Notas iniciais
Mais um Cap, e as coisas agora começam a se complicar. hmmmm Arte da capa feita por Juliana/Rosenrot

Templo de Baco, 22:00pm

Pouco mais de duas horas após a casa abrir suas portas esta já tinha o salão quase lotado.

Entre as tantas figuras importantes da alta sociedade grega que marcavam presença vitalícia ali, estava o bonachão Prefeito de Atenas junto de seu fiel secretário, ocupando a mesma mesa ao fundo do recinto desde a abertura da casa.

— Já são dez horas... — murmurou com voz pigarrenta o homem gorducho de terno branco —... Ele sabe que não tolero esses atrasos dele. — chacoalhava impaciente a perna esquerda debaixo da mesa — Liga de novo para o calhorda do Saga. Se esse puto miserável dele não aparecer em meia hora o alvará está suspenso!

— Estou tentando, senhor, mas o celular dele está fora de área. — respondeu o secretário que discava freneticamente o número do geminiano.

— Continue tentando. — roncou Praxédes enquanto fazia um sinal para o garçom e coçava o umbigo por cima do tecido de algodão da camisa — Não é a primeira vez que Afrodite me faz isso.

— O senhor não quer subir com a vadia? Ela está ali! — disse o secretário apontando para Geisty que estava no bar sentada no balcão a conversar com algumas das bacantes — E parece que está disponível.

— Não. — respondeu Praxédes antes de fazer o pedido ao garçom, mais uma dose de whisky, depois voltou-se ao assessor quando ficaram sozinhos na mesa novamente — Hoje eu vou foder aquele puto maldito de uma forma a deixar bem claro que nunca mais me deixe esperando... Parece que ele ainda não entendeu quem é que manda aqui.

Ainda esbravejando entre bufadas e pigarreadas, o Prefeito levou um charuto à boca mastigando raivoso a ponta, enquanto de longe media Geisty no bar. A troca sugerida pelo assessor era de fato tentadora, porém era seu orgulho que estava em jogo.

Naquela noite mostraria a Afrodite quem é que mandava naquela pocilga.

No bar, Geisty aguardava junto dos outros clientes que Aldebaran viesse atender seu pedido. Quando os olhos de Touro encontraram o rosto festeiro da amazona de Serpente ali este lhe deu uma piscadinha simpática, então Geisty gesticulou com a boca o seu pedido.

Clientes já atendidos, e com o drink sem álcool em mãos, o taurino encostou-se ao balcão para jogar alguns minutos de conversa fora com a italiana.

— O que manda de novo, dona patroa. — falou o apelido em voz baixa, depois lhe entregou o drink emendando uma gargalhada.

— Nada de novo. Como você mesmo diz, só notícia velha. Mas, e o... — Geisty falava discretamente para não citar o nome do amado ali, mas Touro foi mais rápido e a interrompeu já respondendo.

— Patrão ainda não chegou não. Nem o carcamano doido das cabeças. Pelo visto hoje aqueles dois vão é ralar o cu na pedra. — disse o brasileiro com o cotovelo encostado no balcão enquanto se distraía sugando uma rodela de limão que se perdeu de um copo qualquer de caipirinha.

— Que? — a amazona olhou confusa para o cavaleiro, com as sobrancelhas soerguidas e abandonando o canudinho colorido de seu drink de uva sem álcool.

— Vão trabalhar pra cacete hoje. — disse o taurino dando uma gargalhada — Máscara tem hora que baixa um encosto de Dom Corleone naquele couro dele, daí ele faz umas cavalices que não dá pra entender. Aí tu já sabe, né... O patrão tem que ir lá por o pau pra fora e bater na mesa pra mostrar quem é que manda na parada.

Ao ouvir aquilo Geisty ficou escandalizada. Levou a mão à frente da boca semi aberta para tentar tapar sua indignação, muda diante do que lhe parecia uma enxurrada de absurdos sem o menor sentido.

Ao perceber a cara de espanto da italiana, Aldebaran se debruçou no balcão e perguntou preocupado:

— Que foi, Geisty?

Um segundo de silêncio se fez entre eles até que a amazona perguntou incrédula elevando o tom de voz:

— Aldebaran! Porca madonna! Ma... ma per che mio... — reduziu o tom a um cochicho — Para que ele haveria de pôr o... o pau para fora e bater em uma mesa? Pela pureza da deusa! Que merda de hábitos vocês seguem nessa máfia? Não era só matar, esfolar, traficar e extorquir, não? Caspita! — resmungou cheia de propriedade dando um tapa no balcão. A mente já tecia uma dúzia de insultos, argumentos e desaforos ao marido para assim que o visse.

A resposta do taurino veio depois de uma gargalhada sonora e contagiante.

— Não! Ai, ai, calma, que minha pança até doeu agora. Isso não é no sentido da parada, não. — gargalhava com gosto ainda enquanto explicava — Eu quis dizer que o homi foi lá por ordem na casa, só isso. Foi resolver os caô com os caras lá.

— Ah tá... — disse aliviada a amazona, e antes que pudesse continuar com o assunto percebeu a aproximação de três Bacantes que vinham em direção ao bar e achou por bem o dar o assunto por encerrado.

Animadas e sorridentes como sempre, as três jovens encostaram-se ao balcão cumprimentando o cavaleiro e a amazona.

