Tempo da Bruxa

11 Tragédias


A neve caiu por toda noite, de forma que o mundo é totalmente branco quando amanhece. Apesar das baixas temperaturas, o corpo não se intimida. A única coisa que a incomoda é o sangue seco na pele, repuxando a cada movimento. A ferida causada no ventre cicatrizou durante a noite, mas não apagou os rastros do que foi feito. A camisola branca está totalmente imunda e pintada de vermelho sangue. E Nora sente-se nojenta.

A caminhada até o palacete é considerável e seria o suficiente para enfraquecer o corpo frágil, queimando os pulmões. Naquela manhã, porém, o percurso é curto e fácil. Nora visualiza a construção a metros de distância. Os primeiros raios de sol, encobertos pela nevasca, surgem no alto do céu, irrompendo com a escuridão. Ainda é muito cedo para que qualquer alma viva, até mesmo o servo mais fiel, esteja desperta. Por isso ela adentra a casa sem nenhum empecilho.

Os pés descalços não emitem nenhum som. Nora surpreende-se por ver a lenha crepitar na estrutura do fogão. A cozinha está vazia. Ela não gasta tempo cogitando as possibilidades. O percurso até o quarto que Madalena ocupa é rápido. Nora livra-se do resto da camisola antes de perceber a serva parada na entrada do banheiro. Os olhos da mulher estão escuros e vazios como os de Sylvia na última noite em que se viram. Nora procura pelo corvo com um misto de raiva e gratidão. A sombra dele nunca esteve tão próxima em tantos anos.

O banho está preparado. Nora adentra à banheira e permite que a serva, ainda distante de si, esfregue os locais que não consegue alcançar sozinha. O cabelo é a parte mais difícil, uma mistura de barro, dejetos e sangue. Nora não veria problema em cortá-lo na raiz, mas a serva é mais dedicada. O banho termina quando o sol está iluminando todos. Ela escuta o movimento sutil de todos os servos; desde os trabalhadores da cozinha aos servos que atuam externamente. De repente, percebe que não sabe quantas semanas se passaram e nem que dia é. Quando se vive tanto, o tempo perde a significância. Porém, conforme o dia arde, a influência de Revna se desfaz. É um ser amaldiçoado à escuridão, e a serva recupera a consciência pouco a pouco.

— Obrigada. — Nora murmura. Os ouvidos estão entupidos, e a voz de Madalena soa distante. — Descanse um pouco.

A serva confirma e retira-se do ambiente. Ela recuperará a consciência antes de descer as escadas, o que dá pouco tempo a Nora antes que o retorno de Madalena seja anunciado para todos. E mesmo ciente, Nora fica na banheira até que a água torne-se insuportável. Enquanto seca o corpo, ela sente a cicatriz que formou-se no ventre de Madalena. Sem o reflexo adequado não consegue visualizar. A cicatriz, contudo, é densa e longa. Ela sorri. Aos poucos, o corpo de Madalena torna-se tão mutilado quanto o corpo de Nora.

As vestimentas de Madalena são questionáveis. Os vestidos têm muitos detalhes, camadas e excesso de tecido que exigem a ajuda das servas para serem usados. Os sapatos têm pequenos saltos e bico fino, apertando os dedos. Nem mesmo as cores das peças são suportáveis.

Nora sempre foi amante do belo, mas a sua existência exigia, antes de tudo, a praticidade. Mesmo quando deixou a choupana para viver com Adrian e Dante, a rotina exigia flexibilidade das roupas. Ela, diferente de Madalena, poucos dias passou reclusa dentro do palácio. Apreciava as leituras e a lareira, assim como os jogos de tabuleiros e cartas. As unhas, porém, sempre estavam sujas de terra. E os vestidos carregavam resquícios de sarça.

