Notas iniciais
Olá pessoaa. estamos com algumas dificuldades em of, mas ainda assim aqui está mais um cap. A image da capa é um desenho feito por Rosenrot do Pai da Vory v Zacone: Dimitri, o Vor máximo da Russia.

Shaka estava diante de uma grande porta de madeira envelhecida. No entorno havia o nada.

Lentamente esticou o braço e segurou firme a maçaneta de bronze, franzindo as sobrancelhas num claro sinal de desconforto ao tocar a camada grossa de azinhavre que a recobria. Quase recuou com o impacto da lufada de ar frio e úmido que o atingiu em cheio e que carregava um odor forte de flores da primavera, sangue e maresia, mas, determinado, cruzou o pórtico e chegou a um corredor. Este era ligeiramente estreito e tinha várias portas perfiladas em paralelo. Ao lado de cada porta uma luminária de parede em estilo vitoriano exibia uma parca luz amarelada. No chão, sobre um piso escuro de madeira antiga, um longo tapete vermelho apontava para o infinito, onde tudo eram sombras.

Sem entender o que fazia ali Shaka sentiu apenas que deveria avançar, e assim o fez, devagar, pisando com os pés descalços o grosso tapete, até que algo o fez parar repentinamente com o coração congelado em terror. O choro de um bebê.

Uma imobilidade desleal e angustiante tomou todo seu corpo no momento em que tentou correr, fazendo um esforço hercúleo para trocar os passos, pois seus pés pareciam colados ao chão.

Frenético e em desespero ele correu, corredor adentro, e enquanto corria tentava abrir as portas para ver de onde vinha aquele choro perturbador, mas todas pareciam trancadas.

A cada novo passo pesado dado mais forte era o odor de flores, sangue e maresia, também mais alto se tornava o pranto da criança e mais aflito se punha o coração do Cavaleiro de Virgem.

— Kiki! Kikiiiii! Meu filho!

Shaka gritava pelo filho sem obter resposta. Quando de repente o choro parou e então pode ouvir o som de uma das portas se abrindo ao longe.

Aterrorizado, não se moveu, não respirou, apenas divisou o corredor infinito à sua frente por alguns segundos até perceber que havia algo atrás de si.

Ao virar-se, com a lentidão angustiante de um pesadelo, há alguns metros de onde estava viu a silhueta de um bebê deitado no centro do corredor com o corpo envolto em sombras.

Por algum motivo que desconhecia não conseguiu focar no rosto da criança, o que só aumentou sua agonia, porém desde que se tornara pai somente uma criança povoava seus pensamentos.

— Kiki!

Do mesmo modo penoso que havia avançado até ali, correu de volta em direção ao bebê no chão.

— Kiki!

Gritava o nome do filho enquanto corria aflito, agora quase sufocado pelo odor doce das flores, ardente da maresia e ferroso do sangue que lhe entrava pelas narinas, mas ao chegar até a criança parou abrupto, levou ambas as mãos ao rosto e cobriu a boca abafando um grito de horror.

O bebê estava coberto de sangue, enquanto sereno devorava as próprias vísceras.

***

Santuário de Atena, Casa de Virgem — 03:33am

Shaka abriu os olhos e ergueu bruscamente o tronco sentando-se na cama desnorteado.

Ainda tinha as mãos sobre a boca abafando o grito que brotara do fundo de seu coração espavorido, e somente as tirou quando soltou o ar que prendia dentro dos pulmões. Nessa hora a cama, que levitava poucos centímetros do chão, pousou sobre o tapete indiano com uma pancada surda.

O pequeno estrondo despertou Mu de um sono também inquieto e perturbado, pois devido a seus dons raciais o lemuriano partilhava, inconscientemente, da aflição de Shaka enquanto o loiro tinha aquele pesadelo medonho. Fora essa perturbação, inclusive, que o fizera acionar sua telecinese e levitar a cama.

Ainda sonolento Áries entreabriu os olhos e ergueu ligeiramente a cabeça, então viu Virgem saltar afoito do leito e vestir rapidamente a calça do pijama que estava jogada no chão.

— Shaka? — chamou piscando os olhos procurando orientar-se, mas não houve resposta.

— Luz da minha vida, o que foi? — insistiu, agora um pouco mais desperto já se sentando na cama, mas o esposo deixou o quarto correndo sem explicar o motivo de tanta aflição — Ei! Shaka!... Espera aí!

Nessa hora Mu se dera conta de que algo muito grave acontecia, então extremamente assustado jogou os lençóis para o lado, as pernas para o outro e também saltou da cama às pressas. Vestiu-se com a cueca samba canção jogada ao lado do leito e com o coração aos pulos foi atrás do loiro, angustiado por ver sua aura tão sombria como jamais vira antes.

Mu encontrou Shaka no quarto de Kiki, e quando entrou no aposento a cena que viu só afligiu ainda mais seu coração, pois o indiano segurava o filho firme contra seu peito, que ainda dormia, de uma maneira tão possessiva e protetora como se temesse perde-lo, como se a qualquer momento aquele bebezinho que trouxera tanta luz a eles pudesse virar cinzas e desaparecer em seus braços.

— Sha? — disse Mu num sussurro aproximando-se afoito — Pelos deuses, o que aconteceu? — perguntou, e ao cercar-se do virginiano notou que ele estava todo suado, com a respiração ofegante e um semblante assustado no belo rosto.

Shaka abriu os olhos e olhou para o rosto de Mu, ainda desnorteado e com o espírito embriagado de horror.

— Mu eu... eu vi... enquanto dormia... — o virginiano sussurrou com voz trêmula.

Notando a tensão do marido o ariano pousou uma das mãos em sua cabeça fazendo uma carícia, em sinal de apoio e conforto, depois ajeitou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

— Viu o quê? — o lemuriano perguntou passando um dos braços pelos ombros grudentos do marido. Enquanto o fazia checou a aura de Kiki e a notou tranquila como de costume. Nada havia de errado com o bebê — Teve um pesadelo? Está me assustando, Shaka.

— Não foi apenas um pesadelo, Mu... Creio que recebi um sinal. — revelou o virginiano, depois encostou o rosto na cabeça do pequeno lemuriano em seu colo e soltou um suspiro — Oh, Buda, isso não é bom! Nada auspicioso... Eu tive tanto medo.

— Um sinal? Por todos os deuses, então para você reagir desse jeito creio que não foi um bom sinal. — Mu disse baixinho, agora ele mesmo sentindo medo, por isso institivamente abraçou Shaka tentando acalmar tanto o loiro quanto a si mesmo, enquanto mantinha o filho seguro entre os corpos dos dois — Sua aura está tão escura... Que sinal foi esse? Tem a ver com nosso Kiki?

Um redemoinho de imagens, cheiros e sensações ainda impregnavam os sentidos do Santo de Virgem quando ele ergueu os olhos de pupilas dilatadas e encarou a mirada confusa do ariano.

— Mu... Hoje é o dia do nascimento do nosso Kiki no tempo presente, naquela praia. — disse num sussurro, convicto.

Áries arregalou os olhos, pasmo, surpreendido.

— O quê!... Hoje?

— Sim.

— Tem certeza? — a surpresa estava estampada nos olhos brilhantes e febris do lemuriano.

— Tenho. Eu tive uma visão essa tarde enquanto meditava, mas os sinais não me estavam muito claros, então quando adormeci acho que entrei em transe novamente e a visão se repetiu, porém...

— Porém o quê?

