Templo das Bacantes Vol. 2
51 Águas Profundas.
Notas iniciais

Hospital de Atenas – 20:45pm
Quando deixou o escritório de Saga de Gêmeos no centro de Atenas na manhã daquele mesmo dia, Camus sentia-se completamente atribulado e até um tanto temeroso. Sabia que desafiar aquela faceta maligna do geminiano não era nada inteligente, que certamente sofreria retaliação, mas o medo de que ele pusesse as mãos no comando da Vory v Zakone era muito maior. Seria desastroso. Ainda que fosse uma organização criminosa e que praticassem todo tipo de atrocidades, a máfia russa tinha seus princípios e limites, acordos severos, pactos firmados, e certamente Gêmeos, fora de seu juízo normal como estava, não respeitaria essas convenções. Seria de fato catastrófico, para o Santuário e para o mundo.
No entanto, nada naquele momento, nem a ira insana de Gêmeos que certamente cairia sobre si, afligia o coração de Camus e lhe causava tanto terror quanto ter Afrodite no hospital lutando pela vida.
Sentia-se miseravelmente culpado, pois sabia que mais cedo ou mais tarde as pessoas que amava pagariam pelas consequências de seus atos, como foi com Natassia.
Mas agora já estava feito.
Abalado como sentira-se poucas vezes em sua vida, Camus tinha dirigido para o hospital rogando à Atena que salvasse seu grande amor, e que redobraria os cuidados para mantê-lo em segurança caso o deixasse viver e permitisse que continuassem juntos, pois mesmo frente à miséria de suas realidades era incapaz de viver longe do pisciano.
E que saudades já sentia dele...
O riso de Afrodite lhe era como balsamo. Seu perfume lhe causava um frisson viciante. Seu corpo era uma droga poderosa que desejava cada vez mais em doses maiores, e da qual já sofria em angustiada abstinência.
Como havia feito nos dias anteriores chegou no horário marcado para a transfusão, que talvez seria a última, passou por todo o procedimento usando sua habitual e indefectível máscara de indiferença e no final deixou o quarto sem ao menos olhar para trás. Mesmo que pela manhã quase nenhum cavaleiro estivesse por ali julgava estritamente necessário manter o disfarce, ainda mais depois daquela tragédia anunciada.
Quando foi embora seu coração estava comprimido dentro do peito. Já havia dias que Afrodite tinha sido transferido para um quarto no centro de terapia intensiva, já não estava mais tomando sedativos e mesmo assim continuava em coma profundo, para verdadeira angústia de Camus.
Naquele dia Aquário decidiu não voltar à Moscou. Estava angustiado demais, inquieto, apreensivo. Nunca havia se sentido tão sozinho e ameaçado, e para piorar em determinado momento daquela tarde, enquanto reunia-se com alguns políticos atenienses para negociar propinas, sentiu os Cosmos de Gêmeos e Virgem em conflito. Algo deveria estar acontecendo, e algo grave. Pensou até em verificar, mas eis que sentiu também o Cosmo de Áries e logo em seguida o Cosmo de Saga parecia ter desaparecido e assim havia ficado... De fato algo preocupante estava acontecendo no Santuário.
Porém, ainda mais preocupante era a situação do grande amor de sua vida.
Afrodite.
E mesmo que fosse um homem acostumado a controlar e reprimir seus sentimentos, Camus estava à beira de um ataque de nervos. Precisava ver o pisciano, precisava estar com ele, muito mais que apenas aqueles parcos minutos enquanto fazia a transfusão. Estava carente, apreensivo, e morto de saudades.
Assim, sem pensar se deveria mesmo ou não, pouco depois de anoitecer Camus alugou outro carro e enquanto dirigia para o Hospital de Atenas ligou para Misty de Lagarto para pedir que lhe fizesse um favor.
Dessa vez, diferente das outras quando ia ao hospital para apenas realizar a transfusão e já seguia embora logo após o procedimento, Aquário queria ficar um tempo com Afrodite. Peixes já estava fora do isolamento, já que as toxinas em seu sangue tinham atingido níveis bem mais amenos, e agora podia receber visitas. Mas, como Mu e Máscara da Morte estavam sempre por lá, também Shina, Marin, e até algumas das bacantes que iam quase todos os dias visitar Geisty, que também ainda estava na terapia intensiva, Camus precisava de um álibi, e ninguém melhor que Misty. Lagarto por diversas vezes se mostrara verdadeiro e leal consigo — era o que imaginava — sem falar nas outras tantas em que praticamente livrara sua cara de situações em que quase fora desmascarado, como quando Shina o viu discutindo com Dimitri no porão antes da chegada de Saga, e no passado, quando dera aquela surra hedionda em Afrodite. Sim, Misty sempre se mostrara um bom amigo, e apesar da implicância de Peixes com o cavaleiro de Prata não via motivos para desconfiar dele. Afrodite tinha suas razões, afinal não deveria ser fácil saber que seu namorado fez sexo com seu pior inimigo... Detalhe, esse, que Camus fazia de tudo para apagar de sua memória, ainda que nem memória de fato tivesse, já que tudo não passara de uma armação de Lagarto na época, mas que para o aquariano e o pisciano era um fato tão real quanto indigesto.
Quando chegou ao hospital aguardou dentro do carro ainda no estacionamento até que Misty chegasse ali e lhe dissesse que poderia subir. Naquele horário da noite dificilmente algum cavaleiro apareceria para visitar o pisciano, nem mesmo o médico responsável pela equipe, doutor Hector, ficava por lá, já que os pacientes estavam estáveis, mas mesmo assim todo cuidado era pouco.
Dirigiu-se à Ala 5 apressado e um tanto receoso, porém a vontade e ansiedade para ver o pisciano era maior, e quando chegou ao corredor de acesso ao setor destinado aos cavaleiros do Santuário já avistou Lagarto o esperando na porta com dois crachás de visitantes nas mãos.
— Sinto muito ter ligado a essa hora, mas precisava aproveitar o horário. — disse Camus estendendo a mão para cumprimentar o cavaleiro de Prata que o surpreendeu inclinando-se para frente e lhe dando um beijo no rosto. Ficou sem graça e sem reação, estancado no lugar duro feito um obelisco.