Um pouco mais atenta, Nora deixa o quarto de Madalena em busca dos seus pertences. Não gasta tempo procurando por seu antigo quarto. Tem certeza que está vazio. Também não procura pelo dormitório de Adrian ou Dante. São momentos significativos, absurdos para os servos que a encontram pelos corredores, até que lembra-se do sótão. Após tantos anos, não tem certeza de que as suas coisas foram poupadas. Ao mesmo tempo, recusa-se a acreditar que Adrian tenha desfeito de tudo o que acumulou durante a sua existência, exatamente como Sylvia. A ideia a enche de raiva que cessa assim que adentra o cômodo empoeirado.

O sótão está lotado de memórias. Todos os quadros que Nora adquiriu durante a sua existência estão empilhados e cobertos por lençóis, assim como tapeçarias e esculturas. Ela perde um tempo significativo tocando quase todas as obras. Os baús são incontáveis. Nora abre dois, percebendo que são os livros, diários e escritos antigos. Entre as coisas há muitos desenhos de Dante que Nora escondeu dentro dos livros. Ela toca o papel com cuidado, ciente de sua fragilidade. Os olhos ardem, tanto pela poeira quanto pela emoção.

Nora precisa se recuperar quando vê o berço de Selena. O móvel foi esculpido por um marceneiro; um trabalho árduo, lento e muito preciso. Há pássaros, flores e as iniciais de Selena entalhados na madeira. Ela toca todos os detalhes como fez pela primeira vez. Nora tosse quando percebe que o corpo não respira como deveria. As lágrimas ardem conforme a percepção cresce. A última lembrança que tem é de Selena adormecida no berço. Era uma bebê de quase um ano; bochechas grandes e olhos vibrantes. As mãos eram gordinhas, assim como as pernas. A risada ocupava todo o castelo, e Nora nunca sentiu-se tão completa na vida.

Nora existiu por anos, que se transformaram em séculos. Ela conheceu muitas pessoas, muitos lugares e muitas culturas. Ela experimentou tudo o que os humanos inventaram e assistiu também os excessos deles. Ela se apaixonou tanto quanto sofreu. Ela se desentendeu com vários seres e quase morreu muitas vezes. E nenhuma dessas experiências se comparou ao que sentiu quando conheceu os filhos.

Dante que chegou como um presente. E Selena, uma verdadeira surpresa inacreditável. Nora viveu todos os anos ciente de que independente do quanto tentasse, nunca seria boa o suficiente para tê-los. Era uma aberração, um desrespeito à natureza e uma inconsequência violenta e incontrolável. Nenhuma criança merecia tê-la como mãe. Era incapaz de fornecer a qualquer criança um terço do que os pais ofereceram a ela e ao seu irmão gêmeo.

Ainda assim, eles foram a melhor parte da sua existência questionável. Revna lhe disse que morreu porque tornou-se desleixada. Nora reconhece o erro ao mesmo tempo que não há nenhum arrependimento. O seu desleixo aconteceu por amor. Estava tão envolvida, tão distraída pelos laços tecidos, que não teve tempo para temer.

Nora encontra alguns vestidos em outro baú quando termina de sofrer. A maioria está em excelente estado, apesar de demonstrarem o tempo que permaneceram escondidos no sótão. Ela escolhe a peça de veludo verde sem muita pretensão. O comprimento é exagerado, e Nora resolve a situação rasgando a barra. A aparência torna-se bruta com as botas que usava na floresta. São grandes para os pés pequenos de Madalena, mas não são desconfortáveis. Por fim, o cabelo longo e claro é preso por um lenço qualquer sem nenhuma preocupação estética.

Não sabe quanto tempo tem no corpo de Madalena. Não sabe se o sacrifício será suficiente por longos períodos. Cada dia, cada hora, transcorrido é excessivo para não saber sobre os filhos.

Nora apressa-se para sair do sótão e encontrar Dante. Na tarde anterior, Adrian o retirou da choupana da forma mais agressiva possível. Incapaz de lidar com o próprio filho, valeu-se de guardas para oprimir o garoto assustado.

O pensamento desperta dúvidas severas. A maior frustração é por medo de ter feito uma escolha antecipada. O sentimento de traição cresce aos poucos. Em parte, pela união com Madalena. Principalmente pelo desrespeito com os filhos que Nora deixou acreditando que Adrian os protegeria como ela estava disposta a fazer.