— Seu desfecho é terrível.

Mu engoliu em seco, temeroso e preocupado, mas nessa mesma hora, sentindo as auras perturbadas dos pais, o bebê se remexeu e choramingou.

— Não fala mais nada. Não aqui. — com os olhos Mu sinalizou para o filho que começava a chorar, alertando o esposo — Ele é tão sensitivo quanto eu. Se fui capaz de levitar a cama inconscientemente só porque senti seu tormento durante o sono não acho prudente que me conte nada na presença dele.

Shaka balançou a cabeça em sinal de afirmação.

— Sim, você está certo. — disse Virgem — Eu só precisava ver se ele estava bem.

— Ele está ótimo, Sha. Não se preocupe. Você que está muito agitado e Kiki está sentindo toda essa sua agitação. — novamente acariciou os cabelos do indiano — Vamos fazer o seguinte, me deixe coloca-lo para dormir novamente, enquanto isso vá até a cozinha, tome uma água, ou um chá, tente se acalmar e logo chego lá para conversarmos.

Shaka não disse nada. Apenas concordou novamente com a cabeça, beijou a fronte de Kiki, entregou o filho ao marido e se afastou, deixando o quarto enquanto via Mu ninar o bebê.

Caminhou apressado e penosamente até a cozinha, passando as mãos pelos cabelos ainda molhados de suor que lhe caiam sobre a testa. Lá foi direto à dispensa, apanhou chá de camomila e colocou água para ferver. Precisava organizar tudo em sua mente turbulenta para orientar Mu do que havia de ser feito naquele dia.

Quando Áries chegou à cozinha encontrou o virginiano de pé, de frente para a janela que dava para o jardim.

— Pronto, Kiki já está dormindo. — assegurou Mu ao se aproximar e abraçar Shaka por trás, descansando o queixo em seu ombro por alguns instantes para em seguida se afastar e vira-lo de frente para si, assim podia olhar em seus olhos — Agora, por favor, Shaka, me conte que sinal foi esse que o deixou tão transtornado, pois eu acredito plenamente nas mensagens dos deuses, e saber que dessa vez envolve Kiki só traz tormento ao meu coração de pai.

Shaka fixou a fundo os olhos verdes de Mu, percebendo a preocupação que rondava o ariano. Não era para menos. Desde o nascimento de Kiki, e dada suas circunstâncias, ambos sabiam, e sentiam, que um perigo ainda oculto rondava aquela criança.

— Há alguns dias meu Cosmo anda agitado... — disse Virgem ao pegar na mão de Áries e segura-la firme com a sua — Também tenho tido visões desconexas durante minhas sessões de meditação... Vejo sombras... O mal se erguendo sobre nós.

— O mal? Que mal? — Mu perguntou apreensivo e aflito.

— Eu não sei, Mu, nada me veio com clareza, é apenas uma sensação horrível que eu tenho. — Shaka respondeu com um suspiro cansado.

— Bom, nós temos muitos inimigos...

— Sim, eu sei, mas... esse mal que sinto se aproximar a cada dia de repente cruzou com uma busca que eu já vinha fazendo há algum tempo, e que ontem, somente ontem, tive a resposta.

— O que você estava buscando, Shaka? — Áries perguntou em tom muito sério.

— Eu estava buscando a data exata em que eu existirei em duplicata. O dia em que passado e presente coexistirão no mesmo espaço tempo, e esse dia é hoje, Mu. — afirmou, agitado e convicto.

— O dia do nascimento de Kiki, como disse. — Mu concluiu comovido, mas também em desassossego, então se afastou do esposo um passo para encostar-se ao balcão — Mas... o que era para ser um dia especial pelo visto exige o dobro da nossa atenção. O que o fez concluir isso? Foi esse... mal que disse ter sentido se erguer sobre nós?

— Pode ser, pois enquanto meditava senti cheiro de flores da primavera, e também de maresia e sangue, os mesmos cheiros que senti no dia que encontrei nosso filho. Os sinais se tornaram muito claros, porém... — fez uma pausa e seu rosto assumiu um semblante de preocupação.

— Porém o que, Shaka? Pelos deuses, está me deixando cada vez mais nervoso com esse suspense.

— Porém, junto da alegria do nascimento senti a presença da morte. — disse apreensivo — Não é suspense, estou apenas tentando entender, Mu... Sabe que minhas visões nem sempre são fáceis de interpretar.

Mu piscou os olhos e suspirou, pensativo, tentando clarear um pouco aquele presságio.

— Bom... você claramente pode ter sentido a morte da mãe do Kiki, já que o nascimento dele veio acarretado pela morte dos pais.

Imediatamente Shaka balançou a cabeça de forma enfática em sinal de negação.

— Não! Não!... Não vinha dela.

— Como sabe?

— Simplesmente sei, Mu... A visão que tive agora foi diferente. Nela ainda haviam os mesmos sinais de antes que me mostravam o nascimento do nosso filho, porém as sombras se adensaram e a sensação de perigo iminente era tão sufocante que posso sentí-la ainda agora, enquanto falo aqui com você, e... Havia um corredor escuro... e nele eu vi um bebê que chorava muito, mas não era um choro normal, era sofrido, me causava pavor e medo.

— Um bebê? Kiki?

— Não consegui ver seu rosto, mas era muito novo e tinha a mesma estrutura corporal... — a voz de Shaka de repente ficou mais severa — Estava rodeado por uma energia nefasta, sombras escuras o engoliam, e quando me aproximei ele estava coberto de sangue enquanto devorava as próprias entranhas. — engoliu em seco.

— Pelos deuses! — o lemuriano levou a mão à boca — Isso não é aleatório, não significa nada de bom, Shaka!

— Por Buda, Mu, eu sei! Por isso acordei tão aflito. Sinto que algo muito ruim está para acontecer, e está ligado ao dia de hoje. Talvez ao nosso filho. Você precisa ir até lá, Mu, até a praia. — apreensivo, Shaka segurava o ariano pelos ombros enquanto falava — Kiki nasceu sobre perigo iminente e este ainda o ronda. Só pode ser esse o significado das visões que tive. Eu mesmo iria até lá, mas se aparecer naquela praia temo criar um paradoxo temporal que irá mudar todas as coisas como as conhecemos hoje. Você precisa assegurar que no presente nosso filho nasça em segurança, e que nada aconteça diferente do que eu me recordo daquele dia. Também não pode deixar que meu eu do passado perceba sua presença ali, no presente.

— Sim, eu entendo perfeitamente. — disse Mu encarando os olhos azuis celestes do virginiano.

— Se houver qualquer interferência maligna naquela praia você precisa impedi-la, Mu, e... quem sabe, tentar descobrir quem é a lemuriana que deu a luz a nosso Kiki. Talvez, se soubermos quem era ela consigamos chegar até a identidade do homem que a perseguia... Kiki tem um Karma a cumprir nessa vida, disso eu tenho certeza, e ele está estritamente ligado a nós. Se não o protegermos o Karma do nosso filho não se cumprirá.

— Pode confiar em mim. Não deixarei que nada interfira no dia de hoje. — Mu respondeu com seriedade, puxando Shaka para um abraço.

Ambos estavam muito preocupados e tensos, pois aquele aviso não chegara à toa até o Cavaleiro de Virgem, mas certamente conseguiriam impedir qualquer mal estando alertas.

Permaneceram ali abraçados por alguns instantes, até que Mu se afastou e com um semblante mais tranquilo deixou escapar um sorriso discreto, sendo imediatamente percebido por Shaka.