— Ah, que isso, ruivo. E desde quando precisa dessas formalidades comigo? — Misty respondeu com seu mais simpático sorriso enquanto lhe prendia o crachá na lapela do elegante blazer — Amigos são para essas horas, e somos amigos, não é? Eu disse que podia contar comigo. — alisava a gola minuciosamente enquanto mantinha os olhos azuis maliciosos cravados nos do aquariano e a fala mansa, quase um chiado manhoso — Aliás, pode me ligar a qualquer hora. Eu sei que você precisa de alguém, Camus. Toda essa tensão, sabe? Essa vida atribulada que você leva, ainda mais agora que tomou a liderança da Vory... É muito estresse para uma pessoa aguentar sozinha, digo, sem um escape, entende? — alisava os ombros do francês fingindo estar ajeitando os enchimentos do blazer — E quem tem um... amigo, nunca está sozinho, nem fica na mão.
— Ehr... sim, Misty. Eu... agradeço por sua... amizade. — Camus respondeu sem jeito involuntariamente encolhendo os ombros que Misty agora massageava displicentemente.
— Ora, ruivo, não me agradeça. — sorriu correndo os olhos pelo rosto do aquariano até fixar a mirada nos lábios fechados que eram mordidos nervosamente na parte de dentro — Amizade a gente aprecia, não agradece. É bem melhor... Não foi bom há dois anos quando passamos a noite juntos? Claro, na amizade. É isso que chamo de apreciar.
Aquário engoliu em seco, um tanto irritado e surpreso. Aquele definitivamente era um assunto que lhe incomodava deveras e o qual encerrara por fim no mais profundo de sua mente à sete chaves, e não iria revivê-lo, ainda mais ali e naquela situação.
— Ah, bem, Misty, se foi bom ou non eu non sei, até porque non lembro.
— Mas é claro que você não se lembra. Você tomou todas naquela noite. Estranho seria se lembrasse.
— De qualquer modo, aquilo foi um erro. Prefiro non tocar nesse assunto e restringir nossa amizade apenas a... a amizade mesmo. — disse o francês recuando um passo até que Lagarto lhe soltasse os ombros — Naquela noite eu non estava no meu juízo perfeito e você sabe bem disso, então... aprecio sua amizade e prezo por ela, mas é apenas isso mesmo. Amizade. Agora, podemos ir logo ao que interessa?
Misty arregalou os olhos azuis delineados de lápis marrom escuro e cílios minuciosamente curvados e abriu um sorriso largo, farto, tão jocoso que por segundos Camus sentira-se culpado do que havia acabado de dizer, por ter sido deveras indelicado.
— E você achou que eu estava falando de que, seu bobinho? De fazermos sexo de novo? — esticou o braço e segurou na mão do aquariano já o puxando para entrarem na Ala 5 — Ora eu sei que você ama aquele tribufu escamoso, e eu jamais iria propor algo parecido a você. Eu estava dizendo que nossa amizade é tão profunda e sincera que muitas coisas nos ligam apenas que simples... afinidades ou sexo. Eu acobertei muitos dos seus segredos e os levarei para o túmulo comigo, te garanto. Menti até para o Grande Mestre para livrar sua pele e de Afrodite colocando em risco minha patente... É disso que falo. Comprometimento. Doação! — dissimulou saindo pela tangente. Já estavam no corredor que levava aos quartos de terapia intensiva e Camus sentia-se tão incomodado e confuso que deixava Misty conduzi-lo pela mão sem reagir, até que finalmente seu martírio teve fim quando pararam em frente à porta do quarto onde estava Afrodite — Bem, chegamos. Para não chamar atenção dos enfermeiros eu vou entrar com você, mas fico na porta do lado de dentro espiando pelo vidro. Se eu vir alguém eu o aviso.
— Ah... oui. — foi só o que conseguiu responder antes de abrir a porta ligeiro e aliviado.
O alívio de Aquário, porém, durou pouco.
O perfume pronunciado de rosas, embora agora bem mais ameno, logo tocou suas narinas e suas lembranças acalentando e ao mesmo tempo agitando seu coração. O som cadenciado do bip bip bip produzido pelo aparelho ligado a Afrodite que monitorava seu coração já ressoava dentro de si feito feitiço conjurado em incansável repetição. O ouvia até quando estava em casa, em Moscou ou em Aquário, já que mesmo frente a toda atribulação que se tornou sua vida e as tantas coisas que exigiam sua atenção, não conseguia tirar Afrodite de sua cabeça. Peixes era uma ideia fixa, dessas que minam todo e qualquer raciocínio lógico.
Ainda que já estivesse habituado com aquele cenário mórbido por consequência das transfusões de sangue consecutivas, amava demais Afrodite e vê-lo ali naquela cama, naquele quarto frio e duro de CTI, pálido feito mármore em tom marfim, inerte, ferido e frágil como nunca o vira antes era um cruel golpe em seu coração.
Caminhou lentamente até a cama. Os olhos cravados no pisciano. Então parou, de pé, ao lado do leito e tocou os cabelos opacos já há vários dias sem trato sentindo a mesma macies divinal e encantadora de sempre.
— Ele parece tão frágil. — balbuciou com o coração pesado — Ma Fleur... está tão pálido... — desceu o braço e pegou na mão do pisciano tomando cuidado com as cânulas diversas ligadas à suas veias. Era a segunda vez que o tocava daquela forma mais intima desde o atentado — Dieu! A mão dele está tão fria!
Até para um guerreiro capaz de domar o zero absoluto sentir a mão do amado fria como estava era desconcertante, ainda mais desconcertante que o tom arroxeado de seus lábios perfeitamente desenhados já livres dos tubos de ventilação. Peixes agora ao menos respirava sozinho, mas mesmo já sem receber mais sedativos ainda encontrava-se em coma profundo.
O Santo de Aquário naquela altura parecia não se importar com a presença de Misty ali por isso inclinando-se beijou ternamente a fronte do pisciano e não reprimindo a tristeza que sentia permitiu-se chorar, silencioso e contido.
— Me perdoe, mon amour... Dieu, eu fiz de tudo para impedir que isso te acontecesse, e ainda assim o tudo foi pouco... Melhor seria se nunca tivéssemos... — não conseguiu concluir a frase, pois a simples ideia de não ter vivido o que viveu com Afrodite, ainda que sob o fantasma da culpa e do medo, lhe era absurda. Se tivesse outra chance faria tudo de novo, exatamente igual, e de novo, e de novo... — Volte para mim, ma Belle... por favor. — sussurrava quase no ouvido do pisciano que mantinha-se estático feito uma princesa de um conto de fadas sob o sono eterno de uma cruel maldição.
Mas a princesa ali não era Afrodite, embora fosse ele quem precisava ser resgatado.
Bip... bip... bip... bip
Lá do fundo das águas onde estava, curioso Afrodite olhou para cima, para a superfície.
