Tempo, todo poderoso
4 Algo descoberto
Notas iniciais
Eu me lembro da primeira vez em que vi Draco Malfoy, o menino de cabelos loiros impecavelmente penteados, parado ao lado de um casal que parecia ter vindo da realeza.
Lúcio e Narcisa Malfoy podem ter sido a escória do mundo mágico, mas nunca lhes faltou nada nos quesitos elegância e beleza, assim também como não faltava ao seu único filho.
Me lembro também que pensei deveria ter seu próprio grupo definido de amigos, e eu estava certa sobre isso, pois ao longo do tempo, ele se mostrou estar cercado sempre pelo mesmo grupo de pessoas tão arrogantes e ricas quanto ele.
Ao longo de nossos anos em Hogwarts, Draco e eu mantivemos uma relação de estrita inimizade, onde um não poderia ficar a menos de dois metros um do outro sem trocar insultos.
Então, quando a guerra finalmente estourou, e cada um de nós estava de um lado, acho que foi sorte nunca termos entrado em uma batalha real um contra o outro, ou um de nós não estaria aqui nesse sofá hoje.
Durante toda a minha vida eu enxerguei Draco Malfoy como alguém que tinha tudo e nunca precisou de nada, mas nos últimos tempos eu fui descobrindo que ele não estava melhor do que qualquer um no meio dessa guerra, na verdade, estava muito pior do que muitos, e isso me fez amolecer em relação ao garoto que antes eu tinha decretado odiar.
Quando Voldemort tomou sua casa como quartel general, ameaçou a segurança de sua mãe, e deixou seu pai a beira da insanidade, assombrado pelo medo, ele não teve escolha a não ser se juntar ao exército dos Comensais da Morte, os fiéis seguidores do Lord das Trevas, e isso fez com que o garoto arrogante e seguro de si que vivia dentro dele fosse morto e enterrado, dando lugar a alguém que temia sua própria sombra.
Então, quando o fim finalmente chegou, ele e sua família foram destituídos de todo o poder que um dia tiveram, por sua clara associação com o bruxo das trevas, e agora contavam com nada mais que o desprezo da comunidade bruxa, e com o pai em Azkaban, Draco e a mãe tinham que lidar com toda a merda sozinhos.
Por mais que eu nunca tenha tido qualquer contato com ela, além de rápidos encontros onde nunca conversamos, Narcisa Malfoy pode ter sido a verdadeira heroína desta guerra, quando arriscou sua própria vida declarando que Harry estava morto para Voldemort, enquanto ele ainda respirava, tudo por amor ao seu único filho, do qual não tinha notícias naquela época.
Eu tinha respeito pela coragem da mulher, e pela mãe que ela deveria ser.
Então, a voz de Draco, mais uma vez, macia e baixa, me tirou dos meus devaneios e me trouxe de volta para a realidade
— Nunca fiquei tão contente por ver essa sua cara azeda de quem está pensando em tudo e mais um pouco.
Ok, tudo de volta ao normal, hora de levantar Granger.
Quando me movi para sair de cima dele, seus braços me mantiveram cativa, o que fez com que ele ganhasse um belo olhar interrogativo.
— Você tem certeza de que está bem? Você parecia tão... amargurada. Realmente me assustou quando você começou a balbuciar e se balançar em cima da cadeira, achei que estivesse possuída de alguma maneira.
Eu sabia que estava corando outra vez, pois meu rosto estava em brasas, mas como eu não disse nada, ele continuou.
— E então, você começou a chorar como se nunca mais fosse parar, e você parecia tão, tão frágil.
Essa última parte foi tão baixa, quase como um segredo, sussurrado para que ninguém mais pudesse ouvir.
— Eu sinto muito, não queria que você tivesse presenciado isso, foi um ataque de pânico, algo que não tenho a muito anos, e achei que nunca mais voltaria a ter.
Sua expressão se tornou gélida e seu olhar de aço ao som da minha voz rouca de lágrimas.
— Não queria que eu tivesse presenciado porque não sou um de seus santos amiguinhos felizes?
Um tom cortante.
— Não queria que tivesse presenciado porque é algo que ninguém deveria ver, algo que eu mantenho para mim desde sempre, nunca compartilhando, e agora você conhece uma das minhas fraquezas mais deploráveis, e nem mesmo temos uma boa relação interpessoal.