— O que foi Mu? — indagou o virginiano curioso.

— Só agora me dei conta do quão verdadeiramente somos abençoados Shaka, e de como Kiki realmente é um presente enviado especialmente para nós.

Shaka balançou a cabeça ao modo indiano em sinal de questionamento, e conhecendo como ninguém cada balançadinha diferente, e o que elas significavam, Mu voltou a sorrir, agora com um riso largo, pleno, deixando escapar um suspiro de satisfação, depois segurou no queixo do esposo com o polegar e o indicador e lhe deu um beijo singelo nos lábios.

— Você ainda não se deu conta né? — disse Áries ao fim do beijo — O que é totalmente compreensível depois de tudo que viu nesses presságios ruins, mas é que se Kiki nascerá hoje, no tempo presente, isso significa que nosso pequeno filhote é regido pela constelação de Áries, Luz da minha vida! — disse o lemuriano, pleno de orgulho e alegria.

— Por Buda! — exclamou o virginiano arregalando os olhos azuis celestes.

— E sabe o que isso significa? Meu filho, meu Kiki, é um muviano ariano! Ele herdará minha armadura por direito de nascença, Shaka! — disse Mu, e segurando no rosto do indiano deixou transbordar toda sua emoção — Você não me deu apenas um filho, você me deu um sucessor! Kiki será meu discípulo, transmitirei a ele minhas habilidades de guerreiro, os segredos da minha raça e a arte da forja lemuriana. Minha felicidade não poderia ser mais completa!

Shaka abriu um largo sorriso, entusiasmado e feliz como há dias não conseguia estar devido à preocupação que lhe rondava feito uma ave de rapina.

— Tem razão, Mu! — disse o loiro pousando as mãos sobre as do ariano que seguravam seu rosto — Isso é só mais uma prova de que nossos Karmas, o seu, o do nosso filho e o meu estavam predestinados a se cruzarem e se cumprirem juntos. — puxou o lemuriano para um abraço efusivo e afoito, cheio de energia, e o apertou forte contra seu corpo — Nós estamos no caminho certo, Mu... Kiki é seu filho e seu sucessor, será o guardião de Áries no futuro, e nada poderia deixar Shaka mais feliz!

Mesmo ainda temendo o presente ambos tinham os corações convictos de que tudo fariam para assegurar o futuro do filho, e naquele dia estariam o máximo em alerta.

***

Templo de Gêmeos, 09:52am

Vestido apenas com uma cueca samba canção, pés descalços e os longos cabelos azuis presos de forma desleixada, Saga pendurava o cabide com a última peça de uma roupinha de bebê no armário.

Finalmente havia terminado de arrumar todo o enxoval presenteado por Shaka e Mu, que antes fora de Kiki, mas que o virginiano havia cuidado com tanto esmero que as peças pareciam novas. Junto ao presente Virgem enviou também instruções rigorosas de organização e cuidados a serem seguidas por Gêmeos.

Ainda com as portas do armário abertas, Saga olhava para cada pecinha ali disposta que exalava um cheiro delicado de lavanda glicerinada. Este se espalhava no ambiente iluminado pela luz amarela e alegre do Sol que o invadia através da janela aberta, onde cortinas de um tecido branco finíssimo balançavam junto de pequenos miosótis azuis plantados num beiral.

Aquela manhã de primavera já se iniciava quente e justificava os poucos trajes que o geminiano usava para a tarefa de dar os retoques finais na surpresa que faria à esposa no dia seguinte.

Foi enquanto corria os olhos pelo ambiente já todo organizado que achou a última coisa que faltava ser feita. Em meio a alguns dos embrulhos de presentes enviados pelos amigos cavaleiros estava a faixa decorada de Feliz Aniversário, a qual deveria ser presa à parede. Caminhou até ela já tendo certo na cabeça onde a deveria pregar, mas parou no meio do caminho, pois eis que de repente sentiu uma presença invasiva aproximar-se de seu Templo.

Imediatamente ergueu o labirinto da Casa de Gêmeos, enquanto tomava seu manto de Patriarca que jazia sobre o berço dos bebês para vesti-lo.

Antes mesmo que fosse exigida a identificação do intruso, este se anunciou um tanto afoito, com a voz pigarrenta.

— Grande Mestre, finalmente o encontrei! — anunciou Gigars da entrada da Terceira Casa, ao mesmo tempo em que apoiado em seu cajado fazia uma mesura desengonçada para o vazio deixando evidente sua leve corcunda.

Do interior do Templo, Saga deixou o quarto incólume por seu labirinto e dirigiu-se firme para a entrada, encontrando o assessor ainda curvado a lhe aguardar.

— Bom dia, Gigars. O que houve de tão extraordinário para que não pudesse esperar meu retorno ao Décimo Terceiro Templo? — disse o grego.

— Perdoe-me a intromissão desagradável e minha insubordinação, senhor. — falou o velho ao endireitar a postura e olhar para o rosto do geminiano — Sei que não devo procura-lo neste Templo, mas trata-se de um assunto de extrema urgência.

— Se é tão urgente, vá adiante. — disse Saga, enquanto fazia um sinal para que Gigars o seguisse pelo átrio em direção ao extremo oposto.

— Acaba de chegar a nós uma notificação de uma de nossas sentinelas responsáveis pela guarda de Tenochtitlán. — falou Gigars, que caminhava meio coxo e afoito ao lado do Patriarca.

Ainda sem dar grande importância à afoiteza de seu subordinado, Saga ajeitava o manto em seu corpo enquanto seguia andando.

— Da guarnição do Templo Mayor, no México? — perguntou o grego — O que houve agora? Outra rebelião dos locais? Outro conflito de cunho religioso?

— Não senhor, Grande Mestre...

— Inferno! Aquele lugar sempre nos causando problemas... Mandei mais cinco Cavaleiros de Prata para lá para reforçar a sentinela e manter a ordem. Estão alocados juntamente nas imediações do Templo para garantir a segurança da população e evitar possíveis invasões. Não é possível que eles não consigam dar conta de meros civis e Cavaleiros renegados.

— Não se trata de invasão, rebelião ou conflito algum, Grande Mestre. É bem mais grave que isso. Creio que nem todo nosso contingente de Prata seja suficiente para sanar o problema dessa vez. — disse o assessor com a voz trêmula e visivelmente preocupada, o que fez Saga conter seus passos, parar bem na saída do Templo de Gêmeos e encará-lo com semblante preocupado.

— Vamos lá. O que foi dessa vez? — disse o geminiano.

— O selo de Atena que mantinha o Templo Mayor seguro foi rompido.

— O quê? — Saga arregalou os olhos, surpreso e estupefato.

— Obviamente a guarda não conseguiu conter o que havia lá dentro, mas antes que fossem todos abatidos conseguiram solicitar o reforço prateado.

— Menos mal. — respondeu seco, porém preocupado o Patriarca — E já temos notícias do campo de batalha, suponho?

— Sim, meu senhor, mas não são nada favoráveis. — disse o secretário estendendo para o geminiano um comunicado em papel parco e amassado.

Ansioso Saga tomou o comunicado e ao lê-lo não pode acreditar no que seus olhos viam.

— Foram todos abatidos em batalha, meu senhor. — disse Gigars — Nem tiveram tempo de solicitar nossos reforços, mas felizmente uma das sentinelas conseguiu enviar esse comunicado.

