Tempo Ao Tempo
7 Capítulo 6 – A promessa.
Notas iniciais
Não sabia o que fazer, por isso continuou em pé em cima do sofá trocando o olhar de um para outro, esperando algum tipo de reação.
Simplesmente não conseguia entender o aparente desprezo ao qual Natsu tratava sua amiga. Sabia que ele não mudaria assim tão rápido, mas a diferença de humor foi drástica e rápida demais. Era como se ele não quisesse mostrar o lado gentil e fofo que mostrara a Lucy aos seus amigos. Só queria entende o porquê.
— Como assim, o que estou fazendo aqui? — Levy finalmente reagiu, depois de alguns segundos de choque. — Você sumiu desde quinta-feira! Não atendeu nossas ligações e nem em casa estava! O que queria que fizéssemos? Estávamos preocupados, poxa!
Por um momento, Lucy pensou em seu pai e em como ele estaria agora, totalmente desnorteado sem notícias suas. Talvez devesse ligar para dar notícias, mas isso significaria uma equipe policial arrombando a porta daquele apartamento em no máximo três minutos seguintes. E muito provavelmente Natsu seria preso por sequestro – o que, obviamente, não era verdade. – e ela ficaria de castigo pelo resto da vida.
Balançou a cabeça. Não era hora de pensar nisso, por isso voltou sua atenção para Natsu quando ele começou a falar.
— Dispenso a preocupação, obrigado.
Doeu até em Lucy a natureza fria de suas palavras. Levy fechou os olhos e respirou fundo, como se aquilo tivesse doido fisicamente. E Lucy sabia que sim.
— Não sei por que ainda me surpreendo com você. — Diz ela, mais calmamente. — Entendo sua mudança de comportamento depois daquilo. Aceitamos você com essa máscara de durão, quando na verdade por trás dela há um garoto gentil e sentimental. Continuamos seus amigos, Natsu. Só não entendo por que você não se preocupa em dar o mínimo de satisfação para nós, que somos os únicos que você tem! Simplesmente não entendo.
Definitivamente aquela discussão estava alcançando outros patamares. Lucy não queria saber da vida dele desse jeito, mas não poderia perder a oportunidade de saber um pouco mais. Natsu provavelmente era daquele jeito para se proteger. Como quando alguém que sofreu muito na vida mata dentro de si todo e qualquer sentimento irracional que possa a vir magoá-lo mais uma vez. Não sabia o que era isso, mas tinha alguma ideia através de algumas histórias que leu. E também, não tinha direito de se intrometer. Eles tinham que resolver isso sozinhos.
Percebeu que Levy estava levemente alterada, enquanto Natsu continuava com aquela expressão tediosa que Lucy já bem conhecia. Ele colocou as sacolas sobre a mesa e foi retirando os alimentos de dentro calmamente, enquanto ainda falava:
— Nunca pedi que fizessem nada, Levy. Já disse que dispenso preocupações. Afinal, pago minhas contas e não devo satisfações a ninguém. Por favor, vá cuidar da sua vida.
Cara, Lucy teve vontade de chorar. De verdade.
Como Natsu podia ser tão cruel? Ele estava tão diferente, ainda pior de quando como o conheceu. Lucy certamente não gostava disso. Queria aquele garoto gentil de volta, que ficava com vergonha das coisas que falava pra ela. Absolutamente não gostava do que estava vendo.
Percebeu que Levy estava tremendo e seus olhos estavam levemente arregalados. Mas aquilo não era só mágoa, parecia uma mistura de raiva, indignação e descrença. Saiu do lugar e praticamente avançou em cima dele, que ainda continuava a desempacotar e empilhar os objetos sobre a mesa.
— Como você é mentiroso, Dragneel. Mente até para si mesmo! — Ela praticamente gritava em sua face, mas ele continuou o que estava fazendo como se não se importasse. — Se realmente não precisa de ninguém, o que ela está fazendo aqui? — Apontou para Lucy, que arregalou os olhos. — Quem é ela, Natsu? Por que ela merece te ver como você realmente é, e nós não? Por quê?
Natsu colocou rudemente uma lata sobre a mesa de vidro, que quase quebrou com o impacto. Fechou os olhos e apertou tanto o objeto, que seus dedos ficaram brancos.