O percurso até o quarto de Dante não é concluído. Nora percebe a movimentação no corredor antes de descer as escadas. Não existe outro caminho, nem a possibilidade de retornar ao sótão. As conversas são abafadas e acontecem em um dialeto diferente, que Nora não é tão hábil quanto o dialeto da região de Florença. Nora chega ao corredor e vê a mulher acompanhada de Lady Rossi.

— Madalena! — A mulher exaspera, aproximando-se. Nora é agarrada e tocada em excesso. — Meu Deus, Madalena! — O rosto de Madalena é apertado. Lady Rossi permanece um passo a trás. — Eu pensei que tinha morrido! — A voz torna-se embargada pelo choro. — Morrido! Minha irmã! — A mulher a abraça. Nora permanece imóvel, absorvendo. — Eu vim para enterrá-la! Onde esteve?!

Nora permite que a Lady Conti a arraste até a acomodação que ocupa. A Lady Rossi acompanha. Algumas servas são instruídas a chamar o sr. Bianchi, o responsável pela saúde da família. Outras servas adentram o quarto com comida em excesso. Nora permite que o corpo de Madalena seja tocado e verificado várias vezes enquanto absorve a presença da irmã mais velha de Madalena.

Assim como Madalena, a convivência de Nora com a Lady Conti foi escassa. A encontrou poucas vezes em eventos que Adrian era obrigado a participar enquanto duque. Ginevra, tornou-se Lady Conti devido ao casamento com o sir. Conti, sempre aparentou mais sociabilidade que a irmã mais nova. De riso fácil e voz suave, Nora soube da existência de Ginevra antes mesmo de conhecer Adrian porque era a dama mais cortejada da região de Toscana. Muitas moças procuravam por feiticeiras, inclusive por Sylvia, para se tornarem menos diferentes da Lady Ginevra. Nora sempre tratou a situação, tanto a existência da Lady Ginevra quanto os seus adoradores, com a devida indiferença que apenas uma alma tão antiga pode fornecer.

— Minha irmã… — Lady Ginevra insiste. — Eu lhe imploro. Diga-me o que aconteceu. — Nora observa a Lady Rossi próxima das janelas. — Quando Jane me relatou o seu estado de saúde, me deprimi. Pedi que a Lady Rossi te acompanhasse à Florença porque sempre foi do seu feitio se isolar. Tinha medo que adoecesse outra vez, como adoeceu quando éramos meninas. Ah, Deus! — O lamento é extenso. Jane Rossi mantém o olhar distante, encarando o jardim. Ginevra se preocupa mais um pouco. — Onde esteve? — Ela agarra as mãos de Madalena. — Me diga. Onde esteve?

Nora balança a cabeça enquanto tenta decidir se ainda é necessário manter as aparências. Lady Rossi mantém uma distância questionável, considerando a sua preocupação excessiva quando Madalena estava doente nos primeiros dias que Nora ocupou o corpo.

— Eu não sei. — Nora murmura. Ginevra arregala os olhos. — Não me lembro.

As mulheres se encaram.

— O quê?! Como não se lembra? Minha irmã, você esteve fora por semanas. Sua Graça temeu que… — Ginevra balança a cabeça. — Até mesmo eu temi. Temi que estivesse morta após tantas semanas.

Nora segura a cabeça de Madalena forjando uma confusão mental.

— Eu não…

— Eu lhe disse, Lady Conti. — Jane fala, finalmente. Os olhares que elas trocam são temerosos, e Nora pode imaginar todas as suspeitas que rondam. — Não é a mesma. Não é a Madalena que conheceu. Olhe para ela um instante. Temo que…

Lady Rossi é interrompida pela chegada de Adrian. Ele mantém-se parado na porta, avaliando todas as mulheres no cômodo. Nora o encara, encerrando toda a diversão que o sofrimento das mulheres poderia lhe proporcionar. Lembra-se vividamente da tarde anterior, em que Adrian violentamente arrastou Dante para fora da choupana.