Ele deixou sua cabeça cair de encontro ao encosto do sofá, soltando um longo suspiro.
— Não há nada de errado em mostrar suas fraquezas Granger, a menos é claro, que esteja em guerra e eu seja seu inimigo.
Ele riu amargamente de sua própria piada, que seria nossa realidade não muito tempo atrás.
— As vezes, deixar que pessoas que não somo próximos nos conheçam é melhor de que deixar aqueles que nos cercam o façam. Quem não convive com você não espera nada, mas aqueles que estão na sua vida vão julgá-la e esperar que o pior aconteça a cada momento de dificuldade.
— Quando foi que você se tornou um adepto da filosofia Malfoy? Muito tempo livre agora que não tem mais seus deveres sombrios e escusos?
Eu quis engolir minhas palavras no mesmo momento em que ela escaparam.
Lembrar a ele tudo o que tinha que fazer nos dias sombrios do passado recente não era a coisa mais educada a se fazer, principalmente quando ele tinha me ajudado nos eventos traumáticos do dia de hoje.
Então, qual não foi a minha surpresa quando ele riu do meu infame deslize.
— Não sabia que você tinha um senso de humor entalado debaixo de todos os livros velhos que você leu Granger, mas como estou descobrindo, há muitas coisas sobre você que são desconhecidas.
Então, ali, deitada naquele sofá, nas masmorras, com Draco Malfoy, eu me senti confortável como não me sentia a muito tempo, desde antes do meu mundo virar do avesso, e tudo que eu conhecia ser transformado em caos, poeira e sangue derramado.
Eu vi ali, naquele momento, não o menino que me insultava no corredores da escola enquanto éramos crianças, mas o homem que perdeu tudo e tinha ido ao inferno e voltado dele, depois de uma conversa com o Diabo em pessoa.
E como eu, ele fez um acordo para retornar, vendendo sua alma para circunstancias insípidas e causas perdidas, vendo seu mundo e tudo que conhecia ruir diante dos seu olhos.
Eu vi em Draco Malfoy um igual, alguém que entendia a dor da perda, e como isso nos tornava pessoas diferentes, pessoas que jamais imaginamos que iriamos nos tornar.
E quando ele voltou a me olhar, eu soube que ele viu o mesmo em mim, alguém para dividir os medos do futuro, e pesadelos do passado, que não julgaria ou tentaria dizer que tudo não passava de coisas da sua cabeça, e que você estava bem.
Então, bem no meio do nosso momento de auto compreensão universal e pessoal, o ruído de dezenas de pés batendo contra o mármore nos trouxe de volta a realidade, e ambos nos endireitamos de volta para nosso pés.
Minha cara devia estar em um estado deplorável, o que seria mais do que uma denuncia de que estivera chorando como se não houvesse amanhã, e isso somado a humilhação pública de ter ficado em estado catatônico diante de toda a escola, seria o fim perfeito para esse dia mais do que horrível.
— Seu quarto fica logo ali, deveria ir pra lá, a menos é claro que queira que todos vejam o seu rosto vermelho e inchado de que chorou até ficar sem voz, mas só avisando, nós, sonserinos, temos a rude mania de julgar.
— Meu quarto?
— Você é a monitora chefe não é?
— Sou. Como sabe disso?
— Houve um anúncio quando chegamos, mas você já tinha ido na frente de todos para o castelo. Então, você ganhou um quarto particular, meus parabéns.
Um quarto particular? Porra acho que essa foi a melhor notícia que eu recebi durante todo o dia.
Eu corri para a porta que Malfoy me indicara, e a fechei bem em tempo, pois vozes de todos os tipos entraram no salão, comentando sobre as férias, como a vida estava indo depois da guerra, de como estava o jantar, e para o meu eterno desgosto, do meu show hoje mais cedo.
Bem, não é como se eu pudesse impedir que eles comentassem, pois eu mesma comentaria caso acontecesse com outra pessoa, e de todos os meus defeitos, ser hipócrita não era um deles.
Eu me virei então para encarar a melhor coisa que me acontecera entre os eventos recentes, um quarto só pra mim, sem ter que dividir com ninguém, especialmente agora, que alguém eram sonserinas desconhecidas e provavelmente hostis.
