Templo das Bacantes Vol. 2

34 Um dia para Operação Terra Queimada


Notas iniciais
Olá queridos leitores. Creio que os próximos capítulos da fic serão longos e postados talvez de forma irregular, pois estamos chegando em um dos momentos mais cruciais de toda a história (não apenas do volume 2 mas de toda a série de fics mesmo).. por isos precisamos escrever tudo com calma e sem "pular" nada. espero que preparem o coração. beijos.

Santuário de Atena, 13:30pm

Após uma manhã agitada na Casa de Áries, às voltas com parafusos, furadeiras e toda a sorte de manuais de montagem de mobília, Saga e Mu finalmente haviam terminado de montar todos os móveis que o lemuriano comprara em Atenas a pedido do grego para compor o quarto de seus bebês gêmeos que estavam a caminho. E agora, com a tarefa concluída, ambos os Cavaleiros se encontravam sentados dentro da sala de reuniões do Templo do Grande Mestre a portas fechadas, enquanto Camus lhes entregava o relatório de sua mais difícil missão.

Há meses atrás Saga havia lhe incumbido de investigar e conseguir provas de que a Vory V Zakone estava desviando parte do pagamento da dívida grega e não a abatendo no montante final, através de uma taxa bancária indevida chamada “TTGR — Taxa de Transferência entre Grécia e Rússia”, a qual roubava 2% de todo o dinheiro transferido aos Russos.

Ser cavaleiro e segundo Vor nunca se mostrou tão perigoso para Camus, pois havia descoberto indícios de que o próprio Dimitri Yurievich Volkov estava envolvido no golpe ao Santuário, o que demonstrava que o líder máximo da máfia russa não lhe confiava mais todos os seus segredos.

Foram dias, semanas, meses de cautelosa e profunda investigação, afinal não era fácil obter as provas, mas ao final de tanto esforço ali estava ele, o Cavaleiro de Aquário, com um calhamaço de documentos em mãos diante de Saga e de Mu, os três sentados ao redor de uma mesa redonda com semblantes sérios.

— Então você conseguiu as provas? — Gêmeos descruzou as mãos que mantinha sobre a mesa e apontou para as pastas que Camus trazia consigo.

Oui. Realmente o TTGR é uma farsa. Consegui uma cópia oficial da regulamentação interna do banco Russo e lá essa taxa não consta. — Camus dizia enquanto entregava cópias dos documentos a ambos — Também obtive um memorando assinado pelo próprio Alyosha Olegich Volkov, primo de Dimitri, ordenando a cobrança da taxa apenas nas transações de algumas contas. Todas elas de laranjas do Templo. Nessa pasta estão todos os documentos que comprovam o desvio.

— Mas isso é ótimo! — Mu afirmou analisando os papéis — Com essas provas podemos abater mais um bom montante da dívida e reduzir o tempo necessário para nos livrarmos dos russos.

— E esses outros papéis aí? — Saga apontou para o restante das pastas que Camus não lhes havia entregado. Logo em seguida à sua pergunta o semblante do francês fechou-se em uma expressão ainda mais séria e preocupada — Algum outro problema, Aquário? — perguntou desconfiado o geminiano sem desviar sua atenção do rosto do outro.

A pergunta de Gêmeos chamou a atenção de Mu, que parou de ler os documentos e ergueu os olhos divisando o rosto do aquariano junto do grego.

O ruivo então respirou profundamente, colocou todos os documentos sobre a mesa e ajeitou os cabelos. Era nítido que havia mais a ser falado.

Os olhos Muvianos de Mu viam a aura do aquariano carregada de preocupação, e Saga também conhecia bem o subordinado. Estava claro para ambos que Camus sabia de algo.

— Eu queria non ser tão bom. — o ruivo confessou enquanto tirava a cigarreira do bolso da camisa que usava e acendia um cigarro — Mas, quando uma missão é dada eu sempre a cumpro com excelência. O que só me fode, afinal sou um Vor e também Cavaleiro.

— O que foi que descobriu, Cavaleiro de Aquário? — a pergunta de Saga soou baixa e muito séria, deixando nítida a tensão no ar.

— Muito mais do que eu deveria. O que eu tenho aqui coloca a minha posição como Vor em cheque. — apontou para os papéis — Por isso, tudo que eu falar de agora em diante non será mais como Cavaleiro e sim como Camus, é segredo absoluto e, portanto, non poderá ser usado pelo Santuário, pelo menos non enquanto minha cabeça estiver em risco.

Camus apontava para Mu e Saga esperando uma resposta. Ficaram os três se encarando por um tempo até que após trocarem um olhar cúmplice Áries acenou positivamente com a cabeça sendo seguido por Gêmeos.

— Ótimo! — Camus tragou mais uma vez o cigarro e empurrou as pastas dobre a mesa na direção de ambos, que passaram a folear uma papelada sem fim, cheia de números e contas — Por segurança estou apresentando a vocês cópias, já que os originais estão em minha sala na sede da Vory.

— Mas o que significa tudo isso? — Saga olhava confuso enquanto folheava nervosamente as páginas sem entender ao certo o sentido de todo aquele conteúdo.

— São balanços internos e fechamentos de caixa... Parece ser o levantamento interno do fluxo financeiro. Eu sei disso porque é muito parecido com os que faço para o Templo. — Mu constatou — Esse é o relatório financeiro da Vory, Camus?

Oui. Non todo ele, mas uma parte. Documentos que somente o alto escalão tem acesso. Uma chatice sem fim. O problema é que para investigar o desvio que vocês descobriram eu precisei revisar todos esses documentos. Non foi fácil, gastei muitas noites fazendo contas. — conforme ia explicando o ruivo tragava o cigarro vez ou outra — Dimitri tem roubado a Grécia de inúmeras maneiras, non apenas por meio do TTGR. Vocês pagam arrego a inúmeros fornecedores que na verdade são infiltrados russos que repassam esse dinheiro para a Vory. Além disso, cobram juros sobre os juros que non estão no contrato oficial, desviam entrega de drogas... Olha, é tanta coisa que eu fiz uma lista e um relatório detalhado por escrito e anexei aos documentos para vocês conferirem.

— Pelas entranhas do Cérbero! Russo filho da puta! — Saga era a personificação da indignação. Irado, pegou o calhamaço de folhas que estava pousado na mesa e passou a correr ligeiras as páginas com os olhos. Com o rosto contorcido em uma carranca furiosa o geminiano buscava em seu acervo mental de ofensas uma à altura para destinar ao líder da Vory v Zakoni — Que filho da puta esse... esse... CORNO, desse Dimitri! Desgraçado, quer deixar o Santuário amarrado a essa dívida pelo resto das nossas vidas.

— E mais. Mu pode me ajudar nisso, mas eu somei todos esses desvios, e se atualizarmos o valor hoje a dívida do Santuário com a Rússia está praticamente toda paga. Só que Dimitri não contabilizou essa soma no montante total, pois para ele é lucro extra. Nas contas oficiais da Vory o Santuário ainda deve muito, e é praticamente improvável que conseguirá quitar a dívida devido aos desvios constantes. Talvez nem o próprio Dimitri saiba disso, e eu só soube porque enquanto investigava a taxa bancária achei outras transações suspeitas, e quanto mais investigava mais descobria.

