Tempo Ao Tempo
6 Capítulo 5 – Caminho para felicidade.
Notas iniciais
Lucy nunca pensou que precisaria fazer toda a loucura que fez para encontrar o caminho da felicidade. Sempre acreditou que o futuro é construído através de nossas próprias escolhas, mas agora se perguntava se não houve um empurrãozinho de uma força maior chamada predestinação. Talvez ela já estivesse destinada a conhecê-lo, e ela a ela. Talvez sim, talvez não. Mas a única coisa que importava agora era que estava feliz de estar ali, com ele.
Não conseguia conter o sorriso idiota no rosto e não se importava de escondê-lo. Durante esse pouco tempo que estiveram juntos ela pode notar o quanto sua alma era ferida, ao qual ele tentava esconder a fraqueza atrás de uma aparência rígida e até petulante. Por isso queria mostrar que estava feliz ao seu lado e que o aceitava com todo seu amor, pois lá no fundo ela conseguiu enxergar o garoto doce e gentil que ele era.
Como na noite anterior.
Seus lábios se desfizeram do sorriso, formando uma linha torta. Apertou os olhos, sentindo seu corpo esquentar à medida que suas bochechas e orelhas ficavam vermelhas. Contorceu-se no banco da cabine do trem, repassando na mente todos os momentos que conseguia se lembrar.
A visão dele sem camisa ao sair do banheiro. Seu corpo quente ao encostar-se ao seu. Sua respiração pesada quando distribuiu tímidos beijos em seu peitoral. O susto da troca de posições. A excitação que sentiu quando ele prensou seus corpos e acariciou sua pele nua por baixo da camisa masculina. O quase beijo.
Não se lembrava de muitas coisas que havia dito, mas sabia que tinha sido extremamente constrangedor.
“ – Natsu, acho que estou ficando louca.”
“– Por quê diz isso?”
“– Por que acho que estou amando você.”
Colocou as mãos no rosto e deu um gritinho histérico enquanto balançava as pernas. Natsu acorda de seu aparente cochilo.
– O que foi, está se sentindo mal? – pergunta, um pouco alarmado.
Lucy fica ainda mais rubra e balança a cabeça freneticamente. Que vergonha. Será que ele lembrava disso?
Claro que sim, sua anta.
– Não, estou... bem. Desculpe te acordar.
Ficou meio aérea quando percebeu que não havia tido resposta, ou simplesmente não lembrava. Olhou timidamente para os olhos verdes do rosado, que ainda a olhava com um pouco de cautela. Ele parecia tão normal, considerando toda a intensidade da situação que viveram no dia anterior. Seu coração falhou uma batida e a tristeza lhe atingiu.
Ele não gostava dela?
Por que, era óbvio que ela nutria sentimentos por ele, não só pelas coisas que disse quando estava bêbada, mas sim pelo o que sentia nesse momento. Só de estar perto, seu estômago se revirava e a vontade de correr para longe era crescente. O que era totalmente paradoxo, considerando que quando se gosta de alguém, se quer estar ao lado dela para sempre. Não tinha experiências amorosas, mas através dos milhares de romances que leu, descobriu que o amor é algo confuso e sem lógica. Porém, em contrapartida, quando se é correspondido, é um sentimento maravilhoso, que te faz se sentir bem até em um dia chuvoso na praia.
Permitiu-se se animar um pouco. Talvez ele ainda estivesse confuso sobre seus sentimentos. Afinal, mesmo sem querer, Lucy estava mudando-o. E para melhor.
Além do mais, acreditar nessa possibilidade era mais animador que pensar que não era correspondida. E pode crer, doía bem menos.
– Hey.
Deu um sobressalto quando sentiu o toque quente e aconchegante da mão de Natsu segurando a sua. Ele entrelaçou seus dedos após acariciá-la e olhou para suas mãos unidas. Com um sorriso de canto, ele a olhou nos olhos. E suas palavras saíram doces e gentis.
– Está tudo bem mesmo? – perguntou, com súplica no olhar. – Do nada você ficou aérea e estava fazendo umas caretas estranhas.
