Tempo Frio

1 "Come up to meet you, tell you I'm sorry"


Notas iniciais
Olá!
Originalmente esta história foi escrita com o ship dramione para um amigo oculto. Decidi experimentá-la com outros personagens para que pessoas além do fandom ao qual foi pensada pudessem ler.

Capítulo inspirado pela música The Scientist - Coldplay, (se quiser, ouça enquanto lê).

120 minutos.

2 horas.

Esse era o tempo que ele ainda tinha. Era o tempo que ela queria acreditar que eles ainda tinham. Porque acreditar sempre será a melhor opção. Até mesmo quando tudo diz que desistir é a única saída, ser positivo é o que nos mantém vivos, não é?!

Olhou as horas mais uma vez, mesmo tendo feito isso há cinco minutos. Já estava sem paciência. Nunca fora uma das criaturas mais pacientes do mundo, e Dario parecia que tinha o dom de fazer o resto da sua paciência ir por água abaixo, até mesmo quando não estava nem por perto. Não teve como não bufar ao lembrar de uma conversa deles.

— Mirelle, você tem que deixar de ser tão controladora. A graça da vida é não esperar nada, e deixar que ela nos surpreenda. – Dario respondeu com aquele risinho idiota que a irritava o mesmo tanto que deixava as pernas bambas.

— Você não pode controlar se vai chover meteoritos, mas o horário de chegar na casa da sua namorada dá sim. Dá próxima vez, Dario, usa esse relógio que tem aí no teu braço.

— Sim, senhora, Comandante! – respondeu já abraçando e beijando o pescoço dela. Cachorro! Sabia que era o ponto fraco.

Como era irritante ter que dar razão pra ele... Estava agora ali, cheia de esperanças, mas sem poder fazer nada. Só lhe restava esperar. E rezar! Rezava tanto pra não ter sido nada em vão. Pra que cada momento, cada sorriso, cada plano pro futuro tivessem valido a pena. Até pelas brigas ela rezava! Logo ela, que tinha dito que não aguentava mais o tanto que eram diferentes.

“Diferenças irreconciliáveis”. Passou uma vida inteira rindo de tabloides que traziam essa frase em matérias sobre a última separação de alguma celebridade qualquer, e agora se perguntava se era isso que deveria dizer quando alguém perguntasse algo...

A ansiedade corria tanto pelo sangue de Mirelle, que ela sentia como se pudesse correr a Maratona de Londres. Precisava esticar as pernas, pôr as ideias no lugar e, principalmente, acalmar o coração. Mas ir pr’aonde? Não podia se atrasar, e nem queria sair de onde estava. E se ele chegasse e não a visse ali? E se achasse que ela havia desistido? Não, não queria desistir, mas a cada minuto que o relógio marcava impiedosamente, seu coração parecia desacelerar uma batida. E isso chegava a doer.

Não aguentou mais ficar sentada naquele saguão. Definitivamente, precisava andar, ou enlouqueceria esperando. “Maldito! Vou enfiar aquele relógio goela abaixo!”, pensou enquanto sorria, imaginando quando ele chegasse. Eh, porque ele chegaria, né? Sim, ele chegaria.

Agora, que estava olhando para as vitrines das tantas lojinhas no aeroporto, não via mais sentido em ter saído andando. Sentia como se andasse em círculos. Nada daquilo a distraía, ou a fazia esquecer o real motivo por precisar se distrair olhando vitrines. Se ele estivesse ali, com certeza faria alguma piada sobre ela ter mudado muito depois que se aproximou das amigas dele, como naquela vez em que marcaram de se encontrar na Snowflake da Oxford Circus, e ela chegou rindo, de braços dados a uma Trixie cheia de sacolas. Mesmo tantos meses depois, ainda ria da reação dele.

— Bom, não digo que não me agrade vê-las tão... próximas? – ele estreitou os olhos antes de continuar – Mas que é meio assustador, isso é.

— Não posso fazer nada se, pela primeira vez na vida, você me apresentou uma namorada que preste. – Respondeu a amiga

— Só espero que não pretenda roubar o tempo dela de mim! – viu Trixie revirar os olhos exageradamente.

— Deixa de drama, Dario. Você ainda é a minha pessoa! – Respondeu Mirelle, se esticando por sobre a mesa pra beijá-lo

Tinha que reconhecer, os amigos dele a receberam muito melhor que os seus a ele. E, no começo, sempre que insistia em aproximá-los, terminava com uma chuva de alfinetadas, das quais seus amigos demoravam a entender e ela tendo que ficar no meio das implicâncias. Aquilo era tão cansativo às vezes. Acabou se acostumando, decidiu que aquele era o jeito deles de se suportarem. Mas nunca esqueceria de uma conversa que tiveram, no caminho da casa do seu amigo ruivo, logo o maior alvo das implicâncias e, porque não dizer, crises de ciúmes do seu namorado. A discussão da vez era porque ela tinha pedido a Dario pra tentar ser mais gentil daquela vez.