— Deixa eu ver se entendi. — Mu interrompeu — Está me dizendo que provavelmente já quitamos o empréstimo com a Vory V Zakone, e que as únicas provas são esses documentos que você tem, mas que se os apresentarmos agora imediatamente Dimitri vai saber que foi você que os entregou e então pode ser acusado de traição?

— Mas que bela merda! — Saga atirou os papéis que tinha em mãos na mesa um tanto desiludido, enquanto se deixava cair no encosto da cadeira — Estamos com a faca e o queijo na mão e não podemos usar. Faz ideia de que me deu uma ótima e uma péssima notícia ao mesmo tempo, Camus?

O ruivo apagou o cigarro num cinzeiro próximo e deu de ombros.

— Faço. Como Cavaleiro fiz meu dever de lhes contar, mas como vice Vor non posso entregar esses documentos, ou estou acabado. — o ruivo se inclinou para frente e disse olhando nos olhos de Saga — Saiba que non acho justo o que o Dimitri está fazendo, por isso mesmo decidi lhes deixar a par de tudo. Mesmo dentro da máfia temos honra, e ele non está cumprindo com a palavra dele. Porém, non podemos fazer nada antes de ponderarmos. É a minha cabeça que está em jogo.

Saga suspirou, cansado e exausto, além de frustrado por não poder agir imediatamente, já que via naqueles papéis uma esperança e não podia desperdiça-la.

— Eu sei. Cumpriu sua missão com excelência, Camus, e provou mais uma vez que posso confiar em você. — o grego inclinou-se para frente apoiando o cotovelo na mesa e encarando o rosto severo do outro — Tem minha palavra de que não vou entrega-lo. Mu e eu vamos estudar a fundo todas essas contas e desvios, além de analisarmos cada item dos contratos de empréstimos que já fizemos com eles, para então procurar meios alternativos de resolver esse empasse. Fique em alerta, assim que pensarmos em uma saída eu o contatarei novamente.

— Está bem. — Camus concordou sentindo como se um peso saísse de suas costas — Se não tiver mais nada para falarmos, posso me retirar?

— Sim, está dispensado. — o Grande Mestre acenou com a mão e o ruivo logo se retirou da sala.

— Que Atena me perdoe o palavreado... Puta que pariu! Por essa eu não esperava. — Mu, que ainda estava ao lado de Saga, soltou um suspiro.

— Nem eu, meu amigo. Nem eu... Isso só prova que não podemos nos dar ao luxo de depositar muita confiança naqueles que não sejam os nossos. Devemos estar sempre alertas. Estou até com dor de cabeça e a merda do meu dia só está no começo ainda. — Saga ralhou enquanto massageava as têmporas.

— Eu também. Olha, se me permitir já começo a analisar todos esses papéis hoje mesmo, mas antes tenho mais uma questão a tratar. — disse Mu.

— Outro problema?

— Creio que a notícia seja boa, de fato. — Mu sorriu — Lembra que me pediu para resolver o problema do alvará? Pois bem, consegui o contato de quem pode nos ajudar...

***
Santuário de Atena, 14:20pm

Subiam as largas escadarias das Doze Casas lado a lado Afrodite e Máscara da Morte. Ambos vestiam seus rotineiros trajes de treinamento composto por calça justa de algodão, batas gregas amarradas na cintura por um cinto amplo de couro e protetores para os antebraços, joelhos, canelas, peito e ombros. Afrodite tinha os longos cabelos presos num coque no alto da cabeça e Máscara da Morte tinha uma pequena falha nas madeixas, logo acima da orelha direita, que deixava à mostra seu couro cabeludo.

Era sobre ela que conversavam enquanto subiam os degraus da Casa de Touro depois de passarem boa parte da manhã e início da tarde treinando na Arena.

— Ai meu edi*! Você ainda vai se afogar nesse rancor, Mask. — disse Afrodite — E que saber, santa? A culpa foi sua que não estava atento e não desviou da minha rosa.

Imediatamente Máscara da Morte parou, com um pé no degrau de cima e outro no de baixo. Hirto, olhou indignado para Afrodite que se virou para trás assim que percebeu que o amigo não estava mais a seu lado.

— Minha? Ma che ipocrita! — esbravejou bufando enquanto esfregava o dedo na falha do cabelo acima da orelha — Você jogou sujo! Você sempre joga sujo, figlio di una cagna! Olha isso aqui! — apontou para a tira sem cabelo em sua cabeça — Isso aqui é a prova de que você é o cavaleiro mais sujo desse Santuário. O combinado era luta física sem Cosmo!

— Alôca! Tá ai me apodrecendo* quando você fez pior! É o sujo falando do mal lavado, tá meu bem? Você jogou terra nos meus olhos, enfiou essa mão cascuda na minha boca, chutou meu saco, três vezes! Eu contei, viu! — numerava nos dedos as faltas cometidas pelo canceriano durante o treinamento em conjunto — Agora vem me falar de jogo sujo?

— Você quase arrancou minha orelha, stronzo! — o italiano resmungou rangendo os dentes.

— Falou bem. Quase! Isso significa duas coisas. A primeira é que, mesmo movido a oxanã* você ainda tem algum fôlego que te permite ter reflexo à velocidade da Luz, ou a minha Rosa Piranha não teria te tirado apenas um tufo de cabelo, mas partido essa tua cabeça oca em dois! A segunda, e mais óbvia, é que a gente se merece, meu amor! — desceu um degrau deixando escapar uma risadinha sem vergonha e passou um dos braços pelos ombros do canceriano o trazendo para junto de si — Eu estava sentindo falta desses nossos embates honrosos na Arena.

Mesmo ainda carrancudo, Máscara da Morte não conseguiu evitar sorrir de volta para o pisciano. Eram amigos desde a infância, e conhecia tão bem Afrodite que não podia desmenti-lo. Eles lutavam sujo sim, era inegável, talvez por isso se davam tão bem, ou não, quando treinavam juntos.

— Você não vale nada! — riu o cavaleiro de Câncer.

— Você menos ainda. — Peixes respondeu com a voz mais natural desse mundo.

Io sei. — o italiano riu alto — Também senti falta dos nossos embates cheios de honra e justiça. Ficou tanto tempo afastado da Arena e está tão magro que io pensei que tinha decidido abandonar essa merda toda para virar a porra de um modelo.

— Ah, estava demorando para fazer a dramática, né! — suspirou o sueco revirando os olhos.

— Dramático é o teu rabo! Você me abandonou! Sabe o tédio que é ter de treinar com o Aiolia? E com o Mu? All'inferno esse povo certinho! Eles me dão nos nervos! Shura e Aldebaran são os únicos que salvam um pouco.

E assim, ouvindo as reclamações do amigo italiano, Afrodite subiu até a Casa de Câncer deixando com ele a promessa de não se afastar dos treinamentos, já que, com a rotina corrida que sua vida ganhara depois que Hyoga passou a fazer parte dela em segredo eram eles agora o único momento que tinha livre para passar com o canceriano.

Peixes seguiu subindo as escadarias, mas antes de seguir ao seu Templo resolveu parar em Virgem para uma rápida visita a Kiki, afinal fazia mais de uma semana que não havia conseguido sequer alguns minutos para ver o afilhado. Sabia que Mu não estava ali naquela hora, e achou até mais pertinente, assim não causava a impressão de que só visitava o bebê quando o pai lemuriano estivesse em casa, mesmo que preferisse já que estar sozinho com Shaka não era uma das experiências mais agradáveis.