— Cinco Cavaleiros de Prata abatidos... Não posso acreditar! — disse Gêmeos ainda olhando para as letras impressas no papel.

— Grande Mestre, os relatos do mensageiro que sobreviveu são muito mais aterrorizantes. — falou Gigars, que nessa hora tinha os olhos atentos de Saga sobre si — De acordo com ele, os Cavaleiros de Prata se sacrificaram para impedir o massacre total da população civil local, mas isso foi um gesto leviano, pois desconhecendo o inimigo que enfrentam suas mortes apenas alimentaram o poder dele de forma grandiosa. Ainda mais forte ele varreu em minutos os vilarejos locais e consumiu o povo feito formigas... Senhor, analisando esse relato eu creio que estamos diante de uma divindade da poderosa tríade do panteão asteca!

Em um gesto brusco, Saga dobrou o comunicado, o devolveu a Gigars e ordenou em tom muito firme:

— Emita uma convocação de missão de caráter urgente e extraordinário para o Cavaleiro de Virgem, imediatamente.

— Sim senhor, Grande Mestre. — Gigars respondeu fazendo uma reverência enquanto via o Patriarca subir as escadarias das Doze Casas a passos largos.

***

Cerca de dez minutos haviam se passado quando Shaka, trajando sua armadura de ouro sagrada, adentrou o grande salão de reuniões do Décimo Terceiro Templo onde ficava o trono do Patriarca. Havia deixado Kiki aos cuidados de Mu, que naquele dia em especial não desceu ao Templo de Baco para trabalhar na tesouraria, pois, após as revelações acerca das visões que Shaka tivera durante a mediação, já tinha se colocado em alerta à espera do sinal do Cosmo de Virgem que apareceria na praia de Lomvarda a qualquer momento.

O ariano havia enviado um servo até a Casa de Peixes nas primeiras horas da manhã e pedido que avisasse a Afrodite que não iria trabalhar naquele dia, que o pisciano precisaria cobri-lo, já que era Sexta-Feira, dia em que os fornecedores iam até o bordel para reabastecer os estoques de bebidas, e era tarefa de Mu conferir as notas fiscais e fazer o pagamento.

O Santo de Áries sabia que pedindo isso ao amigo sueco o estaria sobrecarregando de tarefas, uma vez que a Afrodite competia também fazer as reservas mais importantes da noite, supervisionar as bacantes, lidar com os pagamentos de programas pré-agendados e, por fim, a tarefa mais difícil de todas: manter Geisty no bordel até Saga lhe dar o sinal de que já poderia deixa-la voltar para a Casa de Gêmeos, como haviam combinado. No dia seguinte era o aniversário da amazona e a festa surpresa que estavam preparando para ela.

Contudo, Mu não tinha escolha, sobretudo depois da convocação extraordinária de caráter urgente feita ao marido, a qual provavelmente mandaria o Santo de Virgem a alguma missão. Sento assim, Mu estava sozinho, e precisava garantir que o evento do nascimento de Kiki na praia ocorresse no presente exatamente como se deu no passado. Depois recompensaria o trabalho que dera a Afrodite com um bom passeio e um dia entre amigos.

Sabendo de tudo isso, Shaka agora se apresentava diante de Saga, que estava no trono do Patriarca, fazendo uma reverência. Não era um bom momento para ser convocado, mas sabia que Gêmeos não o chamaria se não fosse algo extremamente importante, além disso aproveitaria o encontro para notifica-lo que havia chegado o dia do nascimento de Kiki.

— Há tempos não o via com uma expressão tão preocupada no rosto, Saga. — disse o indiano enquanto retirava o elmo — Parece que a situação é grave.

— Sim Shaka, não somente grave, mas exige de poderio bélico especializado, por isso ordenei sua convocação. — disse Saga fitando o Cavaleiro a sua frente — Agora pela manhã recebemos uma mensagem vinda de Tenochtitlán. Foi enviada por um mensageiro membro de nossa patrulha permanente de sentinelas a serviço do Santuário, e único sobrevivente.

— Sobrevivente? — perguntou o virginiano já prevendo o teor soturno daquela conversa.

— Sim. De acordo com o relatório trazido até mim, por razões ainda desconhecidas o selo de Atena que lacrava o Templo Mayor foi rompido e uma das entidades do panteão asteca conseguiu escapar, vitimando a guarda, os cavaleiros de Prata que a reforçavam e também parte da população civil local, mais precisamente os povoados que residiam ao entorno daquele Santuário.

— Por Buda! — exclamou o Cavaleiro de Virgem — Mas, é preciso um Cosmo grandioso para se conseguir romper um selo sagrado, ou... os guardiões locais traíram o Santuário.

— Exato. E eu acredito que estamos diante da segunda opção. — confirmou Saga — Segundo os relatos as vidas ceifadas foram consumidas, um claro sinal de sacrifício humano, prática bem comum a algumas deidades astecas... Infelizmente os cavaleiros que lá estavam não foram capazes de derrotar o inimigo, já que trata-se de uma divindade, não temos certeza de qual ainda. Antes de todos serem derrotados, porém, uma sentinela conseguiu enviar uma mensagem através de uma das bases de comunicação do Santuário solicitando reforços urgentes e maior poder de ataque. Então, Shaka, esse é o quadro que se apresenta para nós. Tudo indica que estamos diante de uma das divindades que compõem a tríade asteca.

De olhos fechados, Virgem franziu as sobrancelhas e pensou por alguns segundos acerca do quadro exposto por Saga.

— Tezcatlipoca. — disse levantando ligeiramente o rosto, imediatamente ligando o fato às visões que tivera onde sentia um mal crescente rondando a todos.

Gêmeos o encarou severo.

— Está falando de...

— O Espelho Fumegante. Divindade da noite, da lua e das estrelas, e senhor do fogo e da morte... Os relatos de sacrifícios humanos apontam para ele, pois, como você sabe, Tezcatlipoca se fortalece através da natureza da alma humana, principalmente de seu lado mais corrupto, e se o selo de Atena foi rompido devido a um ato de traição ao Santuário, então ele teve exatamente o que queria, o pior da alma humana, a força que precisava para se libertar.

— Mas que merda. Era justamente o que eu temia... — disse enfadado o geminiano — E tudo o que menos precisávamos no momento... E justo hoje. — balançou a cabeça em negação com o olhar que fitava o chão, tentando organizar os fatos em sua mente, que até então estava focada somente na surpresa que faria à Geisty.

— Sim, sei bem o que está sentindo... — reclamou Shaka, que tudo que queria era passar aquele dia no Templo de Virgem cuidando do filho e monitorando Mu que iria até a praia — Amanhã é aniversário de Geisty, e está tudo preparado... E hoje... Hoje é o dia do nascimento de Kiki... E uma luta contra um deus caótico não estava nos nossos planos, não é mesmo?

Saga arregalou os olhos, surpreso, encarando o rosto do virginiano.

— Kiki irá nascer hoje no tempo presente? — disse o grego eufórico — Quando? Que horas?

— Eu não sei ao certo. Mu irá monitorar o meu Cosmo e assim que o sentir na praia de Lomvarda então será o momento, mas... Eu tive umas visões, e nelas senti o mal e o perigo nos rondando, a todos nós, mas principalmente a Kiki, pois essa sensação ruim coincide com o dia de seu nascimento, e porque... vi um bebê em sofrimento.

— Um bebê?

— Sim... Geisty e os bebês estão bem? — Shaka perguntou.

