Templo das Bacantes Vol. 2
27 Vai discutir comigo sim.
Notas iniciais

Praia Eros, Santorini, Grécia, 18:30pm
O deck frontal do hotel, que antes era um aconchegante restaurante arejado e de ampla visão para o azul profundo do mar Egeu, dava agora espaço para o coquetel de comemoração do casamento. Tudo foi cuidadosamente organizado por Aldebaran juntamente com a administração do Hotel, com todas as peculiaridades e traços da cultura grega local em cada detalhe.
No centro do espaço se estendia uma mesa comprida com uma toalha azul, a cor preferida do noivo, a qual foi salpicada com pétalas de rosas brancas e folhas de louros para atrair prosperidade e sorte, como dizia a crença pagã. Todo o serviço de jantar era servido em louça totalmente branca e talheres de prata.
Afrodite, que ficou a encargo da decoração, distribuiu sobre a mesa três vasos de faiança grega* com floreiras robustas de rosas brancas e lilases e taças de cristal com bordas folheadas a ouro cheias com Koufetas, amêndoas doces glaceadas, como manda a tradição para atrair toda a doçura à união do casal.
Em cada cadeira de madeira, o encosto era enfeitado com uma coroa de louros trançada com fita de cetim branco e duas pequenas rosas brancas.
Mais ao fundo figurava, impecável, a mesa com o bolo de casamento, o qual havia sido preparado naquela manhã com a ajuda de Geisty, Marin e Shina, sob a administração da esposa do dono do hotel. A mulher fizera questão da presença das moças na preparação de alguns dos pratos que seriam servidos na comemoração como manda o costume grego para as festas de casamento.
Todo o ambiente era iluminado com luzes quentes e velas de aroma suave com perfume de rosas brancas. Em torno das colunas de madeira envernizada e pendendo do teto mais rosas brancas, galhos e folhas verdinhas se entrelaçavam dando um ar romântico e de aconchego no ambiente, além das poltronas de tecido cru espalhadas em pontos estratégicos, tudo providenciado por Afrodite.
O caminho do altar até o deck tinha sido enfeitado com pétalas e folhas espalhadas pelo chão, e assim que os noivos e os convidados chegaram foram recepcionados com palmas e sorrisos pelos poucos funcionários contratados especialmente para a ocasião.
Alguns deles, munidos de bouzoukis**, cantavam animados em coro contagiando a todos, sendo o mais animado o próprio noivo, que de braços dados à noiva acompanhava a canção ao mesmo tempo que recebia os cumprimentos dos amigos.
Logo os músicos contratados assumiram seus postos num pequeno palco improvisado e começaram a tocar.
A festa era embalada pela típica animação grega tão conhecida, principalmente quando se refere a casamentos. Sob a supervisão de Aldebaran, os drinks e quitutes escolhidos a dedo e feitos com todo o cuidado foram sendo servidos com fartura.
E assim a singela, porém farta e animada, comemoração seguia noite adentro.
Aiolia cumpria seu cargo de fotógrafo oficial da festa, não perdendo nenhum click.
Máscara da Morte e Shina, cada um com o inseparável copo de champanhe na mão, acompanhavam as músicas cantando junto e dançando, ambas as atividades sem a menor sincronia.
Marin havia optado por ficar apenas nos drinks mais leves. Batidinhas, coquetéis não alcoólicos, enquanto Shura tinha ficado no suco de frutas já que teria que voltar ao Santuário antes mesmo do bolo ser cortado, uma vez que este não podia ficar desprotegido por um período muito longo de tempo. Era bem verdade que Misty e outros cavaleiros de Prata haviam sido colocados em vigília naquela noite, mas a presença de um cavaleiro de Ouro era imprescindível, e Shura se ofereceu para retornar mais cedo.
Um banquete opulento foi servido com toda a sorte de pratos típicos da deliciosa culinária grega. Comidas para todos os gostos, um festival de sabores que não deixava nada a desejar até para os comilões mais vorazes, como Mu e Aldebaran, que não mediram esforços para experimentar de tudo um pouco.
Com comida boa e farta, bebidas para todos os gostos e graus de beberrões e alegria em demasia, as horas passavam rápido sem que ninguém ali notasse.
Lá pelas tantas, enquanto Geisty se divertia na pista de dança improvisada junto de Shina, Aldebaran, Máscara da Morte, Marin e Aiolia, Saga foi até o bar e se permitiu servir de uma das muitas opções bebidas. Escolheu uma taça de vinho tinto e com ela na mão caminhou até o parapeito do deck, debruçando-se sobre a madeira enquanto apreciava a bebida e a vista.
Seu pensamento voou longe, embalado pela brisa marítima e o estourar das ondas escuras na praia, mas de repente fora trazido de volta à realidade quando Mu e Afrodite apareceram ali para juntarem-se a ele.
— Aquenda, Saga! Tá fazendo o quê aqui sozinho? Não me diga que já cansou, velhinho. — brincou Afrodite passando um dos braços pelos ombros do geminiano, lhe dando um chacoalhão.