Mais do que ouvir aquelas palavras com tal entoação carinhosa, foi mágico ouvir sua risada gostosa ao final da frase. Natsu estava mudando. Mais carinhoso e menos sarcástico. Ela havia percebido isso desde que acordaram de manhã. Talvez o que ela tinha dito havia mudado algo em seu coração. Mais do que nunca quis saber da resposta.
Apertou-o mais contra sua mão e sorriu.
– Estou bem, de verdade. Obrigada por se preocupar. Eu só... estou preocupada com algumas coisas.
– Por exemplo? – instigou.
Sentiu suas bochechas vermelhas. Não podia falar a verdade. Ainda não.
– Com... meu pai. – decidiu dizer, o que não era ao todo uma mentira.
Estava mesmo preocupada com ele, por que mesmo que fosse culpado pela solidão que sentia, ele ainda assim era seu pai. E a amava. Só bastava entender que não poderia deixá-la presa para sempre na mansão, tendo como únicos amigos os livros e os empregados.
Ouviu Natsu suspirar.
– Você quer voltar? – ele perguntou, em um tom triste que Lucy não deixou de notar.
Seu peito se encheu de calor. Ele queria que ela ficasse!
– Não! – respondeu, quase que imediatamente. – Não ainda. Quero passar um tempo com você antes, se não se importa.
Ele abriu um largo sorriso.
– Seria um prazer.
***
Ele não se reconhecia mais. Achava até que se olhasse seu próprio reflexo no espelho, veria outra pessoa. Onde estava o Natsu de antes? Aquele que não se importava com nada além de si mesmo e que não acreditava nos bons sentimentos?
Ah, isso havia sido antes de Lucy.
Mas o que o irritava era que, estava gostando. Mas não queria gostar. Lucy havia despertado nele o garoto que sempre foi, e que estava escondido atrás de tantas sombras e sofrimento, que era quase invisível. Mas a luz dispersou a escuridão e o medo, e o resgatou de volta.
Olhou o brilho em seus olhos chocolates ao se admirar com a paisagem lá fora, rindo e perguntando fascinada sobre o lugar. Ela era tão pura e inocente. Talvez isso tenha despertado nele um pouco de compaixão. O que não esperava é que outro sentimento proviesse desse.
Amor.
“Rum, coisa de idiotas”, era o que diria até 24h atrás. Mas... será mesmo? Por que ele estava se achando o mais de idiota de todos os idiotas nesse momento. O orgulhoso já penetrado até os ossos não o deixava sorrir abertamente, por isso ficava reprimindo a vontade de seus lábios esboçarem um enorme sorriso. Ah, cara, seria ridículo demais. Mas era incontrolável. Não sabia como agir. Lucy era como um impulso que agia de fora pra dentro dele. Ela o contagiava de tamanha forma, que se fosse mais corajoso a jogaria no alto de tanta felicidade.
Ele estava mesmo feliz? Não sabia dizer. Natsu se desacreditou que a verdadeira felicidade exista há muito tempo. Durante todos esses anos de amargura, disse a si mesmo que a felicidade é uma ilusão criada por nós mesmos para aguentarmos a dura estrada na vida e não enlouquecer.
Mas, só para contrariar sua teoria, ele não havia procurado isso. Ah, os Deuses sabem que desde o primeiro momento de encanto pelos cabelos dourados ele tentou lutar contra isso. Mas foi totalmente dominado. Pela inocência. Pela gentileza. Pela bondade. E principalmente, pelo fascínio que ela sentiu por ele. E vice-versa.
Porém, o que ela sentia? Difícil saber. Mal conhecia Lucy, ela poderia ser assim com qualquer um. E pela primeira vez na vida a sensação de não ser especial doeu. E muito. E também, acabou se dando conta de que queria que ela gostasse dele. De verdade.
Se isso era uma forma de amar e querer ser correspondido, ele não sabia. Mas a deixaria entrar na sua vida e continuar sua magia.
A magia que sentiu desde a primeira vez que a viu.
O vulto do inicio da construção da estação interrompeu o caminho verde das árvores e ele voltou a si. Haviam chegado. Observou o bico de Lucy crescer em protesto da falta de paisagem.