Bip... bip... bip... bip
Aquele som em ritmo cadenciado e contínuo chegou a seus ouvidos ainda que abafado pela massa densa de água parecendo quebrar uma espécie de encanto que o mantinha em suspensão, então estreitou os olhos e ao olhar para a superfície eis que viu a silhueta de uma figura inclinada sobre si, porém muito distante. Não sabia precisar o quanto, já que a encorpada massa de água que lhe envolvia o separava dela.
Bip... bip... bip... bip
Seu corpo, tão leve que podia jurar não possuir mateia alguma, suspenso na água balançava no ritmo das correntezas profundas.
Bip... bip... bip... bip
De repente a água ficou mais clara, e o que pareciam raios de Sol agora rasgavam o aguaceiro chegando até si e também iluminando a superfície ainda turva, então a silhueta fora da água ganhou tons avermelhados, e junto do bip bip também pode ouvir o som de sua voz. E esta era capaz de reconhecer mesmo com toneladas de água lhe entrando pelos ouvidos.
“Camus?... CAMY!”
Bip... bip... bip... bip
“Pelas nadadeiras de lantejoulas do séquito de sereias de Dadá, será que eu virei um peixe?... Camy? É você ai fora, mon amour? Que saudade!”, disse, mas de sua boca só saiam bolhas de ar que subiam serelepes deixando a água ainda mais turbulenta.
Afrodite tentou nadar para a superfície, mas parecia não conseguir sair do lugar. Ansioso e agitado batia os braços e pernas em ritmo cada vez mais frenético.
Bip... bip... bip... bip
No quarto Camus seguia aos prantos agora acariciando o rosto marmóreo do pisciano que continuava inerte.
— Eu o amo tanto, Afrodite... volte para mim, volte para mim, meu Peixinho, ma Fleur, mon Papá. — disse sussurrado.
Na água Peixes sorria.
Agora, embora ouvisse em tom abafado e misturado ao som produzido pelas dezenas de peixinhos dourados que batiam as nadadeiras enquanto nadavam entusiasmados em volta de si, a voz de Camus lhe era clara, e a ouvia em enlevo.
"Eu também, Camy! Papá ama muito você, minha princesa! Por que está me pedindo para voltar se eu não fui a lugar nenhum, santa? Alôca! Anda... Camy, me dá a mão, me puxa para cima. Não estou conseguindo subir." disse intrigado esticando o braço enquanto com o outro espantava alguns peixes que teimavam em enfiar-se entre as mechas de seus cabelos que bailavam na água “Sai, Cafuçu* de escama... Ei, Camy. Tá me ouvindo? Tem algum equê* me segurando aqui embaixo. Me ajuda subir!”, olhava para a silhueta do aquariano que parecia estar envolta pelos raios brilhantes do Sol.
Agitou a mão, gesticulou, gritou, mas era como se Camus não pudesse ouvi-lo.
Também pudera, estava debaixo d´água!
“CAMY, AQUI! OLHA PARA BAIXO SEU MANÍACO POR CALCINHA GOSTOSO. AQUI!” gritou, e mais bolhas saiam de sua boca e iam estourar na superfície.
Bip... bip... bip... bip
No quarto, notando toda a tristeza de Camus e aproveitando-se da situação como sempre fazia com maestria, Misty aproximou-se do francês e lhe tocou os ombros gentilmente iniciando uma nova massagem.
— Ei, Camus, não fique assim. Ele vai sair dessa. — disse com voz mansa enquanto lançava um olhar de desdém para Afrodite imóvel na cama — Precisa ter fé.
Abalado demais e irremediavelmente triste, Aquário nem se importou com o toque e proximidade do outro. Continuou ali como estava, segurando na mão de Peixes e lhe acariciando o rosto lívido.
— Dieu... ainda non consigo acreditar que isso esteja acontecendo... Como vou dizer a Hyoga? Ele chora todo dia querendo ver a Di e me pergunta por que non o trouxe mais ao Santuário para vê-la... Ele ficou tão impressionado com a morte e o funeral de Dimitri... O que eu fui fazer?... Parece que eu condeno à desgraça todas as pessoas que eu amo. — disse o aquariano baixando a cabeça para esconder o rosto molhado, e nessa hora Misty aproveitou-se de sua fragilidade e o abraçou por trás.
— Ei, não diga isso, ruivo, ele pode escutá-lo. Dizem que pessoas em coma ouvem tudo que a gente fala. Você fez de tudo para protege-los. — falou o Lagarto e sua voz também não passou despercebida.
Bip... bip... bip... bip
Na água os olhos arregalados de Afrodite voltados para a superfície agora viam outra silhueta conhecida, e esta estava ao lado de Camus, ou melhor, aboletada em cima dele.
Umas pequenas bolhas de ar saíram de sua boca entreaberta quando ele bufou de raiva ao formar a imagem e reconhecer aquela voz.
“Mas... que Atena arranque a minha patente e dê ao cão do Hades! Eu não estou acreditando nisso!”, disse estático, apenas sendo balançado pelo movimento contínuo da água. “É claro que eu posso escutar, Lagartixa oxigenada da fossa do Tejo! Eu não sou surdo! E enxergo muito bem também! Camus! Por que está deixando essa cria do umbral se esfregar em você desse jeito, sua fodida? Posso saber? E bem na minha frente? LARGA O MEU NAMORADO SUA CASCUDA CLÉPTOCUEQUEIRA!”, debatia-se na água extremamente nervoso tentando a todo custo pular para a superfície direto na garganta de Misty.
Bip... bip... bip... bip
No quarto, a enfermeira chefe do turno da noite que havia ficado encarregada do paciente entrou para lhe aplicar os medicamentos daquele horário. De início surpreendeu-se ao ver os dois cavaleiros ali, já que não era horário de visitas, e estes também se assustaram, principalmente o aquariano que se desvencilhou do abraço de Misty, afastou um passo da cama, enxugou rapidamente as lágrimas e tentou esconder como podia seu estado emocional. Como estavam com crachás a enfermeira achou que deveriam ter sido liberados para ver o paciente pela equipe do doutor Hector. De qualquer forma, aquela ala e seus pacientes não seguiam de fato os mesmos protocolos do Hospital todo, então não deu importância.
— Boa noite! Está na hora do antibiótico dele. — disse gentil ao dirigir-se à cama levando consigo uma bandeja com o medicamento a ser injetado. Estava paramentada com uma máscara de tecido mais grosso e luvas grossas.
Enquanto ela aplicava a droga Camus não conseguiu evitar perguntar o que mais lhe afligia no momento.
— A senhora sabe me dizer se... se ele ainda vai demorar muito a sair do coma? — perguntou disfarçando a voz embargada enquanto a observava fazer seu trabalho.