Sendo assim, se fez anunciar através do Cosmo quando chegou à entrada da Sexta Casa, e obtendo consentimento de seu guardião entrou já se encaminhando para a parte residencial.

Quando adentrou o corredor que levava à sala de estar avistou de longe o grande sofá de madeira escura e estofado em tons corais que ficava de frente para uma ampla estante onde havia uma televisão ligada em um canal que passava desenhos animados. Olhou novamente no sofá e então viu apenas dois pequenos pezinhos serelepes calçados com meias azul turquesa que balançavam acompanhando a canção que vinha do aparelho de TV.

Afrodite arregalou os olhos e sorriu, continuando a avançar a passos ligeiros.

— Não é possível que esse menino tenha crescido tanto desde a última vez que o vi! Nem faz tanto tempo assim que não venho aqui! Se bem que Kiki nem é gente, né. Alôca!

Afrodite falava consigo mesmo à medida que se aproximava vendo o corpo da criança sentada no sofá aos poucos ser revelado, até se dar conta, para seu completo desespero, que aquele não era Kiki... Óbvio.

— HYOGA! — berrou, em alto e bom tom, depois cobriu imediatamente a boca com ambas as mãos.

Sua voz soara tão grave quanto a de um locutor de radio rouco. Arregalou os olhos e prendeu a respiração, afinal não precisava respirar se nem seu coração batia. Tudo dentro de si estava congelado.

— Diii! — berrou Hyoga em resposta, sorrindo e festejando a presença inesperada da “amazona” ali, já que imaginava que a veria somente à noite — Que roupa estranha é essa? — a facada no coração de Peixes veio em um quase perfeito grego com algum sotaque russo.

Afrodite deu um passo para trás, ainda hirto, acuado, porém com o coração agora tão acelerado quanto de um guepardo em plena caça. Hyoga o encarava com um semblante surpreso e curioso, e ele o encarava de volta ainda com ambas as mãos cobrindo a boca e os olhos arregalados. Só conseguia pensar que tinha sido descoberto. Estava sem maquiagem alguma, cabelos presos, unhas nuas e roupas que não faziam questão nenhuma de esconder suas formas masculinas.

Foi essa última constatação, aliás, que o fez tirar de repente as mãos do rosto e leva-las à barra da curta túnica para puxá-la mais para baixo a fim de esconder a parte de sua anatomia que mais lhe entregava, e não se dando por satisfeito ainda, em desespero correu para a parte de trás do sofá e ali se agachou, de costas para o encosto.

Confuso, Hyoga ficou de pé no sofá e nas pontas dos dedinhos apoiou as mãos no encosto e olhou para baixo, vendo Afrodite ali.

— Di, o que você tá fazendo aí? — perguntou aos risos, sem se abalar, afinal a “amazona” era meio maluquinha mesmo.

Afrodite olhou para cima com os olhos estatelados ainda. Nem piscava. Seu corpo tremia tanto que sentia que não era capaz de dizer nem fazer nada. Tudo que pensava era que Hyoga tinha descoberto seu segredo e que o iria odiar para o resto da vida. O medo que sentia naquele momento era colossal.

— Você tá se escondendo de alguém, Di? — perguntou o loirinho, agora assumindo um semblante mais sério.

“De você! Pelo manto de miçangas de Dadá, o que você faz aqui?” Afrodite pensou, ainda congelado.

— Tá se escondendo porque tá com roupa de menino? — disse Hyoga, seguro e firme.

Ao ouvir aquilo Afrodite piscou os olhos e franziu as claras sobrancelhas.

Aquela pergunta lhe soou demasiadamente estranha, e o modo como fora feita intrigantemente consciente.

— O que... o que disse? C-Como assim? — perguntou num sussurro, agora afinando a voz. Com a cabeça tombada para trás olhava para Hyoga nos olhos, atento, o analisando.

— Eu disse, se você tá se escondendo porque tá vestida igual os cavaleiros se vestem. Com roupas de homem e não de amazona. — Hyoga repetiu com a mesma segurança na fala.

Ainda mais confuso Afrodite girou o corpo ficando de frente para o sofá, mas ainda se mantendo agachado atrás dele. Olhou para Hyoga e não soube o que responder. Não conseguia decifrar a lógica daquela pergunta, até que...

— Di, não pecisa se escondê! Eu sei o seu segredo. — o pequeno russo sussurrou.

De repente Peixes caiu sentado no chão. Seus joelhos tremiam tanto e seu coração batia tão acelerado que não foi capaz nem de se manter sustentado pelas próprias pernas.

— Dadá me puxa agora! — murmurou quase em tom choroso — Pela santa trindade, Cher, Madonna e Whitney, que segredo você sabe, Hyoga?

— O meu pai contou para mim, Di. — outro sussurro, afinal falavam de um segredo que deveria ficar guardado a sete chaves.

— O seu pai... contou?... Contou... o quê? — perguntou, mesmo não querendo ouvir a resposta, e espantado por Camus ter decidido revelar a farsa sem nem ao menos lhe consultar ou lhe comunicar.

Mas, o que Hyoga lhe revelou não era exatamente o que esperava.

Na verdade jamais esperaria ouvir algo parecido.

— Contou que você precisa fingir ser menino, porque Atena não aceita mulheres Cavaleiro de Ouro, só de Prata e Bronze, e que por isso você fingiu ser menino para poder se tornar amazona de Peixes. Por isso namoram escondido também, porque todo mundo acha que você é homem. — disse aos sussurros.

Novamente Afrodite tampou a boca com ambas as mãos. Novamente prendeu a respiração. Novamente achou que seu coração ia parar ali mesmo e voltar a bater só na próxima encarnação.

— Mas, Di, não se preocupe, eu não vou contar para ninguém. Eu juro! — assegurou o pequeno russo.

Enquanto Hyoga fazia suas juras e no chão Afrodite tentava manter sua alma presa ao corpo, outra pessoa acabava de adentrar a sala.

Shaka havia ido até o quarto de Kiki para trocar sua fralda e arruma-lo para juntos darem um passeio em Rodório com Hyoga. Havia prometido levar o loirinho à sorveteria.

Quando entrou na sala, com Kiki já devidamente preso a seu corpo pelo sling, viu Hyoga de costas para si, de pé no sofá nas pontas dos dedos a se esticar todo para poder olhar para a parte de trás do estofado. Imediatamente sentiu uma comichão correr por todo seu corpo, e com o desespero de quem enfrentou uma noite inteira na fila da Black Friday ao ver os portões da loja se abrirem, dobrou uma das pernas, arrancou a sandália de couro e com ela na mão correu alucinado em direção ao sofá.

— Buda! Não me diga que aquela criatura repulsiva voltou! Bicho nojoso! — dizia enquanto já saltava para a parte de trás do sofá, porém qual não foi sua surpresa ao em vez de rato ver ali Afrodite.

A estranheza da situação era tamanha que o tempo pareceu ser congelado de súbito.

Do chão Afrodite olhou para Shaka ainda tampando a boca com as mãos, sem saber o que dizer para Virgem, nem para Hyoga, tampouco para si mesmo. Estava mais perdido que cego em tiroteio.

Do sofá Hyoga olhou para Shaka, para a sandália em sua mão, depois para Afrodite.