— Exato! A noite ainda é uma criança! — disse Mu levando à boca o canudo colorido do drink extravagante que bebia.
Gêmeos sorriu em resposta.
— Veio aqui beber escondido, né Áries? — disse o grego em tom de brincadeira.
Mu, que já estava alegre depois de ter provado vários dos drinks e também de algumas batidas, riu da própria situação.
— Ei! Não estraga meu disfarce... — brincou, dando outro gole na bebida.
Os três cavaleiros riram animados, então se viraram para o salão e juntos passaram a observar os amigos dançando na pista, salvo Aiolia que devorava uns quitutes sentado à mesa, e Shaka que havia ido até o banheiro trocar a fralda de Kiki.
— Não estou cansado, Afrodite. — disse o grego calmamente enquanto via Geisty dançar com Aldebaran, contemplando a beleza da mulher que amava — Olha o sorriso dela... Nunca a vi tão feliz!... E como é linda!
— Sim, devo admitir. O Sucubo de franja é uma mulher muito bonita... E com um pique de dar inveja. Não parou um minuto desde o início da festa. Dadá que te dê fôlego hoje para a noite de núpcias! Alôca! — falou o pisciano às gargalhadas.
— Ela está feliz, você está feliz, eu estou feliz!... Um brinde à felicidade! — disse Mu encostando seu copo à taça de Gêmeos, depois matou o resto da bebida num único gole.
— Sim, um brinde à felicidade. Valeu a pena esperar tanto! — disse Saga também dando um gole no vinho — Valeu a pena não ter desistido dela, mesmo quando tudo estava contra nós... mesmo quando... — se calou baixando o olhar e fixando os olhos na borda da taça, pensativo.
Mu e Afrodite se entreolharam calados. Áries percebendo a mudança repentina na aura do grego, que de alegre fulgurou em melancolia, e Peixes, distraído como sempre, querendo sanar a curiosidade.
— Mesmo quando o quê? Pela deusa, não deixa o pensamento solto assim no ar que você me mata! — disse Afrodite.
Gêmeos não se sentia exatamente confortável em expor suas feridas, mas ao mesmo tempo precisava desabafar, e ninguém melhor do que seus dois amigos mais próximos e íntimos para isso.
— Eu já era apaixonado pela Geisty há um bom tempo... — confessou o grego.
— Foi quando você abriu o Templo das Bacantes? — perguntou Peixes.
— Não. Foi muito antes disso.
— Antes? — exclamou o pisciano um tanto surpreso.
Mu se mantinha calado, como o bom ouvinte que sempre foi.
— Sim, muito antes... Eu ainda era adolescente quando me apaixonei perdidamente por ela.
Afrodite franziu as sobrancelhas, confuso.
— Mas... quando eram adolescentes ela era namorada do cafuçu do seu irmão... Dadá, aquenda esse babado! Você se apaixonou pela namorada do seu irmão!
Saga meneou a cabeça em negação.
— Não... Não foi assim. Kanon sequer havia notado a existência de Geisty até eu cometer a burrice de lhe falar que estava apaixonado por ela... Eu passei mais de um ano tentando me aproximar de Geisty e quando finalmente consegui convidá-la para um encontro o meu irmão foi em meu lugar e se passou por mim... — interrompeu-se novamente baixando os olhos para a taça de vinho.
— Eu tô sépian! — disse Afrodite tapando a boca com ambas as mãos.
Mu nem palavras tinha para expressar seu espanto e indignação.
— Pois é. — Saga suspirou cansado — A vida começou a me dar rasteiras logo quando colocou um canalha para dividir o útero comigo.
— Que filho de uma puta! — Afrodite quase gritou, depois arregalou os olhos — Quer dizer... me desculpe, eu sei que vocês têm a mesma mãe, mas só ele é um filho de uma puta eu quis dizer... ou quase isso... Mas, Saga do céu! Como ela não percebeu que era o gêmeo errado? E por que ela continuou com ele?
— Porque eu nunca me apresentei a ela usando meu nome. Eu me apresentava apenas como o cavaleiro de ouro de Gêmeos. — riu de si mesmo — Eu sou um completo idiota!... Assim ficou fácil para Kanon enganá-la, já que era só ele se apresentar como o cavaleiro de Gêmeos. Além disso, ele tinha a garantia de que eu não iria desmascara-lo, já que se eu reportasse ao Patriarca nos três seríamos punidos e Geisty poderia até ser exonerada...
— Cruzes! — exclamou Afrodite — O velho Shion era mesmo um malassombrado.
Mu ficou um pouco desconfortável com a reação do pisciano, mas ele melhor que ninguém conhecia Shion e sabia que ele sempre foi muito rígido com Geisty. Só não sabia o motivo. Talvez as estrelas tivessem lhe revelado algo sobre a amazona que o obrigou a ser tão firme, mas Shion nunca lhe disse nada.