Era simples e espaçoso, decorado com menos opulência que o salão, mas nos mesmo tons de púrpura, verde e prata que o aposento anterior, mas não havia nenhum lustre por aqui. Só uma cama, um criado mudo, e um guarda roupas, e eu não precisava de mais nada.
E havia, ó céus, um banheiro só pra mim. Todo branco.
Correr direto para a banheira de porcelana foi meu primeiro pensamento, mas então me lembrei de que não tinha nenhuma troca de roupa, e que meu malão provavelmente ainda estava no meio do salão de jantar, abandonado a sua própria sorte, para meu azar.
Me dirigindo para pia, eu molhei uma das toalhas de rosto dobradas sobre o criado mudo, e me deitei na cama com ela sobre meu rosto, no intuito de que isso diminuísse o inchaço.
Eu sabia que ficaria com fome mais tarde, por ter perdido o jantar, mas também sabia como se chegava a cozinha, e com minha boa amizade com os elfos que lá trabalhavam, não ia ser difícil arranjar algo para comer.
1 hora depois...
Caminhar por esses corredores no meio da noite era uma coisa que eu estava acostumada a fazer, uma vez que fiz isso incontáveis vezes ao longo dos anos com Harry e Rony, mas fazer isso sozinha era uma experiência completamente nova, e um pouco apavorante.
Eu fui direto para o grande corredor com a pintura do cesto de frutas, que escondia a entrada para a maravilhosa cozinha de Hogwarts, onde eu sabia, mesmo depois que todos já estavam na cama, os elfos estariam trabalhando a todo vapor para deixar tudo pronto para o café da manhã dos habitantes do castelo.
Quando finalmente alcancei a pintura, fiz cócegas na pera, assim como Fred e Jorge haviam me ensinado, anos antes, e a porta se abriu.
Como eu havia previsto, elfos domésticos corriam de um lado para o outro, carregando grandes tachos de cobre, panelas, copos e talheres, além da própria comida em si, sem deixar que nada se derrubasse.
Alguns, menos atarefados, vieram ver o que eu gostaria, e alguns minutos depois eu tinha uma travessa cheia de frango assado, purê de batatas, carne grelhada e pudim de leite.
Quando eu me coloquei a caminho de volta para o Salão comunal da Sonserina, eu pensei que não estava tão desapontada quanto, aparentemente, eu deveria ficar, a respeito de ter sido jogada da casa mais adorada de Hogwarts, para a mais odiada, como Draco havia me dito.
Mas também como ele havia dito, isso não mudava o foto de que eu era uma das melhores alunas que haviam em Hogwarts, fora minha fama como membro do tão saudoso “Trio de Ouro”, não que isso pendesse a balança a meu favor agora, já que seria visto como uma coisa extremamente controversa.
Durante todo o tempo que passei no castelo, sempre achei que as masmorras eram um estranho e complexo labirinto, mas no fim, era tão tranquilo quanto poderia ser aqui em baixo, e por mais estranho que parecesse, estava começando a ver as vantagens nessa conturbada troca.
Assim que passei pelas portas de entrada da sala comunal, eu me lembrei que não fui a única a perder o jantar, mas por sorte eu tinha mais comida do que poderia comer sozinha.
Eu me adiantei em direção aos dois corredores a direita da sala, mas então parei sem saber qual deles levaria ao dormitório masculino, e mesmo assim ainda tentei do da esquerda, e pareceu que minha sorte finalmente tinha começado a funcionar hoje.
Deitado logo na primeira cama perto da porta, estava o loiro que dormia tranquilamente, como se não houvesse nada para se preocupar no mundo lá fora, quem dera eu tivesse a mesma facilidade em adormecer que ele parecia ter.
Eu dividi a comida entre as travessas que carregava, e deixei uma sobre o criado mudo ao lado da sua cama, até mesmo deixei pra ele um pedaço do meu pudim.
E com um último olhar para o garoto adormecido, virei as costas e voltei para o meu próprio quarto, onde, para a minha gostosa surpresa, minhas coisas estavam me esperando ao lado da minha cama, e sobre o meu malão, um bilhete jazia esquecido, onde se podia ler a seguinte frase, escrita numa caligrafia curva e firme:
Não consigo entender o que aconteceu hoje no Salão Principal, mas sei que as coisas vão se ajeitar. Tenha uma boa noite Hermione.
Sua Diretora, Prof. Minerva MCgonagall.
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