava nas próprias mãos. – Eu quero que você saiba que eu não vou me entregar, ok? Vou até o fim.


O mais alto levou a mão à testa, olhando interruptamente para o exame que estava segurando na outra. Uma angustia interminável assolava seu peito desde a suspeita de que sua namorada estava com problemas graves, que envolvia uma pré-disposição genética para problemas cardíacos.

Respirou fundo.


Não queria ter de reviver o que haviam passado há cinco anos, mas de qualquer forma, era a vez dele ficar ao lado dela.