— Shion a tinha proibido terminantemente de se envolver com qualquer cavaleiro. A mim, então, ele sempre disse para me manter longe... O mais distante possível dela... Eu sabia que se revelasse algo a ele quem seria punida seria ela, não o pulha do Kanon... Exatamente como aconteceu anos depois quando Shion descobriu por si próprio e a mandou para o exílio... Eu podia ter ido atrás dela na Ilha Fantasma e revelado a verdade, sim, mas antes mesmo dela ser exilada aconteceu aquele incidente que nos mandou para o Cabo Sunion, como você bem se lembra, Afrodite, e lá Ele apareceu... Eu perdi o controle da minha mente... Ir atrás dela no estado em que eu estava seria coloca-la em risco permanente. — suspirou.
Afrodite baixou a cabeça, melancólico. A lembrança do que aconteceu no Cabo Sunion ainda mexia muito consigo.
Mu segurou no ombro do geminiano dando um aperto amistoso.
— Eu sinto muito por tudo que aconteceu, Saga. — disse o ariano — Eu desconhecia completamente os motivos que levaram meu Mestre a exilar Geisty. Sempre me questionei sobre esse episódio, e agora... — fez uma pausa, pensativo. Tinha voltado ao Santuário em busca de respostas, e conforme o tempo passava mais se convencia de que Saga, no fim, não era o carrasco que tanta gente pregava, mas mais uma vítima de Kanon como tantos foram.
— Ei! Vamos espantar esse vudu gente! — disse Afrodite batendo palmas — Por Dadá, Saga, é o seu casamento! Sua festa! A maior prova de que, mesmo com toda essa magia negra que o cafuçu do Kanon lançou em você e na franjuda o amor entre vocês foi mais forte!
— Exato! Mesmo com todos esses obstáculos você nunca deixou de amá-la, e agora ela também te ama. — falou Mu com um sorriso — Se a Luz da minha vida tivesse aqui ele diria...
— KARMA! — os três cavaleiros disseram junto e em uníssono, depois caíram na risada.
— É, meu amigo, a Roda do Samsara não falha! — disse ainda aos risos o lemuriano dando dois tapinhas nas costas de Gêmeos.
Logo Geisty os veio chamar, pois era a hora tão esperada de cortar o bolo.
— Ei, o que estão fazendo aqui? — disse a amazona risonha, que aproximando-se de Saga lhe deu um beijo nos lábios — Venham, vamos cortar o bolo.
Sorridente, o casal seguiu para o salão de mãos dadas aos beijos e carícias, enquanto logo atrás vinham Mu e Afrodite, que agora sabendo de tudo não conseguiam deixar de pensar no aqueles dois sofreram até finalmente conseguirem ficar juntos.
Afrodite agora conseguia entender ainda mais o que motivou Saga a criar o Templo das Bacantes. Não fora apenas amor, mas uma boa e farta dose de desespero, e quem era ele para julgar tal ato? De medidas desesperadas ele entendia bem.
Já Mu estava cada vez mais próximo de entender a forte empatia que sentia pelo cavaleiro de Gêmeos. Mesmo Saga tendo matado Shion, e esse ato o forçado ao exílio em Jamiel, não conseguia sentir ódio pelo geminiano. Talvez fosse essa a resposta. Saga era uma vítima das circunstâncias assim como quase todos ali.
Com todos reunidos no salão foi dado início ao corte do bolo. Conforme manda a tradição grega este era composto de mel, sementes de sésamo e marmelo, simbolizando todas as felicidades e desventuras que o casal enfrentaria em seu matrimônio. Em seguida, a pedido do geminiano, o dono do hotel e seus funcionários entoaram as notas de uma animada canção para embalar a kalamatiano, dança onde os noivos celebravam a sua união. Saga e Geisty então dançaram com as mãos unidas por um lenço enquanto os amigos os envolviam formando um círculo, os acompanhando com passinhos animados.
Conforme dançavam quebravam pratos e mais pratos, como manda a tradição. Uma bagunça grega para ninguém botar defeito.
Horas se passaram.
Já exaustos pela noite e parte da madrugada festejando praticamente sem trégua, os noivos enfim se renderam ao cansaço. Agora dançavam abraçadinhos, embalados pelas notas de Forever and Ever que os músicos tocavam a pedido de Saga, que acompanhava cada verso da canção cantando baixinho ao pé do ouvido de sua amada amazona como referência musical e romântica do que sentia por ela.
Dançaram até o fim da música e, no final desta, somente o casal permanecia na pista de dança improvisada.
Sem mais delongas, e querendo aproveitar o resto de energia que ainda lhes restava, Gêmeos chamou a atenção de todos e anunciou a partida dos noivos. Feito isso, surpreendeu Geisty a pegando no colo para caminhar até a escada do deck, descendo os degraus lentamente em direção à praia.
Durante o percurso cavaleiros e amazonas de braços dados cantavam em serenata se despedindo dos noivos. A festa agora seguiria sem eles.
Já na praia, enquanto era carregada pelo geminiano, Geisty lhe perguntou, curiosa e confusa.