Rebeca, a mais simpática e efusiva da casa, era só sorrisos.

— Geisty, nós estamos sentindo a sua falta aqui pela manhã, viu! Poxa, desde que voltou a morar na vila das amazonas não te vemos mais por aqui a não ser nos horários do expediente. — disse com a mão no ombro da amazona que lhe sorria de volta enquanto em coro as outras duas concordavam.

— Ah... Infelizmente eu também tenho compromissos com o Santuário. Não posso faltar com ele, mas também sinto muita falta da companhia de vocês. — disse sincera — E falta de pôr a fofoca em dia. Pelo menos temos as noites todas para isso. — completou sorridente a italiana.

— Ah, mas não é a mesma coisa, Geisty. Né, Debão? — perguntou Rebeca se voltando para o brasileiro que participava da conversa das moças.

— Não mesmo! Eu sinto falta das brigas da italianada todo dia antes de iniciar o expediente. — confessou Touro.

— Isso é verdade! A Shina, por exemplo, vive mal humorada quando você não está aqui. Nem dá as caras no salão direito, só dorme. — disse Karina, outra das jovens que estavam ali participando da conversa.

— Mas também ela dá pra cacete, né? Haja disposição! Deixa a pobre descansar. — Aldebaran falou quase aos berros, entre risos descontraídos que foram acompanhados pelo coro de risadas femininas.

De repente o assunto chegou.

Vaffanculo vocês todos! Eu trabalho muito mesmo. — disse Shina no alto de sua voz potente e firme, interrompendo o coro de risadas — O que vocês tanto falam aí, heim? Não têm assunto melhor para fofocar do que falar da minha vida, não? — levando em tom de brincadeira a amazona agora ria junto das colegas e do cavaleiro. Estava ainda meio ofegante, pois tinha acabado de executar uma apresentação para lá de sensual no palco.

— Credo! A gente nem estava falando de você. Estávamos falando que sentimos falta da Geisty aqui de manhã com a gente agora que ela está morando na vila das amazonas. — disse Fúlvia fazendo um bico com os lábios delineados em lápis rosa e muito gloss.

— Hum... Geisty agora tem outras obrigações para com o Santuário. — Shina explicou com uma pontada de ironia, depois olhou de soslaio para Geisty que lhe devolveu um sorriso igualmente irônico — Oh! Como sofre essa pobre alma tão requisitada... Tantos afazeres e compromissos... — completou prendendo o riso.

Geisty meteu o canudinho na boca baixando os olhos para segurar o riso, sem acreditar no que aquela debochada fazia.

— Mas, vez ou outra, quando der, sei lá, vocês bem que podiam vir passar o dia aqui com a gente... — disse Karina —... Ninguém aguenta mais as piadas do Máscara da Morte, sem contar que ninguém as entende. E o Shura? Mal fala com a gente.

— Humpf, Shura parece que morreu e esqueceu-se de deitar. — acrescentou Fúlvia arrancando mais gargalhadas das moças e também do barman.

— Nossa, sem contar que eita homem pão duro, né? Nunca sobe com nenhuma de nós, e quando sobe não dá nem um agradinho. — falou Karina.

— Isso quando não pede desconto. Cruz credo! Não tô podendo não. Preciso legalizar logo a minha situação aqui na Europa. Estou quase conseguindo a minha documentação como cidadã portuguesa, e isso custa dinheiro. — disse Rebeca.

— Bom mesmo é o Milo... Ah, seu Milo! Esse sim dá gosto de atender! Além do agrado generoso na gorjeta ainda agradava na cama. — disse Fúlvia revirando os olhos.

— Eu também estou sentindo falta do Milo... — Karina completou soltando um suspiro — Ele chegava aqui sempre de bom humor, animado, carinhoso com todas... Shina, Geisty, vocês não têm notícias dele?

— Hum, olha só! — disse Fúlvia às gargalhadas — Tem gente com saudades do loirão gostoso!

As duas amazonas se entreolharam meio apreensivas. Aldebaran imediatamente murchou o sorriso farto que tinha no rosto.

Geisty deu um gole nervoso em sua bebida tentando desviar o olhar das outras, então Shina, que após um suspiro derrotado, respondeu à pergunta da doce bacante loira.

— Estamos sem notícias dele. — disse ríspida e direta — Deve estar agarrado a alguma missão dada pelo Santuário.

— Mas... tanto tempo? Já faz alguns meses que ele não aparece por aqui. — falou Karina.

— Pois é. Você deve saber que Milo, além de trabalhar para o Santuário também trabalha para a máfia, né Karina. É ele quem abastece a maioria dos bordeis russos que funcionam em solo europeu... como esse, por exemplo.

— Ah... Que pena! — suspirou a bacante visivelmente saudosa do escorpiano.

— Ai, amiga, desencana. — falou Rebeca — Aquele lá nunca vai ser de ninguém, a não ser da vida.

— Qual é, Karina? Se derretendo pelo loiro mulherengo? Coitada. Larga e ser trouxa. — disse Fúlvia debochando da colega.

A bacante loira de expressão gentil na mesma hora fechou o semblante e não deixou barato a provocação.

