Templo das Bacantes Vol. 2

24 Persistir na raiva é como segurar um carvão em brasa. Parte - 1


Notas iniciais
Alá meu povo. demorou um tico, mas fim de ano vc's já sabem, é uma correria, mas ai está. Mais um capítulo no capricho e muito importante. Resolvemos dividir a postagem para ficar mais fluido ou ficaria muito grande, e o tema abordado nele é muito importante, afinal finalmente a treta Saga X Shaka vai ser explicada... sua origem e tals..e porque os dois tem tanta marra ;) quem sabe um dia fazemos um extra sobre esse passado ? um beijo a todo mundo e feliz natal (né? ta perto.)

Uma semana após a volta de Camus e Hyoga à Rússia.

Escadaria dos fundos do Templo de Virgem, 17:18 pm.

Há alguns degraus da entrada dos fundos do Sexto Templo Saga deteve seus passos.

Soltou um suspiro resignado enquanto olhava para as paredes de rochas milenares da construção por dois segundos, até que sua atenção foi atraída quando sentiu seu braço ser puxado.

— Saga, o que foi? — disse Geisty que também deteve sua caminhada assim que percebeu que o noivo havia parado — Por que parou?

— Não... não foi nada. — o grego respondeu reticente meneando a cabeça, depois desceu um degrau se pondo ao lado da amazona que lhe sorria gentilmente.

Amore mio, não se preocupe. Vai correr tudo bem, na paz e tranquilidade. — disse a amazona ao perceber a apreensão discreta do cavaleiro — A sua ideia foi ótima, e tem meu total apoio. Se vamos começar uma nova etapa em nossas vidas nada melhor que começarmos com o pé direito. Sem falar que eu adorei sua iniciativa. — o trouxe para junto de si lhe confortando com um abraço carinhoso, procurando injetar ânimo no amado, que estava visivelmente desconfortável.

— Que bom que gostou. — sorriu timidamente.

— E também fiquei muito orgulhosa! — ela lhe acariciou o ombro com um toque tranquilizador — O primeiro passo tinha que partir de um dos lados, não é mesmo?

— Eh... e tinha que ser justo do meu... — Saga reclamou fazendo um muxoxo.

— Exato! E em hipótese alguma eu vou deixar você desistir... É importante para você, Saga, e também para mim. — disse firme a amazona — Agora vamos, cavaleiro. Chega de perder tempo.

Gêmeos puxou a amada para um abraço apertado deixando livre um sorriso.

— Ah, as coisas que eu não faço por você... — sorriu beijando suavemente os lábios da amada.

— Hum... Você também está fazendo isso por você, admita seu cavaleiro turrão! — Geisty riu alegre.

— Vamos! — Saga disse após uma breve pausa.

— Ah! Mais uma coisa: nada de alfinetadas, heim. — disse Geisty com uma expressão séria no rosto — Não me decepcione.

— Certo, certo, agora vamos. — o grego respondeu sem muito entusiasmo.

— Ah... E mais uma coisinha.

— Diga. — falou soltando um suspiro.

Io ti amo! — disse ela pegando no queixo do geminiano, dando um apertão carinhoso, depois fez um biquinho e ganhou um beijo em resposta — Estou orgulhosa de você!

— Eu também te amo, amore mio. — declarou Saga.

Enfim desceram de braços dados. A amazona cheia de animação e esperança, e o cavaleiro perguntando-se em seu íntimo como o amor que sentia por aquela mulher era capaz de lhe transformar.

***

Na área residencial do Templo de Virgem, sentado no sofá da sala, Mu foleava um livro antigo sobre alquimia lemuriana. Mesmo de férias do trabalho no bordel o guardião da Primeira Casa procurava manter a mente focada em seu ofício, já que da forja de Áries ele não podia se ausentar. A seu lado Shaka dividia sua atenção entre o carrinho de bebê, o qual empurrava com um dos pés em movimentos de vai e vem — para ninar Kiki que havia acabado de mamar — e alguns gomos de mexerica dispostos em um pratinho de louça indiana sobre seu colo, os quais ele levava à boca com certa ansiedade.

Vez ou outra Mu esticava os olhos verdes para o lado e espiava o virginiano, então deixava escapar um sorriso divertido.

— Calma, Sha. É só uma visita. — disse o ariano voltando sua atenção para as páginas do livro.

— Shaka está calmo. — respondeu depois de cuspir o bagaço da fruta no pratinho e imediatamente em seguida jogar outro gomo dentro da boca.

— Ah, sim. Shaka está! — disse Mu segurando o riso.

— Ele não sabe o que faz o Mu pensar que ele está nervoso. — disse enquanto mastigada vorazmente o gomo da fruta.