— Amore mio, para onde estamos indo? — acariciou sua nuca raspando levemente as unhas na pele dele — O hotel fica do outro lado. — ela riu.
— Não vamos passar a noite no hotel. — disse Saga a surpreendendo.
— Não? — ela arregalou os olhos.
— Não. Eu tenho outros planos para nós. — ele sorriu para ela, sem deixar de caminhar até que seus pés tocassem a água — Nós vamos passar a nossa primeira noite de casados em um lugar muito mais especial. Confie em mim...
Curiosa, a amazona o media tentando decifrar o mistério, mas antes que pudesse chegar a alguma suspeita Saga parou, e o que disse em seguida cortou seu raciocínio.
— Mu... Estamos prontos. — disse Gêmeos, em seguida apertou bem o corpo da amazona contra o seu, a segurando com firmeza.
— Mu? — ela olhou para os lados, depois, por cima dos ombros de Saga, viu quando o lemuriano apareceu ali a poucos passos atrás deles — Espera ai... o que o Mu está fazendo aqui?
O cavaleiro de Áries, que tinha uma taça de champanhe na mão, acenou para ela e sorridente se despediu.
— Ei!
Foi tudo que Geisty conseguiu dizer antes de ser teleportada junto de Gêmeos.
Na praia, sozinho ali Mu deu um gole no champanhe soltando um longo suspiro em seguida.
— Que vocês sejam muito felizes, meus amigos. Tanto quanto eu sou! — sorriu alegre matando a bebida com um último gole — E vamos voltar à festa!
***
Mesmo na ausência dos noivos ninguém dava sinal de querer ir embora. Ao contrário, mais bebidas eram servidas, mais petiscos, e agora os funcionários também se juntavam à bagunça gostosa dos cavaleiros e amazonas.
As mulheres que ajudaram na feitura do bolo estavam encantadas com Kiki. O bebê havia festado bastante e tirado uma soneca durante o jantar, mas esta não durou muito, pois acordou com a bagunça e agora no colo de Shaka era todo sorrisos e gracinhas.
Máscara da Morte pediu para os músicos tocaram uns clássicos italianos e junto com Shina agora rodopiavam no salão cantarolando em suas línguas nativas enquanto dividiam uma garrafa de whisky. Tomavam no gargalo mesmo.
Marin e Aiolia também dançavam juntos, já alegres de tanto bebericar champanhe.
Aldebaran tirou quase todas as funcionárias do pequeno buffet improvisado para dançar. Seu único critério era ser mulher e boa de valsa, mas lá pelas tantas arrumou o um par perfeito de dança, Afrodite. Juntos os dois só não dançavam melhor que Máscara da Morte e Shina porque naquela altura da festa, bêbado como estava, Aldebaran mais ria e brincava do que acertava os passos de dança.
Peixes, que era o único ali que a essa altura da festa não tinha o juízo, nem a capacidade motora, alterados pelo álcool, salvo Shaka que não bebia, dançou com Touro todos os ritmos tocados pelos músicos. Não que Afrodite não bebesse, pelo contrário, difícil era vê-lo sem uma taça de champanhe na mão ou um coquetel colorido, mas devido sua fisióloga altamente tóxica o álcool não lhe afetava a ponto de deixa-lo bêbado.
Mu, de tanto bebericar um drink e outro escondido, uma taça e outra de champanhe aqui e ali, uma batidinha apenas para experimentar os sabores, algumas curtas doses de whisky só para brindar com os amigos, já sentia a ponta do nariz adormecida e a visão um pouco nublada. Alegre e festeiro como sempre, tentou arrastar Shaka várias vezes para a pista de dança, mas Virgem, que implicava com o ariano toda vez que ele se excedia no álcool, não queria nem saber de graça e emburrado preferiu ficar com Kiki na mesa. Shaka até havia dançado com Mu no começo da festa, quando ele ainda estava são, mas agora se negava veemente, o que deixava o lemuriano um tanto quanto irritado, já que todos estavam se divertindo com seus “pares”.
No entanto, não era do feitio do cavaleiro de Áries deixar-se abater pelas picuinhas do Santo de Virgem. Ele estava mais que acostumado com elas e até via certo charme na rabugice de Shaka. Por isso, juntou-se à Aldebaran e Afrodite na pista de dança e foi divertir-se com os amigos.
Tanto dançaram, brincaram, sorriram, beberam e suaram que procurando aliviar o calor Mu teve uma de suas ideias sempre brilhantes.
— Ei! Bora pro mar? — ele gritou segurando nos ombros de Peixes e Touro.
Afrodite e Aldebaran se entreolharam por alguns segundos até que o sueco, eufórico por natureza, arregalou os olhos encarando os dois cavaleiros parados ali.
— Quem chegar por último na água vai dar a bunda pro Touro Chifrudo!
Dito isso Afrodite partiu em disparada e aos risos em direção ao deck que dava para a praia.
Mu olhou para Aldebaran que tinha uma expressão surpresa e confusa no rosto.
— Atena tenha misericórdia! — disse o ariano antes de cair nas gargalhadas e sair correndo atrás de Afrodite.