Do sling Kiki deu um gritinho acabando com aquele silêncio tenso.

— Peixes!... Pelas almas do Ganges, o que você está fazendo aí atrás do meu sofá? — Shaka perguntou. Tinha o braço que segurava a sandália de couro ainda congelado no ar.

Afrodite então olhou assustado para Shaka, depois para Kiki e enfim para Hyoga, que trocou um olhar cúmplice consigo como quem diz “Estou do seu lado.”, e antes que aquela situação pudesse ficar ainda mais confusa e perigosa retirou as mãos do rosto e fechou um dos olhos.

— Eu... perdi a minha lente. Ela caiu por aqui. — disse no mesmo momento em que começou a tatear o chão se colocando de quatro fingindo estar procurando por algo. Foi a desculpa que encontrou para sair o mais depressa possível que pudesse daquela situação surreal.

— Lente? — Shaka disse surpreso — Você usa lente? Desde quando? — dobrou a perna e recolocou a sandália no pé.

— Desde que nasci. Sou praticamente cego... Achei! Graças ao séquito de calopsitas de Dadá! — disse com falso entusiasmo, já se levantando e tomando o rumo do corredor que dava para a saída do Templo, mas antes de sair Shaka lhe chamou a atenção.

— Ei! Aonde vai? Não veio aqui só para perder uma lente atrás do meu sofá e ir embora, Peixes! O que você está aprontando dessa vez? — disse o virginiano.

Afrodite então parou, e ainda meio sem saber como se portar na frente de Hyoga sem estar caracterizado de mulher deu uma desculpa qualquer. Queria sair o mais rápido que pudesse dali.

— Ah eu... vim atrás do Mu... quer dizer... Não atrás do seu marido, atrás do tesoureiro do Templo das Bacantes, mas o... o filho do Camus aí já me disse que ele não está.

— Mu está em reunião com Saga no Décimo Terceiro Templo. — rebateu Shaka.

— E é para lá que eu vou. Tenho assuntos burocráticos a tratar com ele, viu. Nada de sacanagem não, só negócios. — conforme falava ia recuando vários passos. Tudo que mais queria era sair dali — Tenha um bom dia, loirudo. Outra hora passo aqui para ver meu afilhado! Nossa como tá grande, olha só! Cada dias mais parecido com vocês... Até mais.

Antes que Shaka pudesse lhe questionar novamente, Afrodite mergulhou no corredor correndo em direção à saída.

Já do lado de fora esfregou o rosto e soltou um suspiro ruidoso. Estava pálido e seu corpo ainda sofria a ação do susto que tomara, mas além da tremedeira ocasionada pelo medo de ser descoberto por Hyoga, agora Afrodite tremia de raiva, muita raiva, e foi movido por ela que subiu o restante das escadarias das Doze Casas tão rápido quanto um pensamento errado.

Quando chegou em Aquário adentrou o átrio já se direcionando ao corredor que conduzia à parte residencial. Se Hyoga estava no Santuário então Camus também estava, e era atrás do francês que ele ia. No entanto não foi preciso nem procura-lo, pois antes mesmo que entrasse na passagem interna que levava à sala viu quando o aquariano adentrou o átrio pelo lado oposto.

Parou onde estava e ficou a esperar que se aproximasse.

Camus sorriu para Afrodite assim que o viu ali. Voltava do Templo do Grande Mestre após a tensa reunião com Mu e Saga e imaginou que veria o pisciano somente à noite. Tinha até trazido de Moscou algumas delícias para preparar um jantar para o namorado, já que não havia avisado que viria à Grécia. Queria fazer uma surpresa.

Contudo, quem foi surpreendido foi o próprio Camus, e não por um jantar romântico ou um beijo apaixonado, mas por um forte e certeiro soco na cara.

O som da mão fechada de Afrodite ao se chocar com o rosto sardento de Camus ecoou pelo átrio do Templo de Aquário.

Uma pancada só, porém tão convicta e poderosa que fez o francês, pego de surpresa, cambalear para o lado e cair sentado no chão, atordoado.

— TRUQUEIRA* DO AQUERONTE! EQUEZEIRA* SEM ESCRÚPULOS! — berrou o pisciano fuzilando o namorado no chão com o olhar, que furioso por ter sido pego desprevenido, e com uma dor latejante na lateral do rosto, pois o golpe potente lhe havia pegado em cheio parte da boca, mandíbula e maçã do rosto, lhe lançava um olhar dardejante em resposta.

Fils de pute! — vociferou Camus enquanto massageava com a mão o local da pancada, tentando raciocinar sobre o ocorrido — Que merda foi essa, sua arrombada desgraçada? Ficou gagá?

— A senhora não tem vergonha nessa tua cara sardenta, sua fudida? Por que foi dar mais um truque* no pobre do Hyoga dizendo que eu sou um homem fingindo não ser mulher fingindo não ser um homem sendo uma mulher que finge ser amada?... Não... — confuso, Peixes fechou os olhos e respirou fundo, e ao abri-los de novo voltou a encarar o namorado —... Camus... Eu encontrei Hyoga em Virgem... Ele me disse que você disse a ele que eu sou uma mulher fingindo ser um homem... Eu é que te pergunto que merda é essa, bonita! Você voltou a cheirar padê*, sua malassombrada?

Camus agora se levantava notando que o lábio estava cortado e que provavelmente ficaria com um hematoma no rosto, o que o enfureceu ainda mais.

— Ah... então você já soube. — disse o francês assim que se colocou de pé, enfrentando o pisciano — Eu fiz o que foi necessário para nos salvar, como sempre!

Os olhos de Afrodite se inflamaram exalando ainda mais raiva e revolta.

— Ah não! Eu não tô podendo, Camus! E o necessário para nos salvar é afundar ainda mais a nós três numa piscina de bosta? Não! Num mar de bosta, porque é isso que a senhora está fazendo, sua fudida. Se já seria difícil revelar ao Hyoga, um dia, quem sabe, a verdade sobre mim sem fazê-lo nos odiar, agora então você bosteou tudo de uma vez inventando mais esse truque do caralho. Que ódio de você! — apontava os punhos cerrados para Camus rangendo os dentes — Dadá segura minha mão, porque eu tô lôca para quebrar essa tua cara truqueira* todinha!

— Tenta! — Camus o desafiou, já com punhos também serrados — Só tenta para você ver o que te acontece. Agora eu non estou de guarda baixa.

Afrodite não pensou duas vezes.

Ensandecido partiu para cima desferindo socos e chutes furiosos contra o aquariano que ora se defendia, ora atacava, levando aquela briga conjugal ao patamar de uma luta feroz entre dois guerreiros tão poderosos quanto furiosos.

— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? — berrou o sueco ao dar uma rasteira no francês e logo em seguida tentar acerta-lo novamente o rosto.

— ELE ME PERGUNTOU POR QUE A TIA GEISTY PODIA CASAR COM O TIO SAGA E EU E VOCÊ TINHAMOS QUE NAMORAR ESCONDIDOS! — Camus bradou em resposta ao defender o golpe segurando o punho do pisciano, de maneira que seus rostos ficassem demasiadamente próximos — Você deu bobeira, Afrodite!

— Ah, claro! Vai jogar a culpa em mim! Típico de você!