— Não fale da Lucy. — Respondeu num rosnado, de cabeça baixa. Quando levantou a cabeça, seus olhos queimavam em fúria. — Você não sabe de nada, então não fale como se me entendesse. Ela não tem culpa. Ela é diferente.
Lucy não estava gostando disso. Entendia o que Levy queria dizer, afinal ela acabara de conhecê-lo. Não tinha direito de nada, não sabia de nada. Não compreendia por que Natsu a tratava tão bem, enquanto seus amigos não recebiam tal tratamento. Não queria que eles brigassem por causa ela. Por isso não segurou as lágrimas e começou a chorar.
— Parem, por favor. — Disse, com a voz fraca e embargada. Mas eles não escutaram e a discussão continuou.
— Você não imagina o quanto fiquei feliz quando a encontrei aqui hoje. Feliz por você ter alguém. Só queria que se abrisse mais para nós, só mais um pouco. — Ela gesticulou com os dedos, sua voz ameaçando um choro. — Somos uma família, Natsu. Uma família, se lembra?
— Eu não tenho família, e você sabe disso.
Essa tinha sido a gota d'água pra Lucy, que não segurou os soluços. Não queria que nada daquilo tivesse acontecido, era tudo culpa dela. Odiava esses sentimentos ruins, só queria que todo mundo fosse feliz. Por ela, carregaria toda a dor do mundo nas costas, suportando todos os medos e angústias, para que todos vivessem em harmonia. Infelizmente, isso não era possível.
— PAREM!
Quando Levy a olhou assustada, percebeu que uma lágrima solitária caia de seu rosto. Parecia ser tão difícil ela chorar, a baixainha tinha uma aura tão espontânea e alegre. Já Natsu a olhava de olhos arregalados, mas Lucy só queria sumir. Sentou no sofá e abraçou as pernas, chorando em meio a elas.
— Por favor, parem.
— Lucy... — Natsu balbuciou, com a voz perplexa.
— A culpa é minha, me desculpem. Me desculpem. — Continuou a dizer. — Eu não queria que nada disso acontecesse. Não queria.
— Não é culpa sua.
Levantou a cabeça e foi surpreendia por um abraço. Natsu a aconchegou com seus braços mornos e seu cheiro almiscarado. Lucy colocou a cabeça em seu ombro e apertou o tecido de sua camisa, passando a chorar mais desesperadamente. Levy estava magoada. Ela queria que ele a abraçasse também.
— Não é culpa sua. — Ele voltou a dizer. Sua voz doce e carinhosa nada tinha a ver com as atitudes de segundos atrás. — Não se culpe por um passado ao qual você não fez parte. Só preciso que me ajude a construir um futuro diferente e mais bonito.
Um soluço mais alto escapou e ela apertou os olhos. Natsu colocou seu rosto entre as mãos, em seguida fazendo com que suas testas ficassem coladas e um olhasse nos olhos do outro. Ele fechou os olhos e sorriu de canto, enquanto ela continuava a chorar. Queria que ele fosse assim sempre. Com todo mundo, não só com ela.
Desviou o olhar para Levy que se mantinha perplexa para a cena, e que quando notou ser observada desviou o rosto e se virou.
— Entendo. — A viu enxugar o rosto, e mesmo que sua voz estivesse um pouco fraca, jurou ter ouvido um sorriso por parte dela.
Sorriu tristemente e voltou a olhar para o rosto de Natsu, que imediatamente abriu os olhos de novo. Já era definitivo, ela o amava.
O amava tanto que chegava a doer. Não ligava se era cedo demais, ou se era precipitado aceitar esse sentimento. Só queria senti-lo, com todas suas forças. Aproveitar cada segundo com ele. E a partir dessa convicção, decidiu que o faria se abrir. Mostrar a todos como ele realmente era. Por quem ela havia se apaixonado.
E então abriu um sorriso e corou, só então se dando conta da extrema aproximação. Ele era tão lindo...
A campainha tocou nessa hora, mas ele não parecia querer sair dali ou parar de olhá-la. Estava ficando envergonhada, afinal Levy estava ali também.
— Deve ser o pessoal. — Disse ela, sem se virar.