— Bem, segundo o prognóstico era para ele já ter acordado. — ela disse séria, então fez uma pausa para descartar a seringa usada e as luvas — A sedação já foi cortada há quatro dias e mesmo assim ele não mostrou nenhum sinal de consciência. Pelas reuniões com a equipe do doutor Hector, tudo que posso lhe dizer é que ele passou por exames laboratoriais que apontaram que sua fisiologia difere da de um humano comum em diversos aspectos, por isso é impossível prever qualquer coisa. Não sabemos exatamente como o corpo dele está reagindo às drogas... Normalmente os pacientes acordam com até mesmo 3 horas a partir da interrupção dos sedativos, mas... — fez outra pausa para deixar escapar um suspiro — Ele pode acordar a qualquer momento, ou... ou mesmo levar semanas, meses... anos... Não queremos acreditar na possibilidade de ele não acordar nunca mais, porém, após tantos dias sem dar qualquer sinal de consciência ela infelizmente não pode ser descartada. Eu sinto muito.
O rosto de Camus ficou lívido.
Os olhos marejados secaram tamanho o choque que aquelas palavras produziram em si, esquecendo-se completamente de continuar fingindo frieza e indiferença.
A seu lado Misty tinha ficado igualmente, e surpreendentemente, perplexo.
— C-como assim? — disse Lagarto gaguejando. Tinha os olhos tão arregalados que pareciam querer saltar das órbitas a qualquer momento — Você tá dizendo que ele pode... ele pode virar, tipo, uma abobrinha? Que pode ficar nessa cama para sempre? — olhou aterrorizado para a enfermeira e em seguida para Afrodite na cama — Não! Não mesmo! Ele... ele precisa acordar!
Camus por sua vez parecia acometido por uma espécie de entorpecimento.
O horror, o medo, o desespero estavam estampado em seus olhos avelãs esgazeados.
— Uma... abobrinha? — sussurrou o aquariano com os lábios trêmulos, então de repente sua respiração começou a ficar acelerada, pesada, seus lábios e unhas ligeiramente longas a ganharem um tom arroxeado tamanha palidez que o acometera — Non... non... ele tem que acordar! Ele... ele PRECISA acordar! — levou a mão à própria fronte onde apertou com força com os dedos, depois recuou alguns passos, girou uma, duas, três vezes em círculo no mesmo lugar, perdido, desnorteado — Eu... eu preciso de um cigarro.
— O senhor não pode fumar aqui. — disse a enfermeira atenta a ele.
— Eu sei. — Camus respondeu hiperventilando. Sentia-se zonzo, as mãos formigavam. Continuava andando em círculos, cada vez mais pálido e ofegante.
— Camus? — Misty o chamou preocupado.
— Dieu... eu... eu... — murmurou, depois olhou para enfermeira com um semblante ao mesmo tempo furioso e amedrontado — Vocês precisam fazê-lo acordar! ELE TEM QUE ACORDAR! — correu de volta para a cama e segurou nos ombros de Afrodite dando um leve chacoalhão — Afrodite! Anda, acorda!
— Senhor, acalme-se. Não pode mexer no paciente! — a enfermeira aproximou-se e tocou no ombro do francês.
— Como você me dá uma merde de notícia dessa e me pede calma? — resmungou girando a cabeça para o lado para olhar para ela — Era para ele estar... era para ele... era... ele non vai acordar... nunca mais?... Você disse que... ele non vai... Argh... Eu non estou me sentindo bem... — sentia tanta dor no peito e falta de ar que estava difícil articular as palavras.
— Senhor?
— Camus, o que foi? — Lagarto correu até ele.
— Urgh... mon... mon coeur! — murmurou o aquariano fechando os olhos e levando uma das mãos ao peito, então agarrou com força o tecido da camisa branca com a gravata e colete tudo junto e nessa mesma hora suas pernas vacilaram indo ao chão.
Felizmente foi amparado pela enfermeira e pelo cavaleiro de Prata.
— PELA DEUSA, CAMUS! — Misty deu um grito — Acode dona, ela tá tendo um piripaque do coração!
— Oh meu Deus, Senhor! — disse a enfermeira atribulada — Moço, traga aquela poltrona, vamos colocá-lo sentado nela. — apontou com o olhar para o móvel no fundo do quarto.
Colocaram o aquariano sentado e imediatamente em seguida a mulher pediu ajuda pelo telefone, enquanto Misty, aterrorizado, afrouxava a gravata e abria o colete de Camus, que gemia de dor.
Quando os auxiliares entraram no quarto, dois enfermeiros e um médico plantonista da equipe de doutor Hector, a enfermeira foi direta.
— Doutor, acho que ele está tendo um princípio de enfarte.
— Meça a pressão arterial. Vamos leva-lo para outro quarto e fazer um eletro já. — disse o médico já inclinando-se para encostar o estetoscópio no peito de Aquário.
— NON! — Camus gritou em fúria abrindo os olhos e encarando o médico, que de repente sentiu a temperatura do quarto cair rapidamente — Eu non vou sair daqui. Non vou sair de perto dele.
O médico o encarou de volta.
— O senhor também é cavaleiro?
— Sou.
— Está certo, tragam o aparelho para cá. — suspirou o doutor cedendo e dando a ordem a um dos enfermeiros.
Sentado na poltrona ao lado da cama enquanto era atendido, Camus segurava firme na mão de Afrodite. Que se danasse quem o visse ali, mas se sua fleur não acordasse nunca mais nada em sua vida teria sentido outra vez. Porém, os profissionais mal reparavam nesses detalhes. Estavam muito mais preocupados com seu estado de saúde.
O médico lhe fazia perguntas como idade, peso, se possuía histórico de problemas cardíacos, mas ele mal respondia, deixando que Misty falasse por si. Na verdade, Camus sentia tanta dor e desespero que mal ouvia as vozes a sua volta.
Quando se deu conta já estava recebendo medicamentos intravenosos para regular uma arritmia cardíaca e baixar a pressão arterial junto de uma dose de calmantes.
Como a poltrona em que estava era reclinável a deitaram para fazer o eletro, que acusou uma arritmia grave, e ao fim, com tudo um pouco mais calmo, a enfermeira agora ajeitava travesseiros atrás de sua cabeça.
— Senhor? Senhor está me ouvindo? — ela perguntou.
— Eu... acho que sim. — o aquariano respondeu ainda segurando na mão de Peixes.
— O senhor foi medicado, mas precisa tentar ficar calmo. Tente cochilar. — ela disse, depois foi até Misty que roía as unhas aflito de pé do lado oposto da cama.