— Senhoras… — Adrian cumprimenta e encara o corpo de Madalena, trajado com o vestido verde-musgo. Ele firma o maxilar, e as rugas surgem na testa. — Preciso de um momento com minha esposa.

— Meu senhor! — Ginevra levanta-se. — Eu posso imaginar a angústia que o atormenta nesse momento. Acredito ser um sofrimento muito similar ao meu. Da mesma forma que é a sua esposa, é a minha irmã. Também preciso entender tudo o que está acontecendo. Tomei a liberdade de convocar o sir. Bianchi. Acredito que nesse momento todos nós devemos ter paciência.

Adrian, porém, nem olha para a Lady Conti. O olhar severo é direcionado a Madalena. Nora quase escuta o maxilar ranger. Não se intimida porque sabe que o sentimento que arde em todo o seu ser é ainda mais severo.

— Por favor, Lady Conti. — Adrian insiste. — Nem posso mensurar a sua angústia. Ainda assim, insisto.

Jane prepara-se para deixar o ambiente, mas Lady Conti a interrompe.

— A última coisa que desejo, Vossa Graça, é desafiá-lo. — Ginevra soa tão severa quanto Adrian. Nora surpreende-se ao sentir a tensão crescer. — Ainda assim, desta vez, não cederei. Não acredito que Vossa Graça tenha um assunto tão particular com Madalena neste momento tão delicado. Portanto, vou permanecer. — Ginevra aproxima-se. — É a minha irmã. E, veja só, Vossa Graça teve todo esse tempo à sós com ela. Desconfio que se arrependa por não ter aproveitado adequadamente. Agora, infelizmente, terá que dividir a atenção de Madalena comigo.

Nora olha para Lady Rossi, buscando alguma dica para entender a situação que se agrava rapidamente.

— Lady Conti, — Adrian soa cada vez mais irritado. — imagino que a angústia tenha lhe dominado. Porque a outra opção é que está sugerindo que as últimas infelicidades da Lady Palucci sejam de minha autoria.

— Minha Lady… — Jane intervém. — Me ajude a encontrar roupas mais adequadas para a Lady Palucci. Enquanto isso, Sua Graça pode conversar a sós com a esposa.

Ginevra está pronta para rebater Jane e Adrian à altura. Nora reconhece que seria interessante descobrir até onde a Lady Conti é capaz de ir para defender a irmã. Também se interessa a entender porque há tanto desentendimento entre eles, considerando que Adrian foi capaz de enviar Selena à casa da cunhada indefinidamente. Por isso, Nora levanta-se antes que a discussão piore.

— Minha irmã… — Ela intercede. Adrian inclina a cabeça. — Devo falar com o meu marido. Talvez ele possa me ajudar a entender o que aconteceu nas últimas semanas.

Ginevra aproxima-se para segurá-la no cômodo, mas Nora escapa mais rápido. Ela direciona-se ao escritório de Adrian com passos rápidos e sem aguardar pela companhia dele. Ainda assim, escuta a aproximação rápida. Adrian a alcança e a segura pelo braço, a puxando para si. Eles se encaram. Os olhos dele são escuros e angustiados. Nora, por outro lado, formaliza todo o desprezo que foi cultivado anteriormente.

— O que está acontecendo? — A pergunta soa como uma prece desesperada. — Apenas me diga o que está acontecendo. Eu não faço ideia de como e todas as possibilidades me ferem igualmente. Mas não sou tão disperso ao ponto de perceber que não é Madalena nesse corpo. — Ele a sacode. — Então, me diga. Como? Como, Eleonora?

Nora agarra o pulso dele com força e o escuta gemer enquanto aperta. Quando solta, o local onde a sua mão estava torna-se vermelho. Adrian massageia o pulso.

— Percebo que têm muitas dúvidas. E lhe é devido. O que me surpreende, porém, é notar que não se importa com todas as dúvidas que também tenho. — Adrian arregala os olhos e está prestes a rebater. Nora levanta o dedo, o impedindo de falar. — Primeiro, onde está Dante?