Quando a porta foi aberta, viu de relance cinco pessoas aglomeradas na porta, a conversar e gritar, um falando por cima do outro. Parecia uma divertida discussão, e Lucy sorriu. Ouvindo o alvoroço, Natsu inclinou a cabeça para trás e o viu revirar os olhos.
Ah, não. Hostilidade de novo não.
E então, ela teve uma ideia e sorriu diabolicamente. Gritou em seguida:
— ABRAÇO COLETIVO! — E se jogou com tudo em cima do rosado, que caiu de costas no chão.
Não houve mais de um segundo de surpresa do grupo, pois todos entraram de uma vez se jogando em cima deles, aos gritos e risos. Não conhecia aquelas pessoas, mas se eram amigas de Natsu, tinha certeza de que eram maravilhosas.
Natsu gritava grosserias, mas ninguém parecia ligar, muito menos Lucy. Só continuaram a brincar aglomerados no chão, eles nem pareceram notar a estranha presença da loira. E quando percebeu que mais alguém faltava, sorriu para Levy e a chamou com as mãos. Ela hesitou por um segundo e se jogou no meio, passando a sorrir. E não foi preciso palavras para a azulada entender a promessa que Lucy estava fazendo.
A de trazer Natsu de volta.
***
— Seus filhos da mãe, vocês foderam a minha coluna.
Lucy nunca tinha visto pessoas tão risonhas em sua vida. Também não fazia ideia do porque estava rindo tanto. Talvez por que estivesse feliz por ver que Natsu tinha amigos tão alegres, ou por que estava revigorada pela própria promessa. Ou talvez uma mistura dos dois.
Natsu continuava esparramado no chão, alegando ter ficado paraplégico depois dessa. O resto se espalhava ao redor da sala.
— Ah, Natsu. Não seja molenga. — Uma garota ruiva disse, com a voz autoritária.
Quando pôs os olhos em seu rosto, os olhos de Lucy brilharam e ela pulou em cima dela.
— Seus cabelos são tão bonitos!
A garota quase atravessou a parede de tanto que se encolheu, enquanto Lucy acariciava uma mecha escarlate de seu cabelo no rosto, como um gato.
— Qual é a da loirinha fofa? — Perguntou um garoto de voz grave.
Levy colocou a mão na boca e riu animadamente.
— Essa é a Lucy, namorada do Natsu.
— O QUÊ? — Todos gritaram, inclusive a própria Lucy que ficou mais vermelha que os cabelos da garota ruiva.
— N-na verdade e-eu sou s-só uma a-amiga. — Respondeu, timidamente.
— Levy, agradeça por eu estar impossibilitado de levantar temporariamente. — Disse Natsu, ainda no chão.
— Que seja. — Desdenhou. — Deixa eu apresentar vocês. Lucy, esse é de cabelo vermelho é a Erza. — A ruiva sorriu e acenou. — Esse com tatuagem estranha no rosto é o Jellal.
— Hey, é uma marca de nascença. — Retrucou o garoto. Lucy então notou que o cabelo dele também era azul como o de Levy, só que numa cor mais viva.
— Seu cabelo é lindo! — Comentou, maravilhada. Estendeu a mão para acariciar, mas recuou quando notou outra garota atrás dele com os fios na mesma cor. — Vocês três são da mesma família? — Perguntou alegremente, apontando para os dois e Levy.
— Não, é só uma bizarra coincidência mesmo. — Respondeu o tal de Jellal.
— Juvia se chama Juvia. — Disse a outra, sorrindo para Lucy. Ela estranhou a maneira da garota falar, mas devolveu o sorriso. Ela era muito fofa.
— Juvia tem mania de falar em terceira pessoa, não ligue. — Disse um garoto ao seu lado. Tinha cabelos preto-azulados e um olhar caído, mas parecia ser bem amigável. — Sou o Gray.
— Ou cueca gelada. — Natsu se intrometeu.
— Cueca gelada? — Perguntou Lucy, confusa.
— Essa história de novo não, foguinho! — Retrucou Gray e todos riram.
— Um dia eu te conto. — Erza cochichou em seu ouvido e ela deu uma risadinha. Eles eram divertidos.
— Estou feliz em conhecer os amigos do Natsu. Espero que possamos ser amigos também.
