Templo das Bacantes Vol. 2
31 Sete homens e um segredo.
Notas iniciais

Moscou, Rússia – 11:58am
— Fim de jogo. Anda, guarda esse baralho, Chesla.
— Você tá de brincadeira comigo, né Miro? Eu tô por uma, porra!
— Vai dar a hora.
— Olha aqui! Duas trincas! Tô há uma hora para armar essa merda de jogada!
— Amanhã seja mais rápido. Não tenho culpa que teu raciocínio é mais lento que um *KV-1.
— Vá pro inferno.
Durante quase três horas os dois homens tinham matado o tempo jogando uma partida de cacheta dentro do Lada preto estacionado na Maly Poluyaroslavsky número 4. Ali havia uma Pré Escola particular instalada em um prédio colorido que reproduzia o formato de um navio.
Miroslav Abramov foi quem deu o jogo por encerrado devolvendo sua mão de cartas ao monte. Era um homem relativamente jovem, mal atingira os trinta anos. Avultado, sobretudo no porte físico e nos cabelos aloirados que molduravam fartos o rosto sério sempre besuntado de filtro solar — mesmo vivendo na Rússia era demasiada sua preocupação com os raios ultravioletas —, tinha os olhos vívidos de um predador.
O parceiro de cacheta e de missão era Chesla Tyverskaya Isayev. Vinte e nove anos, que pareciam trinta e nove, mais baixo, corpulento como o outro, porém de feições bem mais severas. Extremamente mal encarado, para não dizer feio e amedrontador, raspava a cabeça para disfarçar a calvície precoce, e a se dar pelas grossas sobrancelhas negras acima dos olhos fundos num tom de cinza escuro, um dia ostentou uma farta cabeleira da mesma cor.
Ambos vestiam preto da cabeça aos pés, porém Miro, como era chamado por quase todos os companheiros da “família”, sustentava um estilo mais jovial, esportivo, composto por jaqueta de couro, coturnos e cachecol de lã, enquanto Chesla preferia fazer a linha mais clássica, não dispensando os ternos de alfaiataria.
Ambos compunham um time de cinco homens escolhidos a dedo por Camus dentro da Vory v Zakone após um longo período de minuciosos testes e análises feitas pelo próprio aquariano. Foram anos levantando dados pessoais, checando arquivos, delegando missões, analisando pessoalmente cada perfil até que finalmente o francês conseguiu trazer para perto de si homens em quem ele realmente pudesse confiar sem nenhum receio. Camus agora era pai, porém não podia estar junto de Hyoga vinte e quatro horas por dia, sendo assim escolheu e treinou pessoalmente seus homens para que o fizessem. E lá estavam dois deles fazendo a escolta e segurança do filho do segundo Vor.
— Não é o meu raciocínio que é lento... — disse Chesla ao descer do carro e bater a porta com força, depois pegou um cigarro da cigarreira em seu casaco e o levou à boca para acende-lo —... Eu tenho que pensar na jogava ao mesmo tempo em que tenho que prestar atenção nessas suas mãos de raposa sórdida, seu patife.
Miroslav soltou uma alta gargalhada, já se juntando ao colega para juntos caminharem em direção à entrada da Escola.
— Patife? Eu? — exclamou Miro, depois fez uma pausa olhando para o outro —... Eu não roubo... Pelo menos não no jogo. Você que é distraído... Como agora. — deu uma cotovelada no braço do parceiro para lhe chamar a atenção.
— Hum? — Chesla resmungou arqueando as grossas sobrancelhas negras e soltando a fumaça do cigarro para cima.
— Tá vendo! Nem prestou atenção no que acabei de dizer. Eu disse que você é distraído.
De repente, Chesla agarrou na manga da jaqueta de Miro e com um puxão o fez girar o corpo na direção oposta.
— E quem não se distrai com uma bunda como aquela? Olha só! — disse o moreno com um sorriso safado, indicando ao outro uma figura que acabava de cruzar os portões da escola e seguia toda rebolativa pela trilha que levava à entrada do prédio em formato de navio — Papai! Que delícia!
Ao ver a mulher, o que primeiro chamou a atenção de Miro não foi justamente a parte da anatomia mencionada pelo colega, mas o fato de ela estar vestida bem diferente das outras tantas mães e babás que costumavam frequentar aquele lugar. A começar pelo curtíssimo vestido justo de tecido visivelmente fino e decote enorme nas costas, nada condizente para aquela estação do ano, ainda mais num país frio como a Rússia. Os sapatos de saltos altíssimos, uma enorme bolsa de couro pendurada em um dos ombros, echarpe florida em torno do pescoço e um chapéu gigantesco estilo Floppy eram os outros detalhes intrigantes que compunham aquela figura de andar sinuoso e marcante.
Realmente ela se destacava em meio a todas as outras mães, babás, pais e tutores que também seguiam a seu lado por aquele mesmo caminho.
— Estranho... Estamos há duas semanas nesse posto e não me lembro de ter visto essa mulher. — disse Miro, que acompanhava com os olhos a figura.
— Por que você não a viu? Acha que se tivéssemos visto essa bunda e esse par de coxas antes você esqueceria? — Chesla deu um soco fraco no braço do loiro — Eu não esqueceria. Eu nunca esqueço uma bela bunda! — riu sórdido — Essa belezinha deve vir só de vez em quando. Olha o jeito dela andar... Toda safada.
— Vai ver a babá não pode vir hoje. — Miro deu de ombros.
— Anda, eu quero ver a cara dessa vadia gostosa. — disse Chesla jogando o cigarro na guia da calçada enquanto apertava o passo para seguir para os portões da escola, mas súbito sentiu Miro lhe agarrar pelo braço.
