Tempus Fugit

3 Capitolo Secondo


Notas iniciais
Antes de me chamar de analfabeta, saiba que o título do segundo capítulo está em italiano (2).

Tempus Fugit


“Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”

(Publius Vergilius Maro)


O salto do sapato produzia um ruído irritante, que a fazia sentir-se perseguida mesmo sabendo que havia ninguém atrás de si. Os olhos passavam de porta em porta, observando rapidamente algumas pessoas deitadas sobre seus leitos, esperando ansiosas por um pouco de sorte.

Para uma manhã de sábado, estava tudo bastante calmo naquela ala do hospital. Com exceção de umas poucas enfermeiras que iam e vinham de quarto em quarto para certificarem-se de que estava tudo bem com os pacientes, os corredores estavam praticamente vazios.

Suspirou enquanto esfregava uma palma em outra, tentando esquentar as mãos. As viradas de estações eram sempre chuvosas, porém como tão logo seria inverno, aquela estava sendo fria também. Cerrou rapidamente os olhos, desejando um copo de café expresso fervendo.

- Yey! Coffy!! – A loira ergueu uma sobrancelha, reconhecendo a voz que soava parecendo vir de um dos quartos. Não esperava escutá-lo novamente, muito menos se estivesse lhe chamando de “Coffee”. Virou a cabeça para seu lado direito, podendo ver o jovem, que havia conhecido no dia anterior, balançando freneticamente a mão em um aceno.

- Hm, olá. – Aproximou-se da entrada do quarto e cumprimentou sem demonstrar muita vontade, apoiando a lateral do corpo no batente da porta e passando rapidamente os olhos pelo cômodo pequeno. Deteve-se em um aparelho ao lado da cama de Kouyou, que levava um tubo de oxigênio até a entrada de suas narinas.

- Bom dia Coffee-chan! – O loiro abriu um largo sorriso, fazendo os olhos ficarem praticamente fechados. Com a ajuda das mãos ergueu o tronco, recostando a coluna em dois travesseiros mal ajeitados. – Pode entrar, minha doença não é contagiosa – Falou em meio a uma risada.

- Fico aliviada. – Respondeu irônica, descruzando os braços e entrando no quarto. Não que quisesse muito fazer companhia a um doente que nem conhecia e nem sabia o que tinha. Entretanto como não havia muito que fazer, ao menos acompanhada não se sentia tão angustiada com aquela espera por notícias.

- E então, o que a Coffee-chan faz aqui? Você não parece estar doente. – Perguntou curioso, sem se afetar com a ironia inicial da loira.

Uruha costumava dizer que em um hospital geralmente as pessoas que não tinham problemas de saúde eram as que mais sofriam. Afinal, mantinham-se envoltas por um forte sentimento de aflição e insegurança e dificilmente conseguiam lidar com aquilo, por isso ele acreditava que seria egoísmo de sua parte ofender-se com algumas palavras mal expressadas. Portanto, como sempre era, manteve seu sorriso diante da outra.

- Meu pai que está doente. – Respondeu enquanto sentava-se em uma poltrona ao lado da cama de Kouyou, voltando-se para ele com os olhos cansados pelas quase vinte e quatro horas sem dormir. Vendo que o silêncio que se seguiu da parte do outro era, na verdade, algo como um “continue”, ela prosseguiu. – Infarto. Estão cuidando dele há doze horas.

- Yare... Os médicos daqui são ótimos. Já, já ele ficará bom, você vai ver! – Falou tentando passar um pouco de animação para a outra, o que com certeza fora em vão. Para Stella, restou apenas a vontade de mandar aquele ser risonho para a puta que o pariu. Isso, claro, só para começar.

- Hm, tão bom quanto você? – Apontou para os tubinhos presos no nariz do outro, o que para ela era sinal de que o loiro em sua frente estava um tanto encrencado. – Porque se for, acho que é essa a hora que eu começo a chorar.

- Ehhh... Que cruel Coffee-chan! – Fez uma expressão que a jovem julgou engraçada, abrindo bem os olhos pequenos e a boca, como se estivesse surpreso com a falta de delicadeza da parte da mais baixa. – Mas mesmo assim, desejo melhoras para ele.

