Notas iniciais
Mexendo no Pc encontrei essa fofurinha, então resolvi postar. Lembrando que não foi betada Boa leitura.

Era para ser o dia mais feliz das suas vidas, foram quatro anos juntando dinheiro e organizando os detalhes. Escolheram o lugar da festa. Um resort paradisíaco, localizado na costa de Kyoto, no pequeno pedacinho de céu alugaram também um charmoso bangalô com características de Flat, lugar ideal para curtirem a lua de mel. A Cerimônia do enlace e a proclamação dos votos seria a beira-mar, onde Koushi e Daichi se tornariam marido e marido, tendo como testemunhas de sua felicidade seus familiares e amigos mais íntimos.

Sawamura Daichi compreendia a realidade na qual estava inserido e os motivos para ter que repensar a data tão sonhada. A quantidade de pessoas infectadas ou mortas pela covid-19 era absurda. Demoraria para que o mundo se recuperasse dos impactos sociais causados pela doença. Ele era solidário com a dor das vítimas ( em grande parte idosos) e dos seus familiares, impossível não ser? Daichi era policial (uma das forças da segurança pública do Japão) trabalhava na linha de frente no combate ao coronavírus. Acompanhava de perto os mais variados tipos de situações, algumas o tocavam profundamente, chegando muitas vezes a bagunçar com seu psicológico. Além disso, adiar a data do casamento também era pensar na segurança de pessoas queridas que estariam na cerimônia e em todos que prestariam serviço na ocasião para que tudo saísse perfeito. Jamais colocaria suas vidas em risco.

Suspirou. Estava sentado na engawa há um bom tempo. Pernas encolhidas, braços envolvendo os joelhos, cabeça recostada no Shōji. A mente viajava enquanto admirava a beleza do jardim japonês, um dos maiores motivos para ter se apaixonado por aquele resort. Sua linguagem corporal denunciava seu estado de espírito. O entendimento que a razão lhe concedia diante dos fatos, não amenizava a dor que se instalou em seu coração desde que ele e Suga optaram pelo adiamento do casório. A perguntinha incômoda sempre entrava em conflito com sua consciência moral:

"Por quê?"

Daichi se sentia injustiçado, mesmo que não fosse. Vivia com o Sugawara Koushi há mais de seis anos, namoravam há doze, há quatro colocaram a primeira moeda no cofrinho, dando o simbólico pontapé inicial no sonho de toda uma vida… Okay! Ele sabia. Não existiam culpados por suas frustrações, tampouco nobreza naqueles porquês encarcerados no fundo de sua alma.

− Como você está?

Sugawara perguntou sentando-se ao seu lado, mas não teve resposta. Tal qual ele, Daichi vestia uma yukata confortável, cortesia do resort. O cheiro gostoso de flores que o recepcionou o fez se lembrar do cunhado “...O resort é um oásis escondido em Kyoto. Vocês, irão amar...” O irmão mais novo de Sawamura usou essas mesmas palavras quando lhes apresentou o lugar, em um site de reservas. Ele e Daichi buscavam um lugar que agradasse a ambos, tendo em vista suas personalidades. − Eu pedi algo 'pra gente comer. Já devem estar trazendo.

– Hm. – Daichi resmungou.

Um resmungo não era o que esperava, mas dificilmente teria outra resposta. Sugawara não aguentava mais ver o outro triste, um dos efeitos colaterais que Sawamura vinha apresentando nos últimos meses, além de ansiedade, irritação e insônia. Assim como boa parte do mundo, literalmente. Há meses estavam vivendo sob grande estresse, Daichi mais que ele, estando no olho do furacão. Koushi era professor universitário, estava trabalhando em sistema home office desde que a OMS decretou a pandemia, nessa mesma época tomou uma sábia decisão (em prol da própria saúde mental) desligou-se quase por completo das mídias sociais, um privilégio negado ao noivo, que teve que trabalhar dobrado. Foi quando percebeu o esgotamento mental pelo qual seu amado vinha que resolveu ouvir o conselho de Asahi e Nishinoya, seus padrinhos de casamento:

"Por que vocês não aproveitam a reserva do resort, independente de adiarem ou não a cerimônia? Já está tudo pago mesmo. Ao menos tiram uma folga dessa loucura toda."