— E quem é você para chamar alguém de trouxa, Fúlvia? Ridícula. Não se enxerga, fica dando em cima do Senhor Mu mesmo sabendo que ele é um homem decente e casado, com outro homem, ainda por cima. O coitado foge de você igual o diabo da cruz. Portanto, a única trouxa que tem aqui é você, que ainda não aceitou que da fruta que você gosta o Senhor Mu chupa o caroço e ainda lambe as cascas. Iludida.

A bacante de longos cabelos platinados não esperava por aquela reação da colega, que aborrecida saiu dali embrenhando-se entre as mesas do salão.

Fúlvia tinha a sensação de que havia sido atropelada por um estouro de boiada.

Já Rebeca, Shina e Aldebaran não se fizeram de rogados e gargalharam com vontade da cara da bacante que de tão corada parecia um tomate maduro.

— Toma essa, Fúlvia. Só para você dormir quentinha hoje. — riu o taurino quase aos berros, depois também se retirou do grupinho para servir alguns clientes que o solicitavam ansiosos.

Enquanto Rebeca e Shina riam da bacante, Geisty acercou-se dela enxugando o cantinho do olho esquerdo que lacrimejava de tanto que tinha rido, e não deixou barato para a platinada.

— Se eu fosse você, Fúlvia, tomava cuidado com o marido do Mu. Sei que já te falaram isso, mas você parece que não sabe o tamanho do perigo. Dizem que ele deixa as pessoas com aleijos permanentes. Vai que ele te priva da visão para que você nunca mais lance esse teu olhar cobiçoso sobre o marido dele.

— Exatamente! — emendou Shina.

— Hum... pois eu conheci o moço monge e ele até me pareceu bem inofensivo. — disse Fúlvia.

— É que ele é cachorro grande, né Fúlvia. Ele não late... Quando tem que agir ele já te morde de uma vez. Nhac! — Shina simulou uma mordida com as mãos — Diferentes de certos homens que fazem o maior barulho e quando têm que agir desaparecem no mundo. — suspirou pesarosa.

— Está falando do Milo? — perguntou Geisty.

Shina apenas afirmou com um leve balançar de cabeça.

— Está sentindo falta dele, né?

— Eu? Claro que não! Aquele lá já é figurinha repetida no meu álbum.

— Para, né Shina! Pela deusa, o difícil é achar quem não seja figura repetida nesse teu álbum. — disse Geisty.

— Daqui do bordel ou do Santuário? — perguntou debochada.

— E faz diferença, Shina? — inquiriu a morena segurando o riso.

— Digamos que eu sei aproveitar a vida! — sorriu animada.

— Disso eu não tenho dúvida! — concluiu Geisty, que correndo os olhos pelo salão os bateu novamente em uma figura que reparou estar olhando para si desde que chegara ali no bar. Um homem que estava sozinho em uma mesa discreta à esquerda do balcão — Falando nisso, você, que é uma conhecedora eximia dos nossos clientes, sabe me dizer quem é aquele homem sentado à esquerda no canto que olha insistentemente para nós? Eu tenho a ligeira impressão de tê-lo visto essa semana aqui, mas nunca antes... Sabe quem é, e se é frequentador novato? — perguntou intrigada, porém sem fazer grande alarde.

Ofiúco, diferente das outras bacantes, na mesma hora percebeu a preocupação da amiga e discretamente buscou o reflexo do tal sujeito através de um dos espelhos do bar. Assim pôde analisa-lo de forma detalhada sem ser notada.

— Acho que também o vi essa semana aqui no Bordel sim, mas não o atendi e ele nunca enfiou dinheiro na minha calcinha... Não me lembro de tê-lo visto por aqui antes disso.

Se voltando para as moças Geisty perguntou curiosa:

— E alguma de vocês? Já atenderam aquele homem? — fez um sinal com os olhos.

— Eu já. — respondeu de pronto Rebeca — Gostei dele, me deu uma gorjeta boa.

— Ah, foi? Que bom! E... Por acaso ele é esquisitão? Tipo, tem gostos estranhos, excêntricos... muitas tatuagens? — Geisty tentava sondar à angolana.

— Não. Não tem tatuagem nenhuma. — respondeu Rebeca — Quando bati o olho nele até achei que fosse lá dos russos, mas não é não. Me pareceu um cara bem tranquilo, além de gentil e educado. Também não pediu nada de diferente... Foi bem normal!

— E ele é daqui mesmo? Ou você percebeu algum sotaque?

— Búlgaro... Ele fala grego fluente, mas tem sotaque búlgaro bem acentuado. Me lembro de ter perguntado e ele afirmou que é de lá. E vocês sabem que eu falo à beça, né? Aí eu fui conversando, ele também, e no fim falamos muita coisa, mas se eu entendi metade foi muito, porque meu inglês não é lá dos melhores, né? — enquanto falava Rebeca gesticulava, revirava os olhos, balançava a cabeça e enrolava os longos fios do aplique no dedo indicador como se puxasse pela memória alguma outra informação.

— E ele perguntou alguma coisa? — insistiu Geisty.

— Tipo o quê?

— Ah... tipo, perguntou algo sobre a Casa... Sobre nós...

