Notas iniciais
Todo carnaval tem seu fim e toda fanfic também... O volume dois finalmente acabou depois alguns anos e 64 capítulos recheados de emoções distintas, mas a história dos nossos amados não. Leiam com atenção, se despeçam dessa temporada mas corram que no final tem link para a nova temporada *-*

— Solta ela!

Com passos ligeiros Karina buscou proteção junto à Shina que se prostrava há poucos metros da mesa, e com um sinal alertou à loira para que saísse dali, já que ela mesma não arredaria pé de perto da amiga.

Com a vista turva pelo álcool, mas a mente ainda astuta, sem pressa alguma Gêmeos correu os olhos de cima a baixo a figura da amazona que lhe devolvia um olhar nada amistoso.

— Ora, ora, mas olha só quem voltou... A esposa de Saga! — delineou um sorriso debochado e um falso olhar galanteador acompanhado da voz pastosa que de forma sofrível tentava ser sedutora — O que foi? Ficou com ciúmes? Eu deixo você sentar também no meu colo... boneca. — disse a última palavra sílaba por sílaba enquanto batia na própria coxa com uma ereção perceptível.

Num misto de asco e obstinação, Geisty encarou os olhos rubros do Patriarca e respondeu à provocação.

— Ciúmes? Não se engane, não faço isso por você, faço por ela.

— Por ela? — soltou uma risada contida de puro deboche — Ela é só uma puta, como tantas outras que estão aqui... Assim como você.

O rosto da amazona se transfigurou em ódio contido, porém perceptível, seguido por um suspiro longo e pesado. Mas ela estava longe de entregar os pontos em meio àquela discussão que ganhava contornos mais ofensivos, até porque tinha plena consciência de que ele estava tentando lhe ofender e não cairia em sua armadilha.

Há alguns passos dos dois, Shina prendia a respiração com o rumo que tomava aquele bate-boca e aflita olhou em direção à piscina buscando a atenção de alguém que pudesse intermediar os dois; em vão. Somente conseguia ver Shaka brincando com Kiki no quiosque, Mu, que parecia estar cochilando na espreguiçadeira e Misty, que estava um pouco mais ao longe encostado nas grades laterais do convés junto de alguns dos garotos de Polifemo. Não havia nem sinal de Aldebaran, e Máscara da Morte àquela hora já deveria ter voltado ao Santuário.

— Sim, ela é, assim como todos os outros profissionais do sexo que estão aqui hoje, mas estão como convidados e não a trabalho. Estão a lazer e nenhum deles está aqui para lhe atender. Espero que fique claro isso para você, Grande Mestre. — com as mãos na cintura e postura altiva, Geisty elevou a voz, firme em suas palavras, para que todos os que estivessem próximos pudessem ouvir também.

— Você só se esqueceu de um único detalhe, Serpente. — disse o Patriarca se levantando e encarando os olhos violáceos da amazona que não transmitiam nenhum vacilo — Ela trabalha para mim... E eu, na condição de patrão, posso exigir ser servido quando eu bem entender, seja por ela ou por qualquer outra piranha que trabalhe no meu bordel. E então? Você pretende protege-las até quando?

— Se depender de mim, enquanto você estiver aqui, enquanto estiver no corpo do Saga, eu irei protege-las!

— Enquanto eu estiver aqui? — Gêmeos deu uma gargalhada debochada e insana, depois cravou os olhos no rosto firme dela e sua fisionomia transfigurou-se em uma careta de ódio puro — Amazona tola. Ingênua... Eu jamais irei embora, pois esse corpo também é meu. Sou muito melhor que Saga, sem a tolice e a fraqueza que faziam dele o líder frouxo e falho que era. Agora que ele se foi esse corpo é todo meu.