— Eu preciso ver a outra paciente. Fique de olho nele. Qualquer problema só tocar a campainha... Ele é novo para ter problemas cardíacos. Seria bom procurar por um especialista e fazer uma bateria de exames. — ela lamentou.
— Pois é, mas o problema cardíaco dele tem nome, minha senhora. É uma doença que acomete principalmente homens ricos, jovens assim, bonitos e sarados como ele mesmo. — ergueu as sobrancelhas e fez um bico — Pode ir. Qualquer coisa eu chamo.
Percebendo que finalmente estavam sozinhos novamente no quarto, Camus puxou o encosto da cadeira para cima e a girou para que ficasse de frente para a cama para que pudesse se inclinar e ficar pertinho de Afrodite. Dobrou o braço que estava livre dos acessos para o medicamento e deitou a cabeça sobre este, ficando com o rosto quase colado ao do pisciano.
Novamente a tristeza e o medo o fez chorar baixinho.
— Misty... o que vai ser de mim sem o meu Peixinho? Eu non vou conseguir sem ele. — disse choroso — Se ele non acordar eu juro que transformo toda a Rússia, a Grécia, o Santuário num inferno de gelo... Mon amour... non me deixe... eu te amo Afrodite, non me deixe sozinho...
Lagarto avançou uns passos até o cavaleiro na poltrona e novamente tocou seus ombros o afagando. Detestava ver um homem forte e destemido como Camus destruído daquele jeito, mas quem era ele para julgar? Estranhamente sentia-se aterrorizado com a possibilidade de Afrodite nunca mais acordar.
— Camus, ei! Não fique assim. Ele vai acordar... ele... é um cavaleiro forte. Temos que ter fé em Atena. — olhou para Peixes no leito, imóvel, e sua garganta apertou-se.
O peito coberto pelo lençol mal se mexia. A respiração de Afrodite era lenta, inaudível.
Nem os cavaleiros, tampouco os médicos, podiam saber, mas o organismo do pisciano tinha estacionado em uma espécie de dormência, fenômeno parecido com o que acontece com as plantas na botânica, quando estas interrompem temporariamente seu desenvolvimento para minimizar o gasto energético reduzindo a atividade metabólica. Nesse estado elas são capazes de fazer com que seus organismos conservem energia para recuperarem-se de danos, retornando às suas atividades normais somente na presença de determinados estímulos ambientais e condições climáticas.
Afrodite passara grande parte da infância e adolescência em meio as rosas altamente venenosas da Décima Segunda Casa zodiacal, e o contato direto e contínuo com suas toxinas letais mudaram drasticamente sua fisiologia para torna-lo imune a elas. Peixes sofrera um ferimento muito grave e uma intoxicação por aço lemuriano, mas o fato de não acordar do coma no tempo de pacientes normais se dava exclusivamente porque sua fisiologia trabalhava de forma a não deixar sequela alguma. Assim, como as rosas mortais que cultivara a vida inteira, o organismo de Afrodite reagia de forma a torná-lo mais forte a cada golpe. Suas toxinas trabalhavam arduamente para curar seu corpo e expulsar as drogas que lhe eram ministradas, uma vez que elas mais atrapalhavam do que ajudavam.
Havia se passado cerca de trinte minutos.
Os calmantes ministrados à Camus enfim fizeram algum efeito e o aquariano cochilava debruçado sobre a cama do paciente enquanto Misty mantinha-se a seu lado.
Vendo que Camus não o ouvia, Lagarto inclinou-se sobre o leito até que seu rosto ficasse bem perto do rosto de Peixes, quase tocando seus narizes. Ficou em silêncio apenas o observando por um momento. Seus cílios não se mexiam. Nada se mexia. Então, contraiu os lábios e franziu a testa numa expressão de zanga soltando uma bufada.
— Hum... então você não vai acordar mesmo, Peixosa? — sussurrou próximo ao ouvido de Peixes — Eu acho ótimo!
Bip... bip... bip... bip
Enxotando um peixinho dourado que mordiscava sua barriga, no fundo do que parecia um lago Afrodite olhava para a silhueta na superfície.
Tinha acompanhado todo aquele fuzuê de momentos antes, mas não conseguia entender o que se passava, até as vozes desaparecerem e restarem apenas as de Misty e Camus. O que deixou deveras irritado.
“Então você ainda está aí, Cascuda? Claro que não vou acordar, não estou dormindo, demônia!”, tentou mais uma vez nadar para a superfície. “Camy! Anda, me dá logo a mão! Tô loka*, heim Camus de Aquário! A senhora me deixa aqui no fundo desse lago enquanto fica ai de graça com esse viado? Ah, tá boa! ME PUXA PARA CIMA!”
Bip... bip... bip... bip
No quarto Misty seguia falando com o pisciano.
— Ei... Afrodite? Você está ai dentro? — com o dedo indicador deu três toques na testa do sueco — Não que haja algo dentro da sua cabeça, porque burro como é eu sei que isso ai tá vazio, mas você eu sei que tá por ai, em algum lugar. Então... saiba que se você não acordar, o que, repito, acho ótimo, eu vou pegar o Camus para mim. Ouviu? — deu um riso fino e debochado.
Bip... bip... bip... bip
Na água Afrodite arregalou os olhos. Incrédulo no que acabara de ouvir.
“O que? Sua... sua desgraça oxigenada! Eu já disse que não estou dormindo!”. Desesperado bateu as pernas e os braços enquanto gritava chamando por Camus, mas tudo que saia de sua boca eram bolhas e mais bolhas.
Será possível que ninguém o estava vendo ali?
Todo aquele samba acontecendo à sua volta e nenhum excomungado para lhe dar a mão e o ajudar a sair daquele lago?
E Camus? Como podia estar ali com Misty e simplesmente ignorar seus gritos por ajuda?
“CAMUS! Seu açoitador ingrato! Eu amei você, seu sujo! Eu te dei todas as minhas calcinhas, sua passivona mafiosa! Ai que ódio de você! CAMUS! ME TIRA DAQUI AGORA!”
Bip... bip... bip... bip
No quarto Misty aproximava os lábios do rosto de Peixes e lhe beijou suavemente têmpora.
— A princesa finalmente será minha! — sussurrou com voz maliciosa — E enquanto você fica ai entrevado nessa cama feito um vegetal humano eu estarei metendo naquela bunda deliciosa dela, fazendo ela gemer o meu nome... hummm Misty! Ahhh... plus fort! Baise moi, Misty! É assim que ele fala, não é? Sim! Me fode, Misty!