— Hyoga viu as fotos que me levou do casamento de Saga e Geisty. Ele também ouviu nossa conversa em grego. Devia saber que ele já conhece esse idioma o suficiente para saber do que falamos... Meu filho non é estúpido, Afrodite. Ele já entende muita coisa e notou que tinha algo errado no nosso relacionamento, no nosso segredo! — Camus então empurrou o namorado para longe, se levantou e continuou a falar, sempre atento para defender-se de um novo possível ataque — Hyoga me encheu de perguntas das quais eu non tinha uma resposta, então... eu menti.

Um momento de silêncio se fez entre eles. Somente suas respirações ofegantes saindo ruidosas das narinas e bocas eram ouvidas, até que Afrodite enxugou um filete de sangue que escorria do canto da boca com os próprios dedos e quebrou o silêncio.

— Você mentiu... claro. Afinal é o que você faz de melhor, né Camus? Mentir. — disse em voz baixa enquanto olhava para o sangue vivo em seus dedos — Para você inventar um truque é como ir ao banheiro, como beber água ou piscar os olhos, mas para mim não! E tenho certeza que para Hyoga também não!

Non começa de novo com isso...

— Quando ele tiver consciência do que estamos fazendo a ele... Atena! — Peixes esfregou o rosto ardido com as mãos, angustiado, depois voltou a encarar o francês — E ele acredita tanto em você... Precisava ver os olhinhos dele olhando para mim, me assegurando que o meu segredo estava seguro com ele... COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE FAZER ISSO COM A CRIANÇA? — gritou dando um empurrão no aquariano.

— EU NON TIVE ESCOLHA, SEU IDIOTA ILUDIDO! — Camus empurrou Afrodite de volta, e mais uma vez os dois cavaleiros se engalfinharam trocando golpes.

Entre socos e chutes os dois rolavam pelo pátio de Aquário enquanto desferiam toda sorte de ofensas verbais.

Logo, a fúria dos cavaleiros despertou a atenção dos demais ocupantes do Santuário, que já podiam sentir seus Cosmos alterados se chocando, mas como era de conhecimento geral que Peixes e Aquário se odiavam desde crianças e viviam brigando ninguém iria interferir enquanto a briga não tomasse proporções maiores.

— VOCÊ É MUITO BURRO SE ACHA QUE EU GOSTO DE MENTIR PARA O MEU PRÓPRIO FILHO, AFRODITE! — Camus berrou quando finalmente se afastaram após minutos engalfinhados — Estava tudo certo, mas você tinha que ir para Moscou com aquelas malditas fotos. Já te disse que o menino viu e me perguntou, e por Dieu... No dia seguinte fomos visitar o Dimitri, padrinho dele, que o encheu de perguntas... Minha luz no fim do túnel foi a maldita regra antiquada que impede mulheres de se tornarem amazonas de Ouro, então eu usei a única verdade que tinha, a porra do estatuto!... Pode non ter sido a melhor solução, mas era a única que eu tinha. Dimitri mencionou seu nome por várias vezes, se referiu a você como Cavaleiro de Peixes, também como bicha, viado, maricas... Hyoga ouviu tudo calado, mas depois me questionou... No final foi até melhor assim, pois uma hora ou outra ele ia ouvir alguém daqui ou da Vory se referindo a você como cavaleiro e non amazona, também ia te ver vestido de homem, como hoje. MAS QUE DROGA! NON PERCEBE QUE EU PROTEGI VOCÊ?

Se arrastando para o lado, Afrodite se levantou, quase sem fôlego. O mesmo fez Camus, assumindo uma distância segura do pisciano, mas sem baixar a guarda.

— Ah! Então sim, a culpa é minha? — o sueco esbravejou ensandecido — Você que é uma truqueira escrota, quem começou com isso tudo, e a culpa é minha? Ótimo! Perfeito! — deu duas voltas em torno de si mesmo pondo as mãos na cintura, depois parou em frente a Camus, o encarou e lhe apontou o dedo indicado na altura do rosto — Encontraríamos outro meio, Camus! Mas, de novo você decidiu tudo sozinho, sem falar comigo, e decidiu pelo mais fácil para você!

— Fácil? Fácil, Afrodite? — Camus se revoltou — Nada é fácil na minha vida! Non me insulte! Tudo para mim é a droga de uma complicação sem fim. Meu papel de Vor, meu papel de cavaleiro, minha função de pai e namorado de um maluco descontrolado feito você... Nada para mim é simples! Eu non consigo ter a droga de uma vida fácil...

— Pois não me parece nada difícil para você resolver as coisas com mentiras, mas vou te falar uma coisa, Camus, a senhora se prepare, porque todo truque, por mais matim* que seja, uma hora cobra seu preço. E esse não costuma ser barato não.

— Quer saber? Chega! — disse Camus — Eu pretendia te contar hoje depois de preparar um jantar para nós, mas você arruinou tudo. Eu estou farto do seu destempero e da sua falta de senso de realidade. Fácil é jogar toda a culpa em cima de mim enquanto fica com a cabeça nas nuvens e nenhum pé no chão, fantasiando com contos de fadas, bem longe da nossa realidade fodida!

— Humpf, ia me preparar um jantar para me contar mais essa sua patifaria? Dispenso!... Eu não quero mais olhar para essa tua cara hoje, truqueira do Aqueronte! Eu não quero mais falar sobre isso também. Eu tô com ódio de você. Agora eu tenho que ver quando devo ser homem fingindo ser mulher, quando devo ser mulher fingindo ser homem, quando devo ser planta fingindo ser peixe... Ah, eu vou para minha casa. De noite eu desço para ver o Hyoga, mas não quero ajeum* nenhum feito por você.

Dito isso, Afrodite avançou passando feito um bólido por Camus esbarrando propositalmente em seu ombro, e seguiu pelo átrio até a saída sem nem olhar para trás.

Non precisa descer. — Camus avisou irritado elevando a voz — Eu vim ao Santuário apenas para uma reunião com Saga. Se non quer mais olhar na minha cara então nem perca seu tempo descendo, porque estou voltando para Moscou hoje mesmo. Quando a senhora decidir dar o ar da graça e olhar para a truqueira aqui, apareça por lá.

Afrodite nada disse, apenas olhou para trás, balançou os cabelos de modo efusivo e novamente deu as costas ao francês, seguindo furioso para seu Templo.

***

Moscou, 03:02am

Em uma pequena viela escondida entre um maciço bloco de degradados e acinzentados edifícios que remetiam à Era soviética, no violento bairro Chertanovo, ao Norte de Moscou, um Lexus preto blindado de vidros escurecidos estacionava já apagando os faróis. A rua estava deserta, mas três minutos após a chegada do veículo uma silhueta vultosa surgiu na noite caminhando apressada em sua direção. Usava um sobretudo preto, chapéu Trilby na mesma cor e trazia uma pasta executiva em uma das mãos.

Quando parou ao lado da porta traseira do automóvel esta se abriu em um convite mudo para que entrasse, então rapidamente a silhueta executou a ação sentando-se no banco de couro ao lado do ocupante batendo a porta logo em seguida.

Como vai, senhor? Madrugada fria essa! — disse o recém-chegado já retirando o chapéu e as luvas de couro, depois colocou a pasta executiva sobre o próprio colo.

Não foi para falar do clima que me contatou, eu creio. — rebateu uma voz pigarrenta e opressora — Pelo tempo que demorou para esse contato, aliás, imagino que tenha algo para mim.

