A livraria estava cheia naquela noite, como era o costume das noites de lançamento. “Carminha Carmim e o mistério do Conde Villas” estava vendendo feito água no deserto, para a alegria dos envolvidos, mas não para a sua surpresa. As histórias de Carminha Carmim faziam muito sucesso entre as crianças. Não era à toa que a personagem criada por Alberto Souza e Eduardo Carvalho já estava no quinto volume de suas aventuras.

A obra criada na parceria escritor-ilustrador da dupla tinha rendido muitos sucessos de venda para a Editora Abobrinha, e o resultado podia ser visto naquela noite, na quantidade de crianças acompanhadas pelos pais, na livraria. Todas garantindo suas edições e tirando fotos com a representação colorida de papelão, em tamanho real, da Carminha, posicionada ao lado da mesa de autógrafos, sobre a qual pilhas do novo livro iam sendo subtraídas pelos integrantes da longa fila de jovens leitores, diante da mesma mesa.

Eduardo tinha passado a noite sorrindo, de peito estufado, enquanto as crianças iam e vinham, encantadas pela co-criação dele. Era verdade que Alberto tinha criado a personalidade ousada e divertida de Carminha, além de suas tramas detetivescas, que encantavam as crianças. Mas tinham sido os desenhos de Eduardo que captaram a sua essência, entregando-lhe o que fazia dela tão especial, entre suas botinhas coloridas, seu cachecol azul-bebê, seu sorriso radiante e seus olhos afiados. De certa maneira, ele se sentia mais dono de Carminha do que qualquer um.

E a melhor parte era que ele recebia por isso.

Nada colocava um sorriso no rosto de Eduardo como ser pago por um trabalho feito com amor. Ele ainda podia se lembrar de quando o seu pai, um vendedor de carros, lhe disse que desenhar nunca daria dinheiro de verdade. Agora, na beira dos 43 anos, um pouco mais velho do que o próprio pai, na ocasião, ele poderia rir com tranquilidade do comentário.

Não era como se aquela frase específica o tivesse traumatizado ou desmotivado. Via de regra, ele não levava essas coisas tão a sério, era um brincalhão. Tinha sido mais como se aquele momento carregasse em si a soma de todas as vezes em que alguém falou que arte não dava dinheiro e que ele deveria procurar um emprego de verdade. De qualquer forma, isso nunca o impediu de ir atrás do que queria, mesmo com força dessas reminiscências.

Não que ele estivesse rico com o que fazia. Muito pelo contrário. Não eram raras as vezes em que ele precisava economizar, parcelar ou deixar de comprar algo, como qualquer outro brasileiro assalariado fazia. Como qualquer pessoa, ele também fazia compras do mês em supermercados de atacado, sempre comparando preços, em busca do mais barato. Ele adorava descontos, brindes e promoções. E não era raro vê-lo andando a pé, de ônibus ou de trem. Raramente, utilizava motoristas de aplicativo e nunca pegava táxis.

E ele não passava fome, nem qualquer tipo de necessidade, o que provavelmente destruía as expectativas gerais que as pessoas costumavam ter da vida financeira dos artistas. Fazia vários trabalhos como freelancer e quase sempre tinha um livro para ilustrar na Abobrinha, o que garantia um bom fluxo de renda para ele, mesmo nos piores meses. Além disso, o sucesso dos livros de Carminha Carmim, sobre os quais Eduardo possuía alguma porcentagem de direitos autorais, tinha lhe garantido uma certa estabilidade financeira que nem um vendedor de carros teria.

Se as certezas individuais importavam, a sua de que tinha a vida dos sonhos era tudo o que bastava. Desenhava para viver, como tanto queria, e seus desenhos faziam sucesso o bastante. Tinha bons amigos, bons colegas, uma boa família e uma boa namorada.

— Olha aqui! – Rafaela disse, apontando a câmera do celular para ele.

Sem jeito, Eduardo fez uma pequena pose para ela, que sorria de satisfação. Não poderia ser diferente, uma vez que ela era uma das responsáveis pelo sucesso de Carminha, como a editora das histórias da personagem. Era mais do que natural querer registrar cada momento daquela noite, mesmo com a presença do fotógrafo oficial da editora no local.