O casal de amigos tinha razão, eles precisavam daquele descanso, mesmo que fosse impossível aproveitar de todos os mimos que o resort ofereceria em circunstâncias normais, devido às normas sanitárias impostas pelo governo Japonês.

Suga encostou a cabeça no ombro de Daichi. Permaneceram em silêncio por um tempo, a vista à frente era realmente linda. De fato, era frustrante não poder explorar mais aquele oásis. A propaganda no site salientava em letras garrafais: “Venha conhecer a bela Kyoto, na temporada das flores!” E logo que chegaram ao resort confirmaram que não havia mentira alguma na divulgação. O lugar era incrível. Os sons da natureza, as cerejeiras e sakuras, a diversidade de plantas ornamentais e flores… a lua de mel dos dois seria certamente inesquecível ali.

Uma tristeza a pandemia ter afastado os turistas e deixado em dificuldades financeiras diversas famílias do lugarejo, que em sua maioria tiravam seu sustento exclusivamente do turismo naquela região.

Do nada Daichi começou:

— Sei que devemos ser gratos, estamos saudáveis, nossos amigos e familiares também. Não perdemos nossos sustentos, mas… – calou-se, estava envergonhado de dizer o que passou em sua mente.

—Eu sei. – Suga conhecia-o bem. Desde sempre, para ser mais exato. Sabia que expor seus resmungos internos não era algo que ele gostava de fazer nem mesmo diante dele. Daichi foi seu primeiro amigo de verdade. Se lhe perguntassem, não saberia dizer quando a amizade tornou-se namoro, muito menos de quem partiu a iniciativa de transformá-la em alguma coisa a mais, todavia recordava, com riquezas de detalhe, do primeiro beijo dos dois... Amava demais o homem que agora tomava sua destra no intuito de entrelaçar seus dedos. – Ano que vem…

Daichi colocou o indicador da mão livre sobre os seus lábios.

–Não, por favor... – Não queria ouvir outro discurso pronto. –Estava cansado de todos eles – Eu sei, nem sempre as coisas vão acontecer do jeitinho que quero, mas deixa eu ficar chateado só um pouquinho. Daqui a pouco vai passar...

Suga sentiu quando a primeira lágrima tocou seu ombro e a segunda, a terceira… deixou o noivo extravasar. Não havia muito o que fazer, que não apoiá-lo. Entre eles, Daichi sempre foi menos emotivo, ou melhor, o que conseguia disfarçar melhor suas emoções, ele sim, era a manteiga derretida da relação.

Minutos se passaram antes que um barulho chamasse a atenção dos dois. Os proprietários do shōji aproximaram-se deles, um casal de idosos super fofo e a filha deles. Durante as negociações para alugar o bangalô, Sawamura Daichi e Sugawara Koushi tiveram muita afinidade com aquela linda família. Os Hatakes estavam super engraçados vestindo quimonos tradicionais com as máscaras descartáveis e também os protetores faciais, mas o que mais chamava a atenção era o arranjo de flores que a senhora Hatake tinha em mãos. Foi a hora de Suga se emocionar:

—O quê?!

O rapaz colocou-se de pé num minuto e Daichi o imitou. A idosa abriu um imenso sorriso e colocou as flores e um cartão nos braços do Suga. Avisou que poderiam ficar tranquilos, pois tinham realizado a higienização de todos os itens que seriam entregues a eles, a partir dali o esposo dela entregou uma caixa grande nas mãos de Sawamura, em seguida curvou-se em um cumprimento respeitoso, por último, a filha do casal colocou um notebook sobre a caixa que Daichi segurava, e ele logo reconheceu o objeto como sendo seu.

Daichi e Suga ficaram sem entender nada até que o filho mais velho dos casal apareceu no cenário, o jovem empurrava um carrinho hoteleiro bem abastecido. Bebidas, salgadinhos, doces, tinha de tudo. Porém o mais surpreendente foi o bolo de casamento. Os noivinhos sobre ele eram a coisa mais graciosa do mundo.

Sem cerimônia alguma os recém-chegados pediram licença e começaram a arrumação no interior do shōji.

Sugawara apertou as flores contra o corpo, sinal nítido de seu nervosismo, a ficha dos dois começando a cair. Daichi embora não demonstrasse também tinha os batimentos cardíacos descompassados.