— Não, você não é melhor que ele, e muito menos é o dono desse corpo, jamais será. Você é uma sombra miserável e decadente apenas. Você são os medos de Saga, suas inseguranças transfiguradas nessa personalidade deprimente. Mas o medo é um produto da mente insegura, e a partir do momento que é enfrentado esse se reduz a NADA! — ela quase cuspia as palavras para o Patriarca que crispava os olhos bufando — Não importa o tempo que for, eu sei que Saga vai vencê-lo, e enquanto ele luta aí, eu lutarei aqui, a começar que nunca vou deixar que nenhuma dessas meninas caiam nas suas mãos asquerosas... Se deitar com você não é um programa, é um tormento! — indicava com o dedo em riste e rosto erguido para encarar o olhar funesto que lhe mirava.

— Você? — ele riu debochado — A amazona que mal é capaz de cumprir com as suas obrigações para com o Santuário, Serpente? Ou será que ainda lhe cabe esse título? Creio que não, já que não se apresentou formalmente ao seu superior, que sou eu, no Décimo Terceiro Templo. — disse Gêmeos dando um passo à frente.

— Você sabe que eu estava me recuperando no Templo de...

— Eu sei muito bem onde você estava, Serpente, e estou ciente dessa sua justificativa de merda para falhar com suas obrigações. — elevou a voz troante em um quase grito.

— Seu canalha como ousa falar assim?

— Sim, uma justificativa de merda! Caso contrário, se estivesse de fato tão deprimida e convalescente como disse você não estaria aqui, se embebedando e comemorando nessa esbórnia extravagante, exibindo toda a sua alegria e boa forma entre um mergulho e outro. — o geminiano dava traços de estar à beira de perder o controle, gesticulando a cada frase e elevando o tom de voz.

Simultaneamente àquela discussão outro bate boca parecia ganhar forma e tons acalorados do lado oposto do convés.

Com os cotovelos apoiados na borda-falsa, o parapeito do navio, de costas para o mar Polifemo observava o pessoal na piscina a festejar enquanto outros circulavam pelos quiosques. Seu único olho vez ou outra fixava-se em uma figura em específico deitada de bruços na espreguiçadeira e que vestia um exuberante roupão rosa cheio de plumas. Mais cedo o tinha visto chegar de mãos dadas e todo sorridente com o marido padre, ou monge, ou seja lá o que fosse, e dado o estado em que viera era nítido que tinha sido submetido a uma deliciosa e excitante sessão de tortura, era o que pensava. Não! Era exatamente o que acreditava com convicção. Aquelas nádegas avermelhadas não poderiam ser fruto de outra coisa se não deliciosas palmadas bem dadas no carneirinho submisso. Chegava a morder os lábios em êxtase imaginando o quão pervertido era o tal marido de Mu para chegar ao ponto de tirá-lo da festa para uma sessão de sadomasoquismo e trazê-lo de volta naquele estado. Ainda assim achava que o tal padre era um amador, e que Mu merecia sofrer nas mãos de um mestre dominador profissional.

Respirou fundo tentando conter o frisson que fazia sua pele toda arrepiar-se quando o cavaleiro que havia saído dali apenas para pegar um drink para ambos regressou já o servindo.

— Aqui. Prova. — disse Misty estendendo a ele uma taça ornada com uma azeitona espetada em um palito — Afrodite pode ter muitos defeitos, mas com certeza mesquinharia não é um deles. Esse é o melhor Martini que já provei na vida.

— Humm... — murmurou o ex-marinheiro provando a bebida — Embora seja uma bebida de mulher devo admitir, é muito bom sim.

— Eu te disse! — Lagarto sorriu dando uma piscadinha para o cafetão — Aquela bicha vai tirar até as cuecas que o... Batman, usa por cima da calça, vai escutando o que tô dizendo. E eu vou achar é pouco.

— Mas por que faz tanta questão assim que eu provasse isso? Não colocou nada aqui não, né viado?

— Credo, tá pensando que eu sou o quê? Assim você me ofende, Polifemo. Eu só quis ser gentil. Somos amigos de longa data né.

O homenzarrão deu uma gargalhada alta e debochada.

— Ah, tá. Você? Ofendido? Conta outra, ô Lagartixa. — disse voltando a ficar sério — E desde quando eu sou teu amigo? Pensa que eu não te conheço, não?