— Hu-hum. — fez o ariano sem tirar os olhos do livro.

— Shaka só não entende que tipo de conversa o Gêmeos possa querer ter com ele que não exige formalidade alguma. — cuspiu o outro bagaço apressadamente dentro do pratinho — Sem convocação oficial, sem protocolos... — balançou a cabeça negativamente.

— Talvez porque o assunto não exija formalidades ou protocolos, Luz da minha vida. — olhou para o companheiro e lhe acariciou o rosto sério — Por que não deixa de implicância e relaxa um pouco? Ouça o que eles têm a nos dizer, sem julgamentos, sem alfinetadas, e principalmente sem sermões.

Shaka ia responder alguma coisa quando parou de empurrar o carrinho com os pés ao sentir a presença dos Cosmos de Geisty e Saga aproximando-se de seu Templo. Estes também foram prontamente sentidos por Mu, que fechou o livro e se levantou do sofá.

— Olha lá, heim, não me decepcione. — falou o ariano enquanto deixava a sala para receber os visitantes.

***

No começo foram os rostos sisudos e nada amistosos de Shaka e Saga que causaram impacto imediato naquele encontro. Calados, sentados cada um em uma ponta oposta do grande sofá, eles apenas acompanhavam a conversa descontraída de Mu e Geisty. Ela sentada no meio do sofá, entre Gêmeos e Virgem. Ele acomodado em uma poltrona logo à frente.

Kiki choramingava no carrinho, o que fez Shaka trazê-lo para seu colo, mas eram os braços da amazona que o pequeno lemuriano desejava. A voz de Geisty lhe era sinônimo de farra e diversão, tudo que ele queria naquela hora.

Com os olhões lilases abertos o bebê olhava para Geisty e dava risadinhas, e foi nesse gesto simples que Mu viu uma ótima oportunidade de ajudar aqueles dois cavaleiros turrões a tentar se entenderem, seja lá o que fosse que tivessem para dizer um ao outro.

— Me parece que Kiki está querendo repetir a diversão da sua última visita aqui, Geisty. — falou o lemuriano, e sorridente a amazona, que era boa em matéria de capturar recados, voltou-se para o bebê e batendo palmas o instigou a vir para seu colo.

— Ah e a titia vai adorar fazer um repetéco. Me deixe pegar ele um pouquinho, Shaka? — pediu sem rodeios estendo as mãos — Essa criança levada não quer dormir, quer brincar. Não é mesmo, Kiki? Heim, bebê? Você quer é farra não é?

Enquanto falava fazia gracinhas para o bebezinho agitado no colo do pai indiano, que percebendo que seria inútil tentar fazer a criança dormir com a italiana ali do lado não viu outra escolha a não ser entregar o filho a ela.

— Ele não é levado, só está agitado. — Shaka repreendeu a amazona e depois se voltou para o filho em seus braços, que se esticava todo querendo sair de seu colo — Está bem, meu anjinho, vai com a tia Geisty.

— Isso, Kiki, vem com a tia. — dizia a amazona enquanto já acomodava o pequeno lemuriano em seu colo — Vamos brincar até cansar, bebezinho lindo!

Geisty então se levantou erguendo a criança no ar em meio a risos e brincadeiras, dando a Mu a chance que ele esperava.

— Bom, eu vou até a cozinha passar um chá para nós, o que acham? — disse ao se levantar da poltrona.

— Ah, eu acho ótimo! — a amazona respondeu de imediato — Quero o meu de camomila com mel, e Saga também, não é, amore mio?

Ainda meio desconcertado com tudo aquilo o geminiano apenas balançou a cabeça num gesto afirmativo.

— Ah... sim... Camomila vai ser... bom. — disse o grego em voz baixa.

— Ótimo! Vamos lá, Geisty? — falou Mu já caminhando em direção ao corredor.

— Vamos sim. — ela respondeu erguendo novamente o bebê no ar, sustentando seu corpinho para que parecesse estar voando — Vamos, aviãozinho Kiki? Vamos voar até a cozinha e ajudar o papai a fazer o chá? — antes de adentrar o corredor atrás de Mu, Geisty pegou na mãozinha de Kiki e a sacudindo no ar virou-se para os dois cavaleiros sentados um em cada ponta do sofá que tinham os rostos paralisados voltados em sua direção — Dá tchauzinho, Kiki. Tchaaaau tio Saga, tchaaaau papai!

Quando finalmente Geisty deixou a sala, Saga ainda ficou alguns segundos olhando para o corredor, atônito, então deixou livre um suspiro longo e cansado para depois voltar o rosto para o lado oposto e dar de cara com a face carrancuda de Shaka de olhos fechados e fronte franzida.