Até Eduardo tinha que concordar com isso, embora não gostasse muito da ideia de ter fotos suas sendo tiradas. Não existiam muitas fotos dele por aí. Ele normalmente se desvencilhava delas como um Cascão foge do banho. Mas era praticamente impossível dizer “não” para Rafaela, especialmente desde que os dois tinham começado a namorar.

Ela era, para dizer o mínimo, tão assertiva quanto se espera de uma editora. Às vezes, isso significava “mandona”, o que podia ser irritante. Quase nunca era. Na maior parte do tempo, quando estava com ela, ele se sentia novamente como um garoto de 15 anos, com seu coração batendo forte e sua barriga congelando e fazendo nós. A única exceção era que, nesse ponto da sua vida, essas sensações eram bem-vindas, pois eram acompanhadas de menos timidez e de um calor elétrico muito confortável, que se apresentava toda vez que Rafaela sorria, ou falava, ou respirava, ou existia.

Na falta de um termo científico, ele chamava aquilo de amor.

— Como você está se sentindo? – Ela perguntou, colocando a mão em seu ombro.

— Eu estou bem. Feliz. Orgulhoso.

— Bom saber. Eu também estou muito orgulhosa. Como sua chefe e namorada.

— Você sabe que uma editora não é exatamente uma chefe, não é?

Como resposta, ela deu um sorriso insinuante e se virou, indo para outra direção. Era impossível segurar uma editora como ela parada em um só lugar de uma livraria tão grande como aquela, no centro da cidade de São Paulo.

— Vamos voltar juntos hoje? – Ele disse, esperançoso, levantando um pouco a voz para compensar a distância que se formava entre os dois.

Rafaela girou com os pés, mantendo as mãos nas costas e voltando-se para ele sem parar de andar na direção oposta, algo muito perigoso para se fazer num lugar cheio de crianças correndo. Mas ela, genuinamente, não parecia se importar com os riscos envolvidos:

— Hoje não. Eu tenho muito trabalho para fazer. Mas vamos jantar juntos no sábado, ok?

— Ok. – Ele disse, enquanto ela girava de novo, passeando pela livraria, tão encantada pelo ambiente como qualquer criança dali estava.

Alberto estava ocupado dando autógrafos, algo que Eduardo detestava fazer. Portanto, ele ficou no seu canto, assistindo a tudo, até o movimento começar a diminuir e o horário de fechamento da livraria, 22:00, se tornar uma iminência. Nesse momento, ele encontrou uma brecha na fila, bem mais diminuta, para se despedir do seu colega e, então, sair.

Voltar sem Rafaela não era a pior coisa que podia acontecer. Ele perdia uma carona e uma ótima companhia pela noite, mas ganhava espaço para os pensamentos. Ideias de personagens, formas e cenários fervilhavam em sua mente, abastecendo-o para os futuros trabalhos. Ainda que ninguém colocasse pressão sobre suas ilustrações ou o fizesse acreditar que precisava se provar (não mais, pelo menos), ele sabia que faria todos serem muito mais felizes se estivesse sempre no ápice da criatividade.

Ele também sabia que era impossível estar sempre no ápice da criatividade, mas tentar não era nenhum crime. Era preciso sempre se desafiar a inventar algo novo. Tendo isso em mente, ele alimentava um novo projeto de publicar uma história em quadrinhos, ainda voltada para o público infantil, talvez até infanto-juvenil. Rafaela concordou com a ideia, após terem uma curta conversa sobre o assunto:

— Eu tenho pensado em publicar uma história em quadrinhos. – Eduardo tinha dito, para a surpresa dela, já que ele não costumava tomar iniciativas desse tipo. Normalmente, estava satisfeito dando vida, através dos seus desenhos, para as ideias dos outros. Apesar disso, ela não o julgou. Todos tinham o direito de ter seus próprios projetos.

— Autoral? – Ela tinha perguntado e, após receber a confirmação dele, disse: – Legal. Faça uma interessante, e eu dou um jeito de publicar pela Abobrinha.

Mesmo conhecendo os altos padrões de Rafaela, ele tinha se empolgado com o desafio e, claro, com o apoio. Como editora, ela era conhecida por queimar os originais que não gostava (e eram muitos). É claro que isso era apenas um rumor, embora ela possuísse uma picotadora de papel no seu escritório e realmente a usasse para eliminar originais físicos reprovados da existência.