— Ah! Perguntou sim. Ele quis saber dos nossos horários de funcionamento e se as moças daqui vinham de várias partes do mundo, porque nos achou bem diferentes uma das outras, aí eu disse que sim. — respondeu esticando o braço para pegar um drink que Aldebaran acabava de lhe servir — Sabe, acho que ele vai virar frequentador assíduo. E pelo que pude notar ele gosta de variar o cardápio, porque cada dia que vem aqui escolhe uma menina diferente.

— E você sabe exatamente quantas vezes ele veio aqui? — perguntou duas vezes mais curiosa a Serpente, que não se conformava de não ter percebido a presença dele ali.

— Acho que essa é a quarta vez.

— Hum...

— Meninas, o papo está ótimo, mas tem um cliente acenando para mim. — disse Rebeca — Fúlvia, acho que está acenando para você também. Vamos? — puxou a amiga pelo braço deixando o bar.

Sozinhas ali, as amazonas deram as costas ao salão e viraram de frente para o bar, apoiando os cotovelos no balcão.

— Você está com cara de boba. — de repente Shina sussurrou bem próximo ao rosto da amiga — Aquela cara que só gente apaixonada e feliz tem. — sorriu.

A resposta foi só um sorriso da morena.

— Apesar de sentir falta da sua companhia morando aqui no bordel com a gente, fico feliz em vê-la assim. — completou Ofiúco.

— Ah, para! Nem fico tão longe assim, sua ciumenta. É só subir três casas que você me acha. E, como eu disse, de noite eu estou sempre aqui.

Caspita! Cala a boca, me deixa falar... Estou abrindo meu coração, sua insensível. — Shina deu uma risada que foi acompanhada pela Serpente — Eu estou mesmo muito contente em vê-la feliz como agora. Nunca te vi tão bem, amiga. — disse puxando a outra para um abraço rápido.

— Obrigada amiga. Sua cabeçuda ciumenta. Saiba que eu não me esqueci de você... Eu vou estar sempre aqui.

— Vai nada, mentirosa... Daqui a pouco você vai estar se engalfinhando com o seu marido lá em Gêmeos. Falando nisso, cadê o patrão?

— Ainda não chegou. — respondeu desanimada a outra.

— Bem, eu vou subir para tomar um banho antes do Senador chegar. — disse Shina descendo do banquinho, mas antes de sair pousou a mão em um dos ombros de Geisty e aproximando seu rosto ao dela sussurrou em seu ouvido — Antes que eu me esqueça, eu estou vendo essa sua sapatilha sem vergonha aí no seu pé que está escondendo com a ilusão de um altíssimo Laboutin, e também essa cinturinha de quem engoliu uma melancia inteira.

— Shiiii! — Geisty riu fazendo sinal de silêncio — Não estraga meu disfarce.

— Eu não deveria estar vendo através de sua ilusão. Isso significa que está cansada. Pode iludir os civis, mas se tiver algum cavaleiro infiltrado aqui pode ser perigoso. Não se demore muito aqui. Vá para casa.

— Sim, eu já vou. Não se preocupe.

Ofiúco sorriu para Serpente e pegou o caminho em direção à escadaria que levava aos quartos.

Ali sozinha Geisty se pôs a olhar novamente para o salão, até que, distraidamente, seus olhos alcançaram a mesa ocupada pelo prefeito Praxédes e seu secretário.

A amazona não era capaz de definir o asco que sentia por aquele sujeitinho.

Não só dada sua aparência desagradável, mas também pelo ar petulante e a arrogância ímpar que lhe exalava pelos poros ensebados. Somado a isso, a forma suja com a qual sempre exigia ser atendido nos programas tinha feito Geisty desenvolver uma verdadeira repugnância por ele.

Sentiu um arrepio na espinha ao olhar para a cara dele de longe, misto de ânsia e raiva, o vendo se queixar e esbravejar para o secretário enquanto batia a mão contra a mesa.

— Nojento desgraçado. — murmurou para si mesma, inconformada, já que Praxédes era tratado ali por todos como um verdadeiro paxá, e mesmo assim vivia destilando sua insolência.

De repente, viu quando Afrodite aproximou-se dele na mesa um tanto apressado.

Sabia que naquela noite era a vez do pisciano atender ao prefeito, porém, diferente das outras vezes, Peixes havia acabado de chegar ao bordel.

Raramente, nas noites em que teria que fazer programa com Praxédes, Afrodite chegava após o expediente. Isso porque ele sabia dos hábitos do prefeito. Sendo casado, o gorducho salafrário não gostava de deixar a casa após a meia-noite, assim podia dar a desculpa à esposa de que tinha ficado na prefeitura até mais tarde resolvendo algum pepino qualquer, então exigia que os programas sempre fossem marcados nas primeiras horas da noite.

Talvez esse atraso do pisciano fosse o motivo de todo o destempero do prefeito, que visivelmente alterado agarrou na manga da camisa que Afrodite estava vestido e com um puxão o fez se sentar na cadeira a seu lado. Agora apontava o dedo para o rosto do pisciano enquanto esbravejava possíveis impropérios.

Ma che bastardo cesso! — murmurou a amazona franzindo as sobrancelhas.

Geisty nunca sentira muita empatia pelo pisciano, era bem verdade, mas antes de se casar com Saga havia feito um voto ao geminiano e a si mesma de que faria o possível para que sua relação com o sueco fosse diferente. E parecia-lhe que Afrodite tinha adotado o mesmo empenho, caso contrário não a teria ajudado em seu casamento quando quase enlouqueceu momentos antes de seguir para o altar.