— Espera. O chefe está ligando. — disse verificando o celular que acabara de tirar do bolso — Alô... chefe?... Alô! — desencostou o aparelho da orelha para olhar no pequeno visor — Merda... A bateria acabou. Anda, Chesla, liga pro chefe do seu celular.
Sem pestanejar o homem carrancudo retirou seu aparelho do casaco e o ligou.
— Mas que merda é essa? Não acredito que você deixa o seu celular desligado! — disse Miro indignado.
— Tá reclamando por que, idiota? Deveria me agradecer... — resmungou Chesla despretensiosamente — Se não fosse eu pensar em economizar bateria iriamos tomar uma chamada do chefe.
Miro soltou uma bufada descontente.
— Ok, vossa Sapiência humana! Liga logo essa bosta...
Feita a ligação, Camus apenas queria lhes orientar para que levassem Hyoga para seu escritório no Hotel Leningradskaya e não para sua mansão como de costume. Aquário tinha a intenção de sair mais cedo do trabalho para visitar Dimitri com o filho, já que estava devendo uma visita ao patriarca da Vory junto do pequeno há semanas.
Tudo acordado Chesla desligou o celular e junto de Miroslav cruzaram enfim o portão da escola seguindo pela trilha até a entrada do prédio, mas no caminho novamente a mulher misteriosa que havia chamado a atenção do moreno deu as caras.
— Olha lá ela! — sussurrou Chesla a Miroslav indicando com os olhos fundos a figura que agora vinha de encontro a eles.
Como tantas mães e pais que também transitavam por ali, ela agora trazia no colo uma criança. Esta tinha praticamente todo o corpo coberto por um grosso xale xadrez de lã, e na cabeça um boné de adulto que ostentava o orgulhoso e imponente brasão do PFC CSKA Moscovo — um dos maiores e mais antigos clubes de futebol do país — o qual lhe escondia parcialmente o rosto.
De igual forma o rosto da mulher também estava parcialmente oculto, tanto pelo gigantesco chapéu Floppy quanto pelos imensos óculos de sol de lentes redondas e excessivamente escuras. Os cabelos estavam cuidadosamente presos dentro do chapéu, não dando para ver um fio sequer a saltar para fora.
Somente a boca de lábios carnudos perfeitamente desenhados e as coxas nuas roliças se mostravam, desinibidas.
E era justamente nelas que Chesla cravou seus olhos acinzentados, hipnotizado.
— Ei... Chesla! — com um tapa no ombro do colega Miroslav lhe chamou a atenção — Acorda, porra! O chefe está esperando. Vamos pegar o menino, anda! Parece que nunca viu mulher na vida.
O loiro tomou a frente adentrando o prédio sendo seguido pelo outro que vez ou outra olhava para trás seguindo os passos da mulher misteriosa, até que a viu entrar em um Rolls-Royce Silver Spur prateado e sair cantando os pneus.
Súbito ouviu a voz de Miroslav em um tom alterado e resolveu apertar o passo para juntar-se a ele. O encontrou no hall de entrada do prédio da escola gritando com a professora de Hyoga, que parecia acuada espremida entre uma peça antiga de madeira e o homem corpulento que avançava sobre si.
— O que tá acontecendo, Miro? — perguntou Chesla apreensivo.
— Essa vadia disse que já vieram pegar o menino. — respondeu o loiro a plenos pulmões. Uma veia grossa lhe saltava da fronte ligeiramente suada.
— COMO É? — Chesla arregalou os olhos, avançando ele também contra a mulher — QUEM VEIO? COMO?
— Eu... eu... — tremendo de medo a professora tentava falar, mas sua voz falhava —... Foi uma... uma mulher...
— Que mulher? — inquiriu Miroslav extremamente nervoso.
— Uma mulher... muito... bonita... simpática...
— Não dissemos que não era para entregar o menino a ninguém além de nós, sua vadia cretina? — bradou Chesla, que destemperado como era sacou a arma da cintura, uma Kalashnikov 9mm, e espremeu o cano frio contra a testa da professora.
— Aaaaaaah Hyoga a conhecia! Ele a conhecia! Meu Deus! Por favor... — gritou a mulher em desespero.
Chesla olhou curioso para Miroslav que arfava e girava em círculos no mesmo lugar, completamente desesperado.
— Como assim a conhecia? COMO É QUE O MENINO A CONHECIA, PORRA? — gritou Chesla empurrando ainda mais o cano da arma contra a testa da professora.
Com as mãos trêmulas a segurarem aflitas o tecido do vestido longo que usava, a mulher tentou se acalmar para conseguir falar.
— Ele disse o nome dela... Correu para ela todo sorridente... ela... o pegou no colo... Meu Deus!
— QUE NOME?
— Eu não me lembro... por favor... Deus, por favor...
— Desgraçada... — rosnou o moreno.
— Como era essa mulher? — perguntou Miroslav acercando-se da professora e a encarando ameaçadoramente nos olhos.
— Era... Eu não vi o rosto dela... ela usava uns óculos escuros... muito... muito grande... e estava com um chapéu enorme... vestido curto... muito, muito alta... bem magra... parecia uma modelo... Hyoga a conhecia... eu juro... por favor... meu Deus... por favor...
Ao ouvir aquilo Chesla e Miroslav trocaram um olhar sério, então o loiro sem pestanejar correu para fora do prédio.
O colega o seguiu, mas não antes de dar uma coronhada na testa da professora com a empunhadura da arma, a deixando desmaiada no hall.
— Ei, Mirooo! — gritava o moreno enquanto devolvia a arma à cintura, vendo o outro correr pela rua sem rumo até parar em frente ao Lada e levar ambas as mãos á cabeça, em desespero.