— Foi a cretina da Escamosa, né?

— O que tem o Afrodite?

— Já foi falar mal de mim para você, provavelmente.

Outra gargalhada escandalosa irrompeu dos lábios grossos de Polifemo.

— Você tá pensando que eu sou idiota, o Misty? Ninguém precisa vir te avacalhar para mim não, ow infeliz. Eu te conheço bem. Aliás, eu te conheço desde a época do rolo que você arrumou envolvendo a minha zona, seu dissimulado.

— Alto lá! — repreendeu Lagarto apontando o dedo para o olho bom do cafetão — Que eu arrumei não, que a cadela no cio do Afrodite arrumou.

Polifemo estreitou o único olho encarando o rosto do cavaleiro de Prata.

— Vamos deixar uma coisa bem às claras aqui, seu merdinha. — disse diminuindo o tom de voz — Você pode ter enganado a todo mundo, seus colegas cavaleiros, o Santuário inteiro, até o Shion, o antigo Patriarca, que foi lá na minha casa com um quente, dois fervendo e a cabeça já totalmente envenenada por essa sua língua ferina, mas a mim você nunca enganou. Pensa que eu não sei que foi tudo armação sua aquele escândalo?... Olha. Ali. Bem ali. — apontou o dedo para a direção onde ficavam as mesas dos convidados de honra, e quando Misty olhou para o local indicado ainda tentou dissimular, mas haviam apenas duas pessoas nas mesas.

— O que tem a Geisty? — disse com um sorrisinho debochado.

— Não. Ele. Sabe que é dele que estou falando.

O rosto de Misty então ficou sério, lívido.

— Pensa que não reparei que há algo errado com o Saga?

— Não seja ridículo. É claro que há algo de errado com ele, o cara perdeu os filhos, a esposa quase morreu, um dos cavaleiros de Ouro foi condenado por traição, o Santuário está de pernas para o ar, você queria que ele estivesse como?

— Como ele sempre foi antes dessa sua mente perversa e alma podre e invejosa trazer à tona... aquilo. — disse olhando para Gêmeos ao longe — Na época Afrodite chegou a me falar o que ocorreu enquanto esteve detido no Cabo Sunion junto de Saga e Aiolos... ele me descreveu o horror, o desespero de ver o amigo aos poucos transfigurar-se em uma criatura hedionda bem diante de seus olhos... cabelos negros, olhos vermelhos injetados de ódio e fúria... Graças a você!... Eu sei de tudo, Misty. A mim você nunca enganou. Ou você acha que eu ia deixar de acreditar em Afrodite para acreditar em um sujeitinho feito você?

Súbito uma raiva pura e genuína apossou-se do cavaleiro de Prata. Sua fisionomia transfigurou-se em fúria quando interpretou nas palavras do cafetão uma insinuação de ameaça.

— E quem você pensa que é para me ameaçar? Faça-me o favor. Eu sou um cavaleiro de Prata! Você acha que sabe algo de mim? Idiota! Você não sabe merda nenhuma sobre mim! E mesmo que soubesse não mudaria nada, não é, Polly? Já está feito... E já faz tanto tempo. — deu de ombros assumindo um ar prepotente, então seu rosto assumiu uma fisionomia maléfica — Já eu sim, sei algo sobre você que pode fazer a diferença na vida da cretina da Peixosa.

— Humpf. — Polifemo o olhou de cima abaixo, com desdém — Ah, vá te catar Misty. Você não me assusta, seu idiota. — disse o cafetão com um riso de deboche.

— Você foi marinheiro, né? Esteve em combate em alto mar. — disse apoiando as mãos na borda-falsa do convés, agora de frente para o mar, e enquanto olhava para aquela imensidão concluiu: — Me diga. Uma queda dessa altura em que estamos seria fatal para um homem comum, não é?

Polifemo espiou rapidamente o lado de fora calculando a altura, mas não era isso que lhe chamava a atenção.

— Por que quer saber? Vai me jogar no mar, ô estrupício? Aqui na frente de todo mundo? — debochou.