Sendo assim, a cena que presenciava ao longe estava sendo deveras indigesta para a amazona. Praxédes, aquele sujeitinho medíocre e asqueroso, do alto de toda a sua soberba, lidava com Afrodite com total grosseria e autoridade, e o pisciano, submisso como todos ali, ouvia a tudo calado, sem esboçar reação alguma.

Pela primeira vez em mais de dois anos de convivência naquele lugar junto de Afrodite, Geisty sentiu pena dele, da situação humilhante a que Peixes sempre era exposto frente ao prefeito de Atenas, além de sentir ganas em enfiar suas garras naquela cara larga e bochechuda daquele biltre.

Inspirou fundo o ar viciado daquele antro tentando acalmar os nervos e o sangue quente italiano que lhe corria nas veias, então girou o banquinho no qual estava sentada e novamente apoiou os cotovelos no balcão do bar tamborilando as longas unhas contra a pedra fria, pensativa.

— Deba! — levantou a cabeça e fez um sinal para Touro, que prontamente veio até ela.

— Diga, dona patroa.

— Me trás uma garrafa de Coca-Cola, da pequena, por favor. — pediu séria.

***

Enquanto isso no fundo do salão, terminado de insuflar toda a sorte de ofensas e ameaças contra Afrodite, que pouco se importava em ouvi-las, já que, como havia dito a Camus horas antes, seu espírito estava tão em paz depois de ter passado um dia maravilhoso na companhia de Hyoga e do amado francês que Praxédes tinha sido reduzido a uma fagulha ínfima de importância e aborrecimento, o prefeito se levantou da mesa empurrando de forma rude a cadeira para trás.

— Anda, levanta dai. Vamos subir. — ordenou Praxédes ao pisciano — E eu quero uma hora a mais hoje, para compensar a merda do seu atraso.

— O senhor é quem manda, suín... — interrompeu a tempo a palavra que quase escapuliu de sua boca. Ato que não passou despercebido por Praxédes.

— O que ia dizer? Ia me chamar de quê? — esbravejou o gorducho o encarando enquanto também se levantava.

Afrodite engoliu em seco e piscou os longos cílios de tom claríssimo.

— Eu... Eu ia dizer, sua... imini... eminiscênc... eminência, sua eminência! — sorriu — Não disse que era para eu te tratar como a figura importante que é? Figuras importantes têm esses nomes charufes* ai, todo invocado.

— Ah, cala essa boca que só fala merda. Anda, vamos subir. — disse Praxédes tomando o sueco pelo braço.

Seguiram juntos até a escadaria, depois Afrodite tomou a frente e seguiu pelo corredor até seu quarto. Parou em frente à porta, e quando foi tocar a maçaneta interrompeu o movimento parando com a mão congelada no ar.

Sentiu um Cosmo conhecido emanar poderoso de dentro de seu quarto.

— O que foi agora? — Praxédes perguntou irritado.

Afrodite olhou para o prefeito, confuso e um tanto surpreso. Aliás, muito surpreso.

— N-nada... — respondeu titubeante.

— Então anda com isso. O que está esperando?

Voltando a atenção à porta, e principalmente ao Cosmo dentro de seu quarto, Peixes retomou o movimento e a abriu.

Ao entrar, em um primeiro momento tudo lhe parecia absolutamente normal.

— Entra logo que eu não tenho a noite toda. — resmungou o prefeito apoiando a mão nas costas do sueco dando um leve empurrão.

Assim que cruzaram o pórtico o prefeito logo caminhou até a cama e lá se jogou, esticando as pernas curtas.

Peixes vinha logo atrás correndo os olhos pelo cômodo como se procurasse por algo, atento e concentrado, até que viu, em meio às sombras ao lado das grandes portas do closet, uma figura de pé, parada, toda vestida de preto, descalça e com logos cabelos negros soltos a cobrir o torso. Sua silhueta rechonchuda devido ao ventre crescido fundia-se à escuridão daquele canto, não sendo percebida a olhos normais, mas facilmente identificada aos olhos de um cavaleiro de Ouro.

Naquele pretume todo, Afrodite olhou para as duas orbes faiscantes que exibiam um rútilo intenso num tom de púrpura, depois fixou o olhar na garrafa de Coca-Cola que ela segurava com ambas as mãos, enquanto sugava o refrigerante por um canudinho, o qual ela abandonou para fazer um bico com os lábios tintos em carmim levando o dedo indicador à frente deles para pedir que o cavaleiro fizesse silêncio.

Nem que quisesse dizer algo, Afrodite não conseguiria. Não ali, diante daquela figura, diante daquela situação tão inusitada quanto inesperada.

Ficou parado olhando para ela com os olhos estatelados, a boca semiaberta e os braços estirados para baixo em paralelo ao corpo. Mudo. Estarrecido. Até que, na cama, Praxédes, o vendo olhar para o vazio com cara de quem estava vendo uma assombração, lhe chamou a atenção.

— Ei... Mas você está testando a minha paciência hoje, heim tetéia! Está merecendo ser castigada. — esbravejou enquanto desafivelava o cinto e o puxava para fora do cós da calça num gesto ligeiro, nervoso e efusivo — Vou te dar uma boa lição para você aprender a nunca mais me...