Não por maldade. Pelo menos, ele achava que não. E a conhecia bem o suficiente para afirmar coisas assim. Os dois trabalhavam juntos há mais de seis anos. Profissionalmente, ele não se lembrava de apresentar um trabalho sem ouvir um comentário crítico dela. No final de cada um desses dias, ele podia se sentir um pouco mais sábio por tê-la escutado. Se ela picotava os sonhos das pessoas, provavelmente era por achar que elas podiam melhorar.

Era incrível como, apesar de terem praticamente a mesma idade, ela conseguia realizar a façanha de parecer mais velha e mais jovem do que ele. Se tivesse que definir, Eduardo diria que isso era o resultado de uma perigosa mistura de experiência com ousadia. Rafaela sabia muita coisa e não tinha perdido a coragem de descobrir novidades. E Eduardo sabia que, se quisesse alcançar uma história boa, teria que agir mais próximo disso.

Por isso, desde então, sempre que podia, ele assistia aos vídeos infantis em alta do YouTube e acompanhava algumas fanfics, para se atualizar nas tendências entre as crianças e jovens. O que funcionava e o que não funcionava, entre elas. Ele lia algumas histórias, tentando se inspirar com algum tema que encontrasse ou, no mínimo, descobrir o que faria sucesso mais fácil, como um bom editor faria. Como Rafaela fazia.

Surpreendentemente, esse hábito tinha se revelado bastante terapêutico. Era legal ver o que seu público-alvo andava escrevendo. Vez ou outra, em segredo, ele até publicava um conto, quando conseguia escrevê-lo de uma vez só. Quando não o conseguia, abandonava de vez. Não era bom em seguir numa mesma história durante muito tempo.

Naquela noite, já em casa, após tomar um trem, ele explorava a categoria “fantasias” de um site de fanfics, torcendo para encontrar algo interessante. Essa era a lei de Rafaela. A história não precisava nem ser boa, desde que fosse interessante. Claro que até ela concordava que histórias boas de verdade sobreviviam por mais tempo, mas interessante era o suficiente. Toda história que conseguia fazer os leitores continuarem virando as páginas, valia a pena.

Foi quando ele viu algo que, definitivamente, parecia ser interessante. Uma capa que fugia da norma de capas bem-elaboradas daqueles sites. Tão bem-elaboradas que ele se perguntava como aquelas pessoas ainda não eram profissionais (se é que não eram). Pelo menos, em design. Mas aquela capa não era assim.

Antes de qualquer coisa, ela parecia ter sido feita no Paint, ou em qualquer um desses programas mais simples. O fundo era todo branco, com algumas ilustrações de bonecas palitos, com cabeças redondas e cabeludas. Em duas delas, havia setas indicando os seus nomes, “Leona” e “Ofélia”. Entre essas duas, em vermelho, também havia um pequeno coração. A que se chamava Leona tinha um pincel e uma paleta na mão, e um sorriso no rosto. Ofélia parecia ser mais emburrada. Ao redor das duas, existiam outras bonecas, usando chapéus de bruxa e com sorrisos enigmáticos.

Ele apreciou a coragem de expor os próprios desenhos assim, especialmente com eles sendo tão simples. Além disso, a depender da idade do autor, ainda existia muito espaço para melhorar, se desenhar fosse uma de suas ambições.

Depois da capa, os olhos de Eduardo foram atraídos para o título: “Tempo de Segunda Linha”. Não dava muito o que pensar, então ele seguiu para a sinopse:

Ofélia precisa salvar Leona que morreu passando de volta no tempo com a ajuda de uma bruxa para prevenir sua morte em primeiro lugar. Mas quando mais além que passa no tempo que Leona está vivendo ela começa a perceber que essa realidade é diferente da sua. E agora?

Aquilo fez Eduardo franzir as sobrancelhas. Ele releu a sinopse, na expectativa de que ela fizesse mais sentido. Seus olhos bateram e rebateram nos cantos, enquanto ele os passava rapidamente pelas linhas, esperando encontrar um elemento despercebido que trouxesse sentido para todo o texto, mas não. Tinha lido todas as palavras e entendido-as, embora não conseguisse extrair qualquer sentido concreto daquele conjunto delas.