Oh, sim! Peço perdão pela minha demora, mas há de se levar em conta que esse serviço é excepcional, portanto a demora era algo previsto. Eles são bruxas e feiticeiros, usam de truques de magia e...

São cavaleiros e amazonas. — corrigiu o homem que vestia um distinto terno preto de lã, sapatos primorosamente encerados e trazia consigo sua inseparável bengala envernizada cuja empunhadura tinha a figura de um urso pardo com a bocarra aberta e carranca feral entalhado em ouro.

O homem mais jovem engoliu em seco.

Perdão pela minha ignorância. — disse num tom um tanto irônico — Prosseguindo, o fato de serem... cavaleiros e amazonas, imprime certa demora natural no meu trabalho, afinal qualquer prova conseguida pode ser fruto de um de seus truques, então é necessário apurar minuciosamente cada evidência.

Não me interessa tomar conhecimento dos seus métodos de trabalho, Falcão. — disse o homem mais velho, já se mostrando bem impaciente — Desde que o resultado não ofereça margem de erro.

Oh, não! Quanto a isso eu lhe asseguro. Não o procuraria se não tivesse plena certeza dos resultados. Estou certo de que o senhor ficará satisfeito e também um tanto... surpreso.

Dimitri revirou os olhos e bufou enfastiado.

Surpreso por quê? Já posso imaginar que a tal puta que está grávida é aquela vagabunda italiana que roubou o meu Cassino junto daquele calhorda grego e achou que ia sair ilesa. Mulher é mesmo uma criatura estúpida! — vociferou visivelmente irritado — O que quero saber é se o pulha do Saga está cumprindo o acordo e mantendo ela na ativa.

Falcão Negro soltou um suspiro e arqueou a sobrancelha.

Corrigindo, então. O senhor vai ficar duas vezes surpreso.

Dimitri estreitou os olhos encarando o rosto firme do detetive, que agora digitava o segredo que trancava a pasta executiva para abri-la. De dentro dela retirou um envelope de papel pardo volumoso e o entregou ao Vor.

Estive na Grécia frequentando o tal Templo das Bacantes por cerca de oito semanas. — disse Falcão Negro dando início a seu relatório enquanto Dimitri abria o envelope — O dossiê que me forneceu bate com o que vi lá dentro. Os feitic... digo, os cavaleiros estão cumprindo o acordo e parecem cumprir as funções designadas a eles na casa pelo líder da máfia grega, o tal Saga, que também aparece por lá periodicamente. O Cavaleiro de Leão não trabalha no puteiro, mas fiquei de olho nele por uma semana e de fato ele tem cumprido o acordo. O Cavaleiro de Áries só aparece lá durante o dia. Ele gerencia as finanças da casa, então achei prudente desprender certa atenção a ele, já que tendo acesso à parte contábil ele poderia descobrir algo indevido ligado a nós.

Não. — Dimitri interrompeu convicto — Eu já me fiz essa pergunta também, mas Camus me assegurou que o tal Mu não tem acesso nenhum à documentação externa, apenas à contabilidade daquela merda de zona, fornecedores, salário das piranhas... — riu debochado —... Imagina só. Eles dão salário para as putas. Que imbecis.

De fato. Eu o segui algumas vezes e... — apontou para um calhamaço de fotos, entre os tantos que Dimitri havia retirado do envelope, indicado por uma etiqueta branca onde estava escrito Mu —... Comprovei que só faz compras para casa e para as vadias. — riu junto do Vor.

Um homem fazendo compra para piranha... — resmungou Dimitri verificando as fotos.

Homem não, né chefe. Camus não deve ter lhe contado, mas o Cavaleiro de Áries é uma maldita bicha. Se casou até com outro viado de lá, o Cavaleiro de Virgem. Esse, por sinal, foi o único que não consegui descobrir nada. Segundo seu dossiê ele não trabalha nem para nós nem para a máfia grega e continua assim. Não frequenta o puteiro e também quase não deixa o Santuário. Somente uma vez consegui flagra-lo saindo da montanha, mas ele apenas foi até aquela vila próxima e comprou algumas verduras e frutas em uma feira, nada suspeito.

Camus me alertou para que não mexêssemos com esse ai, ele é perigoso, e isso será mantido. — pontuou Dimitri.

O senhor confia plenamente no Camus, não é mesmo? — disse Falcão sem disfarçar o sarcasmo em sua voz, o qual foi facilmente percebido por Dimitri, que o encarou com uma expressão severa, nada amigável.

Confio. Plenamente. — disse ríspido o Vor, e depois atirou sobre o colo do detetive as fotos dos cavaleiros que tinha nas mãos — Não foi para me falar dessas malditas bichas nojentas que me chamou aqui, afinal não foi para isso que contratei os seus serviços. Quero saber da amazona.

Certo. — Falcão respondeu respirando profundamente, depois entregou outro envelope ao chefe — Aqui está. Não foi fácil comprovar a gravidez dela. Como disse, ela tem estado todas as noites no bordel e tem cumprido com o acordo. A vi várias vezes subindo com clientes e não havia nenhum sinal de gravidez e nem nenhuma outra vadia desse bordel, aliás, está grávida.

Então a informação coletada na Albânia era um blefe?

Não. — disse Falcão — Algo peculiar me chamou a atenção. Todas as noites ela subia com clientes que pareciam previamente agendados, no entanto ela atendia apenas um por noite. Comportamento suspeito vindo de uma puta na condição dela que deve praticamente o próprio peso em ouro à Vory, se dar ao luxo de atender somente um cliente por noite. E, após ler o seu dossiê, soube que essa Geisty é capaz de manipular a realidade e conjurar ilusões que confundem a percepção.

Já disse que não são bruxas e feiticeiros, seu ignorante. Ninguém ali conjura nada, eles são cavaleiros, eles possuem o Cosmo, essa é sua fonte de poder. — disse irritado Dimitri enquanto verificava as fotos de Geisty tirada pelo detetive.

Certo... — Falcão respirou fundo novamente —... Pois bem, sendo detentora desse... dom... logo imaginei que ela pudesse estar distorcendo a realidade para esconder a possível gravidez, então foquei toda minha atenção a ela desde o primeiro dia que passei a frequentar a casa. Deixe-me mostrar uma coisa. — pediu o calhamaço de novas fotos que estavam na mão de Dimitri e folheou até encontrar a que queria. Era uma foto de Geisty sentada em um dos bancos do balcão do bar no Templo das Bacantes de frente para o salão enquanto bebia água — Me diga, quantas putas o senhor conheceu que iam trabalhar de pijamas e pantufas? E quantas putas bebem água durante o expediente? E é claro, a cereja desse bolo, a barriga inchada de uma gravidez já avançada que ela tenta disfarçar com magia. Já que nenhum louco vai pagar uma pequena fortuna para foder uma vadia barriguda que se diz joia de um bordel de luxo como aquele.

Dimitri franziu o cenho analisando a fotografia, indignado e furioso.

Passe para as outras fotos. São todas dela. — indicou o Falcão — Viu? Quando comecei a fotografá-la descobri que seus truques não funcionam na captura da imagem pela câmera. Ela está claramente grávida.

Cadela sarnenta! esbravejou Dimitri.