A voz do prefeito se calou quando em sua boca surgiu uma pétala vermelha de uma Rosa Diabólica o fazendo se engasgar ligeiramente. Não tinha veneno, somente uma porção ínfima de toxina que deixaria aquele homem horroroso com vertigens por alguns segundos.

O tempo suficiente para Peixes entender o que ela fazia ali.

— Quer me matar do coração, exu de franja? — sussurrou indo em direção à figura no escuro — Pelos joanetes do suíno do Hades, o que você está fazendo aqui? Avoa* daqui, mosca!

Antes de responder ao pisciano, Geisty olhou com repulsa para o balofo jogado na cama em estado de letargia.

— Ele te chama de tetéia? — fez uma careta ao comentar e deu três sugadas rápidas no canudinho para que talvez o refrigerante amenizasse a ânsia que lhe subiu do estômago.

— Abafa. — franziu as sobrancelhas e olhou para o lado meio envergonhado.

— Cruzes! Que asqueroso! — ela arregalou os olhos.

— É... Asqueroso é elogio para o Rei dos Suínos... Ele também me faz chupar pirulito de pêssego sentado no colo dele. — Afrodite novamente ergueu o olhar e a encarou — Você sabe o quanto eu odeio pêssego? Argh! — foi chacoalhado por um arrepio que lhe fez sentir náuseas — Anda, avoa* daqui. Logo ele vai ficar consciente de novo.

— Eu heim! É assim que me agradece? Me mandando embora?

— Agradecer a que, aparição franjuda?

— Ora, não está óbvio para você? Vim salvar a tua bunda desse seboso peruquento.

Afrodite piscou os olhos, confuso e um tanto surpreso.

— Você veio... o quê? Eu... não entendi.

— Claro que não entendeu. Você nunca entende nada logo de cara. Eu vim atender ele no seu lugar. Planejava usar uma ilusão que seria inesquecível a esse biltre fedorento, mas... Se prefere atende-lo você mesmo... — deu de ombros, com falso desdém — Eu me retiro e deixo vocês dois curtirem a noite juntinhos. Ah! Por sinal, eu desconfio que ele vá estalar com gosto aquela cinta no teu lombo, heim. — apontou para o leito e fez uma cara de nojo — E algo me diz que aquele couro passou o dia inteirinho curtindo no sebo das banhas peludas dele.

— Odiosa de franja. — respondeu o sueco estreitando os olhos — Até quando você pensa em fazer uma boa ação tem que tripudiar para cima de mim, né?

Geisty riu da reação dele, depois voltou a ficar séria.

— Estou falando sério, Afrodite. Vá. Eu faço esse programa com ele.

— Alôca! Você nem deveria estar aqui, Alice. Eu não vou deixar uma amapô*, ainda mais grávida, fazer o que eu tenho que fazer. Aliás, você já deveria era estar na tua casa pondo para cima esses teus pés de hipopótama prenha... Dadá, olha o tamanho disso! — apontou para os pés inchados da amazona — Se Saga souber que você está aqui...

— Saga não precisa saber. — Geisty o interrompeu com firmeza na voz e atitude — Isso fica entre você e eu. E deixa de ser orgulhoso. Eu sou uma amazona de Prata. Não sou qualquer mocinha frágil e indefesa não. E se estou aqui é porque quero e porque sei que não estou colocando meus filhos em risco. Projetar ilusões em civis exigem o mínimo esforço de meu Cosmo.

Surpreso, Afrodite ponderou por alguns minutos, depois encarou os olhos faiscantes de Serpente.

— Por quê? — perguntou num sussurro.

— Porque não acho justo esse porco corrupto vir até aqui e te humilhar como vi há pouco. E principalmente porque... — fez uma pausa e desviou o olhar dos olhos curiosos do pisciano, pois não conseguia encarar o peso da verdade —... Não acho justo você ter que arcar com ônus dos meus problemas.

— Hum. Agora você não acha justo, mas antes...

— Antes era antes, Afrodite... Já conversamos sobre isso. Inclusive já te pedi perdão, Saga também.

Sem deixar muitas brechas para argumentações, Geisty caminhou decidida até uma poltrona que ficava em frente à cama e se sentou.

Soltou os botões laterais da calça preta que vestia para afrouxar o cós e sentir-se mais confortável, afinal já estava com uma barriga redonda de mais de vinte semanas de gestação.

— Eu não sei se... — murmurou Peixes, e foi interrompido pela amazona.

— Não se preocupe. Eu vou ficar bem, e você também. — disse ela alisando o ventre — Vai ser uma ilusão simples e logo tudo estará terminado.

Já prestes a se focar por completo no prefeito estirado na cama ainda lançou um olhar interrogativo ao pisciano que estava parado no mesmo lugar a observa-la.

— Anda! Está esperando o que para ir embora? A não ser que queira ficar para assistir, mas confesso que fico acanhada em expor a minha imaginação na frente de terceiros. Sabe como é, né? Ética profissional. Não cai bem ficar expondo a intimidade dos clientes. — deu uma sugada longa no canudinho e apoiou a garrafinha de Coca-Cola sobre a barriga, depois encarou o prefeito na cama e se concentrou.