— Faltou eu! — Se pronunciou uma voz grossa e quando Lucy desviou o olhar viu um garoto gigante e assustador do lado de Levy.
Deu um mini gritinho e se escondeu atrás de Erza.
— Você assustou a garota, seu ogro! — Levy indignou-se, dando um tapa em seu braço. Como estavam sentados, ela subiu nas costas dele e começou a mordê-lo.
— Ai! Eu não fiz nada!
Ele parecia ser legal, mas tinha uma cara assustadora que lembrava muito os bandidos que a assaltaram no beco.
— Não precisa ter medo, Lucy. — Natsu disse, ainda no mesmo lugar, de modo passivo. — Ele é desse tamanho, mas chora quando vê gatos abandonados na rua. Não mata nem uma mosca.
O garoto cheio de pirciengs ficou rubro.
— E-ei!
— Esse é o Gajeel, Lucy. — Disse Erza. — Ele é legal.
A loira olhou por sobre o ombro e sorriu, acenando timidamente.
— Oi.
— Ah, Levy. Juvia trouxe as roupas que pediu! — Disse ela.
— E eu também trouxa umas coisinhas. — Disse Erza. — É para Lucy, não é?
— Sim. Beleza! Vamos pro quarto.
— Eh? — Lucy exclamou enquanto era arrastada pelas três.
— Hey, o que vão fazer com a Lucy?
— Cala a boca, Natsu. — Erza pisou de leve em seu peito e ele ofegou. Lucy quase morreu, isso poderia machucá-lo. — Coisas de mulher.
— Vamos jogar um pouco por enquanto, faz tempo que não competimos. — Falou Gajeel, massageando o ombro mordido.
— Eu vou primeiro, a porra do videogame é meu. — Disse o rosado e Jellal jogou o controle em suas mãos, que passou a jogar no chão mesmo.
Antes de Lucy perdê-lo de vista no corredor, ele piscou um olho para ela, que corou.
Dentro do quarto, Erza a jogou na cama e fechou a porta. No segundo seguinte Juvia e ela despejam o conteúdo de suas bolsas sobre o colchão que fica completamente colorido de roupas e acessórios.
— O que é tudo isso?
— Antes de qualquer coisa... Lucy, uma pergunta. — Levy a interrompeu, a deitou na cama e rodeou seu corpo com as pernas. Lucy arregalou os olhos quando ela segurou seu rosto: — Você gosta do Natsu?
No desespero de não saber o que fazer, optou por falar a verdade. Lucy não sabia mentir, e nem fazia ideia de como tinha conseguido enganar aquelas aeromoças no avião.
— S-sim.
— Kyah! Juvia está encantada!
— Que bom, Lucy. Que bom. — Levy parecia satisfeita.
— Só não precisava de tudo isso para perguntar, não é Levy? — Repreendeu Erza.
— Foi para dar mais ênfase a pressão psicológica. Estudos indicam que há uma maior probabilidade das pessoas falarem a verdade quando se sentem imobilizadas.
— Okay, pode calar a boca. — Erza jogou um muda de roupas no rosto dela. — Vamos logo escolher algumas combinações para a Lucy. Vamos tirando essa blusa e...
Lucy pulou para o outro lado da cama quando a ruiva fez menção de despi-la. Não, já tinha sido tocada demais por um dia, pensou lembrando-se do incidente do busto.
— Ah, qual é, Lu-chan! Você precisa tirar a roupa pra vestir outras. — Levy revirou os olhos.
— Lu... chan?
— É, Lu-chan! E acho melhor não reclamar e tirar logo essa... Roupa! — Se jogou em cima da loira, que correu para o lado oposto da cama.
— Mas eu estou sem sutiã! — Rebateu, envergonhada.
— Que besteira, está entre mulheres aqui. Se isso é um problema, todas nós ficaremos peladas!
O queixo de Lucy caiu quando viu a ruiva tirar a roupa e ficar só de calcinha. Os seios dela eram enormes.
— Erza... Juvia acha isso um exagero...
— Não começa você também, vem cá!
— Hã? KYAH!
O que se seguiu foi uma batalha para Erza conseguir despir a todas, com direito a guerra de travesseiro e gritinhos histéricos. Que sorte Natsu tinha. Eram todos malucos, mas de um jeito muito, mas muito divertido.