— Eu não. Você vai pular sozinho.

O olho bom de Polifemo quase saltou para fora tamanho seu espanto, e eis que logo em seguida veio o grito, que saiu feito um trovão da boca de Misty de Lagarto:

— HOMEM AO MAR!

Imediatamente, motivado por um gatilho terrível disparado por Misty, completamente perturbado e fora de si o ex-marinheiro trepou no parapeito, e como se fosse uma marionete sem vontade própria, regida por uma força maior e obedecendo a uma voz insana que gritava em sua cabeça, atirou-se de cabeça ao mar.

O rosto vitorioso de Misty sorriu inteiro ao ouvir o som do corpanzil do cafetão chocando-se com a massa de água. No entanto, junto desse somaram-se logo outros sons, os das vozes desesperadas de alguns garotos que viram quando ele subiu na borda-falsa.

— POLIFEMO! GENTE ACODE! HOMEM AO MAR! HOMEM AO MAR! — gritava Giles junto de Agamedes, dois dos garotos de programa que trabalhavam para o ex-marinheiro, enquanto já vinham correndo para o local.

Com a confusão instaurada logo todas as atenções estavam voltadas para aquele ponto do convés, mas Afrodite, que mantinha os olhos atentos na mesa onde estavam Gêmeos e Geisty foi um dos últimos a se dar conta do que estava acontecendo.

— Dadááá coroado! Não, não, não! — dizia o pisciano enquanto corria para o local já tirando a camisa quando sentiu alguém lhe segurar pelo braço o impedindo. Ao olhar viu se tratar de Camus.

— Que está fazendo? — o aquariano perguntou em voz baixa. Todos olhavam para a balburdia na borda do convés, ninguém estaria reparando neles.

— Eu vou pular na água. O Polly não sabe nadar! Ele vai morrer! — disse exasperado.

— Ele é marinheiro e non sabe nadar? — Camus perguntou surpreso.

— Você é bicha e não gosta da Cher. — disse Peixes tencionando a correr, mas Camus novamente o impediu.

— Para! Está louco? O Hyoga está aqui, non pode arrancar a camisa. — resmungou o ruivo, e em seguida soltou o braço do pisciano lhe dando as costas — Fica aí. Eu vou lá.

Afrodite abriu a boca em espanto, e enquanto via Camus correndo em direção à borda-falsa, que naquela hora já estava tomada de gente a entoar gritos de socorro, rapidamente olhou para a mesa onde Gêmeos e Geisty pareciam seguir discutindo. Não queria sair de perto da amiga, temia por ela, temia por qualquer um que desafiasse o Patriarca, e seu medo concretizou-se quando o viu agarrar o braço da amazona e com um puxão quase colar seu corpo ao dela num solavanco.

Gêmeos parecia transtornado, e de onde estava, bem próximo a eles, pôde ouvir o que ele dizia à Geisty, já que não fazia questão de ser discreto tampouco amigável:

— Serpente você tem até o pôr do Sol de amanhã para se apresentar a mim e se colocar a pleno serviço do Santuário, ou será considerada desertora. E a pena para tal infração e a exoneração. — então inclinou-se ligeiramente e colando os lábios na orelha da morena concluiu com um sussurro nefasto: — E eu vou ter o prazer de tomar de você a armadura de Prata e depois lhe jogar na cela mais imunda do Cabo Sunion, de novo... Só que dessa vez eu vou jogar a chave fora para que apodreça naquele lugar esquecido pelos deuses.

O hálito alcoólico fez Geisty contorcer o rosto com asco, e quando ela sentiu o estômago revirar ele afrouxou o agarre inoportuno até com um leve empurrão soltá-la para depois dar uma risada maligna. Na sequência ele lhe deu as costas e sem dizer mais nada seguiu a passos lentos para o heliporto.

A amazona o acompanhava com o olhar que era um misto de raiva e indignação, mas também de mágoa, tristeza. Doía olhar para ele e não enxergar Saga. Doía ainda mais saber que Saga estava lá, em algum lugar à deriva... apenas esperando pela luz do farol que lhe indicasse o caminho de volta para casa.

