Templo das Bacantes Vol. 2
23 O prelúdio da tempestade.
Notas iniciais

— Voltar para Moscou? Mas... assim? De repente? — Afrodite sussurrou encarando os olhos austeros de Camus enquanto contraia as sobrancelhas — Está querendo dizer que...
— Estou querendo dizer exatamente o que te disse lá no quarto. — o francês o interrompeu, depois cruzou os braços e encostou-se na escrivaninha atrás de si. Estavam no escritório, lugar para onde rumaram para poderem conversar sem que acordassem Hyoga — Você sabia que nossa estadia aqui seria breve, Afrodite. Eu me ausentei dos assuntos da Vory apenas pelo tempo necessário para que Hyoga e eu pudéssemos nos recuperar do luto pela morte de Natássia.
— Sim... eu sei, mas... — o pisciano murmurou piscando os olhos.
— Já fiquei tempo demais... Minha presença em Moscou é crucial e como um dos Vors muitas coisas dependem de mim. Negociações estão paradas, acordos estão pendentes... Dimitri está fazendo vista grossa, mas sei que já deve estar desconfiado de algo, e tudo que non precisamos agora é levantar qualquer tipo de suspeitas.
Afrodite soltou um suspiro ruidoso, depois baixou a cabeça e com os dedos longos e delicados tateou um dos botões do pijama azul marinho de seda que vestia, o qual pertencia a Camus.
— Eu achei que... fosse demorar mais... — Peixes abandonou o botão que manuseava com movimentos repetitivos e ao erguer o olhar novamente encarou os olhos avelãs do francês com melancolia —... Como vai ser, Camus?
— Como vai ser o quê?
— Como vou ficar longe do meu loirudinho?
Aquário sentiu o peito apertar e um nó em sua garganta se formar.
— Afrodite, non vai mudar nada. Continuará vendo ele sempre que quiser. — disse com voz mansa.
— Mas como... — Peixes deu alguns passos para frente, parando a poucos centímetros do aquariano —... Como vai ficar a Afrodite? A amazona de Peixes? — sussurrou.
— Non sei... eu...
Camus piscou os olhos e espirou fundo. Evitou por alguns instantes aqueles olhos aquamarines que eram poços de incertezas e melancolia, depois os encarou novamente buscando neles a força que precisava.
— Temos que seguir, Afrodite. Temos que manter a farsa... pelo menos por agora. — disse levando uma das mãos aos cabelos em um claro sinal de desconforto — Um passo em falso, um deslize mínimo e as nossas vidas estão em risco... especialmente a de Hyoga. Todos sabem que agora ele é meu elo mais fraco...
— Dadá todo poderoso! — o pisciano suspirou fechando os olhos.
— Você pode ir nos visitar na Rússia sempre que quiser. Hyoga vai sentir muito a sua falta, e eu também... Mas, por Dieu, non pode continuar fazendo o que fazia antes, non pode ir como minha sobrinha muçulmana ou como a vendedora de enciclopédias... Terá que ser o mais discreto possível. Use de suas habilidades de cavaleiro para ser invisível ao nos visitar. Para Hyoga você continuará sendo a amazona de Peixes, mas para os outros terá de ter outra identidade.
Afrodite franziu a testa e olhou interrogativamente para o aquariano.
— Pela deusa... parece que você só pensa pelo lado prático. — disse, com inusitada firmeza — Eu achei que... sei lá... fossemos acabar com o truque* quando ele estivesse um pouco mais recuperado da perda da mãe... mas... — suspirou esfregando o rosto com as mãos enquanto procurava organizar o turbilhão de pensamentos que tomavam sua mente —... Atena, isso é tão errado! Tão errado!... O que nós fizemos...
Um tanto irritado Camus desencostou o corpo da escrivaninha e caminhou alguns passos, dando as costas ao namorado.
— Alguém tem que pensar com a cabeça, e pelo jeito essa tarefa é minha. — o ruivo então se voltou de frente para o sueco e disse olhando firmemente em seus olhos — Você achou mesmo que poderíamos contar a verdade a Hyoga agora? Ele já nos entregou ao Misty, a quem mais pode entregar?
— Ah, nem cite o nome dessa cria do Tejo, por Dadá! — o sueco fez uma careta.
— Você me questiona sobre o que fizemos... O que acha que fizemos, Cavaleiro de Peixes? Nós salvamos a vida do Hyoga, salvamos a sua e também a minha. Foi isso que nós fizemos... Nosso relacionamento é tão proibido quanto impossível, Afrodite, e mesmo assim nós decidimos seguir com ele, mesmo sabendo que nunca seremos uma família normal, nunca teremos uma vida normal...
— E o que teremos?