- Hai, hai, obrigada. – Cruzou as pernas, desviando o olhar para a televisão e perguntando-se de onde ele aparentemente tirava tanta animação. – Nossa, isso aí é Dragon Quest? – Mudou a direção do assunto, não querendo entrar em detalhes justamente para não precisar ficar recordando-se da situação em que se encontrava.

- É sim, você conhece? – Acompanhou o olhar da moça, voltando a observar o desenho que havia começado um pouco antes de Stella passar pelo corredor.

- Claro, é da minha época. – Deu um sorriso curto, lembrando-se de quando era pequena e acordava todos os dias antes das dez da manhã para assistir desenho animado. – Onde eu morava se chamava “Fly”.

- Sério? – Ela confirmou com um aceno de cabeça. Kouyou costumava achar estranha a mudança de título quando levavam uma produção japonesa para outros países. – Onde a Coffee-chan disse que morava, mesmo? – Perguntou uma segunda vez, não conseguindo recordar-se do que ela havia dito no dia anterior.

- Eu não disse. – De fato o tal amigo dele havia chegado no momento em que Stella iria falar. – Mas, enfim, eu sou da Itália.

- Uou, Itália?? – Virou-se novamente para observá-la, surpreendendo-se com o fato. Não conhecia muito sobre o país e nunca havia conversado com um italiano, então para ele Coffee-chan era o tipo de pessoa inédita e que despertava ainda mais sua curiosidade.

Uruha abriu a boca para iniciar o turbilhão de perguntas acerca do país de origem da loira, porém fora interrompido antes mesmo de começar a falar. Ele e Stella desviaram, ao mesmo tempo, o olhar para a porta, observando o loiro que a atravessava.

- Reita! – Sorriu animado com a chegada do amigo, que trazia algo pendurado nas costas.

- Ohayou – Cumprimentou em sua costumeira calma, olhando rapidamente para Stella e dirigindo-lhe um aceno curto com a cabeça, como era costume dos japoneses.

- Reita, Reita, Reita, trouxe o Taro-kun? – O que permanecia sentado na cama ergueu os dois braços, esperando que o recém chegado lhe entregasse algo, o que não demorou a acontecer. O loiro tirou a alça presa em seu ombro, estendendo com cuidado para Uruha uma capa de violão.

- Foi difícil encontrar no meio daquela bagunça que você chama de quarto. – Comentou enquanto entregava o instrumento para o outro, que já o retirava a capa e começava a mexer nas cordas, para ter certeza de que estavam todas afinadas.

- A Okaa-san estava em casa? – A pergunta saiu em meio às notas desafinadas do Ré, que ele logo tentava arrumar apertando sutilmente uma cravelha. Stella, alheia à vida de Kouyou, apenas observava quieta a conversa dos dois amigos.

- Não, me encontrei somente com seu pai. Ele falou que ela foi passar uns dias na casa da sua tia. – Falou indo até uma cadeira que havia ao canto do quarto, puxando-a e levando-a para perto do leito. Sentou-se praticamente de frente para Stella, porém seu olhar ainda estava na figura do outro brincando com os acordes do violão.

- Etto... Acho que ela está mesmo tentando esquecer de mim – O loiro sobre a cama parou de mover os dedos pelas cordas, fazendo o quarto entrar em um instante de silêncio, quebrado apenas pelo volume baixo da televisão. Abaixou a cabeça rapidamente, levando uma mão aos cabelos e bagunçando-os de leve.

- Yare, cala essa boca, seu imbecil! – Akira ergueu-se ligeiramente, esticando o braço para perto do outro e acertando-lhe um tapa no topo da cabeça. Nos lábios de Kouyou formou-se um bico, deixando escapar com um tom manhoso um “itai, Reita!”. – Não fique falando esse tipo de coisa na frente de... estranhos. – Voltou a sentar-se, olhando de esguelha para Coffee.

A loira, que havia relaxado a expressão por conta da última frase de Uruha, voltou a franzir o cenho e perguntou-se se aqueles dois possuíam ao menos um pingo de discrição. Em seu âmago algo lhe dizia que a resposta para quilo era, provavelmente, negativa.

- Mas não é estranha! É a Coffee-chan! – Olhou reprovadoramente para Akira, como se o amigo houvesse falado algum tipo de absurdo. Stella semicerrou os olhos, começando a sentir-se invisível naquele quarto, afinal os dois haviam começado a discutir sobre ela... na frente dela. Gostaria de recordar-se quem exatamente havia lhe dito que japoneses eram extremamente educados.