— Merda... MERDA! — gritou Miro ao chutar uma das rodas do carro, depois voltou-se ao colega — Aquela mulher... Ela passou por nós, Chesla! Caralho! Não faz nem dois minutos! Aquela puta tinha que estar por aqui!
— Ela já foi... Vi quando entrou num Rolls-Roice com o menino e saiu cantando pneu... Puta desgraçada! — Chesla roncou trincando os dentes, depois encarou os olhos de Miroslav — A cretina da professora disse que Hyoga a conhecia? Como pode isso?
— Não pode. Impossível! Ela mentiu! Estamos ferrados... estamos ferrados, cara! — o loiro puxava os cabelos — O que vamos fazer?
— Falar para o chefe, oras. O que mais? — Chesla deu de ombros enquanto já pegava o celular do bolso do casaco para ligar para Camus.
— Tá maluco? O chefe vai esfolar a gente vivo!
— E você quer fazer o que, ô Sapiência humana? — disse Chesla abrindo a porta do Lada às pressas tomando acento no banco do motorista — Anda, isso pode ter sido um sequestro. Quanto mais demorarmos para avisar o chefe, pior. Aí sim ele vai nos esfolar vivos!
— Merda! — resmungou Miroslav atirando-se no banco do passageiro com o carro já quase me movimento.
Ao lado dele Chesla esperava Camus atender à chamada enquanto dirigia rumo à Stalin´s Seven Sister´s Skyscrapers, o complexo sete de prédios onde ficava uma das sedes da Vory v Zakone.
***
No Hotel Leningradskaya, na cobertura onde ficava o escritório principal da Vory junto a um restaurante que servia para lavagem de dinheiro, Camus fumava um cigarro tranquilamente junto à janela de vidro enquanto apreciava a bela vista ao longe das rebuscadas torres do Kremlin, quando seu celular tocou.
Caminhou sem preocupação até a escrivaninha onde o havia deixado e de pé mesmo o atendeu.
— Alô.
“Chef, sou eu, o Chesla... tivemos um... um problema.” O capanga de Camus falou nervoso do outro lado da linha.
— Um problema? — o tom da voz de Camus mudou imediatamente de brando para preocupado e um tanto angustiado, ao mesmo tempo em que sentiu uma pontada de dor no peito e suor frio lhe brotar das palmas das mãos e têmporas — Foi com Hyoga? Ele está bem? Aconteceu algum acidente?
“N-Não, chefe... Não houve nenhum acidente, mas...”. Chesla dizia nervoso trocando olhares com Miroslav ao seu lado enquanto dirigia apressado.
— MAS O QUE, PORRA? — a essa altura o aquariano já hiperventilava e tremia tanto que mal conseguia segurar o telefone, temeroso pelo filho — Desembucha de uma vez seu desgraçado! Vai, fala! O QUE CARALHO ACONTECEU COM MEU FILHO?
“O menino sumiu, chefe.” Com temor na voz o russo deu a notícia de uma vez.
— O QUÊ? — Camus levou a mão ao peito fechando os olhos. Sentiu uma forte vertigem, mas respirou profundamente e procurou se manter firme para tentar compreender o que acontecia — Deixe-me ver se eu entendi. Você e Miroslav, dois dos meus homens de maior confiança que só tinham a missão de buscar uma criança em uma pré-escola conseguiram PERDER O MEU FILHO?
A essa altura Camus gritava a plenos pulmões, enquanto sentia uma dor forte no peito e caminhava sem rumo pela sala, completamente perdido.
“Quando fomos pega-lo a professora disse que alguém já tinha levado ele e...”
— COMO ASSIM ALGUÉM JÁ TINHA LEVADO ELE? — Camus interrompeu transtornado, aterrorizado com a ideia de terem sequestrado Hyoga —NINGUÉM DESAPARECE DE UMA PRÉ-ESCOLA, CHESLA! NÓS SOMOS A VORY V ZAKONE. SOMOS NÓS QUE DESAPARECEMOS COM AS PESSOAS, ESTÁ ME OUVINDO? — ameaçou aos berros enquanto saía de sua sala feito um bólido à procura do homem que dentro da Vory era seu braço direito, Andreas Petrov — ENCONTREM MEU FILHO SEUS INÚTEIS FILHOS DE UMA PUTA ARROMBADA, OU EU MESMO É QUE VOU SUMIR COM VOCÊS DOIS, SEUS IMBECIS!
Sem esperar por resposta Camus desligou o telefone celular.
A notícia de que o filho não estava na escola o havia desestabilizado de tal forma que perdera toda calma e frieza que necessitava para ter um raciocínio lógico. O trauma ainda não superado do atentado contra a vida de Natássia ainda o atormentava, e agora em sua mente só passavam possibilidades horrendas de sequestro, tortura e assassinato, onde seu filho, seu pequeno Hyoga, era o alvo principal sendo usado como moeda de troca ou de vingança.
— Senhorita Lizaveta, desmarque todos os meus compromissos. Eu tenho que resolver uma urgência. Desmarque tudo, até o lanche com Dimitri. — Camus ordenou assustando a secretária que estava distraída em sua mesa recebendo uma ligação — ANDREAS... ANDREAAAS! — berrava enquanto afrouxava o nó da gravata e andava sem rumo pelo hall de entrada de sua sala à procura do russo.
Não o encontrando avistou outros dois de seus homens e seguiu apressado até eles.