— Eu prometi... Saga...— murmurava baixinho a amazona quando sentiu Shina puxa-la pela mão.

— Vem Geisty, alguém caiu no mar! — praticamente gritou Ofiúco, que mais queria tirar a amiga dali do que de fato estava preocupada com quem caiu no mar.

— Madonna mia! Quem?

— O POLLY!

O grito foi de Afrodite, que vendo que o Patriarca havia ido embora e Geisty estava em segurança agora sim correu tresloucado para o local da aglomeração junto das duas amazonas. Ali também já estavam Shaka e Mu. O lemuriano recebia uma camada generosa de hidratante aplicada por Shaka ao deslizar a mão com cuidado em suas costas por debaixo do roupão quando ouviu toda a gritaria e o nome do marinheiro, então imediatamente ergueu o corpo fazendo uma careta e ignorando a dor das queimaduras de Sol.

— Aiii... Aconteceu alguma coisa com o Polly. — disse ao marido já se pondo de pé.

— Estão gritando homem ao mar... Será que ele caiu na água? — disse Shaka olhando para o aglomerado na borda do convés, todo atrapalhado porque tinha o filho em um dos braços e a outra mão toda melecada de hidratante.

Quando Shaka se levantou Mu já tinha saído correndo todo torto naquela direção do jeito que estava e chegava aos resmungos na borda do convés já procurando pela movimentação na água.

— ELE NÃO SABE NADAR, MU! — Afrodite disse ao amigo assim que o viu ali, desesperado apontando para a água.

Enquanto isso, no mar, o cavaleiro de Aquário já havia mergulhado e localizado o homenzarrão o trazendo à superfície, então logo constatou que ele estava semi consciente. Apressado Camus abraçou Polifemo mantendo sua cabeça na superfície enquanto nadava o puxando para a parte de trás do iate onde ficavam os jet-skis e as escadas de acesso a fim de tira-lo da água o mais rápido possível, mas ao ver a cena Mu não pensou duas vezes. Franziu a testa e concentrado seu poder ativou a telecinese para içar Camus e Polifemo das águas os trazendo a bordo, para espanto dos civis.

Assim que os colocou sobre o piso do convés, a pequena aglomeração se fechou num círculo em torno do ex-marinheiro e do aquariano.

Papa! Papa! — a voz infantil e chorosa de Hyoga logo chamou a atenção de Camus que se afastou de Polifemo usando a desculpa de acalmar o filho. Provavelmente o cafetão necessitaria de uma reanimação, e esta implicava em uma respiração boca a boca. Isso já era pedir demais. A embarcação estava cheia de salva-vidas de sunguinha, então eles que dessem cabo do serviço.

Mas nem seria preciso, porque mal o ruivo se soltou do marinheiro afogado Mu se atirou sobre ele verificando que não respirava, e eis que sem pensar duas vezes deu início à manobra de ressuscitação padrão com respiração boca a boca e animação cardiopulmonar por compressões torácicas fortes e ritmadas.

— UM – DOIS – TRÊS ... — o lemuriano contava trinta compressões para logo em seguida fazer duas ventilações orais recomeçando o ciclo — Vamos Polly, reage marinheiro .... UM – DOIS – TRÊS...

Os olhos atentos de dezenas de pessoas aguardavam aflitos e esbugalhados, até que finalmente o cafetão tossiu e botou para fora a água em seus pulmões enquanto sofria alguns espasmos sendo amparado por Mu.

— Ele voltou! — disse Geisty dando um tapa nas costas de Afrodite, que mal respirava.

— Ah, louvado seja Dadá e seu séquito de calopsitas! — disse o sueco com um suspiro.

No chão Polifemo abriu ligeiramente o olho bom — tinha perdido o tapa olho na queda, e o olho ruim era apenas um buraco murcho de pálpebras que continuaram coladas — e ao ver ali sobre si o rosto conhecido de Mu deu um sorriso seguido de um suspiro. Pensou estar estar morto, pois aquela visão embaçada do lemuriano rodeado por angelicais plumas cor de rosa só poderia significar uma coisa: estava no Paraíso.