Os segundos que se seguiram enquanto encaravam um ao outro foram decididamente os mais longos das vidas dos dois cavaleiros.

O silêncio também o mais desconcertante. Até que Shaka o quebrou finalmente.

— Todo esse floreio para nos deixar a sós. — Virgem ralhou — Shaka espera que o que Gêmeos tem a lhe dizer seja breve e relevante, e não apenas mais uma das falácias dele que Shaka está cansado de... — interrompeu-se lembrando da promessa que fizera a Mu de que não iria discutir com o grego, então respirou fundo e continuou —... Vamos lá, Gêmeos, eu estou aqui para te ouvir. Diga logo o que veio fazer aqui, porque uma visita tão somente eu sei que não foi. Até porque visitar o meu Templo nunca foi do seu feitio.

— Nem poderia... Sempre fez questão de me espantar daqui. De deixar claro que não sou bem vindo... Como agora. — girou o tronco para frente se colocando ereto, encarando com firmeza o rosto do indiano — Eu me pergunto por que ainda espero alguma simpatia vinda de você, Virgem.

Shaka ergueu uma das sobrancelhas loiras enquanto também girava levemente o tronco até que ficasse totalmente de frente para o geminiano, com uma postura tão ereta e firme de causar inveja ao mais dedicado soldado da Guarda da Rainha.

— E o que o faz pensar que eu lhe devo alguma simpatia, Gêmeos? Ah, faça-me o favor... — irritado o virginiano levantou-se do sofá e fez menção de caminhar até o corredor para juntar-se a Mu e Geisty na cozinha.

— Isso... faça isso. Saia e deixe os outros falando sozinhos. — disse em voz alta o grego recostando-se no encosto do sofá — Você é tão bom cavaleiro quanto é bom em fugir de situações das quais não sabe lidar...

Virgem, perplexo, deteve os passos ainda em frente ao sofá e voltou todo o corpo na direção do geminiano.

— Como disse? — perguntou franzindo a testa.

— Eu disse que está fugindo, Shaka de Virgem. — falou o geminiano cruzando as penas. — Eu te conheço. Mais ainda do que você imagina. Os anos passaram, muita coisa aconteceu desde que você chegou nesse Santuário e eu fiquei responsável por sua tutela, mas você não mudou nada. Absolutamente nada!... Continua o mesmo sujeitinho prepotente, ranzinza e orgulhoso de quando era pivete.

— Não, você está enganado. — disse o virginiano — Esse sou eu através dos seus olhos. Na vida do homem a mudança é inevitável, Gêmeos, assim como a perda é inevitável. E se você veio aqui procurando a simpatia do homem que na infância o via como uma figura paterna eu sinto muito, mas essa você perdeu há tempos.

— Eu sei que perdi, Shaka. — o geminiano diminuiu o tom de voz ao se levantar e se colocar de frente ao indiano — E sei quando e porque perdi... O amor, a admiração e respeito que semeei em você caíram por terra quando eu perdi a mim mesmo, mas não foi algo que eu pudesse controlar...

— Que não pudesse controlar? — Virgem avançou um passo fechando ainda mais a expressão de zanga que já se desenhava em seu rosto — Por Buda! Veja toda a desgraça que você trouxe para esse Santuário, Gêmeos!

— Shaka...

— Shion morto, Atena desaparecida, Aiolos morto acusado de traição, quando qualquer um aqui sabe que ele jamais trairia o Santuário, Mu exilado por anos, corrupção, depravação, máfia, crime... Tudo isso aconteceu porque você não pode se controlar? Justo você?... Um dos cavaleiros mais poderosos dessa Era.

— Poder não significada nada quando o que está regendo a nossa vida é o destino, Shaka... — disse Saga num misto de angustia e cansaço — Um dia você me disse que é a nossa resistência às circunstâncias que causa nosso sofrimento... Pois bem, eu desisti de resistir. — referia-se a Geisty e a decisão que tomara de trazê-la para junto de si e livra-la da morte, mesmo que para isso tivesse que condenar a Kanon.

Shaka refletiu alguns instantes acerca do que Saga havia dito. Ele mesmo resistira muito antes de assumir seu amor por Mu e escolher viver a seu lado, depois resistira em aceitar ser pai e tudo que conseguiu foi sofrimento, mas nada o fazia aceitar os caminhos que Saga decidira trilhar para erradicar sua dor, fosse ele qual fosse, já que desconhecia os pormenores que rodeavam a vida do geminiano.