— Sim, estão muito bem. A levei ao médico há poucos dias e eles estão ótimos. — Saga disse aliviado, porém preocupado com o que Virgem acabara de dizer.

— Com a graça de Buda! — Shaka suspirou — Então esse mau pressentimento que me aperta o peito está de fato ligado ao rompimento do selo de Atena e ao nascimento de Kiki, mas confio em Mu. Ninguém melhor para proteger nosso filho durante minha ausência do que ele. Tudo correrá bem. Mas, não há tempo para ficarmos aqui deliberando. Há um deus caótico solto no México.

— Certo. Pedirei a Aiolia que acompanhe Mu à praia, pois o conhecendo como conheço sei que não vai desgrudar do pequeno por um só minuto, não é mesmo? — disse Saga, para alívio de Shaka que lhe agradeceu com uma leve reverência — Agora voltemos ao nosso problema iminente.

— Tezcatlipoca! Esse será um bom combate! — disse o Santo de Virgem recolocando o elmo na cabeça.

— Como sabe, Tezcatlipoca é uma deidade que se fortalece através de sacrifícios. Se for combatido agora, logo ao seu despertar, ele ainda estará fraco. — disse Saga — Eu tinha planos de lhe enviar para Tenochtitlán, juntamente com uma companhia composta por cavaleiros de patente menor, para que protegessem a população local enquanto você combatia a divindade, mas diante desse quadro... Não imaginava que seria justamente o pior dos três deuses, e aquele que guarda uma mágoa pessoal com relação à Atena.

— Sim. Ela pessoalmente o selou junto a seus outros irmãos no Templo Mayor, e frustrou os seus planos de dominação antes da última Guerra Santa. — observou Shaka — Ele deve estar sedento por vingança.

— Exato. — concordou Saga — Por isso não posso manda-lo sozinho nesta missão. Sei que é capaz de derrota-lo, mas Tezcatlipoca precisa ser novamente selado.

Dito isso, Saga levantou-se do trono, caminhou até a parte de trás e com extremo cuidado destravou duas pequenas travas que davam acesso a um compartimento secreto. De lá de dentro retirou uma ânfora de terracota e bronze, então caminhou de volta até parar na frente de Shaka e abri-la revelando dois pequenos pedaços de pergaminho onde havia escrito, em grego arcaico, o nome Atena.

— Antes de partir, em sua encarnação anterior Atena nos deixou alguns destes selos santificados com seu próprio sangue, para emergências como esta. — disse Saga — Caso alguns de seus selos fossem rompidos, poderiam ser restaurados sem sua presença carnal.

— E eles só podem ser usados pelo Grande Mestre em exercício, o representante de Atena na Terra e único que pode liberar o seu poder. — concluiu Shaka estendendo a mão para pousa-la no ombro de Gêmeos — Será um prazer lutar a seu lado novamente, Saga.

— Vamos chutar a bunda daquele corno do Tezcatlipoca! — Saga sorriu animado — E de preferência o mais rápido que pudermos, porque eu tenho que estar em casa antes da meia noite para dar o sinal para Afrodite liberar Geisty, e você precisa voltar para ajudar Mu.

— Exato. E amanhã temos uma festa surpresa de aniversário! — Shaka sorriu de volta.

***

Atenas, praia de Lomvarda — 16:30pm

Visitar a praia onde o filho estaria prestes a nascer com este em seus braços definitivamente não era um dos planos de Mu para aquele dia.

Mas, ali estava ele. Oculto entre os rochedos, na parte mais alta, distante da orla. Trajando a sagrada armadura de Áries, tinha Kiki bem preso a seu corpo pelo sling, pois não havia a menor possibilidade de deixar o pequeno no Santuário, aos cuidados de quem quer que fosse, ainda mais depois do tão terrível agouro sentido pelo esposo, durante sua ausência e a de Shaka. Dividindo sua concentração entre esconder seu Cosmo, ocultar sua presença, e também a do filho, ele esperava atento o momento em que Shaka surgiria na praia. Um fenômeno que jamais imaginara presenciar na vida.

Vigilante, com o coração a dar pulos dentro do peito ansioso, Mu corria os olhos verdes no horizonte azul enquanto mantinha uma das mãos sobre a cabeça de Kiki, num gesto instintivamente protetor, até que se deu o momento tão aguardado.

Primeiro veio à presença. Momentos depois, de forma extraordinária, a mãe de Kiki surgiu nas areias brancas de Lomvarda. O elo racial lemuriano permitiu que Mu logo sentisse toda dor, desespero, medo e tristeza que vinham dela.

Os muvianos possuíam uma ligação entre si que ainda era um mistério para os homens, e assim eles queriam que fosse de fato, era sua identidade, sua privacidade, e devido a esse elo o Santo de Áries pode ouvir também seus pedidos por socorro enquanto ao longe sua figura, coberta por uma longa capa, caminhava cambaleante amparando com as mãos a enorme barriga.

Fora muito difícil ouvir as súplicas daquela mulher e ainda assim ignora-las completamente.

Instantes depois um clarão, tão intenso e dinâmico que o fez proteger os olhos com uma das mãos, rebentou na orla da praia seguido de um forte brilho dourado que veio logo em seguida, então Mu pode finalmente sentir o Cosmo poderoso de Shaka.

— Está acontecendo! — sussurrou, agora olhando para o local de onde veio a explosão de luz. Esta rapidamente se dissipou, e ao fim apenas uma aura dourada de brilho magnífico se desenhou entre as areias da praia — Shaka!

Mu reconhecia aquela aura como ninguém. Devido à distância não enxergava com nitidez a figura do Cavaleiro de Virgem, mas sua aura era única, e era ela quem ele acompanhava com os olhos a correr em direção aos rochedos.

Naquele momento todo o resto do mundo se silenciou. Todos os sentidos do Cavaleiro de Áries estavam voltados para a aura dourada que corria na praia, viva, cheia de magnetismo, força e determinação. Não que não estivesse em alerta, mas estava seguro de que tinha a cobertura do irmão de armas que fora designado para acompanha-lo naquela missão. Aiolia.

O Santo de Leão estava um pouco mais afastado, também ocultando seu Cosmo e sua presença, enquanto rondava o perímetro fazendo a segurança de Mu e Kiki. Nada podia dar errado naquele evento.

Apesar de estar ali apenas para observar e assegurar que tudo corresse como fora no passado, aquela missão se mostrava extremamente difícil para Mu. Não que executa-la fosse trabalhoso, mas conter as próprias emoções era o verdadeiro desafio para o ferreiro celestial, que tinha os olhos arregalados, o coração acelerado e tremia da cabeça aos pés, enquanto abraçava com firmeza o corpinho diminuto do filho em seus braços.

Nunca em sua vida Mu imaginou sentir tamanha emoção.

Caso lhe fosse pedido seria incapaz de descrever em palavras a enxurrada de sentimentos que o arrebataram no instante em que viu o encontro, mesmo de longe. A mãe de Kiki na praia ferida de morte, escorada entre as rochas, enquanto Shaka, a Luz de sua vida, o homem por quem tinha um amor maior que as estrelas, corria em seu encalço a amparando em seu braços.

A todo instante o ariano era bombardeado com as fortes emoções vindas da jovem na praia, seu desespero e medo eram quase palpáveis para si, mas logo também sentiu emanar dela confiança, amor. Esses certamente ela se permitiu quando Shaka a deitou em sua capa branca para ajuda-la a dar à luz.

O milagre acontecia diante dos olhos de Mu. Vida e morte se cruzavam.