Diante dos olhos de Afrodite, sobre o leito, ao lado de Praxédes, uma névoa em tons fantasmagóricos de roxo e púrpura se ergueu, e conforme se tornava mais densa bailava em espirais lentamente ganhando forma.

Ainda um tanto incrédulo diante daquilo, para não dizer surpreso com a repentina empatia da amazona para consigo, o sueco lentamente caminhou até a porta de seu quarto vendo a ilusão projetada por Geisty agora completa.

Na cama sua própria imagem, idêntica a real, agora se deitava sobre os lençóis vermelhos, enquanto o prefeito, feito um aborígene sem modos, a despia das roupas.

Com a língua de fora a serpentear entre os lábios finos melados de saliva e os dedos das mãos em garras, Praxédes arranhava, apertava e lambia o vazio, mas em sua mente Afrodite estava ali, em completo deleite recebendo aquelas carícias.

Já o Afrodite real engolia em seco, incomodado, enojado, tenso.

Não lhe agradava o fato de a amazona estar ali fazendo seu serviço sujo, mesmo que com uso de ilusão, e ainda no estado em que se encontrava, mas no fundo não pode deixar de sentir certo alívio.

No passado ela tinha feito exatamente o contrário. Tinha armado uma presepada para obriga-lo a se deitar com o prefeito, mas agora parecia mesmo que Geisty estava disposta a uma trégua.

E paz era tudo que Afrodite desejava naquele momento de sua vida.

Agarrou a maçaneta e abriu a porta, mas antes de deixar o quarto olhou mais uma fez para a amazona sentada na poltrona confortavelmente tomando sua Coca-Cola. Praxédes estava totalmente preso na ilusão criada por ela, e assim ficaria o tempo que ela quisesse.

— Obrigado. — disse o pisciano, ainda que meio sem graça.

Geisty respondeu com um leve menear de cabeça.

Afrodite então deixou o quarto fechando a porta, mas poucos segundos depois voltou a abri-la colocando somente a cabeça para dentro do cômodo.

— Ah... Não é que eu sou de reparar, sabe? Mas é que, gostei desse seu anel aí... Esse que está usando no lugar da aliança. Me empresta ele qualquer dia? — sussurrou enquanto mordia o cantinho da unha do dedo mindinho.

Incrédula com o pedido e a cara de pau do cavaleiro a amazona o encarou indignada, meneando a cabeça de leve enquanto ria da situação.

— Vou pensar no seu caso... Feche a porta ao sair. — respondeu baixinho.

***

No salão a bacante Narjara fazia um número de strip-tease no palco onde esbanjava toda sua sensualidade nata. Quase todos os olhos dos presentes estavam cativos na bela figura de longos cabelos ruivos que aos poucos se despia ao som de uma cadenciada batida sensual. A cada nova peça retirada e atirada à plateia, dentes mordiam lábios sedentos e olhos corriam cobiçosos pela parte recém revelada do corpo perfeito, salvo um par de olhos que seguiam outra figura igualmente bela pelo salão.

Quando esta aproximou-se da mesa em que o dono do par dos olhos que a seguiam estava sentado, ele elevou a voz e lhe chamou a atenção.

— Com licença! — disse uma voz rouca e grave em um perfeito grego com leve sotaque búlgaro.

A figura deteve os passos voltando sua atenção para quem o chamava.

— Pois não?

— Poderia lhe pagar uma bebida?

Um sorriso amistoso e largo se desenhou no rosto belo do bacante.

— Mas é claro, querido. Posso me sentar? — perguntou apontando uma das cadeiras livres.

— Oh! Por favor! — respondeu a grave voz, cujo dono se levantou apenas para puxar a cadeira para o convidado. Ao se sentar novamente fez um sinal ao garçom — O que devo pedir?

— Um Martini... Com duas azeitonas. — deu uma piscadinha.

Feito o pedido ao garçom o homem apoiou os cotovelos na mesa, cruzou os dedos e sorriu para o outro.

— E como devo chama-lo?

— Misty.

— Belo nome. Curto e sonoro. Eu me chamo Yan. — disse o homem de estatura mediana vestido em trajes despojados, camisa estampada, calça de alfaiataria e sandálias de couro. Em sua cadeira tinha pendurado um paletó de linho branco. Tinha certo ar de turista, apesar de não parecer o tipo aventureiro, dada a pele excessivamente branca. Via-se que não tinha passado pelas famosas praias gregas da região. O cabelo negro disciplinado com gel e o bigode vultoso sob o nariz contrastavam com os olhos muito claros em um tom incomum de mel. Não era bonito, mas seu porte viril e simpatia nata chamavam a atenção.

— Búlgaro? — perguntou Misty.

— Sim. De Varna. — ele sorriu, e enquanto o garçom servia o drink ao cavaleiro de Prata tomou o copo de whisky que o acompanhava e ergueu um brinde — A esse encontro.

Lagarto encostou sua taça ao copo dele e em seguida deu um gole na bebida.

— Quer subir? — Misty perguntou levando uma das azeitonas do coquetel à boca.

— Ah... Não. Se isso não for te atrapalhar ou prejudicar, eu gostaria apenas de uma boa companhia para beber, quem sabe... conversar um pouco. Eu pago... Gostei de você.