O indiano sufocou um ronco, de uma raiva e uma mágoa profunda há anos contidas, então avançou mais um passo até ficar poucos centímetros do grego, levantou mais a cabeça e abriu os olhos, encarando as íris cor de jade de Gêmeos que agora o divisavam apreensivas.

— Por que você desistiu? — falou, tomado de uma raiva repentina que espantava até mesmo a si próprio — Por que deixou o mal te dominar?

— Porque ela ia morrer. Kanon a tinha nas mãos.

Os olhos azuis celeste do indiano se arregalaram em surpresa.

— Está falando...

— Sim, estou falando de Geisty... E é só o que posso lhe dizer, e também só o que precisa saber por enquanto. — disse Saga, e depois se deixou cair sentado novamente no sofá — O destino sempre me afastou dela... até o dia que decidi manda-lo à merda e arriscar.

— Ah, mas que tacada de gênio! Você a salvou da morte para trancafiá-la num alcoice e torna-la meretriz... Está vendo como é praticamente impossível defender seus atos, Gêmeos?

Irritado em ter de ouvir sempre as mesmas acusações de diferentes pessoas e em diversas situações, Saga agarrou no pulso de Shaka e com um puxão para baixo o fez se sentar também no sofá, a seu lado.

— Cala a boca e senta. — disse, para total espanto e indignação do loiro — Não estou te pedindo que me defenda, nem que seja conivente com meus atos, até porque você não é mesmo, nunca foi e sempre fez questão de deixar isso muito claro, eu só quero que você me escute, Shaka, por todo o caralho do solo amaldiçoado do Cocito, só me escute.

— Se usar desse linguajar chulo e desrespeitoso em minha casa eu não o escuto mesmo! Vá falar assim com as tuas meretrizes e os mundanos do teu séquito de bajuladores.

— Está certo... Desculpe.

— Shaka tira o próprio sentido da audição se ouvir mais um palavrão.

— Entendi.

— Isso se ele não tirar o sentido da fala do Saga para ele aprender a se fazer entender como gente decente e não como uma besta humana.

— Quer calar a boca? — respirou fundo e com os cotovelos apoiados nos joelhos tentou dizer, finalmente, o que foi fazer ali — Entre as tantas coisas que você me dizia quando criança, uma delas é que a felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo que é de ruim.

Súbito o rosto sério e fechado do Santo de Virgem se abrandou. Um sentimento estranho o tomou de relance fazendo seu coração bater mais forte e acelerado. Um sentimento que ele de imediato não soube decifrar.

— O Saga se lembra... das coisas que Shaka falava para ele? — murmurou surpreendido e até meio tocado.

— Sim, eu me lembro, porque... — Gêmeos virou o rosto e olhou nos olhos do indiano —... Porque, assim como te ensinei tudo que eu acreditava ser o melhor para você, você também me ensinou muita coisa, Shaka... Eu estou tentado ser feliz ao lado da mulher que eu amo... da maneira que eu posso. Estou tentando me adaptar com o que a vida me apresenta, mesmo que o que ela me apresente seja ruim.

— Saga podia ter feito melhor.

— Sim eu podia, mas eu não consegui... No entanto eu também não desisti de tentar... Assim como nunca desisti de você.

— Desistiu sim. — Shaka deixou escapar com uma pitada de mágoa em sua voz.

— Não... Você foi um dos meus piores aprendizes... Não no sentido de que era um discípulo ruim, pelo contrário, você sempre foi o melhor, o mais poderoso, o mais sábio... mas também o mais turrão, respondão, teimoso, trabalhoso, e acima de tudo, o mais apegado a mim... Isso sempre me assustou, porque eu era muito jovem também, e sabia que mais cedo ou mais tarde eu iria te machucar.

Shaka baixou a cabeça evitando os olhos de Saga.

— Eu te ensinei a ser um guerreiro nobre, digno, justo, e quando eu me perdi você também se perdeu. — continuou o geminiano — Você era muito novo ainda, mesmo para alguém que nasceu para se tornar o próximo Buda você ainda era uma criança apenas, e eu era sua referência... E isso também me machucou. Você se fechou, para todos, para o mundo... Trancafiou seus sentimentos e perdeu sua compaixão.

— Ora não fale besteira. Desferir golpes fatais e evitar a agonia dos fracos também não é compaixão?

— Não. Não é.

— Propina e fornicação em troca de dinheiro também não é nada nobre.

— Estamos desviando novamente do foco. — reclamou Saga — Eu quero te dizer que entendo e aceito toda a sua rebeldia, Shaka. Que não suporto sua desobediência, tampouco sua indisciplina, mas pelo menos eu sei de onde elas vêm... Da decepção que causei em você... Da mágoa.