Riu.
– Nós chegamos.
Ela deu um pulo do assento, fazendo com o que o capuz do moletom caísse e revelasse todos os fios dourados.
– Sério? – perguntou, totalmente animada.
– Sério. – se levantou e pegou sua mochila no bagageiro superior. Quando se virou, notou Lucy quase se contorcendo de alegria. Não sabia se era por estar longe da sua cidade e consequentemente do pai, ou se era por estar com ele. Preferiu acreditar na segunda opção, por que ele sentia o mesmo. – Vamos? – Estendeu a mão para ela, que sem nem pensar o agarrou e saiu em disparada para fora. – Espera!
Ela apenas riu como uma criança e continuou a correr. Passaram pela estação e todos olhavam para os dois, porém ele nunca se importou com isso, e parecia que Lucy também não. Não sabia o que tinha dado nela, mas seu coração se amoleceu por vê-la tão feliz, gargalhando enquanto olhava de vez em quando para trás. Atravessaram as ruas como balas, não sabia onde ela queria chegar, já que não conhecia nada, mas pelo caminho que estavam seguindo soube que ela estancaria no lugar assim que visse a...
Nem percebeu que haviam chegado no dito cujo lugar, mas Lucy não pareceu perceber e nem se encantou por isso. E antes que ele pudesse gritar algo, já era tarde demais. Caíram no lago da praça principal de Magnólia, com Lucy aos berros e ele inutilmente tentando aliviar a queda de ambos. Bem, não deu muito certo.
Ele gemeu sentido o peso dela em cima de seu tronco. Caramba, como era pesada! A loira murmurou alguma coisa de modo choroso, mas não conseguiu entender. Ótimo, estavam totalmente encharcados. E como se não fosse ruim o bastante, quando abriu os olhos deu de cara com um senhor de idade que estava a jogar comida para os patos, todo molhado e com uma face incrédula de quem acabou de ver um disco voador cair em sua frente. Assim como o resto das pessoas da praça.
– Você está bem? – Natsu pergunta, tentando ignorar os olhares repreensivos de uns, e risadas da maioria.
Ela geme algo em resposta e levanta o rosto da água. Sua face estava um pouco amassada e as algas estavam enroladas em sua cabeça. Ele havia caído de costas e ela de frente. E como não tinha feito em anos, Natsu caiu na gargalhada. Uma bem profunda e verdadeira.
– Qual a-a gra-graça? – ela perguntou, com o rosto rubro.
Ele nem ao menos conseguia falar, sua barriga doía e estava sem forças para levantar. Quando se recompôs um pouco, conseguiu apontar para seu rosto.
– Seu cabelo... seu rosto! Ah! – e voltou a rir.
Lucy arregalou os olhos e ficou zarolha por um momento ao olhar para seu próprio nariz, encontrando ali umas algas enroscadas. Com nojo, se levantou aos gritos tirando histericamente aquela coisa de si, enquanto Natsu continuava deitado se acabando de rir.
– Não ria! – ela ordenou, um pouco emburrada, inclinando o corpo com os punhos fechados. Até que se deu por vencida e começou a rir da própria desgraça.
Quando nenhum dos dois aguentava mais, ele se levantou e limpou a poeira da roupa, mesmo não sabendo por que raios o fez, já que estava todo ensopado. Pegou a mochila da água e saiu de mãos dadas com Lucy, que ainda se mantinha risonha.
– Sem correr dessa vez, okay?
– Okay! – deu uma risadinha, até que olhou para frente e arregalou os olhos, ficando petrificada no lugar.
Era para você ter visto antes de cairmos, Natsu pensou, num suspiro. Riu da cara de surpresa que ela fez.
– É lindo, não é?
– Sim, é lindo. O que é?
– É a maior Cerejeira da cidade.
Em frente a eles, estava uma árvore gigante com uma imponente exuberância e beleza. O tronco era tão grosso que precisava de umas dez pessoas para abraçá-la inteiramente. Suas folhas ainda estavam verdes, pois ainda não era época das Sakuras florescerem.