Adrian revira os olhos.

— Melhor que todos nós, eu garanto. — Nora arqueia a sobrancelha. — Está dormindo. No quarto. Eleonora, — Adrian a toca novamente. Nora o afasta. — Eu sei que tudo parece terrível, mas nada é exatamente como o que está pensando.

— Ao menos reconhece que a situação não é favorável. — Nora o analisa outra vez. — A outra pergunta que está me sufocando: cadê Selena? Sabe, Adrian, — Ela finge respirar fundo. — eu já me irrito por saber que você decidiu mandar a minha filha para Toscana, para a casa dos Conti. Não sei, nem quero supor, em que situação estava para imaginar que essa era uma escolha plausível. Não me importa mais. A minha única preocupação agora é entender porque Ginevra Conti está na minha casa e a minha filha não!

Adrian suspira também. Antes de respondê-la, eles chegam ao escritório.

— Admito que não foi uma escolha correta. — Adrian serve um copo cheio de bebida para si. — Mas não é tão terrível quanto faz parecer. Selena não veio porque estamos no meio de um inverno especificamente rigoroso. Não é seguro que uma criança tão pequena seja obrigada a aguentar um percurso tão distante. Lady Conti veio por você. — Ele gesticula. — Ao menos, por Madalena. Amor, eu penso.

— Não é justo que uma criança tão pequena seja retirada da sua casa e enviada para a casa de estranhos! — Nora repreende. — Eu lhe alertei uma vez. Vou lhe alertar outra vez. Eu quero a minha filha em casa. Imagino que não tenha considerado pela primeira vez. Não parece considerar muito as opiniões da sua esposa. Então, ao menos, considere com quem está falando dessa vez. — Nora anda pelo cômodo, ignorando-o. — Você me deprime. Toda a situação me deprime.

Adrian solta o ar pelo nariz.

— Oh, sim. Aí está você, Eleonora. — Ele deixa o copo de lado e aproxima-se. Nora o observa. — O que aconteceu? — A expressão dele se fecha. — Você estava morta.

Nora desvia os olhos.

— Isso não me surpreende. — Ela mente. — O que me surpreende é perceber o quão pouco você esperou para confessar quem realmente é. O que fez com Dante?! — Ela ergue a voz. — Por que trouxe essa praga para dentro de casa?! Ora, Adrian. — Ela ri, negando. — Por favor, não me diga que foi solidão. Não é difícil encontrar uma companhia melhor que isso. — Nora se refere a Madalena. — Ainda mais para você.

— Você não entende…

Nora estreita os olhos.

— Por favor, seja gentil e me explique. O que eu sou incapaz de compreender? — Nora aproxima-se também, segurando o rosto dele com força. Diferente da imitação de Revna, a pele dele é quente e macia. — Me dê um momento. Deixe-me supor. — Nora o solta. Os dedos ficam marcados na pele dele. — Eu não consigo entender o quão miserável se sentiu ao me ver morrer. Sentiu-se tão miserável que foi incapaz de continuar pelos filhos. E tão miserável, tão miserável, que deixou os nossos filhos desamparados. E claro. Todos concordaram que crianças precisam de mães. E você foi convencido, contra o seu luto, é claro, a casar-se novamente com uma mulher mais jovem porque assim pode garantir os seus herdeiros. Afinal, Dante é um bastardo. E Selena é uma mulher. De fato, — Ela ri, debochando. — incompreensível mesmo. É realmente incompreensível como se deixou levar por tão pouco. É incompreensível o quão rápido se esqueceu de quem realmente é. E se esqueceu tanto que também não percebe quem os nossos filhos são. Ou o que eles são. — Nora afasta-se. — Eu confiei em você, Adrian. Não apenas como um companheiro. Como um homem. Eu confiei em você… — As palavras agarram na garganta. Nora desvia o rosto para esconder as lágrimas. — Eu acreditei que você… Acreditei que sentia o mesmo que eu sinto por eles, que estaria disposto. Acreditei que pudesse protegê-los se eu não estivesse mais aqui. — Ela seca as lágrimas. — Todas as noites eu observava eles dormindo. E todas as noites eu temia. Eu temia porque nunca me esqueci o que era, nem o que fiz. E ainda que pensasse que nunca aconteceria, eu temia morrer. — Eles se encaram. — Não porque não estou pronta. Não porque tenho medo do que me aguarda, nem porque me recuso a pagar o que devo. Eu temia, e eu ainda temo, porque não posso deixá-los sozinhos. E eu realmente acreditei, Adrian, eu realmente encontrei alguma tranquilidade em pensar que mesmo que eu me fosse, mesmo que eu perdesse a vida deles, mesmo que perdesse a oportunidade de tê-los como filhos, como família, você estaria aqui por eles. E eu.. — A voz é embargada. — Quantas vezes… Quantas vezes eu pensei que era melhor você permanecer do que eu?! Quantas vezes eu implorei que se tivessem que levar alguém, que me levassem! Porque você deveria ser melhor do que eu; deveria ser mais amável e mais sensível. Afinal, está aqui há tão pouco tempo. Não podia ser tão desfeito e culpado quanto eu. Mas olhe só. Olhe só para você e o que construiu. É tão fraco, tão incapaz, que desfez-se no primeiro sofrimento.