— Em algum momento você achou que seria diferente? Depois de tudo que aconteceu?

— Não. Eu já esperava que você nunca colaborasse comigo em nada depois de eu ter... Bem... — interrompeu-se para retomar o foco — Shaka, independente do que houve no passado eu quero que saiba que o admiro imensamente pelo homem, o novo homem, que vejo você se tornar a cada dia... Se por um lado eu estraguei tudo, por outro Mu, e você mesmo, estão consertando. Eu sinto que agora, finalmente, você voltou a ter aquele brilho nos olhos que eu via na infância. Está feliz de verdade, pleno. Você fez uma família com o Mu, tem um filho lindo que eu sei que vai educar e proteger com sua vida, e como cavaleiro você superou a todas as minhas expectativas... Eu sei que você não me vê mais nem como amigo, nem como irmão de armas, mas eu ainda o tenho como um filho... Um filho chato e que só me da dor de cabeça, sim, mas do qual eu me orgulho.

— Pelas lótus que sustentaram os pés de Buda! — murmurou o Santo de Virgem, pois aquelas palavras o pegaram de surpresa. Saga mexia com sentimentos que havia trancafiado em si mesmo há tempos, e com os quais ele não estava preparado para lidar naquele momento.

— Eu admiro você. Muito. E eu... eu sei que no fundo você jamais seria capaz de desejar o mal para quem quer que fosse, nem mesmo para mim.

— Shaka precisa tomar um chai. — fez nova menção em se levantar, mas novamente Saga o segurou pelo pulso.

— Espera!... Eu quero te fazer um pedido.

O Santo de Virgem estreitou os olhos analisando cada traço da face tensa do geminiano.

— Hum... claro! — disse ele, retomando a postura defensiva novamente — Nada seu vem de graça, não é Gêmeos? Nem os elogios.

— Não! — Saga exclamou enquanto espremia os dedos trêmulos contra a pele suada da fronte — Mas que porra, Virgem, por que é sempre tão difícil conversar com você, caralho?

— Tesouro do...

— PARA! — gritou o Patriarca ao mesmo tempo em que girou o tronco para frente para esticar os braços e espalmar ambas as mãos no ar — Para!... Me desculpe... ok? Não precisa tirar seu sentido da audição... Eu... preciso que me escute.

— Pelos Seis Infernos, Gêmeos, vai esperar Shaka desencarnar para dizer o que veio fazer aqui? Além de finalmente reconhecer o óbvio?

— Não... — balançou a cabeça como que para organizar os pensamentos e piscou os olhos algumas vezes antes de focar nas íris azuis celestes que o encaravam aflitas — Eu, na verdade, vim até aqui pedir para que você celebre o meu casamento com a Geisty. Pronto. Falei.

Buddh dvaaraaaa!* — clamou Shaka ao levar ao peito as mãos pálidas. Estupefato, olhava para Gêmeos como se no lugar dele visse uma aparição fantasmagórica, medonha, e ameaçadora.

— É... bem, nós vamos nos casar em uma cerimônia reservada, dadas as circunstâncias das quais você já está ciente... No entanto, quero que meus amigos e irmãos de armas mais caros estejam presentes. Mas, principalmente, quero dar um novo rumo à minha vida. — dizia o geminiano com voz branda e decidida — Bem, agora eu não estou mais sozinho, estou formando uma família e quero proporcionar a ela uma vida digna... Só que para isso preciso corrigir muitos dos meus erros, principalmente os do passado... Eu quero curar tanto as feridas que tenho abertas em mim quanto as que causei nos outros e decidi começar por você, Shaka.

Virgem mal respirava.

Com ambas as sobrancelhas loiras erguidas numa interrogação sincera e o corpo hirto num misto de tensão e assombro, ele ouvia cada palavra ainda se perguntando se não estava delirando.

— Geisty e eu fizemos um pacto. Não carregaremos mágoas passadas nessa nossa caminhada rumo ao futuro... — continuou o grego —... Apesar de tudo, Shaka, de todas as nossas desavenças, você sempre foi especial para mim... Foi meu pupilo, e quando olho para o cavaleiro e para o homem que você se tornou sinto orgulho de você e de mim também, pois eu fui seu alicerce... mas... também sinto mágoa.

— Acabou de dizer que não carregaria mais mágoas... — Shaka resmungou, com uma voz tão baixa que Saga esforçou-se para ouvi-lo.

— Sim eu disse, e não carregarei... A mágoa a que me refiro é pela maneira desrespeitosa e rude com a qual nos tratamos todos esses anos...

— Shaka não poderia tratar o Saga diferente. Saga só fez merda desde que se tornou Patriarca através de um golpe vil. — repreendeu.