Um deles era Josef Antonovitch. Um homem magro, de nariz adunco, lábios extremamente finos, cabelo preto liso escorrido que não escondia nem as enormes orelhas. Tem trinta anos e olhos assustados, a começar pelo tom, um mel pálido, e vestia-se sempre em ternos que pareciam ter sido herdados de algum defunto, dado o tamanho muito maior do que realmente usava.
O outro homem era Victor Glazcov Levin, um russo corpulento e rotundo de vinte e sete anos que exibia no rosto um belo bigode simetricamente aparado. De tez muito branca, algumas sardas, olhos verdes vivos e ferinos e cabelo bem cortado rende a cabeça, era um dos mais ponderados do time seleto de Camus.
— Josef, Victor... Venham comigo, agora! Dieu! — Camus apontou para ambos assim que os viu enquanto já corria para o elevador apertando o botão inúmeras vezes, como se com o ato pudesse apressar sua chegada — Onde caralhos está o Andreas?
— Estou aqui, chefe? — disse assustado o russo que vinha apressado na direção deles enquanto fechava o zíper da calça.
Andreas Petrov era o homem mais próximo de Camus dentro da Vory v Zakone depois do falecido Ivan Ivanovenko. E o mais próximo também do que o francês podia chamar de amigo. Um homem de aparência sofisticada e no alto de seus trinta e um anos. Robusto, alto, cabelos castanhos claros muito bem cuidados e penteados. Dono de um olhar analítico e frio se sobressaia aos outros por sua inteligência e capacidade de trazer ordem ao caos.
— ANDREAS! ONDE VOCÊ ESTAVA, SEU MISERÁVEL? — Aquário gritou.
— Eu fui mijar. O que aconteceu?
— Ah, por Dieu, venha logo... Vocês três, venham comigo imediatamente.
Conforme esperava o elevador chegar, Camus tentava ligar para o aparelho celular do filho, mas este parecia estar fora de área, o que só causava ainda mais desespero ao ruivo.
— Calma, chefe, estamos aqui. Mas... vamos para onde? — Victor perguntou sem entender nada.
— O que aconteceu, ruivo? — inquiriu Andreas muito preocupado. Conhecia muito bem o frio e calculista segundo Vor da “família” para saber que aquele nervosismo todo se dava por algum motivo muito grave.
— Meu filho, Andréas... Aqueles dois incompetentes... — rosnou baixinho — Non prestam para nada...
— O que tem o Hyoga?
— Levaram ele. Miro e Chesla deixaram que sequestrassem meu Hyoga.
— Pela Virgem! — exclamou Andreas.
Camus apertou outras repetidas vezes o botão do elevador, e para seu alívio a porta se abriu. Apressado, ele entrou indicando que os três homens o acompanhassem.
— Pela Mãe Rússia! — disse Josef arregalando os olhos e já se colocando dentro do elevador junto dos demais — Aposto que foram aqueles miseráveis da cidade baixa, os Pietrovs! Ratos! — cochichou para o parceiro ao lado quando a porta se fechou.
— Eles não são tão loucos. Para jogar baixo assim só podem ser os sujos dos Fonvízikins... Aqueles porcos de sangue ucraniano! — sussurrou de volta Victor.
— Tem alguma pista, chefe? Para onde estamos indo? — Andreas preferia agir racionalmente em vez de especular.
— Eu non sei. Eu... Eu desliguei o celular na cara daqueles dois, ou iria dar um jeito de mata-los pelo telefone! — angustiado e com a respiração difícil, Camus acompanhava a torturante demora do elevador em descer até a garagem — Eu só sei que vou achar meu Hyoga... Aonde eu non sei, mas non vou ficar aqui parado enquanto podem... Oh Dieu!... — baixou a cabeça e esfregou os olhos num gesto nervoso — Ele pode estar sendo torturado agora mesmo.
— Mantenha a calma, ruivo. O menino é bonzinho e esperto... Se realmente foi um sequestro logo alguém fará contato, então saberemos com quem estamos lidando... Vamos arrancar as tripas dos desgraçados pela boca! — ponderou Andreas na tentativa de acalmar o aquariano.
Assim que alcançaram o estacionamento os quatro homens saíram apressados do elevador em direção à vaga que pertencia à Camus. No caminho Andréas já ligava para Miro e Chesla em busca de melhores informações, pois sabia que nervoso e preocupado como estava o chefe poderia ter deixado passar informações importantes. Como seu homem de maior confiança estava ali justamente para ajuda-lo em momentos como aquele.
Contudo, quando Camus já destravava o alarme de seu carro à distância, seu celular tocou novamente.
O atendeu às pressas, e quando encostou o aparelho na orelha parou de andar subitamente sentindo mais uma vez uma dor aguda no peito e o ar lhe faltar, pois do outro lado da linha a voz doce e suave do filho soou.
“Papá?”
— Oh DIEEEU! HYOGA! — Camus disse em voz alta, quase um grito, levando a outra mão ao peito em aflição. Novamente hiperventilava em aparente agonia, então seus homens imediatamente o cercaram atentos. Josef, que tinha uma revista na mão, abanava freneticamente o francês na tentativa de amenizar seu visível desconforto — HYOGA! VOCÊ ESTÁ BEM? ONDE ESTÁ? O QUE ELES QUEREM? POR FAVOR, NON REAJA MEU FILHO, SEU PÉRE VAI TE RESGATAR E... — interrompeu-se de supetão para arrancar a revista das mãos de Josef e joga-la longe — Para com essa merda!
Há alguns quilómetros dali o Rolls-Roice prateado passeava pelas ruas com os vidros escuros erguidos à procura de um endereço, a Lubyanka Square, onde estava localizada a Central Children's Store, a maior e mais completa loja de brinquedos da capital russa desde a década de 1950, um verdadeiro paraíso para a criançada.