— Carneirinho!... Eu acordei no céu? Ou os anjos têm o seu rosto doce e sensual? — balbuciou as palavras ainda meio embolado ao erguer fracamente uma das mãos na tentativa de tocar o rosto do lemuriano.

Mu por sua vez, nem bem teve tempo de ficar constrangido que já sentiu uma mão puxar-lhe forte pelo braço.

— Mas que pachorra, heim? Seu proxeneta cínico! Não ouse abusar da bondade do meu marido. — disse Shaka que fazia Mu se levantar enquanto encarava Polifemo com faíscas nos olhos — Boa bisca você.

— PAGA! — gritou Kiki em meio às palavras do pai indiano.

— Venha Mu, já fez além do que devia. — reclamou arrastando o ariano pelo braço para longe do ex-marinheiro, que recebia agora os cuidados dos salva-vidas.

— PAGA! PAGA! — o pequeno lemuriano berrava com sua voz fininha e graciosa enquanto puxava os cabelos loiros do pai indiano que tentava desenrosca-los de suas mãozinhas.

— Filho solta o cabelo do Baba... Anda logo Mu de Áries!

— Aiii... peraí, não segura forte não que tá ardendo. — reclamou o ariano.

— PAGA! PAGA! PAGA!

Ali do lado, enquanto Afrodite se certificava aflito de que Polifemo estava bem, Misty dava risinhos e tinha uma fisionomia exultante no rosto queimado de Sol, o que levantou suspeitas do pisciano. Peixes então foi até ele e o encarou de frente.

— Por que eu tenho certeza de que você está metida nisso, cria mal nascida do Tejo?

Lagarto enrolou uma mecha de cabelo no dedo e piscou os olhos.

— Oh, eu me esqueci que Polly sofre de um trauma de guerra. Que toda vez que ele escuta homem ao mar ele surta e entra em transe. — tripudiou o francesinho cara de pau. Misty sabia que Polifemo era ex-combatente da Marinha grega e que participara de combates contra contrabandistas e até mesmo em defesa territorial. Em um desses combates foi atingido por estilhaços de um torpedo que afundou a embarcação que comandava. Foi quando perdeu o olho direito e ganhou o trauma. Achava que tinha que salvar os homens que foram jogados ao mar naquele ataque, incluindo ele mesmo, toda vez que ouvia essa expressão — Eu juro por Atena que pensei ter visto alguém no mar, só por isso eu gritei. Eu não percebi que ele estava do meu lado... Pobre Polly... Que pena que não morreu!

Afrodite sentiu o sangue ferver dentro das veias, e quanto estava prestes a voar na garganta de Misty Geisty colocou-se entre eles olhando nos olhos do amigo.

— Ei... Eu não sei o que está rolando aqui, mas seja o que for deixem para resolver em outro lugar, tudo bem?... Está cheio de civis aqui, o grandão ali quase bateu as botas e eu acho que você pode escolher encerrar essa festa com a queima de fogos e não queimando teu filme, bicha. Vamos, lá. Vocês dois assim muito perto um do outro nunca acaba bem. Vem. — disse a amazona puxando o pisciano pela mão para que retornassem ao quiosque.

Há poucos passos de alcançarem o seu destino, Geisty e Afrodite foram praticamente atropelados por um taurino afoito semi nu e suado, que munido apenas de uma fronha para tapar-lhe as partes se embrenhava em meio ao aglomerado de pessoas que estavam ao redor de Polifemo. Ofegante, com os pulmões quase a saírem pela boca e os olhos negros como um par de jabuticabas que por pouco não saltavam das órbitas perguntou:

— Caralhoceta, cheguei atrasado! O que rolou aqui? O que foi que eu perdi dessa vez, cara? — perguntou curioso.