— Eu sei, mas eu estava fora de mim.

— Denegriu o solo Sagrado do Santuário abrindo aquele lupanar de perdição, fez alianças politicas com ímprobos pervertidos.

— Eu sei, mas... Pelos deuses, Virgem, eu estou te fazendo a merda de um convite para celebrar o meu casamento!

—... Prossiga com o convite. — disse o loiro de forma firme, nariz em pé, mãos pousadas em paralelo sobre os joelhos, mas em seu peito aquela nova e estranha sensação de calor só crescia, desenfreada, fazendo seu rosto sério corar levemente.

— Eu... eu não tiro sua razão. A mágoa a que me referi é minha, só minha... a carrego desde o dia em que me deixei sucumbir pelo mal e machuquei as pessoas que mais eram importantes para mim... E você é tão importante para mim quanto é para Geisty. Você a acolheu, a aconselhou, a guiou, e no momento em que nós mais precisávamos de sua ajuda... Você abriu as portas do seu lar para ela sem julgamentos. Nunca lhe negou ajuda e palavras de conforto... Geisty o tem como um amigo e um guia. — o geminiano deu um sorriso leve, e com expressão serena reiterou o convite — Por isso, Geisty e eu desejamos muito que nos dê a honra de celebrar a nossa união, porque eu desconheço nessa Terra pessoa mais íntegra para essa função, que irá nos estender as bênçãos mais sinceras e poderosas, e que guardaria o nosso segredo com dedicação e honra.

Após Saga se calar, Shaka ficou parado por um tempo, respirando pesado, o rosto corado, as palmas das mãos levemente suadas, os olhos azuis cravados no rosto do geminiano. Não podia negar a si mesmo que as palavras dele lhe tocaram profundamente, assim como não podia mentir a si mesmo e convencer-se de que não passara anos esperando ouvi-las.

Sem ainda dizer nada, o Santo de Virgem se levantou do sofá e lentamente caminhou até a grande janela que ficava logo mais à frente, cujas cortinas de tecido fino bailavam docemente acariciadas pela brisa vespertina. Olhou para o lado de fora e enquanto divisava o horizonte um filme passava em sua mente.

Lembrou do dia em que chegara ali, no Santuário. Estava assustado, faminto, doente, triste... Muito triste.

Havia acabado de perder a mãe.

A primeira pessoa que lhe sorriu e lhe estendeu a mão foi Mu. O segundo foi Saga. A partir daquele dia ambos mudariam sua vida para sempre.

Saga viu que Shaka não tinha uma resposta a lhe dar. Desviou os olhos dele em frente à janela e os deitou em suas próprias mãos. De cabeça baixa suspirou.

— Eu sabia que você ia fugir de novo... — disse o Patriarca.

— Eu aceito. — a voz de Shaka soou firme.

Franzindo as sobrancelhas severas e voltando a encarar o indiano com certa dúvida, Gêmeos perguntou retórico.

— Aceita? Eu ouvi certo?

— Sim. Tão certo quanto eu ouvi tudo o que você disse. — disse o indiano ainda olhando o horizonte através da janela, e depois de uma breve pausa voltou-se então para Saga no sofá.

— Então você... você acha que consegue fazer o mesmo? Você consegue apagar mágoas passadas e dar uma nova chance a... — deteve-se de súbito, mas Shaka prosseguiu em seu lugar.

— A nós? — trocaram um olhar breve e então o virginiano caminhou até a poltrona em frente ao sofá e se sentou — Gêmeos, Buda dizia que persistir na raiva é como apanhar um pedaço de carvão quente com a intenção de o atirar em alguém. É sempre quem o levanta que se queima primeiro... Eu digo que assim também é com a mágoa e o rancor... Tudo que fiz esses anos nutrindo raiva e mágoa por você só serviu para me ferir ainda mais.

— Shaka...

— Eu jamais iria atrás de você. Você fez sua escolha e eu estou longe ainda de ser um homem nobre, pois um homem só é nobre quando consegue sentir piedade por todas as criaturas.

— Eu não espero que sinta piedade de mim, apenas quero que entenda que muito do que fiz estava fora de meu controle e que agora vou dar o melhor de mim para reverter tudo isso, consertar os meus erros.

— Os erros que cometeu geraram consequências terríveis e o ciclo do Samsara ainda não foi fechado, mas... Você apenas estava seguindo sua natureza, e a natureza do homem é sua verdade absoluta. — respirou fundo — Eu sempre soube qual era a sua natureza, Saga... mas ela era tão assustadora para mim que entrei em negação. Foi essa negação que me impediu de ver que você não seria capaz de resistir a ela sozinho, resistir à sua natureza, subjuga-la, domina-la, então... Então eu me deixei dominar pela mágoa e pela raiva quando você sucumbiu. Eu esperava que você fosse lutar, por você, pelo Santuário... por mim.