No volante, a misteriosa mulher de chapelão e óculos escuros dirigia enquanto dividia sua atenção entre um velho mapa das ruas da cidade, o trânsito e o menininho que falava ao celular preso ao cinto de segurança no banco do carona.
— Estou no carro, papá... — disse misturando o idioma natal, o russo, com o francês.
“Que carro? Eles te machucaram? Hyoga você está ferido?” Camus respondeu do outro lado da linha.
— Não papá, eu tô bem, a...
“Diga para eles non fazerem nada com você, filho.” Aquário interrompeu, desesperado para dar instruções ao filho antes que lhe tomassem o telefone. “Diga-lhes que eu pago o que eles quiserem, mantenha-se calmo e obedeça a tudo o que eles te pedirem.”
Confuso o menino franziu a testa olhando para a motorista. Não entendia o motivo de o pai estar lhe dizendo aquelas coisas, tampouco a maneira afoita e urgente que falava.
A voz do aquariano do outro lado da linha soava tão alta que até a mulher ao volante pôde ouvir, mesmo não entendo o que falavam. Foi então que decidiu intervir.
— Coloca no Viva Voz, querido. Deixa que eu falo com ele. — ela pediu falando em francês.
O menino obedeceu e logo a voz grave de Camus ecoou alta dentro do carro.
“Hyoga? HYOGA? ALÔ? FILHO? POR QUE FICOU QUIETO DE REPENTE? VOCÊ ESTÁ AÍ?”
— Camy! Sou eu, mon amour! Pelo véu de búzios que cobre a cabeça de Dadá, por que está tão nervoso? — agora o idioma usado era o grego.
Na garagem do Hotel Leningradskaya Camus arregalou os olhos e ficou mudo. A boca aberta em perplexidade traduzia a expressão que aos poucos se transfigurava em ira.
— O... quê? Afr... — Camus engoliu a palavra antes de dizê-la na frente de seus homens, que agora o encaravam aflitos e curiosos aguardando ansiosos as informações que aquela ligação trazia. Mais ao lado Andreas observava Camus enquanto falava ao telefone com Chesla e tomava notas em um caderninho. O colega lhe descrevia a misteriosa mulher de coxas roliças e andar exuberante que supostamente era quem teria sequestrado Hyoga.
— Chefe? — inquiriu Josef diante do silêncio do francês — E aí? São os sujos?
— Já disseram o que querem pelo menino? — perguntou Victor.
Camus piscou os olhos voltando à realidade.
— Vocês, fiquem aqui. Non saiam daqui. Preciso de privacidade. — disse antes de dar as costas a eles e seguir apressado até o carro, agora sozinho. Tapou o bocal do aparelho celular com a mão e reduziu o tom de voz a um sussurro — Afrodite! Seu viado imbecil de merda!
O Santo de Aquário estava furioso.
Ouvir a voz do namorado do outro lado da linha lhe causou um misto de alívio e ódio.
Ao chegar em seu carro sentou-se apressado no banco de trás fechando a porta com uma batida forte. O modelo esportivo de luxo era blindado, a prova de balas e de som, e também tinha todos os vidros muito escuros. Ali poderia conversar com o pisciano em segurança.
— AFRODITE, VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA? QUE IDEIA DE BOSTA FOI ESSA? — vociferou o ruivo, agora jogado no banco escuro de couro do carro — VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO, PORRA?
No Rolls-Roice, Afrodite finalmente tinha conseguido localizar no mapa a Lubyanka Square, então antes de responder a Camus jogou o amontoado de papel para o banco de trás e fez uma curva seca para pegar a via de acesso ao destino. Quase chocou o carro contra um hidrante na execução da manobra.
— Opa! Se segura ai, loirudinho! — disse em francês, depois voltou a falar em grego — Claro que não, mon amour. Eu tentei te avisar, liguei várias vezes, mas você não atendia. E modere o linguajar, o Hyoga está ouvindo e já entende muita coisa do grego, estamos no viva voz. — fazia uma voz suave e afinada enquanto ajeitava os óculos no rosto — Aí quando deu a hora da saída da escola não podia mais esperar, né Camy, os seus dois suínos já estavam lá de butuca. Assim que entramos no carro já pedi para o Hyoga te ligar.
“Mas eu liguei para o celular dele e estava fora de área. POR QUE NON ME ATENDEU?” Camus questionou do outro lado da linha.
— Aaah, deve ser por causa do túnel. Cortou o sinal. Agora que conseguimos ligar. Achou que eu ia te dar o truque, gata? E por que ainda está gritando?
“Por que eu estou gritando?” Camus agora desabotoava a gola de sua camisa na tentativa de amenizar a falta de ar. “Eu vou falar bem pausadamente para eu non dizer nada que non devo que Hyoga possa entender... Foi você que sequestrou o Hyoga?”
— Alôca! — Peixes arregalou os olhos aquamarines — Aquenda o drama! Camy, eu só vim pega-lo para passarmos o dia juntos um pouquinho, passear, comer besteira... Faz mais de uma semana que não vejo meu nariz de batatinha. — sorriu ao olhar para o lado e dar um apertão sutil na pontinha do nariz de Hyoga, que lhe sorriu de volta todo animado.
“Non! Non! Definitivamente, non, Afrodite! Você vai leva-lo direto para minha casa. Você entendeu? Leve meu filho para minha casa, Afrodite. Agora!
— Ah, sinto muito, Camy, eu vou leva-lo para casa, sim, mas não agora. — Peixes respondeu seriamente, depois voltou a falar em francês para que Hyoga pudesse entender — Antes de ir para casa nós vamos chupar uns pepino... Não... potucos... pentelhos... Ai, Dadá como era?