Bip... bip... bip... bip
Na água Afrodite estava estarrecido!
Só porque estava preso no fundo daquele lago não significava que não iria impedir.
Não permitiria nunca que aquela bicha invejosa lhe tirassem seu homem.
Mesmo na água sentia toda sua pele arrepiar-se.
Estava com ódio.
Respirou fundo, com dificuldade por causa da água que entrava em seus pulmões lhe causando fadiga, e de repente sentiu uma pontada forte no abdome, uma dor tão intensa que parecia lhe percorrer todo o corpo o incapacitando.
Levou as mãos ao local e averiguou não encontrando nada anormal, e sem se deixar abater pela dor olhou para a superfície e mirou na silhueta de Misty.
“Desgraçada! Maldita! Nunca mais vou deixar que toque num fio de cabelo dele com esses dedos cheios de ventosas, Cascuda do umbral! EU TE MATO!”. Alucinado e furioso debatia-se tentando vencer a água. “Vegetal humano vão ser as suas bolas quando eu pisar nelas!”
Tanto Afrodite se debateu, gritou, urrou, que finalmente conseguiu vencer a água e atingir a superfície, e fora dela abriu a boca largamente e puxou o ar para dentro dos pulmões em desespero.
Bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip
No quarto Misty arregalou os olhos ao ouvir o som do aparelho que media os batimentos cardíacos de Afrodite disparar, então rapidamente ergueu o tronco e olhou para o visor deste acompanhando a linha oscilante que agora tinha um ritmo frenético.
— Por Atena! Será que? — disse surpreso voltando a olhar para o sueco. Percebeu então que seus logos cílios de um tom azul muito claro tremelicavam num ritmo sutil, quase imperceptível, e quando menos esperava as pálpebras alvas se ergueram lentamente revelando as íris aquamaries — AAAAAAAAAH! MINHA DEUSAAAA! — gritou levando a mão à boca.
Afrodite tinha o olhar languido e sonolento, ainda estava desorientado. Não se dava conta de onde estava ou mesmo o que fazia ali, mas lembrava-se nitidamente das palavras do Lagarto ameaçando lhe roubar o namorado.
Com muito custo, e quase sem se mexer, Peixes esticou o braço que tinha livre e agarrou o suporte metálico onde estavam todos os frascos de soro com os medicamentos que estava recebendo nas veias, mais as sondas e suprimentos vitamínicos, e com um movimento tão rápido quanto inesperado, que exigiu grande força de seus músculos débeis, deu um puxão no pedestal até conseguir tombar toda a estrutura por cima da cama lançando toda aquela parafernália sobre si mesmo, sobre Misty e também sobre a cabeça de Camus, que cochilava ali na beirada.
O suporte de ferro só não caiu em cheio na cabeça de Aquário por um milagre, porém a bolsa de soro, cabos, fios de monitoramento, praticamente tudo foi para o chão fazendo um estardalhaço enorme.
— AHHH, SUA LOCA, O QUE ESTÁ FAZENDO? — Lagarto gritou protegendo a cabeça de Camus com ambas as mãos enquanto recuava para trás, mas no movimento enroscou-se nos fios os puxando ainda mais, o que fez o pedestal rolar por cima da cama e ir ao chão do outro lado com tudo junto, provocando um barulhão que despertou o ruivo.
No entanto, antes de recobrar a consciência Camus teve a poltrona em que estava arrastava para trás pelo corpo cambaleante de Lagarto, que tentava se equilibrar nela, e como Aquário não largava a mão de Peixes, ao ser arrastado trazia Afrodite junto consigo, deixando o pisciano todo torto sobre a cama.
— Aa... aiii... La... Lagar...tixa... você não... vai... roubar... meu... namorado... — Peixes sussurrou no que mais parecia um chiado fraco, quase caindo da cama.
Com a confusão frascos de soro se espatifaram no chão, acessos saíram das veias, tanto de Camus quanto de Afrodite, e Misty lutava para se manter de pé, patinando no piso molhado enquanto tentava ao mesmo tempo segurar o corpo do pisciano para que não caísse da cama, equilibrar-se para ele mesmo não cair, e gritar por Camus.
— CAMUS PELA DEUSA, ACORDA HOMEM! AJUDA AQUI! ESSA LOUCA ESTÁ TENTANDO ME MATAR! — berrava.
Com o braço erguido no ar, Afrodite abria e fechava a mão procurando os cabelos de Misty.
— Desgra... çada... eu vou... arrancar esse teu... picumã de Equê*... na unha... aiiii. — murmurava num esforço hercúleo para alcançar a cabeleira do cavaleiro de Prata e poder puxa-la.
Quando com muito custo Camus conseguiu abrir os olhos ainda segurava firme a mão de Afrodite, então piscou algumas vezes tentando firmar a visão até tomar consciência da cena inusitada que se dava ali.
— Dieu! Mas o que?... — balbuciou ainda um pouco confuso devido aos medicamentos — Por Atena! Ele acordou? Ma belle acordou! — disse eufórico firmando os pés no chão molhado para se levantar e ajudar Misty a recolocar Peixes na cama, que já estava quase com o corpo todo para fora — Ele acordou Misty, ele acordou!
— Ah, eu tô vendo, né! Ajuda aqui! Ele vai cair.
— Mon amour! Ma Fleur! Você acordou! — Aquário dizia exultante e aos risos, de repente ficou sério novamente — Mas... Dieu, Misty, porque está tirando ele da cama? Por que arrancou os soros dele?
— Eu? — olhou feio para Camus enquanto passava as mãos por debaixo das axilas do pisciano para ergue-lo — Essa louca me atacou não está vendo, Camus? Faça-me o favor!
— Misty como ele pode ter te atacado, olha o estado dele, pobrezinho! Não minta! — sorridente o aquariano segurou na cabeça do sueco e com cuidado junto de Lagarto o recolocaram no leito — Ma bele! Peixinho! — debruçado sobre ele o ruivo chorava novamente, agora emocionado, enquanto beijava o rosto do pisciano o segurando com ambas as mãos e o olhando fixo nos olhos abertos — Nunca mais faça isso comigo, mon amour, eu achei que ia te perder, eu tive tanto medo, Afrodite, tanto!
Peixes ouvia o francês ali, tinha consciência de que era ele, mas sua mente ainda estava muito confusa, e agora seu corpo doía como nunca sentira antes, em especial o abdome.
— Camy... — sussurrou fazendo uma careta — Que está... acontecendo? Aii... Dói... dói muito!
— Calma, ma Belle, eu sei, mas vai passar... — disse Camus acariciando o rosto do sueco.