— Eu lutei, Shaka.

— Eu sei. Dominar a si próprio é uma vitória maior do que vencer milhares numa batalha, e eu tenho fé que ao lado de Geisty você irá vencer a sua natureza, ou aprender a dominá-la. Por isso eu não poderia me sentir mais honrado em uni-los e abençoa-los com todo o poder do meu coração e de minha vontade. — curvou ligeiramente o tronco e estendeu a mão a Saga — Façamos uma trégua. Eu disse que jamais iria atrás de você, mas quero que saiba que... bem... Shaka está muito feliz que Saga tenha vindo atrás dele.

Gêmeos olhou surpreso para aquela mão estendida no ar, calado, hirto, até que ergueu os olhos e os fixou no rosto sereno do cavaleiro de Virgem. Após um breve momento o analisando, enfim estendeu o braço e apertou-lhe a mão, sorridente.

— Saga... — o grego se interrompeu de súbito e piscou os olhos, confuso —... Digo, eu... Eu também estou feliz por Shaka ter aceito... — novamente se interrompeu, pigarreou e esfregou a testa com as pontas dos dedos suados da mão que tinha livre —... Digo... por você ter aceito meu convite. Eu estou feliz por você ter aceito o convite. Isso... Sei que de agora em diante tudo será diferente...

— Hum... nem tudo, não é Gêmeos? — disse o virginiano franzindo a testa enquanto ainda chacoalhava o braço de Saga com um aperto de mão veemente — Você continua sendo um Patriarca usurpador, mafioso vigarista e proxeneta ébrio. Não pense que Shaka vai obedecer a alguma ordem sua que direta, ou indiretamente, esteja ligada a seus negócios escusos, porque ele não vai. E ele também não vai pisar naquele lupanar de imoralidade erguido no sagrado Templo de Baco. — balançou a cabeça à moda indiana, reafirmando o que tinha dito.

— Está certo. — Saga agora que chacoalhava o braço de Shaka imprimindo mais força ao aperto de mão.

— Do resto, ele aceita sua trégua.

— Ótimo! Já é alguma coisa! Faça como quiser, desde que não me atrapalhe em meus negócios.

— Shaka não precisa atrapalhar a vida do Saga. Ele já faz isso muito bem.

Com mais uns pares de chacoalhões fortes no braço um do outro finalmente soltaram as mãos e voltaram a encostar as costas nos encostos dos estofados, então Virgem sorriu e ergueu o tom de voz.

— Já pode sair daí, Mu. — disse o indiano.

— Droga! — um resmungo masculino soou atrás da coluna de mármore.

Gêmeos também sorriu em seguida disse também:

— Você também, Geisty. Já pode voltar. Pode parar de se esgueirar por detrás da coluna com a desculpa de que está brincando com Kiki.

— Ah, caspita! — disse a amazona vindo pra sala e trazendo Kiki em seus braços que dava suaves risinhos — Como vocês nos perceberam aqui?

— Por favor, Geisty, como se eu não te conhecesse o suficiente para não deduzir isso. Curiosa como é, obvio que não foi fazer chá é nada. — disse Saga.

— Shaka nem de longe sentiu cheiro de chá! — disse o indiano voltando seu rosto para Mu, que vinha logo atrás de Geisty com um sorriso no rosto.

— Exatamente! Saga também não... Digo... Eu também não senti... — Gêmeos novamente curvou o tronco para frente levando ambas as mãos ao rosto, o esfregando nervosamente — Mas que merda! Por toda a sabedoria de Atena, Mu, você ficou responsável por ensinar esse garoto a falar direito. Vejo que não se esforçou o suficiente... Essa porra pega!

— Ei! O Mu ensinou direitinho o Shaka! — Mu se justificou, aos risos, enquanto se sentava no braço do sofá para abraçar carinhosamente o esposo — Mas, você mais do que ninguém, deve saber como foi sofrido ser professor desse virginiano cabeça dura aqui. Ele sabe falar corretamente, mas esse velho hábito está enraizado de tal forma que às vezes até eu caio nessa.

— Então, por todos os deuses, e pelo bem do meu casamento, faça um intensivão com ele, o ensine novamente, porque ele desaprendeu. Eu não quero a cerimônia do meu casamento sendo celebrada por um aborígene que se comunica em terceira pessoa. — reclamou o geminiano.

— Pode deixar. O Mu ensina o Shaka. Não é Shaka? — brincou o lemuriano.