Lucy se aproximou timidamente e acariciou a madeira da grande árvore, encantada. Ele chegou mais perto.
– Você precisa vê-la no festival Hanami da cidade, são quando as Sakuras florescem.
– Queria muito ver.
– E verá. – ele disse e ela o olhou surpresa. Sim, era mais que um convite. – Faz anos que não venho de verdade para o festival, seria ótimo vir com você.
– Claro, eu irei adorar. – ela sorriu timidamente, com o rosto rubro. – Deve ser a coisa mais linda do mundo.
– Bem, para mim, é a segunda coisa mais linda.
Ela pareceu chocada.
– Eh? O que seria mais lindo que isso?
– Você.
Pela primeira vez desde que a conheceu, Natsu não ficou com vergonha de dizer algo que sentia. Era verdade. Lucy era a coisa mais linda que ela já havia visto em sua vida.
A visão de sua face ainda mais vermelha e seu corpo dando sinais de timidez foi ainda mais bonito. Ela virou o rosto e fez um bico fofo.
– O-obrigada.
Ele soltou uma risada.
– De nada. Vamos, meu apartamento é perto daqui. Temos que tirar essas roupas, se não ficaremos resfriados.
No segundo seguinte, Lucy espirra.
– Olha aí, não disse?
– Estou bem. – ela responde, meio fanha e com o nariz já vermelho.
Sensível, Natsu pensou. Ou talvez ele que fosse quente demais. Engoliu em seco, corando com o início de pensamentos impuros envolvendo a calorimetria. Olhou para as roupas coladas no corpo da loira, delineando todas as suas curvas perfeitas. Deu graças aos Deuses pela regata não ser branca. Pigarreou e segurou a mão dela. Pelo menos isso ele podia fazer.
– Vamos te esquentar quando chegarmos.
Ele sentiu sua mãe tremer um pouco, talvez fosse o frio.
Lucy pronunciou as palavras meio hesitante e percebeu que todo o seu rosto agora estava rubro.
– Certo.
***
– Bem, é aqui.
Parados em frente ao apartamento, Natsu abre a porta com o número 64 e deixa Lucy entrar primeiro. Grande erro. A sala, assim o como o resto da casa, estava numa bagunça total. Roupas espalhadas por todos os cantos, garrafas de bebidas e restos de embalagens de comidas para microondas e fast-food. Era assim que Natsu vivia.
Lucy entrou um pouco hesitante, o lugar estaria no breu se não fosse a luz do dia que passava pelas frestas das portas e janelas. Ele fechou a porta e colocou a mochila em cima da mesa na sala, se sentindo envergonhado.
– Desculpe a bagunça.
Ela se virou para ele sorriu, achando graça de sua atitude.
– Tudo bem. Só achei que era mais organizado.
– Eu costumava ser.
– E por que não é mais?
– Por que quando perdemos a coisa mais importante da nossa vida, fica difícil organizar sua própria mente, quanto mais sua casa.
Lucy arregala os olhos levemente. Okay, foi forte e inesperado. Uma confissão indireta que dizia tudo e nada ao mesmo tempo. Quando viu, já estava falando. Natsu sentia necessidade de se abrir com ela, talvez pelo fato de que estavam “morando juntos” agora. E Lucy pareceu entender sua dor, pois lhe enviou um olhar acolhedor e assentiu com a cabeça, sem fazer mais perguntas.
– Posso te ajudar aqui, se quiser. – ela disse, com a voz um pouco fraca.
– Não quero que se sinta triste por mim. – ele se pegou dizendo, ao notar seu tom. Não queria que ela se entristecesse. A queria feliz.
Ela balançou a cabeça.
– Impossível. Não poderia evitar a sua dor, mas queria estar aqui para te apoiar. Quem sabe você não estaria vendo o mundo de outro jeito agora?
– Verdade. – ele sorriu – Mas, mesmo assim, você está me fazendo enxergar tudo com outros olhos agora.
Ela coloca a mão fechada sobre o peito e fecha os olhos, como se o fato de saber que ela estava o tirando da escuridão fosse o maior dos alívios.
– Antes tarde do que nunca.