Ao lado Misty ainda recolhia as bolsas de soro no chão e os fios dos acessos que foram arrancados enquanto olhava para aquela cena um tanto invejoso, porém aliviado. Era melhor assim, pois pelo jeito Afrodite tinha o dom de lhe incomodar ainda mais morto do que vivo.
— Eu vou chamar a enfermeira. Esse estrupício arrancou todos os acessos dele, e os seus também, e ... bom, eu já volto. — disse Lagarto deixando o quarto.
Aquário mal ouviu o cavaleiro de Prata, pois simplesmente não conseguia tirar os olhos de Peixes, e ficou ali, aboletado na beirada da cama a acariciar seu rosto e admirar aqueles olhos dos quais tanto sentira falta.
— Me perdoe, mon amour... eu non consegui te proteger da Vory. Eu non sou digno do seu amor. — lamentava em meio a um choro de alívio e culpa.
Ouvir aquelas palavras acionaram um gatilho na mente de Peixes, e em segundos flashs de memórias reverberaram em suas lembranças. Recordou-se do bordel, de Geisty lhe dizendo que estava passando mal, depois de Aleksander lhe oferecendo uma bebida e o gosto metálico desta a lhe descer ácido pela garganta. Em seguida veio a dor... uma dor tão excruciante e profunda que jamais seria capaz de esquecer. Junto dela vieram os gritos de Geisty, o som ensurdecedor de tiros, mais gritos, o cheiro de sangue, seu Cosmo sendo drenado lentamente e de forma agonizante, então um pavor desmedido fez gelar seu peito e oprimir sua alma.
— Hyoga!... Hyoga! — disse arfante, já que quando estava entre a vida e a morte enquanto era carregado por Máscara da Morte para o hospital, tudo que conseguia pensar era em Hyoga e em Camus. Teve medo de não poder ver Hyoga crescer e se tornar um homem lindo e honrado, e mais medo ainda de nunca mais poder sentir o toque, o cheiro e o calor de Camus.
— Hyoga está ótimo, ma fleur, non se preocupe. Ele está seguro. — disse Camus, que sem se dar conta tinha subido na cama e se deitado ao lado de Peixes, encolhidinho para caber no pequeno espaço, descansando a cabeça na curva de seu pescoço já que assim podia sentir seu perfume e manter seus rostos coladinhos.
— Camy o que... aconteceu? A Mosca?... A Mosca ela... — Afrodite perguntou com voz falha e fraca.
— Non tem nenhuma mosca aqui, Peixinho. Estamos... no hospital. É tudo limpo. — Aquário respondeu macilento, débil. Os calmantes e medicamentos que tomara para o coração, somando ao grande desgaste emocional cobravam seu preço e ele sentia-se zonzo, com muito sono. Seu raciocínio estava prejudicado, pois nem se dera conta do que fazia e de que não poderia ser visto ali, agarrado ao pisciano.
Nessa hora a enfermeira entrou no quarto acompanhada por Misty. Arregalou os olhos e abriu a boca surpresa com o cenário, já que minutos antes o paciente estava em coma profundo, enquanto o outro dormia sob ação de sedativos e agora ambos estavam acordados e parecia que um tornado havia passado pelo quarto.
— Jesus, Maria e José! Mas o que houve aqui? — rogou à trindade católica levando a mão à boca coberta pala máscara protetora — Senhor!... O senhor não pode deitar na maca do paciente! Meu Deus! — disse andando apressada até eles já ajeitando o estetoscópio para auscultar o peito de Afrodite, depois com uma pequena lanterna examinava seus os olhos — O senhor sabe me dizer seu nome?
— Afrodite. — o sueco respondeu baixinho olhando para ela.
— Quantos anos tem?
— Vinte.
— Profissão?
— Cavaleiro de Ouro e michê... de luxo, viu!
A enfermeira ficou sem graça.
Camus pigarreou e Misty deixou escapar um riso impertinente.
— Na segunda profissão ele é bem mais eficiente. — tripudiou o Lagarto, e na mesma hora Peixes desviou o olhar para ele.
— Eu devia ter deixado... aquela cacuda* te despachar pro Hades... Lagartixa ingrata. Ah, tá boa! Aiiii... agora não estaria aqui... me apodrecendo*. — resmungou fazendo cara de dor.
— Shii... Non pode se exaltar. Precisa ficar quieto e tranquilo. — disse Camus que ergueu a cabeça e lançou um olhar repreendedor para Misty — E você também non o provoque, Lagarto. Non comecem... Argh, Dieu... mon coeur. — deitou novamente a cabeça no travesseiro ao lado do pisciano levando a mão ao peito.
— Camy, o que foi? — Peixes perguntou ao francês, mas quem respondeu foi a enfermeira que recolocava os acessos em seu braço para que continuasse a tomar o soro e a medicação.
— Ele teve um arritmia cardíaca. Achou que você não acordaria mais e teve uma crise nervosa. Ele está medicado, mas o ideal seria ser removido para um quarto para fazer exames mais detalhados.
— Non preciso de exames... estou bem... só... foram dias difíceis. — disse Camus — E eu non posso ficar internado aqui... Só quero ficar um pouco com meu... — interrompeu-se dando-se conta de que tinha feito e falado mais do que deveria na frente daquela mulher. Teria que desembolsar uma boa quantia em dinheiro para que ela mantivesse em segredo suas atitudes para lá de suspeitas ali com o paciente — Com meu amigo e irmão de armas. — pigarreou novamente — Assim que terminar o soro eu vou embora.
— Está certo, mas não pode ficar na cama do paciente. — disse a enfermeira checando também os acessos do francês — Desça daí e volte para a poltrona. Eu vou sair para preparar os materiais e volto daqui alguns minutos para checar o estado do paciente e verificar as funções neurológicas. Com licença.
Quando a mulher saiu e ficaram sozinhos os três cavaleiros ali, Afrodite voltou a encarar Misty, sério e em silêncio. De repente, curvou-se um pouco para frente e esticando o braço escorregou a mão pelo abdome de Camus até enfia-la toda dentro da calça do francês.
— Afrodite o que está fazendo? — Aquário murmurou surpreso.
— Pela deusa, eu não acredito que você vai pegar no pau dele aqui, sua suja? — reclamou Misty com uma expressão de incredulidade no rosto.
Então Afrodite puxou o cós da cueca de Camus para fora da calça enquanto encarava o Lagarto com um olhar matreiro.
— Hum... só queria ver se a cueca dele estava aqui... só por... precaução! — disse soltando o tecido e voltando a se deitar.