— O que você perdeu? Você perdeu foi tudo, né Aldebaran! Inclusive a noção! Me largou na piscina sozinha cuidando do Kiki enquanto "ia dar só uma voltinha com a loirona" e passou metade da festa praticamente sumido. — disse a italiana com cara de zanga.

Afrodite, que estava do lado, correu os olhos do dedão do pé à testa avantajada do brasileiro. Por fim o encarou nos olhos.

— Vai morrer seca de curiosidade, santa, porque eu também não conto nada. — disse.

Meio atordoado, e tentando manter a tanga improvisada no lugar, Touro se embrenhou no meio dos convidados para quem sabe saciar a sua curiosidade que era proporcional ao seu tamanho.

Enquanto Geisty e Afrodite riam da situação do outro, discretamente Karina se aproximou deles e com um toque no braço da amazona atraiu sua atenção.

— Geisty, quero te agradecer, porque se não fosse você aparecer àquela hora, eu não sei o que seria... — dizia um tanto tímida com o assunto.

A amazona encarou a bacante por um segundo, mas foi o suficiente para perceber a fragilidade daquela moça parada diante de si. Percebia o quanto ela precisava de ajuda e proteção, não só ela como todas ali que bem ou mal o único lar que possuíam era o Templo de Baco.

Nesse momento Geisty se sentiu infinitamente responsável por aquelas garotas. E não seria ela responsável pela segurança de todas aquelas jovens no momento que jurou lealdade à Atena pela defesa da justiça e da paz na Terra?

— Acredite, eu sei o que seria... Não precisa me agradecer. — disse a amazona tocando na mão de Karina.

— Eu... Bem, é estranho dizer isso, vai parecer fofoca, mas eu fiquei sabendo do que aconteceu. — disse tímida e com pesar.

Um silêncio incômodo se fez enquanto Afrodite baixava os olhos e Geisty estática encarava o rosto da jovem loira que continuou hesitante.

— O senhor Mu nos contou, quando fez uma reunião com todas nós no hotel, assim que a Rebecca teve alta do hospital... Ele contou que você estava internada, que os russos tentaram te matar e que ... Que estava grávida... Eu sinto muito pela sua perda.

— Obrigada! — a voz da amazona saiu firme, mas só isso conseguiu dizer, pois a perda dos filhos era ainda uma ferida recente, difícil de lidar, e fora perceptível por Karina.

Ao lado Afrodite lançou um olhar repreendedor à jovem que nervosa emendou outro assunto tão delicado quanto.

— Senhor Mu também falou que você e o chefe são casados e... — olhou nervosa agora para o sueco que tentava lhe esganar com o olhar — Bem... nenhuma de nós sabíamos até então. Foi uma surpresa. Apesar que todas nós estranhávamos o fato de ele nunca nos procurar.

— Era um segredo nosso.

— Imaginei. E... ele também nos avisou que o Senhor Saga não anda muito bem e pediu para que ficássemos o mais longe o possível dele. — nessa hora Geisty encarou a jovem que continuou:— Mas como vamos fazer isso? Ele está sempre lá no bordel. E se ele mandar que eu faça um programa com ele? Eu não quero! Eu sei que sou uma prostituta que esse é meu trabalho, atendo vários clientes e pouco me importa a vida que levam, mas o chefe é seu marido!... Isso... isso pra mim é estranho. Mas ao mesmo tempo, se eu o desobedecer ele pode... me mandar embora do Templo das Bacantes e eu não posso sair de lá, não tenho para onde ir! Não quero ter que voltar para as ruas...

— Alôca! — Afrodite arregalou os olhos botando a mão na boca — E quem disse que você vai ser jogada na rua feito um gaveteiro velho e troncho, ô Karina com Ka? Tomou muito Sol na cabeça, colega? Ninguém aqui vai fazer você voltar para a calçada não, gata.

— É claro que não. Você não vai voltar para rua. Confie em mim. Eu vou dar meu jeito e vou proteger todas vocês daquela... Coisa... que está dominando o corpo do meu marido. — disse Geisty convicta enquanto Karina dava um suspiro aliviada, havia se livrado de um peso em suas costas.