— É petuchok*, Di. — disse Hyoga percebendo a atrapalhação da “amazona”.
— Isso!... Petuchok... E depois de chupar petuchoks vamos comer...
— BACON E PASKHA!* — Hyoga gritou eufórico, pois as aulas de grego já se mostravam promissoras. Ele agora entendia muito do que Camus e Afrodite conversavam.
— Isso, vamos comer bacon e paskha... Apesar de que eu acho que a paskha vamos ter que fazer em casa porque a Páscoa ainda está longe... Mas, vamos tomar muitos milk-shakes também!
— Yeeeeeeeeees! — vibrou o menino no banco do passageiro dando um soquinho no ar.
— E depois desse ajeum* todo, vamos à Central Children's Store comprar um presente de desaniversário para o loirudinho. — olhou para Hyoga, baixou os óculos escuros e lhe deu uma piscadinha.
“Desaniverssário?... Isso non existe, Dieu!... Non! Afrodite, non me enlouqueça! Leve o Hyoga agora para casa. Você non tem ideia da confusão que me causou aqui. Eu quase executei dois dos meus homens! Eu tenho vontade de te matar!... Hyoga é um alvo em potencial, Afrodite, ele non pode sair por aí sem segurança.”
— E quem disse que ele está sem segurança? Ah, tá boa! — Afrodite fez um bico, ofendido — Hyoga está mais seguro comigo do que com qualquer suíno seu. Eu sou um cav... uma amazona de Ouro, lembra? Se alguém chegar perto do meu loirudinho vai virar adubo para minhas rosas, a senhora pode ter certeza, querida. Nos vemos no fim da tarde na sua casa. Beijo. Te amo... Diz tchau para o papai, Hyoga, e desliga esse telefone. — disse a última frase em claro francês, depois tocou o carro para o estacionamento do grande shopping dos brinquedos encerrando a ligação.
— Tchau papai! — o menininho obedeceu desligando o aparelho.
Do outro lado da linha Camus olhava para o telefone agora mudo, incrédulo. A tela do aparelho aos poucos se congelava e o ar dentro do carro ficava cada vez mais frio dado o estava de fúria em que o francês se encontrava.
Não podia acreditar no que estava acontecendo. Afrodite não apenas o tinha ignorado como o deixado de mãos atadas e com um problemão para resolver, já que agora precisava encontrar uma desculpa para dar a seus homens, além de não poder ir atrás de Peixes e trazer Hyoga à força consigo, uma vez que chamaria muito a atenção.
Irado, o aquariano desceu do carro e atirou o aparelho contra uma das colunas de sustentação do edifício atraindo os olhares assustados e curiosos de seus homens imediatamente.
— Chefe? É tão grave assim? — disse Andreas ao se aproximar sendo acompanhado pelos outros dois.
Camus não respondeu de pronto.
Primeiro respirou fundo e ajeitou os cabelos buscando paz de espírito. Conforme tentava se acalmar pensava na desculpa que daria a eles.
— Graças a Deus, Hyoga está bem. Está com uma... amiga de confiança. — disse com uma segurança de dar inveja.
— Como assim? Que amiga? — perguntou Victor curioso.
— O menino está bem? — quis saber Andreas.
— Sim... ele está bem. — respondeu Camus.
— Por que então o senhor quebrou o telefone na coluna? — questionou Josef — E olha só o seu carro... tá parecendo um frigorífico.
Camus lhes lançou um olhar duro e severo.
— Já chega de perguntas. Já disse que Hyoga está bem e seguro. É tudo que precisam saber. Estava com ele agora a pouco no telefone. Mas... é bom que vocês saibam que isso foi um teste.
— Um... teste? — disse Andreas, surpreso.
— Exato, Andreas, um teste! — repetiu Camus com inabalável confiança no que dizia — Um teste que serviu para me mostrar que a segurança de meu filho é falha. A pessoa que está com ele, a mesma que acabou de me ligar, fez isso justamente para me mostrar as falhas na segurança de Hyoga. Esse, veja bem, ESSE... é o motivo da minha ira! Uma simples amiga da família conseguiu enganar facilmente dois marmanjos treinados... Increable!... Andréas, chame Miroslav e Chesla imediatamente à minha sala. Quero ter uma conversa muito séria com aqueles dois imbecis.
***
A tarde transcorreu sem mais percalços, porém, se para uns ela foi especialmente divertida e animada, para outros tinha sido bem diferente.
Chesla e Miroslav foram severamente repreendidos por Camus, que apesar de não ter sua confiança abalada, já que de fato eles jamais seriam páreos para a esperteza e as estratégias de Afrodite, precisava manter as aparências e acusar os capangas de negligência. Assim não desconfiariam de nada.
Pouco antes das cinco da tarde, Camus voltou para sua mansão isolada e passou a esperar em seu escritório pela chegada de Afrodite e Hyoga, quando cerca de uma hora depois ele viu através do visor das câmeras de monitoramento, seu Rolls-Roice cruzar os portões de entrada.
Esfregou o rosto numa mistura de alívio e raiva, depois caminhou até o bar e se serviu de uma dose de vodca. Precisava aplacar com algo sua vontade de esfolar o namorado vivo.
Enquanto isso, já na enorme garagem da mansão, Afrodite estacionava o carro na mesma vaga de onde o havia tirado pela manhã, só então retirou os óculos.
— Bora mostrar seus presentes ao papai? — disse animado olhando para Hyoga. Falavam em francês como de costume.
— Bora! — o loirinho respondeu eufórico, então ambos saltaram do carro apressados.