– É o que eu sempre digo... Você vai tomar banho primeiro, ou vai piorar. – disse ele, mudando de assunto. A ligação entre eles era tão forte que nenhum dos dois conseguia reprimir tais palavras, mas ainda estava muito cedo. E também, não era o momento propício.
– Claro.
– Droga!
– O que foi?
– Esqueci que não tenho água quente! – ele praguejou, soltando um palavrão baixinho. Se fosse só por ele tudo bem, mas como ele iria cuidar dela sem que ficasse doente sem água aquecida?
– Não precisa se desesperar, está tudo bem. – o confortou. Mais um espirro em seguida.
– Não está nada bem, só parou mais de espirrar por que saímos da ventania da rua. Eu tenho uma banheira velha que nunca uso – saiu andando para a cozinha enquanto falava. – é mais fácil consertar que o sistema elétrico do chuveiro. – Voltou para sala com uma caixa de ferramentas na mão. – Vou consertar, fique a vontade enquanto isso.
– Espera. – ela o alcançou, segurando seu braço.
Se sentiu nervoso de repente. Perto. Demais.
– Obrigada – se inclinou para frente e na ponta dos pés, beijou sua bochecha. O toque de seus lábios era macio. – Por tudo.
Ele colocou a mão onde havia sido beijado e sentiu seu rosto esquentar. Lucy estava igual.
– Não precisa... agradecer.
E, como uma menininha apaixonada de 12 anos, ele correu para o banheiro onde se trancou. Cara, essas sensações eram embaraçosas demais, ele estava muito nervoso.
Seriam longos dia com Lucy ali.
***
Lucy deu mais uma série de gritinhos histéricos quando ele saiu em disparada, mas logo se recompôs e pôs as mãos na boca com medo de que fosse ouvida. Respirou e expirou fundo, balançando a cabeça. Foco, Lucy. Fo-co. Estava difícil se controlar, sinceramente. Mas, não estava aguentando as coisas bonitas que ele estava dizendo para ela. Parecia um sonho, praticamente vivendo uma história de romance igual aos seus livros preferidos. Natsu não era muito de dizer tais coisas, ela percebeu isso durante o pouco tempo que estavam juntos. Então, sabia que cada palavra que saia da sua boca era verdade. Era muito cedo para saber se ele estava gostando dela de verdade também, ou até mesmo se confessar, considerando que era um sentimento novo e confuso que estava sentindo. Queria se acostumar primeiro, viver com ele, saber do que gosta, seus medos, seus sonhos. E, só então, ela poderia abrir seu coração.
Com uma súbita animação, bateu as mãos. Olhou ao redor. Certo, estava um caos ali, e mesmo não tendo feito muito disso na vida, sabia pelo menos organizar. E entre espirros e fungadas, ela foi limpando o local. Colocou todas as roupas sujas numa cesta e tentou não dar asas a sua imaginação fértil ao se deparar com uma cueca boxer preta em cima do abajur da sala. Jogou todas as embalagens no lixo e não deixou de se entristecer ao jogar fora também as diversas garrafas de bebida alcoólica. “Ah, Natsu. Pelo o que você passou?”, pensou. Ele era tão novo para se destruir assim. Mais do que nunca ela queria ajudá-lo e a ideia de ir embora um dia estava cada vez mais saindo de sua cabeça. Precisava ficar com ele. Queria ficar com ele. Pelo bem dos dois.
Depois de uma geral, encontrou uma vassoura na lavanderia e varreu toda a casa. Abriu todas as janelas da casa para deixar a luz entrar. Pelo cheiro úmido do ambiente ele não fazia isso com frequência, o que era um grande desperdício já que tinha uma vista linda da varanda da sala e luz sempre é bom. Organizou o lixo, espanou alguns móveis e bam! Tudo limpo e organizado. Sorriu para o seu trabalho, se sentido satisfeita. Nem havia sido tão difícil, já que não havia praticamente nada na cozinha para se preocupar com pratos sujos. Só precisava de um pouco de organização.
Estava numa crise de espirros quando Natsu saiu do banheiro. Droga. Ele estava bem, por que ela tinha que ser tão sensível?