Ainda assim, aproveitou para tirar um momento para se sentir orgulhoso de si. Trabalhar numa editora por tanto tempo tinha afiado sua capacidade de capturar os pontos-chave de um texto só de passar os olhos nele. Entender o que tinha acabado de ler, por mais confuso que fosse, era a prova de como tinha dominado aquela habilidade. Rafaela, ele imaginou, ficaria orgulhosa disso. E levaria parte dos créditos pelo feito.

Mesmo confusa, a sinopse tinha mesmo algo que convidava a sua leitura. Era como um anúncio vibrante de “você é o milésimo usuário a acessar nosso site e ganhou mil reais, clique aqui para receber o seu prêmio!”. Você sabe que é uma armadilha, seu bom senso grita que é uma armadilha, mas a sua vontade de clicar quase supera tudo o que você conhece, porque aquilo parece muito bom. Você hesita enquanto expectativa e apreensão batalham. Normalmente, a apreensão vence. Esse não foi o caso, pois ele começou a ler o primeiro capítulo, chamado apenas de “Capítulo Primeiro”:

Leona sorria orgulhosa de peito estufado quando pintava. Era porque seu avô que costumava pintar o tempo todo que ela amava ver porque ela amava como as cores se misturavam e torciam e juntavam de novo e de novo e vice e versa. Ela amava como elas se tornavam novas e unidas e viradas numa pintura.

Por isso Leona continuou amando pintar mesmo quando deixou de ser pequena e mesmo quando seu avô morreu. Ela sabia com certeza que quando seu cabelo castanho virasse cinza e quando sua pele negra ficasse enrugada ela ainda pintaria como seu avô pintou mesmo com seu cabelo castanho então cinza e sua pele negra então enrugada.

Eduardo achou o estilo meio desleixado, como se fosse um grande despejo de ideias em vez de um romance. O mesmo tinha acontecido com a sinopse, como ele agora percebia, refletindo sobre o jeito de escrever do autor. Isso não era incomum, especialmente com autores mais novos. Nesses casos, ele focava na história, não no estilo.

Ainda assim, aqueles dois parágrafos tinham bastado para que ele se apaixonasse por Leona. Afinal, como a ilustração da capa já tinha sugerido, ela era uma pintora, a combinação mais letal que podia existir entre uma ilustradora e uma colorista. Era o tipo de vocação que não exigia nada menos do que a admiração dele, como um colega artista.

Antes de perceber, ele tinha terminado de ler o primeiro capítulo, que era uma apresentação de Leona, se encerrando com o seguinte parágrafo:

E embora Leona fosse apaixonada pelo que fazia bem ela ouvia muitas críticas porque ser artista não era coisa boa pelo que as pessoas diziam não dava dinheiro. Mas Leona acreditava que artistas eram como super-heróis e por isso continuava pintando para salvar os outros e salvar ela mesma. Mas ninguém se salva sozinha como ela descobriria. Todo mundo precisa de alguém.

Eduardo respirou aliviado. Não tinha percebido antes que estava lendo enquanto segurava o fôlego. A falta de vírgulas também ajudava, mas era o seu envolvimento com a história que tinha provocado aquela reação. E nem se tratava de uma cena de tensão, apenas uma introdução geral. Mesmo assim, ler sobre Leona trazia uma sensação familiar.

Estranhamente, os dois tinham muito em comum, além do fato de serem artistas. Assim como ela, Eduardo também tinha cursado Artes Visuais e também tinha decidido trabalhar no ramo das ilustrações infantis. Os dois tinham ouvido essa conversa de que não ganhariam muito dinheiro, mas tinham sido teimosos. Ela, porque “acreditava que artistas eram como super-heróis”. Ele não sabia explicar bem os próprios motivos, mas tinha certeza de que não era nada tão nobre. De qualquer forma, ninguém era tão nobre. Só personagens fictícios tinham esse direito.

Decidido a ler mais, especialmente porque não existia nada de fantasia no primeiro capítulo, ele seguiu para o segundo, que introduzia o ponto de vista de uma segunda personagem e, seguindo o padrão, se chamava “Capítulo Segundo”:

Ofélia bateu no quarteto de metonímicas latas de lixo coloridas se cronologizando quando queria e se materializando onde não queria com dolorosas e fedidas consequências. Com menos de sorte e muita morte ela teria aparecido dentro de algo sólido como os recipientes de metal, papel, vidro e plástico que a encaravam da parede onde estavam fixados. Não encaravam de verdade pois não tinham olhos mas era como se fosse.