— Abra o cartão. – Daichi pediu baixinho diante da inércia de Suga. A fala ao pé do ouvido fez o outro acordar do choque causado pelo inesperado.

"Rapazes, os dois têm vinte minutos para vestirem os hakamas que estão nessa caixa, do contrário daremos início a celebração do casamento de vocês, sem a presença de vocês. Entenderam?

A frase seca, já entregava quem a escreveu. Kiyoko e Tanaka Ryuunosuke não deixariam uma data tão importante para seus amigos passar em branco. Agora O casal compreendia a insistência de Nishinoya e Asahi para que não desfizesse as reservas.

— Anda, Suga. Vamos nos arrumar! – E lá estava ela, à firmeza peculiar sobrepondo-se à depressão tão incomum. Como Koushi amava aquele homem.

Em vinte minutos, cravados no relógio, os noivos estavam trajando as vestes cerimoniais, um presente de Hinata e Kageyama, e encontravam-se diante do notebook. A ornamentação foi concluída em tempo recorde no chabudai.

—Pronto?

—Pronto. – Daichi respondeu.

Ansiosos, deram início a videoconferência. Azumane Asahi e Nishinoya Yuu entraram na sequência. Noya reclamando do haori de Daichi, que em suas palavras estava uma bagunça, já o Azumane suavizou, dizendo que ele estava lindo! A mãe e o irmão mais novo de Sawamura entraram discretos no chat, do mesmo modo fizeram os familiares de Koushi, em alguns minutos os pobrezinhos nem pareciam estarem ali.

— Neh, Kageyama! E não é que os senpais ficaram apresentáveis. – Hinata zombou ao surgir na tela.

— Oe, Hinata! Não dê motivos para me arrepender de ter lhe chamado para ser um de nossos padrinhos de casamento – Suga chiou.

— Ai, Kageyama. Por que tu fez isso? – Hinata gritou após ser acertado por um cascudo dado por Tobio.

— Eu disse pra respeitar o momento dos dois, Hinata boke. – Kageyama o repreendeu.

Enquanto a dupla dinâmica trocava farpas, só para variar, foi a vez de Tsukishima Kei e Yamaguchi Tadashi, que coincidentemente isolaram-se juntos na quarentena, unir-se ao grupo. Depois disso a tela foi se enchendo de carinhas conhecidas: Hitoka, Ennoshita, Narita, Hisashi, Saeko… e depois deles, os mais velhos também deram o ar da graça. Takeda-sensei e o esposo, Ukai, que haviam se casado há alguns anos, para alegria de seus antigos alunos.

— Sugawara – Tsukishima chamou e capturou a atenção de Suga, que ainda custava a acreditar no que estava acontecendo – O que é isso aí no canto de seus olhos? – Kei apontou para a tela – É uma lágrima?

— Tsuki, não seja mau com o Suga-senpai. – A voz de Yamaguchi era doce como sempre.

— Vocês dois estão namorando? – A pergunta partiu de Hinata, e foi dirigida para Kei e Yamaguchi. Não demorou para o rapaz levar outro cascudo – Ai, Kageyama!

— Não seja inconveniente, nunca foi segredo pra ninguém que eles dois têm um rolo!

A observação fez uma algazarra de risos invadirem o shōji, Kei e Tadashi, não enganavam mais ninguém, nem mesmo Tobio e Hinata que eram os mais lentos para perceber as coisas...

Outros amigos do casal ‘pipocaram no chat, incluindo, Kuroo, Kenma, Bokuto, dentre outros... trazendo cada vez mais felicidade para o casal.

— Daichi, Suga. Estão com as alianças?

— Sim, Takeda-sensei. – Os noivos responderam em uníssono.

— Está faltando mais alguém?

Yashi indagou e Ukai com a mão no queixo pareceu pensativo.

— Se faltava, não falta mais. Tanaka falou alto – Desculpem, mas alguém aqui estava com a fralda suja e morrendo de fome. Ryu apontou para Mirai, sua filhinha de seis meses de vida, que dormia um sono profundo no colo de Kiyoko, que acenou para os presentes.

— Já que estamos todos aqui, vamos começar logo essa celebração, antes que os noivos desistam.