Aldebaran franziu as fartas sobrancelhas agora também rindo da brincadeira dos amigos.
— E quem disse que eu quero comer vocês, seus pela saco? — disse em voz alta enquanto já partia em disparada para a praia para se juntar a eles.
Mu chegou à orla em tempo ainda de ver Afrodite retirar toda a roupa e mergulhar na água, apenas de cueca.
Não pensou duas vezes em fazer o mesmo. Jogou o chapéu na areia, retirou a camisa, gravata e suspensórios, mas manteve a calça. Pulou na água sem nenhuma cerimônia.
Aldebaran já vinha arrancando a roupa no caminho. Jogou a camisa para um lado, a calça para outro e mergulhou no mar apenas de cueca branca.
—Virgem Santa! Puta que pariu, que água fria! Vocês dois só podem tá de sacanagem com essa ideia de rato de mergulhar nessa friaca. Meu pinto vai até encolher assim. — disse o taurino tremendo todo o imenso corpo.
— Que isso, Debão? Vai arregar? — Mu provocou rindo, pois a água fria do mar pouco lhe incomodava, afinal estava acostumado com os rios de águas congelantes formados pelo desgelo das montanhas no Tibet — Só tem tamanho mesmo. No fundo, de touro não tem é nada. Está mais para um frango.
O lemuriano então dobrou os braços imitando uma galinha e passou a pular na água fazendo graça.
— A lá, Mu! Tá com medo da cobra dele virar uma minhoquinha e ele entrar para o clubinho dos caras normais. — ria Afrodite — Se liga, Touro Chifrudo, tô sacando qual é a sua, heim santa! Quem gosta de cobra é viado, gata, mulher gosta de minhoquinha! Já falei para você mudar de time que, ai sim, ia chover horrores na tua horta!
— Cês vão ver o frango e a minhoquinha, seus dois palhaços! — disse o taurino com uma gargalhada sonora, depois, de supetão, saltou sobre os dois amigos ali espalmando as mãos enormes no peito de cada um, os empurrando com tudo para trás, lhes dando um caldo tão forte que em segundos atingiram o fundo.
Mu e Afrodite ficaram submersos por longos segundos, até que finalmente conseguiram se colocar de pé e emergir da água para recuperar o fôlego, enquanto Aldebaran lhes espirrava água às gargalhadas.
Ainda tossindo e cuspindo água, Áries puxou Afrodite pelo braço lhe propondo uma revanche.
— Olha a covardia, Dido! Vamos mostrar para ele que ele é grande, mas não é dois!
— Só se for agora! — respondeu o sueco que ainda meio cambaleante se posicionou atrás de Mu e com extrema facilidade subiu em suas costas até sentar-se em seus ombros, passando uma perna de cada lado do pescoço do lemuriano — Pega ele!
As gargalhadas dos três cavaleiros ecoavam noite adentro, e um pouco afastado da orla, Shaka observava aquela arruaça sentindo-se levemente irritado.
No começo da comemoração havia pedido ao ariano que maneirasse na bebida, afinal estavam ali com o filho, mas de nada adiantou. Lá estava seu marido, bêbado e seminu, no mar se agarrando com dois homens de cueca.
— Não adianta falar mais nada, meu filho. Seu pai é um caso de alcoolismo perdido! — disse para Kiki em seu colo.
O bebezinho batia palmas e ria animado enquanto apontava para os cavaleiros que se divertiam na água. Era nítida sua vontade de se juntar a eles, mas isso Virgem fazia questão de ignorar.
Indignado, caminhou na areia branca a passos apressados até a beira onde Mu estava sentado se recuperando dos caldos que levou de Aldebaran, então segurou Kiki de pé para que molhasse os pezinhos na areia molhada.
— Está se divertindo, Mu de Áries? — disse num tom nada amistoso. Mantinha o rosto voltado para o horizonte.
Mu notou o tom ácido das palavras do marido, mas um tanto mais leve por conta da bebida e despreocupado, decidiu que estava feliz demais para se deixar levar pela rabugice de Shaka.
— Sim, estou me divertindo muito, Shaka de Virgem. — o lemuriano rebateu se jogando na areia para sentir a espuma do mar lhe molhar as costas.
— Que bom! — disse Shaka, com o rosto ainda voltado para o horizonte — Mas, sabia que dá para se divertir sem abusar do álcool, ficar desnudo ou se agarrar com outros homens sem roupa?
— Sei. E você, meu marido, sabia que tem como ir a uma festa e aproveita-la sem repreensões ou críticas? — Mu se sentou e agora olhava Aldebaran e Afrodite, que ali perto fingiam não notar a pequena discussão do casal — Ficaria bem mais divertido se ao invés de reclamar entrasse na água conosco.
Shaka, suspirando, girou o rosto para o lado e mesmo de olhos fechados analisou os contornos perfeitos da face de Mu. Kiki batia feliz os pezinhos na água, respingando gotículas em suas mãos. Ao fundo os risos divertidos de Afrodite e Aldebaran adentravam seus ouvidos terminando por lhe confirmar que tudo ali coexistia em perfeita harmonia. Tudo estava em seu lugar, exceto ele. Ele estava fora.