Afrodite pegou a maior parte das tantas sacolas que lotavam o banco traseiro do veículo e Hyoga carregou consigo um pacote com jogos eletrônicos que havia escolhido para seu vídeo game, avançando na frente.
Entraram na casa pelos fundos, pela passagem da garagem e, como de costume, o mordomo de Camus os veio receber.
Era ele Fyodr Raskólnikov Belykh, um orgulhoso e prestativo senhor daguestanês de sessenta e quatro anos, aparência frágil e serena, ralos cabelos brancos e que um dia fora um excelente músico, ofício este que o levara a seu primeiro contato com a Vory v Zakone no passado, e desde então nunca mais saíra da “família”. Fyodr já vivia naquela casa muito antes de Camus chegar ali. Ele era ajudante pessoal e mordomo do antigo morador, mestre do cavaleiro de Aquário, e agora dedicava seus dias a zelar pela propriedade e por Camus, a quem tinha um apreço quase filial.
Sempre vestido em um confortável terno negro de corte impecável, porte ereto e olhar firme, já sabia da existência da amazona de Peixes e o que ela representava para Camus e Hyoga, afinal há meses o sueco frequentava o lugar, porém jamais questionara a nada. Fiel e leal como um cão obediente mantinha-se sempre calado e servil.
— Oi Fyodr! — disse Hyoga ao passar pelo mordomo feito um bólido já correndo para o interior da casa, não lhe dando chance ao menos de responder. O simpático senhor sorriu ligeiramente o acompanhando com os olhos, estranhando o cabelo escuro, quando de repente ouviu a voz estridente já bem conhecida de Afrodite.
— JARBAS!
Peixes era incapaz de pronunciar o nome do mordomo. E não foi por falta de tentativas!
Na verdade, o russo era um idioma que parecia não querer entrar de jeito nenhum na cabeça do pisciano. Já havia feito aulas com Camus, sozinho em casa, já havia comprado inúmeras vídeo aulas, fitas cassetes para ouvir enquanto cumpria alguma atividade qualquer, e nada... Não só sua cabeça não processa o idioma como também sua língua parecia se negar a repetir seus fonemas. Sendo assim, falava em grego, mesmo sabendo que o gentil senhor não lhe entendia, porém era tão grande o carinho que já tinha por ele que palavras pouco importavam. Ou bem ou mal eles conseguiam se entender.
— Mademoiselle! — respondeu o mordomo arqueando as sobrancelhas grisalhas ao ver caminhando trôpega, atrapalhada e cheia de sacolas de compras a dama dos olhos de seu patrão. Prestativo já partiu em direção a ela.
— Ai, Jarbas, me ajuda aqui com essas casqueiras, querido.
— Oui, Mademoiselle! — disse apanhando algumas das sacolas.
Fyodr se comunicava em francês com Afrodite, pois já havia notado que “ela” conversava nesse idioma com Hyoga. No entanto, Peixes nunca percebeu que o mordomo falava francês, por isso continuava falando com ele em grego mesmo.
— Dadá coroado! Acho que exagerei... Camy vai me matar, Jarbas. Gastei todo o acué* dele. — puxou o chapelão da cabeça soltando enfim os longos cabelos azuis piscina enquanto junto do mordomo seguia para o interior da mansão — Comprei presentes até para você, sabia? Cachecóis, apatás*, boinas... Tudo de gente jovem, viu! Não é por que você é velho que precisa usar béca de velho. Vou acabar com essa sua monocromia fora de moda, Jarbas. Vai até pegar umas senhoras safadas nos bailes da terceira idade, você vai ver!
— Oui, Mademoiselle! — disse o mordomo já adentrando a sala junto do sueco quando viram Camus sentado em um dos grandes sofás vermelhos com Hyoga em seu colo a lhe mostrar os jogos que havia ganhado da “amazona”.
— São todos po Nintendo 64 que o senhor me deu no meu anivesálio. — dizia empolgado.
— Legal. — Camus respondeu fingindo entusiasmo.
— E olha, papai, eu tô de piluca! — alegre o menininho exibia os cabelos escuros da peruca que usava.
— Estou vendo! Trocou de roupas também. — com certo desgosto o aquariano observava as roupas de qualidade e gosto duvidoso que o filho usava.
— A Di que compô pa mim.
— Oh, sim! Imaginei mesmo que quem escolheu essas peças tão... peculiares foi a Afrodite. Se eu non vejo esse seu sorriso lindo nem iria te reconhecer, mon petit. — Camus sorriu para o filho e carinhoso lhe deu um beijo na bochecha.
Assim que o ruivo bateu os olhos no sueco ali na sala, imediatamente comprimiu os olhos e lhe lançou um olhar severo. Camus então abraçou o filho e o colocou no chão.
— Filho, por que non sobe e vai tomar seu banho para podermos jantar? Ai você me mostra todos os outros presentes. O papai quer falar com a Afrodite a sós um pouquinho. — pediu com gentileza ao pequeno e depois se dirigiu ao mordomo — Sobe com ele, Fyodr, e ajude-o com o banho e com a troca de roupas.
— Será um prazer mestre Camus. — disse o senhor estendendo a mão para o pequeno — Vamos pequeno mestre? Já deixei a banheira enchendo assim que o vi chegar.
— EBAAAAA! — Hyoga disse contente se despedindo de Afrodite e do pai com um aceno para logo em seguida acompanhar o mordomo escadaria acima.
Assim que viu o filho sumir no segundo andar da mansão o ruivo se virou para o sueco e com uma carranca mal encarada se levantou do sofá o encarando nos olhos.
— Eu estou com vontade de te dar outra surra de cinta por ter me desobedecido, seu viado inconsequente... Nunca mais me dê um susto desses ou eu mato você! — apontou o dedo para ele, furioso.