Noya reclamou num tom brincalhão e todos os que estavam online começaram a gritar e a vaiá-lo. Uma linda confusão de vozes e sorrisos invadiu o cômodo fazendo-os recordar os velhos tempos e esquecer um pouco dos acontecimentos tristes pelo mundo afora.

— Mas quem irá celebrar o casamento?

A pergunta foi feita também em uníssono. cada um deles pensou em um detalhe da celebração simbólica. Uma verdadeira missão, que uniu muitos esforços para que Suga e Daichi pudessem realizar o sonho de suas vidas, cada um em sua casa, é claro.

Tinha tudo para dar certo, no entanto, ninguém pensou no principal. O celebrante.

Suga já estava se preparando para surtar e Takeda-sensei, para iniciar um embromation que englobasse força de vontade, superação dos obstáculos e aproveitar a juventude, mas foi devidamente calado pelo esposo, que deixou um selinhos em seus lábios para aquietá-lo

— É, hm..

Suga e Daichi levantaram os olhos para a porta de entrada. O filho dos proprietários se encontrava lá. A timidez expressada na face.

— Cof, cof. É...– O jovem começou, parecia a personificação da insegurança – Se vocês não se importarem com o tipo de cerimônia... posso dar uma bênção aos dois…

Suga e Daichi se entreolharam por um segundo e não demorou muito para que ambos abrissem um enorme sorriso, um consentimento na verdade. Em seus corações não precisavam de mais nada, pois já sabiam o quanto eram um casal abençoado.

Cena extra.

Se tudo tivesse saído como o plano inicial, o casamento deles não teria sido tão perfeito. A presença e o carinho de todos, o bolo, os docinhos, as vestes cerimoniais, a linda celebração… e diga-se de passagem: que linda celebração! A insegurança do filho dos Hatakes mostrou-se totalmente infundada quando ele pediu que Koushi e Daichi dessem as mãos e proclamassem seus votos próprios...

Sugawara e Sawamura receberiam as bênçãos de um monge no templo, jamais passou pela cabeça de nenhum dos dois ter uma benção cristã, mas foi o que tiveram. Descobriram que o filho dos Hatakes era seminarista e se tornaria padre naquele dia, caso não tivesse sido instaurada a quarentena e ele tivesse ficado no seminário. Uma feliz coincidência que deixou o casal bastante feliz, mas o futuro padre ainda mais, pois o jovem também teve a confirmação de sua vocação…

— Você não vem dormir? – A pergunta de Sugawara precedeu um bocejo, no entanto o sono deu lugar a admiração no momento que chegou na porta do bangalô. – Uau!

— É lindo, não é?

— Sim. – Sugawara respondeu e em seguida abraçou o marido por trás. A vista noturna do jardim conseguia ser ainda mais bela que a diurna.

Daichi sentiu quando os braços do marido envolveram sua cintura e a respiração calma de Suga tocou seu pescoço, pôs seus braços sobre o do outro e passou a acariciá-los. Estava imensamente grato, em especial por tudo que aconteceu ao longo daquele dia, que havia começado repleto de lágrimas, dúvidas, e principalmente perguntas sem respostas, mas que no momento, enquanto ele admirava a beleza das flores sendo iluminadas pela luz da lua. Já não tinham mais o mesmo peso em sua mente, muito menos em seu coração.

— Mas sabe algo que consegue ser ainda mais lindo que a beleza de Kyoto a noite ? – Daichi perguntou e virou-se dentro do abraço, ficando face a face com o marido.

— Não, o quê? – Suga perguntou inocente, mas sorrindo.

— O sorriso do MEU esposo.

E ele não estava mentindo.



Notas finais
*Engawa: é um corredor externo que percorre a casa japonesa, como se fosse uma varanda. *Shōji: é um dos elementos mais comuns em uma casa tradicional japonesa. Trata-se de um painel ou porta de correr deslizante feito com um papel translúcido. *Hakama: tipo de vestimenta tradicional japonesa usada em situações extremamente formais, inclusive casamentos. *Chabudai: é uma mesa de madeira com pernas curtas utilizada para as refeições nas casas dos japoneses. *Haori: é uma jaqueta tradicional japonesa com mangas largas e gola estreita. *Bangalô: Casa de um andar, rodeada por uma varanda, típica da Índia e de outros países asiáticos e de zonas tropicais. Espero que tenham gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!