— Hum... entrar na água com vocês... — sempre a mesma indesejada sensação de não conseguir se encaixar em lugar nenhum vinha à tona e ele acabava reagindo da pior forma possível —... E eu deveria ficar só de roupa íntima também? Sabe que muitas vezes eu nem uso, então deveria ficar nu aqui? Ah, faça-me o favor. Nem é disso que estou falando.
Mu respirou fundo, irritado. Shaka parecia querer mesmo estragar o restante de sua noite com seus sermões e ironias. Mas não permitiria. Não naquela noite.
Tomado de uma coragem e atrevimento repentinos, fruto dos tantos coquetéis, batidas e taças de champanhe que havia consumido na festa, Mu tencionou dar aquela discussão por encerrada quando tomou Kiki das mãos de Shaka e o entregou para Aldebaran, que estava próximo a si sentado do outro lado, e antes que Virgem pudesse dizer qualquer coisa, avançou sobre ele usando o próprio corpo para derruba-lo na areia molhada e mantê-lo preso debaixo de si.
— Ei! O que pensa que está fazendo, Mu de Áries?— ralhou Shaka, atônito e surpreso.
— Você não sabe a hora de calar a boca, não é mesmo? Mas eu sei a hora de te fazer calar a boca. — disse o ariano, e em seguida calou os protestos do marido tomando sua boca com um beijo forte, intenso e sensual.
Shaka bem que tentou protestar, mas quanto mais se debatia, mais forte Mu lhe segurava e mais fundo sua língua avançava na boca do indiano o fazendo perder o fôlego e corar feito um pimentão maduro.
Entre um protesto e outro de Shaka, Mu finalmente se deu por satisfeito e abandonou os lábios do marido para esfregar a lateral de seu rosto no dele até encostar a boca em seu ouvido.
— Realmente... Você não está usando roupa íntima hoje. — sussurrou apertando seu quadril contra o dele.
Desconcertado, tanto pela atitude intempestiva de Mu quanto pelo beijo que, querendo ou não tinha feito seu corpo todo estremecer, Shaka espalmou ambas as mãos nos ombros do ariano e o empurrou para longe para que pudesse escorregar para trás e se levantar.
— Bêbado! — grunhiu, irritadíssimo.
Já de pé, com o rosto afogueado de raiva, tesão e vergonha, retirou alguns fios de cabelo molhados e sujos de areia que estavam grudados em suas bochechas, ajeitou rapidamente as vestes molhadas e divisou os outros dois cavaleiros em torno de Mu que olhavam para si com os olhos estatelados, sem ao menos piscar.
Mal conseguia olhar para Aldebaran dentro daquela cueca branca que molhada era o mesmo que estar completamente nu, enquanto Afrodite, com sua típica expressão de confusão no rosto, tinha uma das mãos metidas dentro da cueca rosa enquanto coçava as nádegas por causa da areia.
— Indecentes! — bufou, avançando em direção a Aldebaran — Me dá meu filho.
Com Kiki, Shaka regressou ao local da festa onde agora estavam apenas Shina e Máscara da Morte que conversavam às gargalhadas enquanto tomavam champanhe, e sentou-se na mesa no local em que havia deixado a bolsa com as coisas do bebê.
Mais uma vez não havia conseguido controlar seu ciúme, tampouco se manter indiferente ao comportamento que julgava inadequado dos irmãos de armas, e sempre que isso acontecia se perguntava se o problema estava em si mesmo, em sua total inabilidade em lidar com sentimentos tão humanos, se o problema estava com Mu, ou ambos.
Na praia, Touro e Peixes ainda estavam perplexos devido terem presenciado toda aquela cena.
— Maluco, fodeu pá tu, Mu! — disse Aldebaran ao olhar para Mu — Shaka vai dormir de calça jeans hoje. — deu uma gargalhada que ecoou na praia toda.
— Mas que droga. — o ariano resmungou enquanto se levantava já partindo em direção ao salão de festa.
— É, eu acho que a festa acabou, Touro Chifrudo. — disse Afrodite suspirando, mas no fim ambos caíram na risada.
No caminho entre o deck e o salão, Mu refletia sobre o que havia acontecido. Sabia que tinha agido errado agarrando Shaka na praia, mas o virginiano também tinha errado em lhe acusar de ser um bêbado.
Era sempre assim. Shaka lhe tirava do sério e com a cabeça quente acabava fazendo alguma besteira.
Tentando ver se conseguia melhorar a situação, ainda molhado da água do mar Mu adentrou o salão vendo Shaka trocar Kiki em um dos cantinhos da mesa mais isolados.
Pegou um dos vários roupões pendurados na entrada que estavam disponíveis aos convidados, colocou-o sobre a calça molhada mesmo e se aproximou deles trazendo consigo uma cadeira na qual se sentou.
