Tempos de guerra
8 Sua nova... serviçal.
Notas iniciais
Alguns dias se passaram, eu já estava me acostumando ao novo local. Minha "casa" era até que aconchegante, possuía uma sala principal, com um computador em um dos cantos junto a uma cadeira, um enorme tapete decorativo no centro e algumas bandeiras com losangos desenhados presas nas paredes. Havia uma porta que levava a uma pequena área de treino, com alguns alvos, sacos de pancadas e três rapieiras penduradas na parede. Outra porta levava da sala principal a uma pequena sala com algumas ferramentas de limpeza, reparos, e um pequeno banquinho. Todas as manhãs, a General convocava os soldados para o pátio central, onde dava todas as instruções sobre horários de treinos e descanso, e nos informava sobre como andava a guerra tanto em Homeworld como na Terra.
Ao contrário das tropas normais do exército, na Divisão O não precisávamos fazer tantos trabalhos braçais a não ser treinar. A maioria do trabalho ficava com as Pearls, que faziam de tudo; carregavam objetos para suas donas, afiavam suas armas, limpavam suas moradias. Era possível ver Pearls em vários locais fazendo diferentes tarefas, todas com olhares cabisbaixos, como o de quem não tem nenhum propósito, a não ser trabalhar como um escravo. Isso tudo era algo que me intrigava, a General havia dito que logo logo eu também teria a minha, mas isso era algo que eu não queria, eu não concordava com aquele modo de tratar uma Pearl, pois elas eram Gems assim como eu. Fiquei por vários dias pensando sobre isso, qual seria minha atitude perante essa situação, mas não consegui pensar em uma resposta a tempo.
—Bate mais forte!! -Dizia a Amethyst, a mesma que estava na nave comigo após a ultima batalha- Acaba com esse saco de pancadas!!
A enorme Jasper batia sem dó em seu alvo, o saco de pancadas. Cada soco parecia um tiro de canhão, eram rápidos e extremamente fortes, talvez ela conseguisse derrubar uma parede com apenas um daqueles. Eu observava de longe, enquanto afiava as laminas de meu sabre-duplo. Vinha observando aquela Jasper a um tempo, ela era uma das mais respeitadas entre os soldados, mas não por admiração e sim por medo; ela era sem duvida a mais forte entre todas as Gems da divisão. Fiquei observando cada movimento, algo me chamava a atenção, mas era algo ruim, tinha uma mau pressentimento sobre ela. Após um de seus socos seu punho atravessou a saco de pancadas, a Amethyst ao seu lado então comemorou.
—É isso ai!!! As rebeldes tremem quando te encontram no campo de batalha!!!
—Hmm, é o melhor que podem fazer -Disse a Jasper, com um sorriso maligno no rosto- Afinal, duvido que consigam me vencer.
As duas então saíram andando, deixando o saco de pancadas furado para trás. Terminei de afiar minhas laminas e voltei para minha "casa". Durante o caminho relembrei meus momentos na rebelião, lembrando de vários momentos com Emerald, aquela que um dia fora minha melhor amiga. Andei com um sorriso triste no rosto, eram boas lembranças, mas que traziam tristeza. Foi assim que cheguei até meu destino, coloquei a mão na porta, que logo emitiu um "beep" e abriu. Empurrei-a, e ao entrar me deparei com algo que não esperava tão cedo. Ela estava parada no meio da sala principal, olhando para mim. Era um Black Pearl, usava um maiô preto, com um saia cinza transparente curta na frente e triangular e comprida atras. Sua pele era cinza, tinha cabelos negros e lisos que ia até os ombros, com uma franja cobrindo todo o olhos direito e a maior parte do olhos esquerdo. Tinha uma pérola negra logo abaixo de seu pescoço. Fiquei la parada, olhando para ela, que logo fez uma reverencia e se apresentou.
—Sou Black Pearl, sua nova... serviçal. -Disse ela, com uma voz baixa, porém doce e bela.-
—Bem... -Minha expressão ficou séria- Sou Lignite.
E com essa minha apresentação seca, fechei a porta e me dirigi ao computador, me sentando na cadeira que ficava próximo a ele e começando a apertar alguns botões. Na verdade eu não precisava fazer aquilo, não tinha nenhuma obrigação pendente, mas não sabia oque fazer naquele momento. Fiquei entrando em qualquer arquivo, fingindo que estava lendo, e de vez em quando olhava de relance para a Pearl; que ficava olhando para os lados, observando o local. Era notável que ela estava tão confusa quanto eu, acredito que fosse pelo fato de eu não ter dado nenhuma ordem, como ela esperava que eu fizesse. Eu estava meio nervosa, oque eu iria fazer agora? Como deveria agir diante daquilo? Estava quase tendo um ataque de nervosismo, quando alguém me chamou do lado de fora da porta. Me levantei e andei até a entrada, sempre seguida pelo olhar da Pearl, e abri a porta. Era uma Rose Quartz.