— Hum... pagar é sempre bom! — Misty sorriu depositando o palito de dentes no qual veio espetada a azeitona no cinzeiro onde um cigarro queimava solitário — Eu acho que já vi você por aqui... — estreitou os olhos analisando a face do homem —... Mas... me parecia diferente... Seus olhos eram de outra cor...

O homem sorriu apanhando o cigarro do cinzeiro e dando um trago.

— Provavelmente a luz o confundiu... Afinal, nunca nos falamos de tão perto, não é mesmo?

— Ah... sim, tem razão. — Misty deu de ombros — Então já veio aqui.

— Sim, algumas vezes.

— E o que achou da casa?

— Excelente! Boa música, boa comida, ótimos shows, lindas mulheres... — encarou os olhos de Misty enquanto batia as cinzas do cigarro no cinzeiro, e nesse exato momento ali ao lado Afrodite passava apressado caminhando em direção ao bar —... Belos homens também...

Misty não pode deixar de notar que os olhos do homem se desviaram por instantes e seguiram o pisciano pelo salão para só depois de alguns segundos voltarem a divisar seu rosto.

— Hummm... Obrigado pela parte que me toca. — disse o Lagarto um tanto aborrecido.

— Aquele rapaz. — apontou para Afrodite no bar.

Misty ergueu uma sobrancelha e torceu um dos cantos da boca, descontente.

— O que tem ele? — perguntou acabrunhado.

— Eu o vi aqui apenas uma vez de todas as que estive na casa. — disse, ainda olhando para o pisciano — Quem é ele? — mentiu, pois sabia muito bem quem era Afrodite.

Misty suspirou irritado.

— Querido, nem queira saber. — deu um gole generoso na bebida — Se quer um conselho, fique longe dele. Ele é tóxico, no sentido literal da palavra... Depois, ele não faz mais programas há um tempo, ou seja, não é mais puto, então não está disponível.

O homem arregalou os olhos, verdadeiramente surpreso.

Aquela tinha sido uma revelação que não esperava ouvir naquela noite.

Engoliu em seco e respirou fundo. Não podia se deixar levar pelo entusiasmo, ou estragaria seu disfarce.

— Não me diga! — deu um gole no whisky — Bem... cheguei tarde demais então.

Misty estreitou os olhos lançando um olhar odioso ao homem sentado à sua frente, revoltado com o fato de que consigo Yan só queria companhia para um drink, mas com Afrodite a história era bem diferente.

Com um último gole matou o Martini e bateu a taça contra a mesa.

— Sim, meu bem, você chegou tarde, e também já me tomou um tempo valioso. Enquanto aquele lá é o queridinho do patrão e daquele viado francês que se acha o todo poderoso, eu tenho que trabalhar duro para complementar meu soldo, então, com todo o respeito, colega, vá convidar a puta que te pariu para beber junto com você. — se levantou da cadeira nervoso e agitado.

— Espera! Eu... Eu não queria tomar seu tempo sem pagar, eu disse que pagava... eu... — disse Yan com falsa empatia.

— Ah vá se foder, búlgaro de merda.

Misty saiu soltando fogo pelas ventas.

Sempre que alguém dizia ou mostrava preferir Afrodite a ele, Lagarto parecia perder as estribeiras.

Na mesa Yan voltou a olhar para Peixes, que no bar conversava algo com Aldebaran, e quando pensou que já havia mexido em todas as peças do seu tabuleiro, uma nova jogada se desenhava bem a frente de seus olhos.

— Ora, ora! Então o Cavaleiro de Peixes não faz mais programas... — sussurrou, agora em russo, para si mesmo enquanto acendia outro cigarro —... E o que será que aquela bicha nojenta quis dizer com “o viado francês que se acha o todo poderoso”?... Não... Isso é impossível! Improvável!... Mas, se for... Dimitri vai saber!

Ainda com os olhos cravados em Afrodite, viu quando ele deixou o bar e saiu pela porta lateral, então respirou fundo e chamou novamente o garçom.

Dessa vez pediu uma dose dupla de vodca. Pura.

Tragou o cigarro enquanto sua mente ligava algumas peças e armava uma nova jogada.

Estava na Grécia cerca de pouco mais de um mês, e nesse tempo foi ao Templo das Bacantes exatas onze vezes, sempre alternando os disfarces que usava eventualmente.

Estava ali para descobrir se havia de fato uma prostituta grávida, se essa era Geisty, a mulher que devia uma fortuna à Vory v Zakone, e se Saga estava cumprindo os acordos ou articulando um possível complô, mas parece que havia descoberto algo muito maior, ou, pelo menos, levantava uma suspeita que jamais imaginava bater de frente.

Estava ali para ser os olhos de Dimitri Yurievich Volkov.

Ele era o Falcão Negro. Os olhos e ouvidos da Vory v Zakone dentro do Templo das Bacantes.

Dicionário Afroditesco

Amapô— mulher

Avoa— quando alguém inconveniente se aproxima e você diz: Avoa bicha!

Charufes— coisa ou pessoa ruim, burra, desagradável, fedida — (Charufinácia: coletivo de charufe)

Tumblr da Ju com a imagem do cap

Grupo " Fics trio ternura" no face — Tem uma versão extra da capa mais clara e com o rosto mais nítido :)