Mas essa era a prova que ela tava certa afinal na sua época não existia mais coleta seletiva de lixo pois ela passava no futuro e só estava ali passando no agora no aquele agora porque uma bruxa tinha lhe ajudado a voltar e reviravoltar pelo tempo para cumprir o seu objetivo. As bruxas ajudavam Ofélia porque ela era nascida na Irlanda terra de muita magia.

No aquele agora ela estava em Salvador que também era terra de muita magia e muito axé que também era magia embora muitas pessoas não soubessem e preferissem passar o carnaval no rio. Não que fizesse diferença mas Ofélia preferia o carnaval de Salvador porque Leona era baiana e preferia o carnaval de Salvador também. Ofélia gostava muito de Leona.

É preciso gostar muito de uma pessoa para voltar e reviravoltar passando em outro tempo para salvá-la pois era isso que Ofélia tinha ido fazer no presente do passado que ainda não tinha passado naquele presente passante.

“Que #*%%@ é um ‘presente passante’?”, ele pensou, imaginando o quanto seria grato se essa fosse a sua única dúvida ao final do segundo capítulo. O resto do capítulo foi tão louco quanto o seu começo e, diferente do seu antecessor, não causou nenhuma aproximação de Eduardo com Ofélia, a outra protagonista da trama. Pelo menos, tinha um pouco de fantasia.

Até ali, ele não tinha tido acesso a quase nada além do que a sinopse já tinha informado previamente, mas tinha sido bom conhecer Leona, a pintora super-heroína, e Ofélia, que era amiga de bruxas, voltava e reviravoltava no tempo, e preferia o carnaval de Salvador, e gostava de Leona, o que ele assumia se tratar de um gostar romântico.

Infelizmente, não existiam mais capítulos além daqueles dois. A história não tinha sido atualizada por mais de três semanas. Eduardo estranhou a decepção que tomou conta dele ao perceber isso. Queria mais capítulos.

Não, ele queria mais do que mais capítulos. Mas não sabia bem o que queria. Como quando terminou o primeiro capítulo, ele sentiu que lhe faltava fôlego e que seu coração batia rápido. Ele voltou para o primeiro capítulo, lendo-o novamente. Seus olhos seguraram cada palavra por mais tempo dessa vez, prestando o máximo possível de atenção.

Ele imaginou Leona. Sorrindo, com um pincel na mão. Cabelos castanhos, enormes e volumosos, se espalhando sem uma forma específica, tão rebeldes quanto ela. Olhos grandes, curiosos. Pele negra e roupas brancas, nos dias de sexta. Inteligente. Teimosa. Divertida. Impulsiva. Criadora de caso e contadora de causos. Linda. Exatamente como o descrito.

Foi como ele percebeu que queria desenhá-la.

Precisava falar sobre aquilo com alguém, e Rafaela provavelmente ainda estaria acordada, já que tinha algum trabalho para fazer. Pegando o celular, conferiu a última vez em que ela tinha estado online. “00:18”. Não fazia tanto tempo assim.

“Ei”, ele enviou e esperou pacientemente pela resposta, que levou uns dois minutos para chegar.

“Oi”

Ele pensou no que deveria falar. Podia ser “encontrei uma história interessante” ou “lê isso aqui e me diz o que acha”. Mas não fazia sentido. E se ela gostasse da história? Ele queria desenhar aquela história. Só valeria a pena se fosse assim. Ele, e mais ninguém.

“q foi”, ela insistiu, após ser ignorada.

“nada não”

Ela parou de responder por mais alguns minutos, antes de retornar com um: “vai dormir” e sair de vez.

Eduardo encarou a tela luminosa do celular, pensativo. Antes de perceber, estava seguindo o conselho de Rafaela, pois suas pálpebras ficavam cada vez mais pesadas. Embora ele não fosse se lembrar pela manhã, tinha sonhado com uma bruxa aproveitando o carnaval em Salvador, que era terra de muita magia. O que quer que isso significasse para o seu presente passante.