Afrodite por sua vez encarava a amiga amazona com os olhos estatelados e um tanto incrédulo. Como ela imaginava fazer isso era ainda uma grande incógnita, já que não se podia fazê-lo sem enfrentar o Grande Mestre de frente, ao mesmo tempo que sabia que Geisty era uma mulher de palavra. Foi quando de repente aquele clima tenso foi quebrado pelo ruído do primeiro rojão a estourar no céu ateniense.

O show de luzes teve início chamando a atenção de todos, que no convés pararam o que faziam para assistirem encantados.

Assim que o colorido tomou todo aquele espaço do firmamento Shaka e Mu correram para se juntar à Geisty e Afrodite à beira da piscina. Agora juntos os quatro, mais o bebê no colo do indiano, assistiam ao espetáculo, enquanto Karina corria para o grupinho das bacantes que se formara mais ao lado.

A sequência de estouros era intensa e colorida, podendo ser vista por quase toda a costa daquele Cabo, arrancando sorrisos de todos os presentes, menos de um.

Geisty olhava perdida para o céu em festa. Aquele baile de luzes e sons troantes aos poucos iam se tornando apenas borrões distantes, calados pelo barulho ensurdecedor de sua mente, incapazes de penetrar seus pensamentos.

A vida tornara-se uma batalha diária para a amazona desde o dia em que acordou do coma e logo mergulhou no horror de sua nova realidade. Como escolha menos dolorosa decidiu anestesiar-se dela, da realidade, afastar-se de tudo que remetesse a suas perdas recentes, mas a verdade era que desde o famigerado dia em que encontrou o quarto de seus bebês na Casa de Gêmeos algo mudou dentro de si.

Todos os temíveis sentimentos que reprimira dentro de si vieram à tona com a força de uma avalanche, arrastando consigo a responsabilidade que pegara pra si no momento em que aceitou viver uma história de amor conturbada ao lado de Saga e trazendo junto a lembrança da promessa que fizera a ele: seria seu farol, o traria de volta para casa quando a tormenta o engolisse por inteiro.

Naquele dia dentro daquele quarto o amor de Saga por si e pelos filhos estava presente em cada mínimo detalhe. Cada objeto ali mostrava o quanto eram importantes e amados pelo geminiano e isso ela não podia ignorar.

Estava disposta a fazer o que fosse preciso para recuperar o homem que amava das garras do mal que o roubara de si.

Salvaria Saga e o traria de volta ao mundo e aos seus braços.

Decidida, e sem mais poder esperar, com o som dos últimos fogos ainda a irromperem no céu a amazona se virou para os amigos e após olhar brevemente nos rostos de cada um disse:

— Eu vou voltar para o Templo de Gêmeos.

Os quatro pares de olhos, inclusos os do bebê lemuriano, imediatamente deixaram o céu e fixaram-se no rosto da amazona.

— O quê? — perguntou Afrodite num quase grito — Eu não ouvi direito. TÁ MUITO BARULHO!

— Peraí, você disse que... — Mu franziu a testa enquanto cutucava o ouvido com o dedo.

— Are Buda! — sussurrou Shaka, que tinha os olhos tão arregalados em espanto que por pouco não mata a todos ali.

Geisty rapidamente olhou para Kiki que parecia espantado, sorriu ternamente e depois novamente encarando os rostos lívidos dos amigos puxou o ar com força e disse dessa vez em alto e bom tom:

— EU DISSE QUE VOU VOLTAR A MORAR NO TEMPLO DE GÊMEOS!

Nessa mesma hora o último rojão se apagava no céu grego.

Fim?

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Link para Templo das Bacantes Volume 3

Notas finais
Vish, Geisty decidiu voltar para o Terceiro Templo...e com essa notícia bombástica o Templo vol 2 caba. Não esqueçam de comentar e nos dizer o que acharam desse volume...e as expectativas pra o próximo *-* A boa notícia é que a terceira temporada dessa distopia já começou. Nos vemos novamente em:Templo das Bacantes Volume 3 ;*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!