— A primeira coisa que eu quero que você saiba, Shaka, é que detesto quando me chama de bêbado ou de alcoólatra. — disse Mu tentando controlar a irritação em sua voz — A segunda coisa é que você me deixa puto, isso mesmo, PUTO da vida, com as suas ironias.
Nervoso, Shaka bateu o pote de talco, que passava nas perninhas de Kiki, contra a mesa fazendo levantar uma nuvem branca perfumada que voou até o rosto de Mu o forçando a fechar os olhos e a boca, ou engoliria um bom tanto de pó perfumado.
— Ah, você está puto? — disse o indiano, agora com o rosto voltado para o companheiro — Pois saiba que Shaka também está puto. E ele também vai lhe dizer o por quê. Porque ele pediu para que dessa vez, só dessa vez, o Mu ficasse sóbrio com ele na festa, e não largasse ele sozinho para beber com os amigos mundanos dele, já que não é em todas as festas que Shaka acompanha o Mu. — fez uma pausa e respirou fundo para continuar — Eu não gosto dessas brincadeiras dos seus amigos com você, e nem sei interagir com eles do modo que você espera que eu interaja, e quando você força a barra, como fez agora na praia, eu tenho vontade de te... — se calou apertando o pote de talco sobre a mesa.
— Pois pode ter certeza que eu tenho a mesma vontade. Como você é in-crí-vel Shaka de Virgem! — Mu se irritou de vez, encarando o loiro — É incrível como você manipula a situação a seu favor.
— Como é que é? — Shaka indagou, indignado.
— Não distorça as coisas não, porque a mim você não consegue enrolar. — a essa altura Mu já elevava o tom de voz enquanto gesticulava com as mãos. Kiki, que podia sentir a aura de desarmonia dos pais, já fazia um beicinho emburrado dando sinais de choro.
— Eu não vou discutir com você, porque não é a sua boca quem fala, é do gênio ruim que mora no álcool, e que está usando você como fantoche. — meteu o talco dentro da bolsa do bebê e apanhou uma toalha para enxugar o próprio cabelo todo molhado, mas antes mesmo que a levasse à cabeça Mu agarrou a toalha e com um puxão a tomou de suas mãos.
— Vai discutir comigo sim! — disse o lemuriano jogando a toalha no chão — Para começo de conversa, eu estou sóbrio.
— Hum... estou vendo! — Shaka rebateu furioso, já que sóbrio o ariano jamais teria aqueles modos tão rudes.
— Dois ou três coquetéis não embebedam ninguém, só me deixaram um pouco alegre, mas longe de estar bêbado... Eu fiquei a festa inteirinha, preste bem atenção, Shaka, inteirinha, ao seu lado. — apontou para ele com o dedo indicador — Já é alta madrugada e só agora eu fui me divertir um pouco com os rapazes, meus amigos... Eu não exijo que você interaja com ninguém se não quiser, você que foi lá cheio de si me dar lição de moral. Afinal, qual é o seu problema?
Um tanto chocado, pois raríssimas vezes viu Mu tão nervoso quanto agora, Shaka ponderou por alguns minutos apenas o analisando.
Não era tolo a ponto de não reconhecer verdades nas palavras dele, mas também não era sábio o suficiente para admitir que o seu problema real não era a brincadeira do marido com os amigos, o álcool, ou a entrada dele no mar, mas sim o ciúmes que o corroía por dentro, e que se simplesmente admitisse isso evitaria um conflito desnecessário.
Mas não conseguia admitir. Não ele. Shaka de Virgem. O poderoso cavaleiro nascido para se tornar um Buda. O sábio conselheiro a quem todos procuravam quando se sentiam perdidos. Admitir que sentia ciúmes era o mesmo que negar anos de evolução espiritual no lixo, era negar tudo que pregava, era se colocar no mesmo patamar dos meros mortais que são conduzidos por suas paixões terrenas.
— O meu problema, Mu de Áries, foi achar que você era a resposta para todas as minhas perguntas. — o indiano respondeu colérico, em seguida enfiou na bolsa de Kiki as roupas molhadas mesmo, a toalha que recolhera do chão, um punhado de lenços, fechou o zíper e praticamente a jogou contra o peito do lemuriano — Agora tudo que falo, toda questão que levanto, para você nada mais é que encheção de saco, lição de moral. Eu não gostar de ver o meu marido agarrado a outros dois homens de cueca no mar é lição de moral. Eu pedir para ele não consumir álcool porque estamos com nosso filho bebê aqui é encheção de saco. Mas, se é assim, já que o álcool não te afeta, faça nosso filho dormir porque ele está exausto.
Nesse exato momento, em perfeita sincronia com a discussão, o pequeno lemuriano começou a chorar, tanto de sono como por conta das vozes alteradas dos pais.