– Você está piorando, ainda bem que eu consertei rápido.
– Estou bem. – espirra – Vou me sentir melhor depois de um banho e um remédio para dor de cabeça.
Definitivamente, os sintomas da ressaca ainda não tinham saído ao todo, e junto com um possível resfriado não era legal. Natsu deixou a mala de ferramentas em baixo do balcão da pia e se aproximou dela.
– O-o quê? – perguntou, assustada pela aproximação.
Ele colou sua testa na dela.
– Ainda bem que não está com febre.
Os dois coraram. Ele se afastou.
– É...
– Eu tenho uma aspirina aqui.
Ele pegou uma pequena maleta em cima da geladeira e tirou de lá um comprimido. No pouco tempo que viu, percebeu os diversos remédios para dormir que havia lá dentro. Mas preferiu fingir que não havia visto nada para não constrangê-lo. Ele contaria quando se sentisse à vontade.
– Tome, vai se sentir melhor. – entregou a ela o remédio junto com um copo d’água.
Ela tomou imediatamente.
– Bem – ele coçou a nuca. – Pode se sentir a vontade e entrar no meu quarto para procurar algo que vestir, já que tudo está encharcado e nem sei como meu celular está funcionando.
– Eu sinto muito.
– Tudo bem, não foi culpa sua. – Lucy arqueou as sobrancelhas. – Okay, foi sim, mas está tudo bem. Foi divertido. – os dois riram – Está quase na hora do almoço e como já deve ter percebido não tem nada comestível nessa cozinha, a não ser que goste do sabor do alumínio das panelas.
Ela soltou uma gargalhada. Natsu sabia fazer piada, então.
– Acho que prefiro algo mais macio.
– Concordo. O banheiro fica ali e tomei a liberdade de preparar a água. – apontou para porta no fundo do corredor. – Também há tolhas limpas.
– Obrigada. Mas e você, não vai ficar resfriado?
Ele sorriu de um modo mais... malicioso e aquele olhar sarcástico entrou em cena.
– Como você mesma disse, eu sou quente.
Ela abriu a boca para falar, mas estava sem palavras. Corou até a alma. Então ela tinha dito isso mesmo! Natsu riu.
– Tudo bem, vou ficar ótimo. Preciso comprar comida.
Ele saiu andando e estancou na sala. Se virou e olhou para ela de olhos arregalados, que agora mantinha um sorriso triunfante no rosto. “Olha, eu também sei surpreendê-lo!”, se vangloriou.
– Que mágica aconteceu aqui? – ele perguntou, apontando para ao redor.
Lucy cruzou os braços.
– Sou uma maga, então.
Ele sorriu e seguiu para a porta, falando antes de sair.
– Disso eu não tenho dúvidas, já que você me enfeitiçou.
Ah... O quê?
Lucy ficou paralisada na cozinha depois que ele fechou a porta. E depois de alguns minutos também. E, assim que sua mente lerda se deu conta do que ele havia dito, quase se jogou no chão de emoção. “Você me enfeitiçou”. Oh, por Afrodite!, como diria Bob. Estava até com dificuldades de respirar. Certo, uma... cantada? Não sabia, Lucy era boba e para ela isso poderia significar tudo e nada ao mesmo tempo. Mas ficou feliz. Natsu estava brincalhão, risonho e amoroso. Uma mudança e tanto considerando os foras que havia levado desde o início. E podia dizer com toda certeza que o preferia assim.
Saltitando como uma criança, entrou no banheiro e foi tomar banho antes que ele chegasse.
***
Realmente, depois de um banho quente e roupas secas, ela se sentia melhor. Tirando o fato de que ficara quase meia hora só de toalha em frente ao quarto de Natsu com vergonha de entrar, estava tudo bem. O quarto era organizado, mas estava um pouco úmido. A cama de casal estava organizada, mas parecia que há muito tempo ninguém dormia ali. Ele passava o dia fora, ou simplesmente dormia na sala ao relento? Não sabia. Só sabia que ele era solitário e na casa não continha nenhum objeto de valor sentimental. Lucy queria mudar isso. Como só achou camisetas, vestiu uma que serviu como vestido e saiu rapidamente dali, antes que sua cabeça formulasse alguma cena envolvendo a cama de casal e os dois deitados nela. Pelos Deuses, que perversão.