— Dieu, Peixinho, é claro que minha cueca está aqui. Onde haveria de estar? — disse Camus sonolento.
— Na gaveta... dessa bicha, onde mais?
Misty revirou os olhos e soltou um suspiro cansado.
Era bom ter Afrodite de volta, mesmo que este o irritasse deveras.
— Ah, eu não sou obrigado a aguentar isso. Ele é todo seu, Camus. Eu vou até a lanchonete tomar um suco com antiácido e vou voltar para o Santuário. — disse Lagarto.
— Obrigado por tudo, Misty. — Camus respondeu — Nos falamos depois.
— Ei!... A senhora vai falar depois com esse... mondrongo* coisa nenhuma, santa. Mulher, não me provoca! — Peixes reclamou olhado para Aquário a seu lado, e enquanto eles discutiam aos cochichos Misty deixou o quarto.
— Que saudades eu senti de você, mon amour. — disse Camus esfregando o nariz no rosto de um pisciano emburrado que tinha um bico imenso nos lábios — Até das suas implicâncias e do seu ciúme bobo eu senti falta... Já disse que Misty é meu amigo, apenas isso. Sabia que ele ficou o tempo todo aqui acompanhando sua recuperação? Estava muito preocupado com você. E também foi ele quem me ajudou a vir aqui hoje te ver.
— Nossa como ele bom, né? — Afrodite disse irônico.
— Por Atena, ma fleur. Non vamos brigar... Eu senti tanto medo de perder você... Aconteceram tantas coisas e você non estava do meu lado... Tudo que eu mais queria era estar assim, como estou agora, perto de você, sentindo seu cheiro... sua pele macia... — esfregava o rosto na face do pisciano e não contendo a saudade inclinou-se sobre ele e beijou seus lábios.
— Hummm... eu também, Camy... Ah... como senti sua falta, princesa! — respondeu mordiscando os lábios e queixo do aquariano — Tenho até medo de perguntar... o que houve... Geisty... ela... ela está bem? E Saga?... Os outros cavaleiros?... As meninas do bordel? O aconteceu? A Vory... você...
Camus engoliu em seco ainda de olhos fechados a deliciar-se com as carícias do namorado.
— Você vai saber de tudo na hora certa... — sussurrou abrindo os olhos e olhando para ele — Por hora, apenas tranquilize seu coração, mon petit... Estão todos vivos. A amazona, Saga, os cavaleiros... — disse, e era humanamente impossível perceber que mentira. Não queria perder os poucos minutos que possuía ao lado do namorado lhe dando notícias tão ruins — Amanhã certamente Mu virá aqui e lhe contará tudo que houve, mas... agora, apenas me beije... Eu non posso ficar aqui, preciso voltar para Moscou ainda hoje... preciso dar notícias suas a Hyoga que está desesperado querendo te ver, e finalmente terei boas notícias a lhe dar. — sorriu.
Apesar de ansioso e temeroso por notícias de todos, Peixes deixou-se levar pela saudade e falta que sentira de Camus e acatou aquele pedido sem pensar duas vezes. Ainda que sentindo muitas dores no abdome virou-se ligeiramente para o lado e com os corpos colados um ao outro o beijou suavemente. Era certo que não podia aprofundar o beijo como queria, afinal estava debilitado, a boca seca, os movimentos limitados, a dor... mas em compensação a mão que tinha livre dos acessos nas veias passeava buliçosa pelos ombros, peito e quadris do aquariano lhe arrancando suspiros e gemidos baixos.
— Hum... mon Papá. Je t´aime boucoup!...(Papai, eu te amo muito!)— Aquário sussurrou acariciando os cabelos de Peixes enquanto este deslizava a mão por suas nádegas redondas.
— Eu também... te amo muito, princesa... hmm... meu mafioso malfado... — Afrodite sussurrava de volta ganhando beijos no pescoço e agora deslizando a mão para pênis já bem rijo do namorado. Deu um apertão com a parca força que lhe cabia — Hmmm, que saudades do seu pau, Camy...
— Ah, é?... Está com saudades dele? Ele também está de você. — o francês mordiscou o lóbulo da orelha do sueco já movimentando os quadris languidamente.
— Ah, como eu te quero, Camus... seu tarado do hospital... Maníaco do CTI!... ai... aiii...
De repente Peixes interrompeu as carícias e voltou a se deitar de costas na cama, ofegante e sentindo muita dor no abdome.
— O que foi? — Aquário perguntou preocupado.
— Eu... estou excitado e... tá doendo tudo... Dadá, quem iria imaginar que um dia armar a barraca ia me causar sofrimento. Aloca! Aaiiiii. — gemia com ambas as mãos a cobrir o próprio pênis sob o lençol e o pijama.
— Calma, respire fundo... fomos inconsequentes. Você está ainda em recuperação... eu... Dieu, eu perdi o juízo.
— É melhor você descer da cama, princesa. Papá não tá podendo ficar de pau duro não... tá complicada a situação dele aqui. — lamentou o pisciano.
Camus então desceu da cama e puxou a poltrona para se sentar ao lado, e enquanto falavam sobre coisas que não os deixassem excitados a enfermeira voltou com o médico que examinou Afrodite novamente e lhe mandou ministrar alguns sedativos leves, já que o achou agitado demais para seu estado tão debilitado.
Assim que Peixes adormeceu, Aquário, que também já havia tomado os medicamentos todos que foram prescritos, despediu-se dele com um beijo nos lábios e revigorado, porém não aliviado da saudades que sentia dele, regressou à Rússia. Antes havia tido uma conversa em particular com aquela enfermeira em específico e garantido que no relatório médico suas atitudes estranhas não fossem citadas e que tudo não soasse diferente de uma visita profissional. Queria ficar na Grécia, mas tinha muito ainda o que ser feito em Moscou para que começasse a tocar a organização agora como Vor máximo, e teria que dividir seu tempo entre os compromissos com a máfia, Afrodite, e as estratégias que adotaria para poder lidar com aquela versão vil de Saga.
Tempos difíceis estavam a caminho, mas com Afrodite a seu lado os problemas sempre ficavam mais amenos.
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Dicionário Afroditesco
Apodrecer— falar mal de alguém
Cacuda— pessoa idosa
Cafuçu— pessoa ruim, grosseira; coisa ruim, chata; algo ou alguém que incomoda deveras
Equê— problema, algo que deu errado
Mondrongo— pessoa ruim, com atitudes duvidosas, de caráter falho; pessoa feia, mal vestida, sem modos.
Picumã de Equê— peruca
Tô loka!— Estou fora de mim. Estou pistola com a situação.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.
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