Enquanto se dava o parto, além de estar sempre atento a qualquer interferência que pudesse ocorrer de súbito, Áries também tinha o cuidado de manter o bebê em seus braços calmo, impedindo que o elo racial que Kiki também possuía os denunciasse à jovem mãe, pois sua presença ali podia criar um paradoxo ou dano no tecido do espaço e tempo caso fosse sentida. Todavia, justamente por Kiki ser ainda muito jovem e não ter desenvolvido o Cosmo, é que sabia que a possibilidade era quase nula.

O pequeno lemuriano já era sensitivo, por isso percebia as emoções emanadas por Mu, mas como se tivesse consciência da importância daquele acontecimento para a própria existência se mantinha estranhamente quieto, sem dar trabalho nenhum pai. Contudo, quando na praia, sobre a capa do Santo de Virgem, veio ao mundo fazendo ecoar seu choro estridente, o pequeno nos braços de Mu se agitou, sentindo a peculiaridade de existir em dualidade no mesmo lugar e no mesmo tempo.

Naquele momento Mu não conteve a emoção e chorou abraçado ao filho, entregando-se a um pranto sofrido, que não por coincidência era partilhado pela jovem mãe na praia.

Vida e morte. Alegria e tristeza. Começo e fim em um só lugar.

A compaixão e o amor que sentiu por aquela mulher desconhecida que o havia procurado naquela praia, e que agora estava prestes a morrer nos braços de Shaka, eram tão grandes que Mu tomou uma decisão extremamente perigosa.

Sabia que não poderia intervir em absolutamente nada. Não poderia salvar a jovem, pois qualquer ínfima alteração nos acontecimentos daquela praia poderiam mudar todo o curso dos acontecimentos já vividos, mas acima de Cavaleiro agora ele era pai.

Aquela mãe iria morrer com a incerteza do futuro de seu filho, confortada apenas pela promessa de um estranho, ainda que sentisse todo amor e compromisso que Shaka empregara a ela.

Mu não podia permitir.

Se não podia salva-la ao menos lhe permitiria que partisse com o coração em paz, sabendo que Shaka cumprira sua promessa, que não apenas lhe entregou o bebê como agora os três formavam uma família repleta de amor, carinho, proteção e felicidade, e que deviam tudo isso a ela.

Sem ponderar uma segunda vez, até porque não havia mais tempo, já que a jovem tinha acabado de entregar o bebê a Shaka e dava seus últimos suspiros, Mu conectou a mente de Kiki e a dele próprio com a dela, a tornando capaz de perceber a presença do Cavaleiro de Áries ali, bem próximo, e milagrosamente do próprio filho em seu colo. Ela deu um longo suspiro, já sem forças para qualquer outra manifestação, e não procurou nem entender como acontecia aquele milagre, mas apenas sorriu ao ser inundada por um sentimento de amor tão intenso e reconfortante que de imediato afastou qualquer sombra de pesar, medo e incerteza que pudesse carregar na alma enquanto fizesse a passagem.

Em seus derradeiros momentos, milhares de memórias e imagens felizes de seu pequeno Kiki ao lado dos pais adotivos lhe invadiram a mente, enviadas através do elo telepático criado por Mu, e já de olhos fechados, a beira da inconsciência, mãe e filho se reencontraram.

Ao sentir a presença da mãe, Kiki deu um forte ofego e arregalou os olhinhos lilases, depois sorriu, completamente envolvido pelo amor vindo dela.

O reencontro não durou mais que meros segundos. Quando Mu sentiu seu coração acelerado ser inundado de paz e gratidão foi que se deu conta de que tudo havia se findado. A lemuriana havia morrido, e na praia Shaka segurava sozinho Kiki nos braços enquanto chorava emocionado.

A mesma emoção sentia Mu, que do alto do rochedo via o Karma se cumprir abraçado ao filho. Dali também ele viu quando Shaka, minutos depois, envolveu o corpo da lemuriana em sua capa branca, segurou firme Kiki em um braço e amparando os dois elevou seu Cosmo. A sagrada armadura de Virgem que estava montada a seu lado ressoou, como num canto glorioso, e no instante seguinte houve um novo clarão, intenso e ainda mais dinâmico.

Mu fechou os olhos em reflexo, pois a forte luz era tão brilhante que era impossível olhar para ela. Naquele instante tanto Mu quanto Aiolia sentiram um forte abalo em seus Cosmos, indicativo de que ali realmente acontecia a interferência de uma força maior, e quando a luz se dissipou e Mu pode olhar para aquele ponto novamente tudo havia terminado.

Shaka, Kiki e sua mãe não estavam mais ali na praia. Tudo havia corrido exatamente como fora no passado.

Mu então fechou os olhos e fez uma prece silenciosa, agradecendo àquela força divina que tornou tudo aquilo possível, depois soltou um longo suspiro e logo ouviu a voz de Aiolia o chamando.

— Mu! — dizia Leão enquanto subia o rochedo — Eu vi o clarão e senti o Cosmo! Ele já se foi? Podemos descer e vasculhar a praia?

Quando chegou até o topo do monte, Aiolia tocou o ombro de Mu, que nem se mexeu. Parecia paralisado, ainda em choque, então Leão se posicionou em sua frente e tocou de leve seu rosto.

— Ei, Mu!

Áries piscou os olhos verdes, voltando à realidade quando olhou para o rosto do leonino.

— Aiolia!

— Eu imagino que o que viu nessa praia deve ter sido algo realmente forte e muito emocionante para você. Sinto seu Cosmo ainda abalado, mas nós não podemos ficar aqui, não podemos perder tempo. — disse o grego.

— Você tem razão. — Mu respondeu ao enxugar as lágrimas de seu rosto — Eu acreditava que estava preparado para esse momento, mas ver Shaka fazer o parto de Kiki, sentir a morte da mãe dele... — fez uma pausa, tomando novo fôlego — Confesso que tudo foi muito mais intenso do que eu supunha.

— Eu imagino, meu amigo. — Aiolia sorriu amigável e fez uma carícia no pequeno bebê que agora estava agitado e atento a tudo ao redor — Eu estava distante e não pude ver nada, mas eu senti. Jamais imaginei presenciar algo parecido, Mu. De fato esse pequeno é especial.

Mu sorriu de volta.

— Sim. — disse o lemuriano.

— Bom, mas temos que dar seguimento à missão. — prosseguiu Aiolia.

— Está certo. Vamos descer e vasculhar toda aquela área próxima aos rochedos. — o ariano apontou com o dedo para a direção mencionada — Estamos à procura de qualquer pista que possa indicar a identidade da lemuriana ou do homem que a perseguia. Não sei dizer se ele chegou até aqui, portanto qualquer pista é relevante, desde pegadas a objetos, o que for.

— Entendido.

— Eu vou na frente e você me dá cobertura. Não sabemos quem estava atrás daquela mulher, portanto todo cuidado é pouco. Fique alerta. — disse Mu, depois apanhou do chão a seu lado uma bolsa maternidade com alguns pertences de Kiki e a ajeitou no ombro.

Aiolia acenou afirmativamente com a cabeça e ambos saltaram para a praia juntos.

A primeira coisa que encontraram foi a longa capa que a jovem mãe usava, junto de sua roupa íntima, ambos jogados na areia.

— A capa é feita de pelo de iaque. — o ariano constatou ao analisa-la.

— Isso é lá da sua terra não é? — Aiolia disse, esperançoso por descobrirem algo.