***
— Droga!
— Há, otário. Ganhei!
Natsu, como um mau perdedor, revirou os olhos e jogou o joy stick no rosto de Jellal, que era o próximo jogador. Só não teve o nariz quebrado por que conhecia o amigo e agarrou o objeto antes do impacto. O rosado, ainda no chão, foi se arrastando para longe.
— Tá perdendo a mão, ein? — Gray zombou. — Se fosse pra mim, eu até ficaria calado. Mas para o Gajeel?
— Eu estou ouvindo, seus putos. — Disse o moreno de costas.
— Cala boca, cueca gelada. — Natsu respirou fundo e colocou o braço nos olhos.
Lucy definitivamente o deixava desnorteado. Simplesmente não sabia como agir perto dela, era como se não tivesse controle algum de suas emoções. Com ela, não conseguia ser do jeito que costumava ser. Era como se... Quisesse cuidar dela, mimá-la e amá-la.
Amor.
Cara, já estava tão avançado assim? Droga de orgulho miserável que não o deixava se entregar por completo! Mas tinha que fazer alguma coisa. Por ele mesmo e por ela.
— Alô?!
Descobriu os olhos e direcionou-os numa expressão confusa e irritada para o moreno.
— O que é, caralho?!
— Te chamei uma mil vezes. — Bufou. — Estava perguntando como conheceu a Lucy.
Sem querer um sorriso brotou em seus lábios.
— Ah... — Quando estava prestes a falar, notou que até Gajeel e Jellal tinham parado o jogo e se virado para eles, a fim de ouvir a conversa. Retesou-se e fez cara feia. — Não é da conta de vocês.
— Que coisa gay, Natsu. — Gray observou. — Sorrindo feito um boboca e hesitando por que está com vergonha. Hm...
— Calados! — Tentou manter a aparência rígida, mas seu rosto corado o condenou.
— Xii, isso é coisa de quem está apaixonado!
— Igual a você e a Erza? — Indagou Gajeel, que começou a rir depois que o garoto ficou envergonhado.
— N-não é nada disso! E você também não pode falar nada, recebendo essas mordidas carinhosas da Levy. — Completou, o olhando maliciosamente.
— Ora, seu...
— Kyah!
Todos pararam o que estavam fazendo ao ouvir o grito abafado. Natsu se sentou num instante, aparentemente curado da coluna. Ainda se ouvia murmúrios baixos vindos do quarto. Era quase... Erótico.
— Vocês ouviram isso? — Ele perguntou, aguçando os ouvidos. Todos balançaram a cabeça.
— O que será que elas estão fazendo? — Jellal perguntou, com o rosto ameaçando a corar ainda mais.
— Talvez estejam apenas conversando. — Gajeel deu de ombros.
— Hm... Não, parem com isso! Isso é constrangedor!
— Ou talvez não. — Disse Gray, como o rosto levemente róseo.
— Lucy... — Natsu balbuciou, ouvindo a voz da loira. Aquele tom de voz... Era tão sexy.
As quatro mentes pervertidas passaram a imaginar o que se passava lá dentro. Um perfeito Yuri erótico, onde garotas nuas faziam guerras de travesseiros e apalpavam umas as outras.
Mal eles sabiam que era isso mesmo que acontecia lá dentro.
— KYAH! Aí não!
— Isso foi a Juvia? — Gray perguntou, um tanto perplexo.
— Ah, não. Por favor, é... AH!
— E parece que isso foi a baixinha... — Completou Gajeel.
— Não Erza, por favor. Pare!
— Cala boca e faça o que eu mando!
— Parece que a Erza é a líder... — Comentou Jellal e quase que Natsu pode enxergar sua imaginação fértil com uma cena sadomasoquista entre ele e a ruiva.
Mas Lucy estava lá! Pelos Deuses, queria tirá-la de lá, mas também queria ver... Cara, por que isso era tão excitante?
— Eu acho que preciso de um banho gelado. — Comentou Gray.
O resto suspirou e falou ao mesmo tempo:
— Todos nós.
— Espera! — É ouvida uma exclamação e a porta do quarto é aberta num estrondo.