— Pronto, fez nosso filhotinho chorar. — disse Mu — Pois eu faço ele dormir sim, sabe por quê? Porque estou completamente pleno das minhas faculdades mentais, Shaka de Virgem, e jamais negligenciaria nosso filho. — bravo se levantou e pegou bebê no colo, que ainda estava nu da cintura para baixo, já que Shaka ainda lhe passava talco quando chegou ali e com a discussão Virgem nem tinha lhe colocado a fralda — Você nem terminou de vestir o nosso bebê. Ele está gelado e pelado, Shaka de Virgem, e tem a pachorra de acusar a mim de não ser capaz de cuidar da criança porque estou bêbado.
Sob o olhar enfurecido do virginiano Mu apanhou a mantinha com a qual Shaka havia forrado a mesa para colocar Kiki e a enrolou no bebê.
— Ótimo! — esbravejou o loiro se abaixando para apanhar do chão o par de sapatos que havia deixado debaixo da mesa. Bateu um no outro para tirar a areia e voltou seu rosto para Áries — Então, já que Shaka não presta para fazer nada direito, só dar sermão e lição de moral, e já que Mu está são e pleno de suas faculdades mentais e motoras, fique com Kiki e o leve em segurança para casa, porque para mim já deu. Eu vou embora... Eu vou para minha casa e você pode ficar ai em paz bebendo e tomando banho de mar agarrado com seus amigos indecentes de cueca. Divirta-se aqui, porque comigo você não vai se divertir tão cedo. Shaka não divide o leito com bêbado.
Mu arregalou os olhos enfurecido.
Se antes estava apenas nervoso agora se encontrava fora de si.
— Vai, Shaka, vai embora para a suuuuuua casa. — o ariano fez questão de prolongar bem a palavra, enquanto em seus braços o filho ainda chorava incomodado pela gritaria dos dois — E já que você não divide o seu sagrado leito com um bêbado como eu, depois da festa e da diversão, porque sim, eu ainda vou me divertir muito, pode ter certeza, eu e o MEU filho iremos para a Casa de Áries, a minha casa. Nós não profanaremos o seu sagrado Templo com nossa presença mundana.
— É incrível como ainda insiste que suas palavras e atitudes não estejam sob influência do gênio ruim do álcool, Mu de Áries. — bufou dando um passo para frente até ficar bem próximo ao ariano — Só por isso não vou levar em consideração uma só palavra do que você diz. Chega. Já que é assim que você quer, então que assim seja. Sua casa é em Virgem, mas se quer ir para Áries então vá. Amanhã eu irei buscar o MEU filho na sua casa. Boa noite, Mu.
Não esperou que Mu respondesse algo, pois de fato não queria prolongar aquela discussão. Teleportou-se de volta para o Santuário sentindo um misto de raiva, magoa e frustração.
Quando Shaka desapareceu bem diante de seus olhos, Mu soltou um suspiro longo, misto de raiva e cansaço. Não podia acreditar que o marido tinha mesmo ido embora e o deixado ali, sozinho, mas logo o choro de Kiki o forçou a concentrar-se no que deveria ser feito de imediato. Com Shaka se resolveria depois.
— Isso, meu filhotinho, chora. Chora que minha vontade é de chorar também, ou de socar a cara do seu Bába que deixou a gente aqui sozinho... — resmungava chacoalhando freneticamente o bebê em seu colo — E a noite foi pro beleléu!... Vem, vamos até a cozinha pedir uma água morninha para o seu leite.
Toda a adrenalina da briga fez com que Mu recobrasse a sobriedade.
Na cozinha teve ajuda de uma das moças do buffet para preparar a mamadeira e de volta para salão de festa, já mais calmo, repassava na memória aquela discussão vergonhosa que tivera com Shaka, enquanto amamentava Kiki.
Se pudesse iria embora também, mas tinha ficado responsável por teleportar os amigos de volta para o Santuário, então teria que ficar ali até o último cavaleiro, ou amazona, querer ir embora.
Após colocar uma fralda e trocar o filho, arrumando toda a bagunça que a discussão causara na criança, quando Kiki finalmente dormiu, Mu se sentou com ele nos braços em uma das cadeiras de praia que ficavam na varanda do bar junto ao hotel. Ali, enquanto tinha o olhar perdido no mar, refletia sobre tudo que Shaka havia lhe dito.
Mesmo reconhecendo que o indiano tinha razão em vários pontos, ele tê-lo chamado de bêbado e praticamente o expulsado do leito naquela noite tinha lhe magoado demais.
— O que eu faço com aquela praga loira, Kiki? Hein? Diz pra mim? — resmungou afundando-se na cadeira, emburrado, mas decidido a chegar no Santuário e reivindicar o seu lugar no leito do cavaleiro de Virgem.
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Dicionário Afroditesco
Charufinácea— bagunça, coisas de valor baixo; um aglomerado de gente burra e sem modos.
* Faiança grega – um tipo de cerâmica branca, mais porosa e fabricada em temperaturas mais baixas que a porcelana, apresenta-se em tons que vão do branco ao marfim. Foi descoberta no período Clássico da Grécia e são produzidas até os dias de hoje.
** O Bouzouki é um instrumento de cordas da família do alaúde. Muito popular na música tradicional grega.
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