— Sim, mas não me diz muita coisa... O tecido é muito antigo, veja essas marcas de traça. — o lemuriano mostrava os sinais do tempo ao companheiro de armas — O modelo também não bate com roupas tibetanas. Me parece mais uma herança antiga, um cobertor recosturado como vestimenta. Não me diz muita coisa, já que havia muitos de nós no Tibet no passado. Precisamos achar algo mais palpável.

— Entendi. Vamos ver se ela deixou alguma trilha.

Mu concordou, e após enviar a capa por telecinese para o Sexto Templo a fim de investiga-la melhor mais tarde, ele e Aiolia vasculharam cuidadosamente cada metro quadrado da orla por algum tempo sem achar mais nenhuma pista, o que tornava aquela busca frustrante para o ariano, até que Mu pareceu perceber uma trilha na areia que permeava os rochedos. Eram as pegadas da mulher.

— Como eu imaginei. — disse o ariano analisado as marcas no solo — Surgem do nada.

Seguiram por ela contando uma curta caminhada, então de repente Mu parou assumindo um semblante apreensivo.

— A trilha que ela deixou acaba aqui, de repente. — constatou Aiolia apontando para manchas de sangue na areia. Eram recentes, o vento não as havia ainda encoberto.

— Sim, ela usou teleporte. — disse Mu que se abaixou e tocou a areia ainda úmida. Com a outra mão amparava Kiki em seu colo.

— Quer dizer que antes de estar aqui ela poderia estar em qualquer lugar do planeta? — disse Leão correndo os olhos pelas imediações.

— Sim e não. Não são todos os muvianos que têm os dons desenvolvidos a ponto de fazer um teleporte entre continentes. Mas, mesmo que ela fosse capaz, posso afirmar que não estava longe daqui. Em um estado de gravidez tão avançado ela não iria arriscar um teleporte de longas distâncias, ou... Talvez ela tenha se teleportado em distâncias curtas até chegar aqui, o que torna inviável seu rastreamento. Ainda que pudesse sentir a energia de sua aura seria praticamente impossível rastrear um ponto de partida.

Mu se colocou novamente de pé, frustrado e um tanto aborrecido, pois tudo que mais queria era encontrar alguma pista daquela mulher, saber quem era ela, de quem fugia, e por que foi atacada daquela forma tão violenta e covarde.

— Se ela poderia estar em qualquer lugar do planeta antes de aparecer aqui, então é praticamente improvável que o homem que a perseguia chegue até essa praia, e improvável que descubramos quem ele é. — lamentou Aiolia — Por outro lado, isso também quer dizer que Kiki está seguro, já que ele nunca saberá que aqui se deu seu nascimento e que Shaka o levou para o Santuário. Correto?

Mu suspirou, tenso.

— Em termos, pois não sabemos com quem estamos lidando. — disse o ariano ainda averiguando as marcas no chão — Muvianos não são presas fáceis. Não é à toa que vivemos a milhares de anos em comunhão com a raça humana e são muito poucos os que sabem da nossa existência. Por isso, tudo me leva a crer que quem perseguia a mãe de Kiki é um exímio conhecedor de minha espécie... Shaka me disse que o marido dela, o pai de Kiki, se sacrificou para que ela pudesse ter a chance de fugir com o bebê, então isso quer dizer que o homem que a feriu de morte não apenas encontrou sua família como foi capaz de executar um lemuriano adulto facilmente... Nós protegemos os nossos, Aiolia... Com a vida se preciso for. O pai de Kiki sabia que estava enfrentando um adversário poderoso, por isso entregou sua vida para salvar a esposa e o filho.

— Por Atena! Quem pode ser essa pessoa, e o que ele queria? — disse um aflito Aiolia enquanto corria os dedos pelos cabelos num gesto angustiado.

— Eu não sei, mas seja o que for está relacionado ao Santuário. — disse Mu — A mãe de Kiki poderia ter se teleportado para qualquer lugar desse mundo, para um hospital, e ter salvo a vida de ambos, mas ela veio para cá, à procura do Cavaleiro de Áries. Certamente ela conhece o paradeiro de outros muvianos para quem poderia confiar o filho, mas ela veio até mim, ou seja, quem a perseguia e ao seu bebê talvez só possa ser detido por um Cavaleiro de Ouro.

— E somente com um Cavaleiro de Ouro seu filho estaria verdadeiramente seguro. — concluiu Aiolia.

— Exato, o que nos coloca diante de um inimigo poderoso, com alcances e influências mundiais. — acrescentou Mu, que de repente se calou e arregalou os olhos, visivelmente surpreso e um tanto apreensivo.

— O que foi, Mu? — Aiolia perguntou de pronto.

— Jamiel! — disse o ariano com a face pálida.

— O que tem Jamiel? — Leão inquiriu alarmado.

— Sinto uma presença nas imediações da montanha. Forte e... — franziu a fronte cerrando os olhos, se concentrando, até aquela presença se tornar mais clara — Não me parece ao todo desconhecida, mas não consigo identificar ... — disse não muito convicto.

Agitado, Mu elevou seu Cosmo enquanto já lançava a Aiolia um olhar de alerta.

— Aiolia, enquanto estamos aqui alguém está rondando a terra sagrada do meu povo. Isso não me parece coincidência. Preciso ir para Jamiel imediatamente. — disse Mu.

— Eu vou com você. — Leão se colocou a postos para acompanha-lo.

— Não. Jamiel é minha responsabilidade.

— Deixa de marra, Mu. Responsabilidade sua ou não, não posso deixar que vá sozinho, ainda mais segurando um bebê no colo. — retrucou Aiolia, convicto — Depois, a pessoa que está tentando acessar Jamiel pode ser a mesma que matou a família de Kiki. Eu vou com você.

O ariano respirou fundo procurando calma, mas não podia deixar de admitir que o amigo estava certo.

— Está bem, mas vai ser dentro das minhas regras, ok?

— Ok! — Aiolia concordou.

Mu então fechou os olhos, enrugou a testa quase unindo os pontos dada a sua concentração, e no instante seguinte estavam os três ao pé de um dos muitos picos que compunham a gigantesca cadeia de montanhas do Himalaia.

Imediatamente a escuridão e o vento frio os atingiu em cheio, pois com uma diferença de cinco horas no fuso horário o que antes era um fim de tarde quente na Grécia, agora se fazia noite avançada no território tibetano.

— Pela deusa, que frio! — Aiolia reclamou assim que sentiu o baque, depois olhou ao redor e com certa dificuldade percebeu que estavam no que parecia ser o começo de uma trilha que subia as montanhas.

— Deve ser quase dez da noite aqui. — disse Mu que prontamente usou o Cosmo para aquecer Kiki e protege-lo dos ventos cortantes — Esfria muito rápido, já que o terreno é praticamente um deserto rochoso. As pessoas já devem estar adormecidas nas pequenas vilas... Você vai ficar aqui.

— Não quer que suba com você? Está muito escuro, e você subir com Kiki sozinho pode ser arriscado.

— Não. Prefiro que fique no pé da montanha. É mais seguro. Essa trilha segue em direção a Jamiel, mas ela tem inúmeras bifurcações que levam também a outros lugares e à armadilhas mortais. Quem quer que seja que esteja tentando chegar à minha torre certamente está caminhando por essas trilhas. Eu vou subir até Jamiel e fortalecer os encantos de defesa, depois vou vigiar os labirintos e as entradas. Se o invasor estiver na montanha...