Os garotos ficam parados escutando a conversa no corredor.
— Não posso aparecer assim, do nada. Tenho vergonha! — Diz Lucy. — Por que não vamos juntas?
— Não, você vai primeiro. — Levy responde.
— Ah, mas...
— Cala a boca e vai logo! — Erza se irrita, e sem seguida é ouvido um barulho.
Como se tivesse sido empurrada bruscamente – o que realmente aconteceu. – Lucy aparece na sala completamente diferente de antes. Parte de seu cabelo está levemente preso com uma presilha lateral em forma de borboleta. Seu rosto continua sem maquiagem, mas parece muito mais bonito pelo fato de estar completamente corado. Usando um vestido florido e sandálias trançadas, Natsu aprecia aquela visão perfeita. Ela fica linda de qualquer jeito.
— Oi. — Diz ela, timidamente.
— Oi. — Respondem os garotos de modo hipnótico, mas rapidamente se calam e se viram para o lado com um olhar raivoso do rosado.
Ele se levanta e fica de frente para ela.
— Você está linda.
— Obrigada. — Responde abaixando a cabeça, envergonhada.
Ele pega em seu queixo e a faz olhar para ele, cochichando em seguida.
— Estou com vontade de te beijar agora.
Lucy arregala os olhos e entreabre os lábios, sem saber o que dizer.
— Eu...
— Okay, vamos sair!
Natsu juraria que se estivesse em um filme de comédia, esse era o momento do som da vitrola arranhada quando algum personagem é interrompido. Olhou raivosamente na direção da ruiva, mas esta nem ao menos pareceu notar. As três apareceram devidamente arrumadas e vestidas para um passeio a tarde, enquanto ele e os garotos permaneciam como três molambentos.
— Aonde vamos? — perguntou Jellal, ainda parecendo envergonhado por antes. Gray e Gajeel sabiam disfarçar melhor. Se é que melhor se enquadra em olhar para um ponto fixo na parede e assobiar alguma coisa desconexa.
— Vamos fazer um piquenique no parque, a Lucy disse que nunca fez.
— Sim! — Respondeu a loira, animadamente. Natsu sorriu com isso.
— Hum, até parece. — Levy zombou. — Jogando a euforia pra cima da menina, quando na verdade é você quem está dando pulos de alegria por dentro, já que também é seu sonho fazer um piquenique.
— Então... — Erza controlou a voz, pegando a azuladinha por trás pelos cabelos, que fez uma careta de dor. Juvia se mantinha com uma face sem graça. — Vamos comprar algumas coisas por aí, tratem de usar as roupas que trouxeram pra trocar esses trapos.
— Como assim, roupas que trouxeram? — Natsu perguntou, indignado. Eles não iam...
— Não sabia? Vamos dormir aqui. — A ruiva respondeu calmamente, antes de sair arrastando Levy pelos cabelos com Juvia em seu encalço.
Miseráveis, queria ficar sozinho com a Lucy!
— Vamos, Natsu. — Lucy disse em seu ouvido, com a voz gentil. — Nunca tive amigos, vai ser divertido.
Ah, cara. Que molenga ele era! Tinha como negar alguma coisa para aquela carinha fofa?
— Tudo bem. — Suspirou, se dando por vencido.
— Eu entro no banheiro primeiro! — Jellal pegou sua bolsa e correu.
— Hey! Eu que vou primeiro! — Gajeel largou o videogame e correu para tomar o lugar.
— Nada disso, eu que vou! — disse Gray, se levantando.
Em seguida uma gritaria se formou em frente ao banheiro, numa briga de quem entraria primeiro.
— Idiotas. — Natsu revirou os olhos.
Lucy deu uma risadinha.
— São engraçados. Bom, vou procurar alguma toalha de mesa na cozinha pra forrarmos no chão.
Natsu notou que ela estava envergonhada e parecia querer fugir dele. Mas ele estava ficando maluco, precisava... Tê-la completamente. Foi atrás dela na cozinha e a encontrou abrindo algumas gavetas no armário. Notou que o alvoroço vinha de dentro do banheiro e parecia que todos três tinham entrado juntos. Que nojo.
Pôs-se na frente dela.
— Eu falei sério quando disse que queria te beijar.