—A General solicita sua presença na sala dela. -Disse a Quartz-
Fiz que sim com a cabeça, esperei a soldado ir embora, e então sai, fechando a porta e deixando a Pearl dentro. Fui até a sala da General, que ficava ao centro de todo aquele quartel. Ao chegar fui barrada por duas Emeralds.
—Oque você quer? -Disse uma delas-
—A General solicitou minha presença. -Disse-
Uma das Emerald entrou na sala, e logo saiu. Ela disse algo no ouvido da companheira, e então as duas abriram caminho. Entrei na sala, e encontrei a General sentada em uma espécie de trono flutuante.
—Minha cara Lignite... é isso não? -Disse a General-
—Sim, General. -Respondi-
—Te chamei aqui apenas para te avisar de que, amanhã sera um dia especial para você. Se lembra que eu te disse que como membro da divisão, você poderá participar de assuntos políticos de menor importância?
—Sim, General.
—Então, haverá um pequeno julgamento amanhã de duas Gems que infringiram uma das leis de Homeworld, e como é necessário uma representante militar, porque não você? Afinal, você é nova aqui, ainda esta com a cabeça fresca, sem muitas preocupações.
A General nunca tirava aquele sorriso malicioso do rosto, como se quisesse o mal de qualquer Gem ficasse em sua frente. Era óbvio que ela queria me testar, testar minha lealdade, como eu me portava diante das leis de Homeworld.
—Entendido? -Perguntou a General-
—Sim! -Cruzei os braços, formando um losango com as mãos-
—Dispensada!
Sai da sala mais uma vez pensativa, quem eu iria ter que julgar? Será que faria isso sozinha ou com mais alguém ao meu lado? Porque duas Gems estariam sendo julgadas? Fiz essas questões para mim mesmo durante o caminho. Ao chegar novamente em minha residência, abri a porta, e para minha surpresa não encontrei a Pearl na sala, como achei que fosse encontrar. Escutei alguns barulhos vindos da sala de treinos, eram barulhos de alguma lamina cortando o ar. Fui andando lentamente até a sala, e ao chegar la, fiquei surpresa, não espera ver aquilo. A Pearl estava segurando uma das rapieiras que ficavam penduradas na parede, e golpeava o ar. Dei um pequeno sorriso ao ver aquilo, claramente ela não tinha nenhum conhecimento sobre esgrima. Segurava a rapieira com as duas mãos, e dava golpes horizontais e verticais. Só o peso da espada desequilibrou a Pearl várias vezes. Fiquei olhando ela por alguns minutos, achei aquilo... bonitinho. Até que a Pearl me viu, até me assustei com sua reação; ela largou a espada, correu em minha direção e se ajoelhou em minha frente, relando sua testa no chão.
—Per... perdão Mestre Lignite... Eu... Eu sinto muito por ter te desrespeitado.
—Uhh... Bem... Não tem problema. -Disse, meio confusa-
A Pearl levantou a cabeça, me olhando com algumas lagrimas saindo de seu rosto, ela achou que seria punida, o que provavelmente aconteceria com qualquer Pearl que fizesse aquilo, mas eu não iria fazer.
—Venha. -Estendi a mão para ela- Quer que eu te ensine como usar uma espada?
—Eu... -Os olhas dela brilharam, ela pegou em minha mão e se levantou- Eu adoraria.
Peguei a rapieira do chão e dei em suas mãos.
—Essa é uma espada leve, então deve ser usada com apenas uma mão. -Disse- Coloque seus pés separados, um mais a frente e outro mais atras, e distribua seu peso igualmente nas duas pernas.
A Pearl foi seguindo minhas instruções passo a passo, escutando atentamente cada palavra que saia de minha boca.
—Muito... obrigado Mestre. -Disse a Pearl-
—Me chame apenas de Lignite.
—Tudo bem.
—Posso te chamar de Black? -Perguntei-
—Claro, Mestr... Digo, Lignite.
Dei um pequeno sorriso, e continuei instruindo Black pelo resto do dia. Ela realmente queria aprender a lutar, se esforçava bastante para fazer o melhor que conseguisse.
Continua...
Fale com o autor