Antes mesmo que Virgem pudesse retrucar foi interrompido pela risada sonora da amazona e do bebezinho em seu colo.

— Que bom que tudo deu certo. E não pense que me esqueci de você, Mu. — disse Geisty alegre — Eu também tenho um pedido. Gostaria que o Kikizinho levasse as alianças, e já que esse garoto levado ainda só sabe dar risada e sujar fraldas, gostaria que você o conduzisse.

O lemuriano arregalou os olhos, surpreso e feliz.

— Ou seja, quer que eu seja o pajem do seu pajem? — Mu disse divertido.

— Sim, mais ou menos isso. — ela lhe sorriu de volta — Eu os quero em um lugar especial.

Áries então se levantou do sofá e caminhou até a amazona. Estendendo os braços pegou o filho no colo todo orgulhoso o exibindo para os amigos.

— Pois eu aceito! — respondeu animado — E já que meu marido fará a cerimônia, e meu filhotinho será o pajem, eu faço questão de forjar as alianças. Será meu presente aos noivos.

Surpreso e sorridente o casal olhou para Mu. Estavam emocionados, em especial Geisty, que tinha os orbes violetas arregalados e as mãos, sempre agitadas, pousadas sobre o peito.

— Mu! Eu... — ela ensaiou uma fala, mas sua voz estava embargada.

— Você merece, minha amiga. — o ariano lhe sorriu.

— Eu nem posso acreditar. — a amazona falou com os olhos encharcados — Alianças feitas por você! Que honra! Pela deusa, vão ser lindíssimas! A se julgar pelas que forjou para o seu casamento tenho certeza que serão incríveis!

Sem caber em si de tanta felicidade, Geisty aproximou-se do lemuriano, agarrou seu rosto sorridente com ambas as mãos, apertou-lhe as bochechas rosadas e em seguida lhe deu um beijo estalado em cada uma delas.

— Obrigada! — ela disse ainda sorridente ainda segurando em seu rosto — Deuses, teremos as alianças mais lindas desse Santuário, amore mio. — finalmente soltou o ariano e voltou-se para o noivo.

— O segundo par mais bonito. O primeiro é o meu! — Mu disse vaidoso erguendo a mão e exibindo a obscena aliança dourada — Mas não se preocupem, farei com muito carinho e esmero.

— Tenho certeza que sim! — disse Saga com um sorriso sincero, enquanto abraçava o lemuriano pelos ombros com um dos braços — Muito obrigado pelo presente, Mu. Será mesmo uma honra ter alianças forjadas por você. Sei que serão únicas.

— Exato! É um presente a se honrar! — disse Shaka se levantando para se juntar a eles — Que a união de vocês seja tão forte, nobre, resistente e indelével como o ouro que é moldado pelas mãos poderosas de um mestre forjador lemuriano. Esse é o nosso sincero desejo. — trocou um olhar cumplice com Mu ao lhe fazer uma discreta carícia no ombro, depois respirou fundo e voltou-se aos visitantes — Bem, eu acho que agora sim, podemos tomar um chá.

Seguiram para a cozinha em um clima amistoso, como há tempos não se via quando estavam juntos, no mesmo ambiente, o Santo de Gêmeos e o de Virgem. Kiki finalmente dormiu no colo do pai lemuriano e fora acomodado em um cesto de bambu trançado forrado com um confortável acolchoado. Shaka tinha improvisado aquele bebê conforto para as horas que precisava meditar no jardim e não queria ficar longe do filho.

Ali eles ficaram por mais algumas horas, desfrutando de conversas animadas regadas à muito chá de camomila e bolinhos de mel para adoçar a vida, pois o futuro nunca lhes pareceu tão promissor.

* Por Buda.

Notas finais
Eu e as meninas somos loucas para escrever sobre a infância dos cavaleirinhos do templo...e uma coisa que mais pensamos é sobre a relação Saga X Shaka e de como eles viviam se bicando mas ao mesmo tempo se amavam muito. Saga foi como um pai para o Shaka, e foi muito sofrido pro loirinho tudo que aconteceu. nada no templo é atoa...a marra deles tem a origem no amor que sentiam um pelo outro. Bom, semana que vem tem mais, e mais tretas sendo resolvidas... afinal está vindo um casamento...e depois?..hmmmm Aguardem. Tumblr da Ju com a imagem do cap https://rosenrotstuff.tumblr.com Grupo " fics trio ternura" no face - capa do capítulo e muitos extras ;) https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/ Grupo do casal Mu e Shaka onde tem outras artes exclusivas da Ju *-* https://www.facebook.com/groups/554678934699718/