Estavam tão perto que sentiu o corpo dela se arrepiar e se contrair levemente. De certa forma gostava de saber que esse era o efeito que causava nela.
— Eu sei disso.
— O que estavam fazendo no quarto? — Mudou de assunto.
Ela corou e desviou o olhar.
— Nada demais.
— Você vai dormir comigo hoje.
Como é?
Puta que pariu, cara! Por que ele tinha que ser tão impulso? Não era bem isso que ele queria dizer, mas já tinha dito e Lucy pareceu bem perplexa. Seu rosto rapidamente se tingiu de vermelho, nunca tinha corado tão rápido em sua vida.
— Q-quer dizer, eu não... Não foi isso que quis dizer, eu só...
— Eu durmo com você. — Disse ela, com um sorriso doce.
Ah... Hã?
— Éhr... Só dormir mesmo... Eu... Enfim, você entendeu. — Tratou de se explicar, mas já era tarde demais.
Só percebeu que estava excitado quando sentiu seu sexo pulsar dentro da calça. Sem pensar em consequências, apenas seguiu o fluxo dos acontecimentos e a imprensou na parede, segurando seu braço esquerdo pelo pulso acima da cabeça. Ela ofegou e arregalou os olhos.
— Natsu...
— Não devia confiar tanto em mim. — Falou de cabeça baixa. Aproximou-se de seu pescoço e cochichou em seu ouvido: — Muitas vezes não me controlo. E percebi que a coisa que mais me tira do sério, é você.
— Confio em você. Você é bom. — Sua voz falhou quando ele inalou o aroma de seu pescoço.
Natsu riu roucamente.
— Sua inocência me cativa. Vamos ver se sou realmente de confiança hoje à noite.
— Por que, o que você vai fazer? — Lucy inclinou o queixo como se o desafiasse, mudando subitamente para uma personalidade mais... Lasciva. Natsu se agitou com isso. Ele poderia avançar um pouco mais. Passou a língua pelos lábios, imaginando o sabor do gosto dos dela.
Numa visão perfeita, ofegante e com rosto corado de desejo.
— Primeiro, eu faria isso.
Sem pensar duas vezes, foi aproximando suas bocas. O calor crescente de seus corpos se mesclavam e faltava pouco para que se tornassem apenas uma só temperatura. Quando estava quase sentindo o toque...
A porta do banheiro se abriu drasticamente e de lá saíram Gray e Jellal, de cara no chão. Natsu fechou os olhos em fúria e Lucy corou fortemente, saindo se sua vibe erótica.
— Ah, foi mal aí, é o que o Gajeel conseguiu nos expulsar e...
— Gray, Jellal. — Natsu os interrompeu ainda de olhos fechados.
— Sim?
— É melhor vocês começarem a correr.
— Hey, espera aí... — Jellal tentou retrucar.
— CORRE!
No segundo seguinte, os dois se põem a correr para fora do apartamento, com Natsu como um demônio possesso atrás deles. Bando de filhos da puta! Ele estava tão perto...
Caralho de vida. Talvez nunca mais visse a Lucy pervertida de novo.
***
O que tinha sido isso?
Seu coração estava acelerado e seu corpo quente. Lucy nunca imaginou pudesse ter o tipo de atitude que teve, mesmo que tenha sido por pouquíssimo tempo. A verdade era que, o calor que Natsu emanava a esquentava em vários aspectos. E mesmo que isso fosse estranho e novo... Era bom. Como um impulso que crescia lá dentro, tal como uma centelha que em segundos se torna um grande incêndio. E que toma conta de tudo.
Tinha vergonha de admitir, mas... Queria se entregar a isso. Mesmo não sabendo ao que exatamente. Mas desde que fosse com ele, tudo estaria certo.
— Éhr... Opa.
Corou ainda mais saindo de seus pensamentos ao se deparar com Gajeel na entrada da cozinha. Ele parecia temeroso ao falar com ela, talvez por ter se assustado antes. Mas... Agora nem tinha como ter medo! O garoto estaria normal após sair do banho, com roupas limpas.
Claro, se não fosse a toalha enrolada como um turbante no cabelo.
Prendeu o riso, mordendo os lábios.