- Moça, não repare, por favor. – Reita virou o pescoço para poder fitar a loira, que ainda olhava de um para outro. – Ele acha que todo mundo quer ser amigo dele.

- Não fala assim, Reita! – Protestou como uma criança contrariada, permanecendo com o bico característico de sua personalidade infantil.

- Você toca violão? – Interrompeu Stella, sentindo-se entediada com aquela discussão que provavelmente tornar-se-ia interminável. Os outros dois pararam de falar e entreolharam-se rapidamente, Uruha sorrindo e Reita parcialmente surpreso. Era difícil encontrar pessoas que simplesmente os mandava fechar a matraca; e de um jeito subentendido.

- Haaai! – Riu, voltando a ajeitar o instrumento sobre as pernas, apoiando também um dos braços na parte de cima. – Eu e o Reita estávamos montando uma banda, antes de eu acabar “me mudando” para cá.

- Oh sério? – Olhou para o outro, que esticava as penas e recostava as costas no encosto do assento. – E você, Reita, toca o que?

- Baixo – Respondeu, coçando a bochecha por debaixo da faixa que usava no meio do rosto, sobre o nariz. Stella arqueou uma sobrancelha, só percebendo aquele pedaço de pano naquele momento.

— Você toca alguma coisa, Coffee-chan? – Perguntou Uruha curioso, fazendo a loira voltar novamente a atenção para si.

— Fiz aula de piano quando eu era pequena, mas só lembro como toca o “do ré mi fá”. – Contou em meio a uma risada curta, recordando-se de como era inábil com o piano, o que a fez desistir do instrumento após um ano de curso.

— Eu aprendi a tocar copiando o guitarrista do Luna Sea – Comentou, olhando para a luminária balançando levemente no teto. – Foi um pouco difícil, mas acho que deu certo.

— É... tem gente que nasce com talento pra música, tem gente que não... – Riu, tentando contar mentalmente os inúmeros instrumentos que havia tentado aprender até os dezoito anos, quando se deu conta de que música não era seu forte.

— Com visitas já a essa hora, Kouyou-san? – Coffee e Reita, que estavam praticamente de costas para a porta, viraram-se para trás observando uma enfermeira de meia idade entrar no quarto. Stella a reconheceu do dia anterior, tendo sido ela a fazer Kouyou parar de correr no meio do corredor com a menina na cadeira de rodas.

A loira abaixou a cabeça para dar uma olhada no relógio em seu pulso, constatando que era realmente cedo. O ponteiro das horas aproximava-se acanhadamente do número oito, mesmo parecendo ser bem mais tarde.

— Akira-san desculpe-me, mas tenho de levar o Kouyou-san para fazer alguns exames. – Falou a enfermeira, já se aproximando da cama de Uruha e começado ajudá-lo a tirar os tubinhos presos em seu rosto.

— Tudo bem. – Suspirou, levantando-se de onde estava. Esperou que a mulher terminasse de tirar os aparelhos de Kouyou para então aproximar-se de seu leito com o olhar um pouco baixo. Tirou o violão de cima das pernas do outro, para colocá-lo em um canto qualquer do quarto, e com a mão livre afagou indelicadamente o topo de sua cabeça.

Se os ouvidos de Stella não a houvessem enganado, Akira havia desejado em voz baixa que Kouyou ficasse bem.

(...)

Levou a xícara perto da boca, assoprando levemente o café fumegante antes de encostar os lábios na porcelana, bebendo em um gole curto a bebida cálida. Segurando-a pela asa, depositou-a sobre o pires causando um ruído baixo, logo voltando o olhar para o jovem sentado à sua frente.

Reita observava tranquilamente o próprio café, ainda intocado, pensando no amigo que deveria estar no momento fazendo seus exames rotineiros. Sabia que Uruha detestava fazê-los, pois segundo o mesmo alguns eram um pouco doloridos. Doía-lha na alma deixá-lo todos os sábados perto das oito da manhã enquanto ele o olhava com uma expressão triste. Era uma das poucas vezes em que o via desanimado.

— Hm... Vocês se conhecem há muito tempo? – O loiro ergueu o olhar, vendo Stella apoiando os dois braços na mesa alta, já tendo terminado sua xícara de expresso. – Você e o Kouyou. – Especificou.