Sentou no sofá da sala, sentindo algo duro em seu traseiro em baixo da almofada. Levantou-se, encontrando um controle do que parecia ser um vídeo-game, encontrando o resto do equipamento no raque. Como se chamava mesmo? Joy... Joystick, parece que era assim. Bem, o máximo que Lucy jogou na vida, foi xadrez e alguns outros de tabuleiros e lúdicos. Seu pai nunca a deixara se apegar a eletrônicos que a distraísse do mundo real, como computadores, vídeo-games e até televisões. Aprendeu a viver sem isso, e apenas com os livros. Mas a curiosidade era muita e queria experimentar. Olhou para o objeto preto com botões coloridos, pediria a Natsu para jogar quando ele chegasse.
A campanhinha tocou de repente e com o susto ela jogou o joystick para o alto e soltou um grito. Graças aos Deuses o pegou antes que se espatifasse no chão. Será que era Nastu? Ele havia esquecido a chave?
Aproximou-se da porta, enquanto a campainha era apertada freneticamente. “Que coisa, já vai!”. Só para ter certeza, e desconfiada pelas más experiências que passou, olhou pelo olho mágico. Uma garota de cabelos azuis e com fardamento escolar enfiava o dedo no botão como se aquilo fosse a coisa mais divertida no mundo. Ela não estava com uma cara muito boa.
Antes que Lucy pudesse se pronunciar, ela falou:
– Vamos, Natsu! Sei que está aí, abra essa porta.
Quem era? Com certeza o conhecia... será que era algum tipo de namorada? Não, ele não era tão canalha assim. Ou será que era? Com coragem ela respirou fundo e abriu a porta, melhor saber logo de uma vez. A garota entrou com tudo, ela era baixinha e tinha uma voz aguda, porém imponente.
– NATSU, EU NÃO ACREDITO QUE... Quem é você? – ela parou de gritar e perguntou ao notar a presença da loira.
A azuladinha a olhava com curiosidade e Lucy de repente se lembrou que estava vestida apenas com a camisa de Natsu. Corou da cabeça aos pés e se encolheu, tentando inutilmente aumentar o comprimento da camisa a puxando para baixo.
– Eu...
– É muito fofa para ser uma mulher da vida.
Oi?
– O quê?
– Esquece. – ela sorriu. – Onde está o Natsu? Você é namorada dele?
Lucy se engasgou com a própria saliva.
– N-Não!
– Pois eu acho que você está mentindo!
– O quê?
A garota suspirou e fechou a porta, trancando-a a chave em seguida. Caminhou em direção a Lucy com um rosto sério e automaticamente ela foi retrocedendo os passos, assustada. Quando se deu conta, estava sentada no sofá com a garota praticamente em cima de si. Era muito boba, estava com medo de uma garota com metade de seu tamanho. Mas ela tinha uma cara assustadora e... vai que ela poderia ter uma faca? Lucy odiava armas, brancas ou não.
– Olha, o negócio é o seguinte: Quero saber para onde ele foi nesse final de semana, o que ele fez e por que só voltou agora. Também quero saber quem é você e por que está aqui como se fosse dona do lugar, se não é a namorada dele.
Muitas perguntas para a cabeça da pobre Lucy.
– Qual foi a primeira pergunta?
– Pelos Deuses! – a garota bufa e revira os olhos, saindo de cima dela.
– Desculpe se eu te ofendi, é que você me pegou desprevenida. Ele saiu e não, não sou a namorada dele. É só isso que posso dizer.
A azulada massageou as têmporas e se sentou na poltrona.
– Você é desse mundo?
– O quê? – Lucy indaga, confusa. Que tipo de pergunta era essa?
– Eu que devo te pedir desculpas e não ao contrário, me desculpe. Você é linda e parece um anjo, por isso descartei a primeira hipótese. – Lucy corou, mas não entendeu o que ela quis dizer. – É que o Natsu sumiu e estamos preocupados, quando te vi aqui fiquei curiosa e te abordei dessa maneira. Desculpe.