Ela o viu ficar levemente rubro e arregalar os olhos. Virou a face, fazendo um bico:
— Tudo bem, pode rir. Só saiba que é muito difícil deixar os fios hidratados.
Nossa, agora entendia o que Natsu quis dizer. Ele parecia... Bastante sensível, em alguns aspectos. Lucy ficou envergonhada por estar achando graça.
— Tudo bem, me desculpe. É só que de primeira, achei que você era mais... Bruto.
Gajeel relaxou e deu uma de suas risadas estranhas.
— Eu? Nem. Isso é com o Natsu, aquele puto. Digamos que eu só seja quando necessário, mas na maior parte do tempo eu gosto mesmo é de rir.
Lucy sorriu amigavelmente. Abriu a última gaveta e encontrou uma toalha xadrez vermelha e branca.
— Eu fico feliz que Natsu tenha amigos assim. — Disse, pegando o objeto e o colocando numa cesta que Erza havia trago. Engraçado que ela disse foi ideia de Lucy, mas já tinha vindo preparada para quase tudo. — Ele geralmente é tão fechado.
— Você gosta muito dele, não é?
— Na verdade, sim. — Não teve vergonha de dizer. Olhou para ele: — Quero que ele seja por completo, o pouquinho que ele me deixou ver de seu verdadeiro “eu”.
— Você é uma garota legal, Lucy. — Ele sorriu, dessa vez normalmente. — Que bom que você apareceu na vida dele, estávamos sem saber o que fazer.
— Como assim? — Ela perguntou, sentindo um aperto no coração.
— Eu... Não posso te contar tudo, porque sei que mais cedo ou mais tarde ele te contará da própria boca. — Gajeel parecia hesitar e isso a deixava nervosa. — Mas existe algo de muito sombrio no passado do Natsu. E a culpa que ele sente por isso o corrói até hoje.
Assentiu apressadamente, um pouco assustada. Mais do que nunca queria saber o que havia acontecido de tão grave. Lucy não tinha experiência de vida, mas se tinha uma coisa que tinha certeza de que conseguiria fazer, era ajudar Natsu a matar seus demônios internos.
Por que o amava demais para vê-lo se destruir por isso.
— Ei, Carmem Miranda! – O rosado aparece na sala, carregando pelos colarinhos dois garotos recém desmaiados. Os joga no chão da cozinha: — Sai da frente que quero entrar no banheiro.
— Carmem Miranda é a tua bisavó! – Grita Gajeel jogando a toalha no garoto que desvia.
— Ainda bem que isso não é uma ofensa, já que não conheci a velha. – Natsu desdenha. – Olha, a Pocahontas está vermelhinha.
Lucy assistia a tudo perplexa. Pelo menos era uma hostilidade... Cômica?
— Teu rabo! — O moreno riu não se abalando muito com aquilo. — Vou acordar as garotinhas. — Disse, arrastando os amigos para a sala.
— Talvez se você der um beijinho nelas funcione, igual a Rapunzel. Com esse seu cabelo aí...
— Natsu, é a Bela Adormecida. – Lucy não contém sua boca e se intromete.
Gajeel começa a gargalhar da sala.
— Toma!
— Você gosta de tirar uma comigo, não é moça? — Ele pergunta de modo ameaçador, se aproximando dela com passos lentos.
Ah, não. Encurralada de novo não.
— E-eu não.
Mais perto...
— Natsu, sai da frente que eu quero usar a cozinha!
O rosado se vira com uma cara que assustaria até o próprio capiroto.
— PUTA QUE PARIU, ERZA! VAI SE FERRAR! PODE NEM TER PRIVACIDADE NA PRÓPRIA CASA!
Erza e Lucy o olham perplexas enquanto ele continua a gritar, andando até o banheiro.
— ORA PORRA! VOCÊS VÃO VER SÓ UMA COISA!
Quando ele bateu a porta do banheiro, a ruiva pode abrir a boca para falar alguma coisa.
— O que foi que deu nele?
Mas a pergunta ficou no ar, pois no segundo seguinte Lucy corou até a raiz do cabelo e correu como um raio para algum lugar.
Erza fica confusa, começando a colocar as coisas na cesta.
— O que foi que deu nela? Eu, ein. Povo maluco...
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