— Então eu subo e nós pegamos ele! — disse um eufórico leonino.

— Ou se ele fugir por essa trila você segura ele aqui embaixo e me contata imediatamente. — disse Mu.

Aiolia tocou o ombro do companheiro de armas e foi retribuído da mesma forma.

O Santo de Áries então lhe deu as costas e caminhou para a trilha, desaparecendo após poucos passos como se fosse engolido pela montanha.

***

Templo de Baco — 9:11pm

Com cara de poucos amigos, um cigarro apagado preso entre os lábios enquanto tentava insistentemente riscar um isqueiro que era apagado pela brisa fria da noite, Máscara da Morte iniciava, a pouco mais de quinze minutos, mais um expediente no Templo das Bacantes.

Sem o seu fiel ouvinte de todas as noites, Shura, como companhia na entrada do bordel, o canceriano lamentava o infortúnio de ter de trabalhar sozinho, o que o deixava irritado e impaciente.

O Cavaleiro de Capricórnio havia sido designado para fazer a guarda das Doze Casas Zodiacais, já que, em uma situação completamente extraordinária, naquela noite todos os Cavaleiros de Ouro estavam ausentes de suas casas. Não completamente ausentes, visto que o Templo de Baco ficava há poucos metros do Santuário, portanto Aldebaran, Afrodite e Máscara da Morte estavam de sobreaviso. Bastava um chamado do Cosmo do capricorniano e eles já estariam a postos para guardar suas respectivas Casas.

Quando finalmente conseguiu acender seu cigarro, Máscara da Morte avistou a poucos metros um grupo de cinco homens se aproximando das escadarias da entrada, estavam elegantemente vestidos em ternos de fino corte, cachecóis de caxemira, chapéus, luvas de couro e sapatos de croco. Pareciam saídos das páginas de revistas da mais alta moda europeia, ou do caderno policial dos jornais italianos.

Um deles, o que parecia ser o mais velho do grupo, se apoiava em uma bengala luxuosa, preta envernizada com empunhadura dourada. O canceriano não conseguiu distinguir, mas parecia conter o formato de um animal feroz. Talvez um lobo, ou urso.

Porco cane! Ma nem o mio cigarro posso fumar. Cazzo! — resmungou entre dentes dando uma longa tragada e jogando o cigarro no chão para apaga-lo com um pisão.

— Boa noite. Reserva para cinco em nome de Stefan Klimenta. — disse em grego claro e fluido o mais bem alinhado de todos do grupo, e que vinha à frente. De postura imponente, cabelos prestos, olhar altivo e porte elegante, aparentava ter não mais que trinta e poucos anos.

Rapidamente Máscara da Morte correu os olhos pela lista de reservas da noite contatando o nome citado.

Quando começou a revistar o grupo, viu subir as escadarias um trio de jovens visivelmente embriagados. Apoiados um no outro, e dividindo uma garrafa de vodca que passava de mão em mão, eles riam, gesticulavam e falavam alto fazendo algazarra. Máscara da Morte logo viu que eram russos, pois o cheiro da bebida era sentido de longe e as camisas abertas deixavam à mostra as tatuagens típicas que os identificavam como membros da máfia.

Diante do olhar reprovador dos clientes que aguardavam a autorização para entrar, Máscara da Morte acelerou a revista e não encontrando arma nenhuma permitiu a entrada da comitiva elegante.

— Podem entrar, e sejam bem vindos ao Templo das Bacantes. — disse o italiano sem muito entusiasmo, dando passagem ao grupo para em seguida se dirigir aos três beberrões russos.

— Ei, vocês três. Qui é um puteiro de classe, cazzo! — encarou os homens bloqueando a passagem — A reserva está em nome de quem?

Um dos três, o que aparentava estar menos bêbado, respondeu em grego com um fortíssimo sotaque russo:

— Não precisamos de reservas, seu otário, nós somos da Vory v Zakone.

— Olha só! Io non sabia que merda falava! — disse o canceriano arqueando uma sobrancelha, fazendo cara de deboche.

— O que foi que você disse? — retrucou o russo estufando o peito magro.

Io disse que você é um bosta. — sorriu sarcástico, mas antes que o russo pudesse revidar seu colega, atento, tomou a frente jogando as chaves do carro para Máscara da Morte que as pegou no ar, num reflexo impensado.

— Chega disso. Eu vim aqui para beber e foder, não para ficar batendo boca com o segurança dessa espelunca. Anda, estaciona nosso carro. — disse ele, já puxando os outros dois colegas para dentro do estabelecimento, já que tinham o privilégio de não passarem pela revista.

Quando pensou em revidar, Máscara da Morte foi abordado por outros dois homens que tinham acabado de chegar. Estes vestiam ternos claros, despojados, e um deles ostentava uma chamativa camisa de estampa florida com muitas borboletas.

— Boa noite. Reserva para Lars Werner. — disse um deles, o mais alto, com um fortíssimo sotaque austríaco.

Máscara da Morte respirou fundo, procurando se acalmar.

— Buonna notte, ma va, va bene, pode entrar. — respondeu injuriado enquanto olhava para o pátio de entrada e sinalizava para um dos manobristas vir apanhar as chaves do carro dos russos.

Enquanto isso, no salão o grupo formado pelos cinco homens que chegaram primeiro se acomodava na mesa que havia sido reservada para eles. Esta ficava em um dos cantos do ambiente, posicionada discretamente entre o palco de pole dance e um dos sofás luxuosos de veludo vermelho, lugar onde havia pouca luz, mas que permitia uma visão ampla de boa parte do salão.

Um ponto estratégico.

Recolhido no canto mais escuro, e com seu rosto parcialmente incógnito pelo chapéu, o homem mais velho do grupo inclinou-se levemente para o lado, pousou na mesa a mão coberta pela luva negra de couro e sussurrou próximo ao ouvido do que estava sentado ao lado.

Já chegaram todos?

O ouvinte correu rapidamente os olhos pelo salão, em pontos táticos, depois fez um sinal para um dos garçons enquanto respondia sorrindo disfarçadamente.

Sim, meu Vor. Estão tomando os seus lugares.

Ótimo! E os motivos da nossa visita? — perguntou enquanto coçava o queixo recém-barbeado.

Os alvos por enquanto não estão visíveis. — o outro respondeu apanhando um cigarro da cigarreira que acabara de retirar do bolso do casaco.

Então, enquanto não começamos, mande servir uma vodca. — disse por fim o mais velho se recostando no sofá.

Seus olhos viperinos corriam ágeis por todo o salão. Acompanhou atento os três russos que se identificaram como membros da Vory v Zakone se sentarem na mesa bem no meio do salão. Enquanto chamavam um garçom, de forma exasperada, riam e conversavam fazendo sinal às prostitutas que de pronto foram juntar-se a eles na mesa.

Em seguida viu a dupla que chegou pouco depois. Estes cruzaram todo o salão e ocuparam uma pequena mesa na aresta oposta, bem ao fundo. O homem trajando camisa de estampa florida com borboletas meneou ligeiramente a cabeça quando seus olhares se cruzaram.

Satisfeito, avistou pelo salão mais alguns rostos conhecidos, e então um sorriso nefasto se desenhou no rosto grave de rugas expressivas de Dimitri Yurievich Volkov.

Negrito— traduzido do russo.

Notas finais
Nosso grupo no face "Fics trio ternura" : https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/ Tumblr da Ju com várias fanarts da fic https://rosenrotstuff.tumblr.com/