— Eu sei ser educado, Elle. Mas, definitivamente, não me peça pra ser simpático. Simpatia não tem nada a ver comigo.

— Inacreditável! Deixa eu contar isso pra sua mãe. – respondeu Mirelle

— Querida, mamãe sabe o filho de personalidade forte que tem. Agora, vamos. Aposto que ninguém vai resistir a minha beleza!

E não resistiram, mesmo. Ainda podia se lembrar de como aquele galanteador de meia pataca havia conquistado a Sra. Johnson, ou como ficava horas e horas conversando com o Sr. Johnson, ou como entrava nas brincadeiras dos gêmeos pra zoar Austin... Iria sentir tanta saudades daquilo. Não é fácil deixar todos a quem se ama pra trás, ir embora. Mas precisava!

Não é todo dia que surge uma oportunidade como aquela, não para uma designer iniciante, aspirante a desenhista profissional. Imagina, poder viver fazendo algo que amava desde criança, e desenhar todos aqueles personagens pra depois vê-los ganhando vida com os efeitos da computação gráfica. Aquilo era um sonho! Não podia deixar passar. Foi pra isso que estudou por tantos anos, que deixou sua querida Brighton para ir estudar em Londres, na Camberwell, que sacrificou várias noites de folga aperfeiçoando seu traço como desenhista. Por mais que amasse a vida na Inglaterra, por mais que amasse Dario, era preciso reconhecer que aquilo poderia mudar sua vida.

A notícia da mudança caiu como uma bomba no relacionamento. Ele nunca a pediu pra desistir, ou mandou que escolhesse. Do contrário, Dario sempre a incentivou. Fora o que mais a incentivou, inclusive a escolher em que região de LA seria legal ficar. Mas sabia que ele estava estranho. Podia sentir. Seus olhos não tinham mais aquele brilho de antes, e era como se escondessem um segredo, que o amargurava. Inevitavelmente, as brigas começaram. É o que acaba acontecendo quando você ama demais e tem medo de perder, mas não sabe como expressar. Então, seu orgulho vê a brecha que seu medo deixou e toma conta de tudo, como um reizinho genioso, que quer sempre ter razão e dar a última palavra. Como eles eram tolos, agora ela podia ver...

Ao voltar pra onde estava no começo, Mirelle não pode evitar olhar pela grande janela de vidro. Caia uma chuva fina e insistente, e o céu estava tão cinza. “Tipicamente londrino”, pensou. Sentiria saudades disso. Estranhamente, esse era o clima que mais gostava. Sempre se encantou como a forma como a natureza reagia a chuva. Os cheiros, como as plantas pareciam se renovar, ou como aquelas densas e escuras nuvens davam lugar para intensos e dourados raios solares. Lembrava os olhos dele. Tão cinzas, mas que tinham um brilho tão intenso quando sorria pra ela. Talvez esse fosse o motivo de amar tanto quando chovia assim.

Lá fora, o tempo era um reflexo de como se sentia. Tão frio, tão pesado, tão lacrimoso... Não queria se sentir assim, não estava indo pra uma sentença de morte. Era o seu sonho, caramba! Por que tinha que ser desse jeito? Por que a vida sempre nos empurra pra situações assim? É isso que se chama crescer? Talvez devesse ter deixado a janela de casa aberta, e esperado pela visita do Peter Pan. Ao menos, não teria que ir embora do seu país, deixando o amor da sua vida pra trás. Eh, porque Mirelle sabia, amava aquele loiro imbecil e atrasado. Aaaaah, como se arrependia de não ter dito isso pra ele antes. E se nunca mais o visse? E se ele não viesse? Ao que parecia, aquela era a opção mais provável. Olhou pro relógio e viu que o horário estava próximo. Tão pouco tempo, pra tanta coisa a se dizer. Não queria perder as esperanças. Era só aquilo que lhe restava. Mas, cada vez mais, sentia vontade de se juntar aquelas nuvens ali e chorar até não restar mais nenhuma água em si. Talvez assim, quem sabe, raios dourados pudessem brilhar pra ela outra vez.

“Atenção, senhores passageiros. Última chamada para o voo 190401, com destino a Los Angeles/USA. Dirijam-se imediatamente para o portão de embarque J. A British Airways deseja a todos uma excelente viagem!”.

Aquela voz feminina soou metalizada. Faz sentido, pensou, pois foi como se mil adagas perfurassem sem coração. Então é isso, o tempo acabou. Restava-lhe pegar sua mala de mão e pegar seu voo. Só deseja que as praias da Califórnia pudessem aquecer o frio que estava em seu coração.

Deu uma última olhada pra trás, a esperança ainda tentando sapatear em seu coração. Vendo que precisava partir, antes de entrar pela plataforma de embarque, apenas deixou um sussurrou escapar:

— Eh, ninguém disse que seria fácil. Mas também não precisava ser tão difícil...

Notas finais
Você que chegou até aqui: MUITO OBRIGADA pela leitura! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.