Não era da natureza da loira ser curiosa, entretanto não havia muito que perguntar para o outro em sua frente e faria de tudo para não cair em um silêncio mórbido e incomodo. Indagou-se o porquê de ter aceitado o convite, que fora feito apenas por educação, para tomar um café na cantina do hospital.

— Desde a quarta série no ensino fundamental. – Respondeu, alcançando a colherinha que havia descansado na pontinha do pires e começando a mexer a bebida, que já começava a esfriar. – Eu o defendi de um garoto que estava zombado dele por causa da bombinha para asma. – Riu curto. Desde então, não conseguia recordar-se de um dia em que não estivessem juntos.

— Ah... Então ele está aqui por causa da asma? – Franziu o cenho; asma era a última coisa que pensaria a respeito da doença do outro.

— Não, não. Antes fosse. – Voltou a encarar a loira, precisando pensar um pouco antes de falar o que o amigo tinha, afinal nunca conseguia pronunciar com certeza. – O Kouyou tem bronquiectasia. – Vendo a expressão interrogativa da outra, prosseguiu tentando explicar de uma maneira simplificada. – Os brônquios dele são deformados, por causa da perda de elasticidade. Estão cada vez mais entupidos e vão aos poucos sendo destruídos. – Concluiu com um suspiro pesado, lembrando vagamente de quando sua mãe havia o chamado para uma “conversa”, que nada mais era do que explicar o motivo de seu amigo estar há três dias longe do colégio e sem dar notícias.

— Anou... – Stella desviou o olhar rapidamente, pela primeira vez desde que chegara naquele lugar não sabia ao certo o que falar. Egoistamente, e como a maioria das pessoas que ali se encontravam, imaginava que o problema dele não fosse grave como o de seu pai. – Mas tem como reverter iss--

— A única saída para ele é um transplante. – Cortou prevendo a pergunta da mais baixa, que era a mesma que a de todo mundo que perguntava o que Uruha possuía. – É um pouco difícil, pelo tipo sanguíneo dele ser ‘O’, mas ao menos temos uma esperança para nos agarrar.

— Entendo. – Voltou a fitar o outro loiro, detendo-se na faixa que usava sobre o rosto para distrair-se. – Espero que dê tudo certo.

Akira deu um sorriso curto, por educação. Sabia que não era realmente sincero o desejo da loira; já havia escutado diversas vezes, de diversas pessoas, e de diferentes maneiras, desejos de ‘boa sorte’. Não conseguia definir se ficava agradecido ou indignado. Kouyou era uma boa pessoa, merecia ouvir aquele tipo de coisa de modo puramente sincero, e não da boca para fora.

— Obrigada. – Agradeceu sem vontade, olhando para os ponteiros do relógio grande pendurado na parede oposta, ao lado de um calendário eletrônico. – Agora eu preciso ir, Dona moça. – Falou colocando sobre a mesa o dinheiro suficiente para pagar pelo café de Stella e pelo o próprio, que não havia consumido. Antes que a loira pudesse protestar, querendo ela mesma pagar o seu, Reita já se despedia com um aceno e saía andando.

Observou o outro afastar-se, com as mãos nos bolsos laterais da calça larga e passos calmos, até atravessar a entrada grande da cantina. Suspirou cansada, abaixando a cabeça e encarando as próprias mãos.

- Speranza... Io voglio una, papà.¹

¹- Esperança... Eu quero uma, pai.

Notas finais
Olá~
Primeiramente, agradeço de coração as reviews. Elas foram lindas. Agradecimentos especiais à Pitty-chan (amada, amei seus reviews, foram lindos.) e a Annie, que comentaram no capítulo anterior
Bom, acho que agora terminou a parte 'chata' da história, talvez a partir do próximo as coisas fiquem mais interessantes.
Aviso, não esperem por adrenalina aqui xD. Não terá Reita socando paredes, ok? /antiteshisfeeling.
Mas aguardem muitas emoções x3
Com o decorrer dos capítulos muitas coisas serão explicadas, inclusive a doença do Uruha, então peço paciência. Não irei correr com a história.
Desculpem a demora... essa semana foi difícil lá no meu trabalho... chegava em casa morta de cansada.

Agradeço novamente à Annie, que me aturou o dia inteiro enchendo o saco por causa de Tempus Fugit XD.

Beijos meus amados, e até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.