Bem, depois disso passei então a desconfiar do cafetão. O segui por semanas, todos os dias, e flagrei duas idas dele a um edifício de consultórios médicos no centro de Atenas, sempre acompanhado de uma jovem loira muito bonita. O consultório visitado por eles é uma clínica de ginecologia e obstetrícia, o médico diretor atende pelo nome de Ulisses Tavoularis. Em uma dessas visitas a tal loira, ao entrar no carro junto de Saga, num passo de mágica se transformou em uma morena bem conhecida por nós, como pode ver nessa próxima foto. — indicou uma das tantas fotografias que mostravam Geisty dentro do carro, em uma delas ela e Saga trocavam um beijo.

Desgraçados... — rosnou Dimitri quase amassando a foto com as mãos trêmulas —... É obvio que essa vagabunda ia usar suas ilusões... E esse calhorda está acobertando a gravidez dela... Mas, por quê? Pelo jeito ele continua exigindo que ela trabalhe no bordel, mas por que esconder de mim, de Camus, a gravidez dessa vadia?

Por que ele é o pai. — disse Falcão, para total espanto de Dimitri, que voltou o rosto para ele o encarando estupefato.

Como disse? — perguntou com a voz um tanto rouca e vacilante.

A puta italiana está grávida do grego, chefe. Passei a observar com mais cautela os passos dela dentro do Bordel e pude notar que logo após o cliente da noite descer de seu quarto o tal Saga subia sorrateiro para o segundo piso do Bordel e se recolhia. Seria até normal, não fosse a frequência que se dava. E foi mais fácil ainda tirar a prova real! Fiz uma visita noturna ao tal Dr. Ulisses. Foi como tirar doce de criança. Ele me pareceu esconder algo mais sobre esse caso, mas quando tentei força-lo a abrir a boca ele se mijou todo e desmaiou de medo. Achei prudente deixar para depois, já que a gravidez dela está em estado avançado e creio que precisa tomar medidas imediatas.

Todo esse tempo... Estavam me enganando bem debaixo do meu nariz... — disse o Vor em voz baixa. Tremia de raiva e revolta — Se Saga engravidou essa puta significa que estão juntos há um tempo, significa até que... Pode ser que ela nunca tenha de fato feito nenhum programa, já que usa ilusão. — no destempero atirou o calhamaço de fotos contra o banco da frente, espalhando todas no assoalho do carro — MALDITOS! Essa mulher me roubou! Essa mulher e aquele calhorda do irmão gêmeo do Saga acharam que poderiam ser mais espertos que a Vory v Zakone! Não podem! Era para ela pagar, não apenas com dinheiro, mas com honra! Eu a quero humilhada! Eu a quero rebaixada ao lixo humano que ela é! Eu a quero um depósito asqueroso de excremento e esperma que é isso que ela merece! Humilhação!... Não posso acreditar que Saga a protegeu durante todo esse tempo! — batia raivosamente a bengala contra o assoalho acarpetado conforme gritava alterado — Porque agora tudo está muito claro! Saga condenou o irmão para ficar com ela, não porque queria humilha-la, mas porque queria protege-la! DESGRAÇADO! Como ele e aquela cadela manipuladora conseguiram me enganar desse jeito? A mim e ao Camus?

Talvez ele tenha engando somente ao senhor, e não ao Camus, por isso nunca desconfiou de nada, já que Camus eram seus olhos lá dentro. — disse Falcão, e aquilo foi o suficiente para fazer Dimitri calar a boca e encara-lo furiosamente.

Repita o que disse. — rosnou o Vor — Está colocando a lealdade do meu braço direito em xeque? Você sabe que ele é como um filho para mim, meu herdeiro. Como se atreve?

Falcão Negro então respirou fundo procurando a calma e a coragem que precisava para seguir com seu relato e novamente mexeu no interior da pasta executiva em seu colo. Removeu um fundo falso e da parte debaixo retirou um envelope negro com uma etiqueta onde estava escrito “Camus”.

Ao olhar para o envelope Dimitri sentiu todo seu corpo estremecer, o coração acelerar e um gelo no estômago.

Infelizmente sim, meu Vor. Estou colocando a lealdade de Camus em xeque. — estendeu o envelope para o russo mais velho — E lhe digo que não é apenas o relacionamento de Saga com a puta e sua gravidez que Camus esteja escondendo do senhor.

Em silêncio e receoso Dimitri apanhou o envelope, mas não o abriu. Faltou-lhe coragem.

Quero que fique claro que não fui à Grécia com a intenção de investigar também o seu filho. A lealdade de Camus para com a nossa família nunca me foi algo contestável, como sei que nunca foi ao senhor também, mas... — Falcão fez uma pausa, pois sabia que não seria nada fácil o que tinha a dizer para Dimitri —... Fui colocado de frente a uma evidência que simplesmente não pude ignorar. Precisava tirar a prova, pois dela, talvez, venha o motivo da traição de Camus.

Traição? — Dimitri sussurrou.

Há algumas semanas, durante uma das minhas visitas ao bordel, soube que o Cavaleiro de Peixes... O conhece bem, imagino? — disse Falcão, percebendo que Dimitri evitava olhar para seu rosto e engolia em seco — Bem, o Cavaleiro de Peixes não é mais garoto de programa há um bom tempo, desde que um milionário misterioso passou a pagar fortunas por suas horas de trabalho, exigindo exclusividade. Não fosse apenas isso, Saga também o destitui da função alguns meses atrás, e isso jamais chegou até nós, não é mesmo?... — diante do silêncio de Dimitri Falcão continuou — Bem, somado a esse fato algo que outro dos putos que atendem lá me disse fez brotar em minha mente uma teoria, ainda que absurda. Ele me disse que a bicha que atende pelo nome infame de Afrodite tem as costas quentes porque o francês o protege. Ligando alguns pontos eu achei melhor investigar os mencionados. Vai entender se abrir o envelope e olhar as fotos. Estão em sequência lógica dos fatos.

Ainda sem olhar para o detetive, e procurando manter-se firme em sua postura altiva por mais que sentisse que poderia desabar a qualquer momento, Dimitri abriu o envelope dando de cara com uma foto de Afrodite andando despretensiosamente nas ruas de Atenas. Trajava roupas masculinas como de costume.

Esse é o Cavaleiro de Peixes. — disse Falcão.

Eu sei quem é essa bicha nojenta. — vociferou o Vor jogando a foto no chão para olhar a próxima, que mostrava Afrodite entrando em uma loja de grife de um dos bairros mais caros da capital grega.

Como pode ver, ele esta fazendo compras.

Ora! Não me diga! — ironizou Dimitri que observava uma sequência de fotos onde o pisciano provava alguns acessórios, sapatos e peças, todas femininas. Franzia as sobrancelhas e fazia uma cara de nojo a cada nova imagem — E o que isso tem a ver com Camus? O fato de ele não ter me comunicado que esse viado de merda não está cumprindo o acordo não é prova suficiente de uma possível traição. Ele pode ter recebido ordens de Saga, ele sim é o traidor!

Falcão então piscou os olhos e estalou os dedos da mão, tenso. Por um momento passou em sua cabeça que talvez não devesse prosseguir com aquilo, mas caso Dimitri descobrisse por outros meios era sua reputação que estaria em risco.