– Agora eu que pergunto: Você é namorada dele?
A baixinha arregala os olhos.
– Pelo amor, não! Somos amigos.
– Ah, graças aos Deuses. – suspira de alívio, até que nota o olhar malicioso e intimidador da garota. Como uma baixinha pode ser tão ameaçadora? – Quero dizer, ainda bem que... hã, eu não... cometi um mal entendido.
– Aham, sei... – ironizou. – Bem, eu me chamo Levy, e você?
– Sou Lucy. Lucy Hear... Só Lucy. – concluiu e estendeu a mão para um aperto, mas ao invés disso a garota a abraçou.
Lucy ficou perplexa.
– Você é uma fofa! – riu e se virou para apertar as bochechas da loira, que ainda se mantinha assustada com a situação. Mas a pequena parecia não ligar e sentou ao lado dela, bem próxima, quase a espremendo no fundo do sofá. – Então, me diga, Lucy. Como conheceu o Natsu?
Ela corou.
– Er... eu o conheci em Hargeon...
– Ah, então foi para lá que ele foi!
– Acho que sim. – disse o óbvio.
– Bem, estou impressionada com a limpeza desse apartemento. – disse, olhando ao redor. – Da última vez que estive aqui, estava um chiqueiro. Foi você que arrumou?
– Sim.
– Entendo... mas, se você não é mesmo a namorada, por que está vestida com a camisa dele?
– Ah... por que eu... minhas roupas molharam. – não era de todo mentira, mas estava ficando nervosa com a inquisição da baixinha. Ela pareceu desconfiada, mas se deu por vencida e se levantou.
– Bom, Lucy. Eu gostei de você, de verdade. Vou te fazer um favor.
Lucy ficou confusa, até que a viu retirar do bolso um celular onde discou alguns números rapidamente e se pôs a falar.
– Sou eu. Não, ele não está, mas já está vindo. Depois eu explico... Okay, mas antes de vocês virem para cá, pode pedir a.... – Levy parou de falar e se aproximou de Lucy, colocando a mão em seus seios em seguida. A loira soltou um grito e se cobriu com as mãos, mas ela não pareceu ligar e continuou o telefonema. – ... Juvia para trazer algumas roupas dela? Eu já disse que explico quando chegarem. Tragam algumas coisas de mulher também. Até mais.
– Por que fez isso? – Lucy perguntou, ofegante, enquanto ainda se escondia encolhida no sofá.
Será que ela era algum tipo de hentai? Já tinha ouvido falar nesse tipo de garota.
– Deixa de besteira, só fui ver seu tamanho de busto.
“E isso só apalpando?”, Lucy pensou, horrorizada. Mas quando Levy sentou e abriu a bolsa para guardar o celular, seus olhos brilharam.
– A Tempestade!
Sem se importar, a loira se inclinou e puxou o exemplar de William Shakespeare da bolsa da azulada. O livro estava surrado e gasto, mas quando virou a capa viu que era um dos primeiros exemplares.
– Você gosta? – Levy pergunta, um pouco surpresa.
– “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” – citou uma frase.
O que se seguiu foi uma série de gritinhos histéricos com as duas abraçadas pulando em cima do sofá.
– Não acredito, finalmente alguém que tem cultura!
– Eu tenho o primeiro exemplar na biblioteca da minha casa.
A boca da azulada se abriu num perfeito “o”.
– Não. Acredito. Nisso. Kyah, você tem que me emprestar!
Quando Lucy estava para responder, aporta é aberta e por ela entra um Natsu cheio de sacolas. Ele observa incrédulo as duas abraçadas em cima do sofá, mas franze o rosto para Levy.
– Oi, Natsu. – ela diz.
– O que você está fazendo aqui? – diz ele, com a voz alterada.
“Droga”, é só no que Lucy consegue pensar. O Natsu divertido foi embora e voltou o antigo. Sua face está raivosa e a veia que salta em seu pescoço parece uma bomba prestes a explodir.
“Ah, não, Natsu. Volte para mim.”
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