— Ah, não! Não! — disse Afrodite, depois se aproximou do francês e o tomando pela cintura colou seu corpo ao dele — Não vamos brigar, mon amour. Eu tenho tão pouco tempo aqui... — meteu o rosto na curva do pescoço de Camus e lhe beijou ternamente, primeiro ali, depois atrás da orelha — Não vamos desperdiça-lo discutindo. Eu estava com tantas saudades de vocês. — sussurrou olhando nos olhos avelãs do ruivo.
Camus sentia ganas em esmurrar aquela cara de pau divinamente bela, mas ao olhar para ela de tão perto, para aqueles adoráveis e únicos olhos aquamarines, e para a boca perfeitamente desenhada e levemente aberta num convite tão insinuante quanto irrecusável, o desejo de beija-lo se sobressaiu à raiva e o aquariano mergulhou naqueles lábios sem titubear.
— Mas você está precisando de uma boa bronca. — Camus sussurrou na boca de Afrodite.
— Então me dê a bronca depois Camy, porque agora a única coisa que eu estou precisando é de dar uma rapidinha com você. Pode ser aqui mesmo, ou ali no escritório. — o sueco provocou chupando os lábios do francês, depois lhe mordeu o lóbulo da orelha enquanto deslizava as mãos para as nádegas fartas dando uma forte apalpada — Hummm... Papa deixa você dar uma bronca nele, mas só depois de comer essa sua bunda gostosa. Aaah... vem Camy... quero você! Passei o dia todo querendo te foder.
— Seu viado filho da mãe. — Camus resmungava entre beijos, lambidas e mordidas que Afrodite lhe dava enquanto o puxava para o escritório. Não ofereceu nenhuma resistência, pois só de ouvir a proposta ficou extremamente excitado.
***
Uma hora se passou desde a rapidinha no escritório e o jantar. Era pouco mais de sete da noite quando Camus, ainda um pouco carrancudo e calado, estava deitado no chão sobre um grande e imponente tapete de pele de urso pardo apoiado em algumas almofadas. Afrodite estava deitado a seu lado com a cabeça apoiada em seu ombro.
Estavam em uma das tantas salas que havia na propriedade, mas, naquela em especial Camus tinha mandado instalar uma tela grande para que Hyoga pudesse jogar seus jogos eletrônicos.
E assim, enquanto assistiam o menininho jogar, Aquário e Peixes conversavam aos sussurros trocando carícias sutis.
— E non pense que vai continuar fazendo isso, Afrodite.
— Fazendo o quê?
— Vindo para cá, fazendo suas maluquices inconsequentes e me apaziguando com sexo... Essas suas atitudes põem em xeque a minha confiança em você, será que non entende?
— Eu sei, mon amour... Me desculpe, mas é que hoje seria um dia tão ruim que tudo que consegui pensar foi em deixa-lo menos pior o ocupando com vocês.
— Por que diz isso?
Afrodite ergueu o tronco e se sentou de frente para Camus olhando em seu rosto.
— O Prefeito Praxedes vai ao Templo das Bacantes hoje receber o “pagamento” pelo alvará de funcionamento da casa... Ele é o único a quem não posso recusar um programa, como você bem sabe... Justo o mais suíno de todos. — suspirou desanimado piscando os olhos e meneando a cabeça — Por isso eu vim aqui... Sabe o quanto eu odeio aquele leitão peruquento e suas... porquices... Não queria passar o dia todo sofrendo por antecipação, esperando a hora de subir aquela maldita escada com ele até o quarto e... enfim, não queria o Prefeito ocupando um dia todo meu, por isso coloquei no meu dia as duas pessoas que mais amo nessa vida... O Prefeito agora ficou matim*.
Camus não suportou encarar os olhos do amado e o trouxe para perto o abraçando com força enquanto beijava seus cabelos. Toda a raiva havia desaparecido restando apenas o amor e a tristeza que a incapacidade de livrar Afrodite de vez da prostituição lhe causava.
— Eu gostaria tanto de poder fazer algo...
— Já fez. — Afrodite sorriu lhe beijando os lábios.
— Você realmente deveria ter me avisado. Tiraria a tarde de folga para ficar com vocês. — disse tentando confortar o sueco — Então meu pedido para passar a noite aqui comigo...
— Infelizmente não posso, Camy.
— Então non fale mais nada, ma fleur. Vamos aproveitar os poucos minutos que ainda temos assim, juntos, eu você e Hyoga, como uma família repleta de amor, que é o que verdadeiramente nós somos.
Camus aconchegou melhor o namorado em seus braços, depois puxou o filho também para perto e ali ficaram os três por pouco mais de uma hora, até Afrodite ter de retornara à Grécia.
Negrito— traduzido do russo.
* KV-1 — Kliment Voroshilov 1 é um tanque de guerra desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial pela União Soviética e utilizado pelo Exército Vermelho. Sua blindagem extremamente pesada o tornava um veículo lento.
* Petuchoks — é um caramelo caseiro vendido em feiras e nas ruas da Rússia. Ele pode ter formas de animais ou de estrelas. Nos tempos soviéticos, o petuchok virou um doce industrializado. A forma mais popular daquele tempo foi um galo. Talvez por isso o doce tem um nome assim, como "petuchok", que significa "galo", "galinho".
* Paskha — é um doce de queijo em forma de pirâmide preparado em muitos países da Europa de Leste para a Páscoa, na tradição da Igreja Ortodoxa.
Dicionário Afroditesco
Acué — dinheiro
Ajeum— comida
Apatás— sapato
Matim— mixuruca, sem graça, pobre.
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