Senhor, peço que preste atenção a um detalhe. — disse o detetive ao retirar algumas das fotos do calhamaço para mostra-las ao Vor fazendo alguns apontamentos — Aqui ele, Afrodite, experimenta um chapéu branco, desses grandes que escondem quase todo o rosto. Nessa ele prova uns óculos escuros femininos, igualmente grandes... E nessa, veja... um vestido vermelho de saia curta, mangas longas e um decote imenso nas costas todo rendado. — apontou. As fotos tinham sido tiradas através de uma janela que dava de frente para o provador da loja, assim Falcão pode registrar cada detalhe.

Nojento! Bicha repulsiva! — resmungou Dimitri balançando negativamente a cabeça.

Agora, olhe essa nova sequência.

Falcão então apontou para uma primeira fotografia onde claramente se via ao longe as belas e pitorescas torres do Kremlin, cartão postal de Moscou, mas que em primeiro plano aparecia uma mulher vestida em um vestido vermelho de saia curta, mangas longas e decote imenso rendado nas costas. Ela usava um chapéu Flopp branco que lhe cobria quase todo o rosto, óculos escuros igualmente grandes e saltos altíssimos. Aguardava por um táxi, que logo chegou, e trazia várias sacolas de presente em ambas as mãos.

Na outra fotografia a mesma mulher de vestido vermelho e chapéu branco aparecia descendo do mesmo táxi em uma viela pouco movimentada próximo à Praça Vermelha, e ao fundo se via o Hotel Leningradskaya, uma das principais sedes da Vory v Zakone.

Entre a saída do táxi que trouxe “a mulher”... — Falcão vez as aspas com os dedos —... E a chegada do carro que encostou na viela para busca-la, um Rolls-Royce Silver Spur prateado, como pode ver nessa próxima foto, se passaram sete minutos. Os cronometrei eu mesmo.

Dimitri engoliu em seco.

As palmas de suas mãos suavam tanto que já não conseguia mais nem segurar as fotografias. Aquele era o carro de Camus. Não tinha dúvidas, pois ele mesmo o tinha encomendado e o dado de presente ao francês como um agrado em troca de um serviço bem executado há cerca de um ano atrás.

As próximas imagens comprovam minha teoria, infelizmente. — disse Falcão, que sem mais delongas espalhou as fotos seguintes sobre sua pasta fechada as mostrando para Dimitri.

Apesar da parca iluminação do local era possível reconhecer claramente Camus. As imagens mostravam o aquariano descendo do carro e claramente correndo até o porta-malas o abrindo enquanto a mulher de vermelho jogava apressada as sacolas de presentes. Antes de ocuparem seus acentos dentro do veículo trocaram um beijo rápido, um selinho, e no movimento do encontrar de seus rostos o chapéu branco da suposta mulher tombou para o lado revelando parte de seu cabelo, o qual apresentava um tom exótico e incomum de azul piscina. Na sequência ela aparecia arrumando o chapéu enquanto Camus corria de volta para dentro do carro assumindo o banco do motorista. Na próxima foto ela se encaminhava ao banco do carona e na sequência o carro saia de faróis apagados.

Senhor, eu sei que soará absurdo o que eu direi, mas diante dessas provas não há engano. Camus está tendo um caso com o Cavaleiro de Peixes, Afrodite, e talvez esse seja o motivo de ele estar acobertando o que acontece na Grécia, escondendo a verdade do senhor e de todos nós. As fotos mostram que Afrodite e essa mulher misteriosa são a mesma pessoa, isso é inegável! Mas, para que não restasse a menor sombra de dúvidas, eu fotografei outras ocasiões em que o Cavaleiro de Peixes apareceu aqui em Moscou usando trajes parecidos, eu inclusive o flagrei mais algumas vezes com Camus. Está em outro envelope que eu...

Súbito a voz do Falcão Negro se calou quando no mesmo instante um estalido abafado ecoou dentro do Lexus.

Um cheiro de pólvora impregnou o ar e o detetive então tombou para frente caindo com o rosto em cima das fotografias as tingindo de vermelho. Foi um tiro preciso e silencioso na têmpora.

Aquela revelação o havia pegado de surpresa, de fato, pois imaginava que tanto ele quanto seu irmão, que foi o homem que transformou Camus em Cavaleiro de Ouro, tinham sido suficientemente rigorosos e duros na educação do francês, principalmente na parte que cabia transforma-lo num homem de verdade. Contudo, aconteceu o que mais temia.

Os malditos gregos e sua indecência histórica de pederastia e subversão permitiram que uma bicha nojenta entrasse para a mais alta hierarquia dos exércitos de Atena, e o maldito Cavaleiro de Peixes corrompeu a lavagem cerebral que com tanto afinco os russos fizeram em Camus.

Ter um Cavaleiro de Ouro trabalhando para a Vory v Zakone era o maior trunfo de Dimitri, ainda mais um cavaleiro tão poderoso quanto Camus, e não podia perder esse trunfo, além disso, tinha apresso pessoal pelo ruivo, por isso sentia-se como um pai traído por um filho, mas ainda assim um pai. Mas, iria resgatar seu filho pródigo, e para isso tinha que agir rápido, antes que fosse tarde e não pudesse mais trazer Camus de volta para o seio da família.

Com as mãos ainda trêmulas apanhou o telefone celular do bolso de seu colete e discou um número privado, aguardando que fosse atendido.

Sou eu... Acionar o Protocolo Terra Queimada.

Desligou o telefone, olhou para Falcão Negro caído sobre as próprias fotos que comprovavam a homossexualidade de Camus, puxou o ar pesadamente franzindo o nariz e cuspiu no rosto sujo de sangue do detetive. Em seguida deu dois toques no vidro escuro que separava a parte detrás do automóvel da cabine do motorista, e quando essa se abriu puxou novamente a arma e atirou na nuca do homem que conduzia o veículo.

Com a frieza e a naturalidade de um psicopata nato, o líder da Vory v Zakone retirou um lenço branco bordado com as iniciais de seu nome do bolso e limpou o bico do silenciador da arma. Havia calado o detetive para sempre e, por via das dúvidas, o motorista, já que poderia ter ouvido demais.

Dimitri não podia permitir que a homossexualidade de seu braço direito viesse à tona. Não depois de ter se empenhado tanto para fazer o francês reprimi-la. Tudo iria voltar ao normal, era só dar um corretivo bem dado em Camus.

Devolveu o lenço ao bolso e a arma ao coldre que estava preso na altura de seu peito, por dentro do paletó, depois fez mais uma ligação.

Preciso de um carro, imediatamente. Rua Prazhskaya, cento e dois, Chertanovo. Traga dois galões de gasolina e venha sozinho.

Desligou o telefone e passou a esperar, já sabendo o que faria assim que o sol nascesse.

Negrito— traduzido do russo.

Dicionário Afroditesco

Ajeum— comida

Apodrecer— falar mal, caluniar, xingar, levantar falso testemunho

Edi— ânus

Equezeira— pessoa que arruma confusão, mentiroso, brigueinto

Matim— chinfrim, pobre, sem graça, pequeno

Oxanã— cigarro

Padê— cocaína

Truque— mentira

Truqueira — aquele que dá o truque, mentiroso

Notas finais
É meu povo... sabem a calmaria que precede a tempestade? Pois é, um furacão vem vindo. beijos Nosso grupo no face "Fics trio ternura" : https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/ Tumblr da Ju com várias fanarts da fic https://rosenrotstuff.tumblr.com/