— Você tem razão. Tem razão, Eleonora. — Ele seca as lágrimas. — Eu sou mais fraco que você. A sua longa existência a forjou desta forma, quase intocável. Mas a minha existência é tão curta quanto poderia. E o meu sofrimento é tão óbvio quanto entediante. Então, me perdoe se me desfiz ao enterrá-la em um buraco qualquer.

— Não. Você não tem o direito. — Nora o repreende. — Não tenho dúvidas que sofreu. Não o questiono em nenhum momento porque preciso me encher de alguma esperança sobre você. Preciso acreditar que você se confundiu assim porque a minha morte realmente significou alguma coisa.

— Você não sabe tudo o que significou.

— Ainda assim, se causou tanto sofrimento para você, imagine para eles. Imagine para Dante. Ele enterrou nós dois ao mesmo tempo, Adrian. Porque você… — Nora gesticula. — Por Deus. O que fez com ele? O que fez com ele?! — Ela aumenta a voz. — O que deixou acontecer com ele?! Ele é o seu filho! Você era tudo o que ele tinha! A única família, única referência. Você…

— E o que você era para mim?! — Adrian resmunga. — O que você era, senão tudo o que eu tinha?! — Ele gesticula, severo. — Você viveu muito, Eleonora. Você teve muitos amigos, muitos amores e algumas famílias. Eu, não! Eu só tinha você! Eu não forjei tantas relações assim, sejam elas familiares ou românticas. Eu não tenho uma grande lista de perda que me forjou como uma rocha. Eu tenho uma grande perda. Se Dante te perdeu, eu também te perdi! Eu te perdi tanto quanto ele! Sei que você é a mãe dele! Mas e o que você era pra mim? Está claro que independente do que era pra mim, nunca foi tão forte quanto o que era para Dante. Não vou disputar o seu amor com ele. Jamais. Eu me alegro em saber que Dante é tão amado assim. Eu me alivio em saber que tanto Dante quanto Selena tiveram a sorte de ter você. Mas, independente de quantos erros eu cometi, são muitos e severos, você não vai tirar de mim o que eu senti. Nem o quanto eu perdi. Eu fui só mais um, e eu entendo e me contento. Mas você não é só mais uma tragédia na minha vida! Você foi a tragédia!

Nora sente todo o corpo tremer. Ela senta-se no móvel mais próximo enquanto recupera-se. Não há nenhum sinal físico de desgaste. O corpo não está se desfazendo de novo. É ainda pior. A alma é mais fraca que o corpo. É mais instável e perigosa.

O toque na porta a impede de sequer cogitar uma resposta à altura. Adrian seca o rosto e recupera a postura antes que a Lady Conti invada o escritório.

— Madalena, venha… — Lady Conti se aproxima. — O sir. Bianchi chegou para vê-la.