— Non sei... — baixou o olhar, evitando os olhos do namorado —... Mas agora, hoje, manter esse segredo para que possamos ficar juntos é tudo o que temos... É só essa merde que temos. — soltou um suspiro cansado e voltou a encarar as íris aquamarines que o divisavam aflitas — Eu nunca tive escolhas, ma belle rose. Non escolhi essa merde de vida para mim, nem para Hyoga, muito menos para você. O mesmo destino que me fez cavaleiro também me fez Vor... Talvez a única escolha que fiz de verdade na minha vida foi amar você, Afrodite... Fizemos e continuaremos fazendo o que for necessário para ficarmos juntos e para protegermos Hyoga e... um dia, quem sabe, o amor que temos um pelo outro, e que cultivamos nele, seja capaz de fazê-lo nos perdoar por nossa mentira.
Um silêncio incômodo se fez entre eles.
Afrodite sabia que Camus tinha razão, e essa certeza do aquariano, somada à falta de escolha que lhes restava, no fundo lhe trazia uma estranha e contraditória sensação de alívio. Tinha ganhado a confiança, a admiração e o coração de Hyoga, e por nada nesse mundo arriscaria perder tudo isso, mesmo que carregasse no peito uma angustia que crescia a cada vez que se vestia de mulher para enganar o menininho.
Caminhou lentamente e pensativo até o francês e o abraçou enlaçando sua cintura.
— Que Atena te ouça! — sussurrou depositando um beijo no rosto sério do ruivo — Que um dia ele nos perdoe por isso, e se... se ele não for capaz de nos perdoar, então que ele nunca saiba a verdade... porque se antes, quando fiz meus votos e entreguei minha vida a Atena, eu não temia nada, hoje eu temo... Temo perder você, e perder o amor de Hyoga.
Camus retribuiu ao abraço apertando o corpo do namorado contra o seu. Tinham quase a mesma altura, mas em momentos como esse Afrodite parecia encolher em seus braços.
De forma carinhosa o francês acariciou os cabelos turquesa e os beijou com ternura.
— Eu também temo muitas coisas, ma fleur. Mas, temo ainda mais ficar longe de você... — apartou o abraço apenas para segurar no rosto belíssimo do pisciano com ambas as mãos e olhá-lo nos olhos —... Vá para Moscou. Non quero que se afaste de nós... Continuarei vindo à Grécia, porém com menos frequência, e também non poderei trazer Hyoga tanto quanto gostaria, mas você pode ir para lá. Tem as chaves da minha casa, pode seguir direto para lá e me esperar chegar do escritório. Já deixarei os empregados avisados e eles te receberão. Non levantaremos suspeitas, porque é muito comum os homens da “família” manterem relacionamentos extras conjugais ou sigilosos com mulheres cuja identidade exige segredo absoluto, já que muitas delas são casadas...
— Hum... mas que bela “família” essa sua, heim!
— O ideal é que ninguém o veja, mas é obvio que logo saberão que eu tenho um affair sigiloso com alguma dama misteriosa. — esboçou um sorriso sem graça — Deixaremos a identidade do meu affair por conta da imaginação deles — ergueu o rosto do sueco e lhe deu um beijo suave nos lábios — Partirei no início da noite, então o que acha de aproveitarmos as horas que temos até lá com um passeio só entre nós três?
Afrodite olhou dentro daqueles olhos avelãs que tanto amava, que tanto o fazia sentir-se vivo, e certo de que faria tudo na vida para poder olhar para eles na certeza de que sua felicidade dependia de Camus estar a seu lado até o fim de seus dias respondeu com um sorriso afeiçoado.
— Eu acho ótimo... E já que foi bem cruel da sua parte me dar essa notícia assim, de supetão, sem um preparo, um aviso, nem nada, quem escolhe o passeio sou eu... Podia ter me dito antes que ia embora hoje, né santa? Eu teria me preparado psicologicamente... — suspirou, aborrecido e tristonho — Dadá, como vai ser sem o meu loirudinho aqui?
— Mon amour... eu também non sabia que teria que partir assim, tão de repente. Fui tão pego de surpresa quanto você.
— Mas, aconteceu alguma coisa?
— Recebi um aviso.
— Aviso? Que aviso? De quem?
— Quanto menos você souber mais seguro estará, ma fleur. Só posso dizer que non queria ter de me separar de você assim, de repente, mas non tenho escolha. Non posso ignorar esse aviso. — Camus deu mais um beijo no amado e levantou uma sobrancelha curioso — Vamos pensar somente em nós, pelo menos só por hoje. Já decidiu onde vamos passar o dia?
Afrodite apenas sorriu em resposta deixando o aquariano ainda mais curioso.
***
Enquanto Afrodite voltava para Peixes e os primeiros raios de Sol anunciavam o início de um novo dia, Camus dava andamento nos preparativos para seu regresso à Rússia. Teria que comunicar a Saga, arrumar algumas poucas bagagens, deixar instruções aos servos que faziam a manutenção de seu Templo durante sua ausência e ainda dar uma passada na Casa de Virgem, já que nesse curto período em que esteve no Santuário Hyoga se apegou muito a Shaka, e o Santo guardião da Sexta Casa ao menino. No futuro era certo que o filho de Camus e o pequeno Kiki seriam bons amigos.
Logo que Hyoga acordou, Aquário lhe deu um banho e preparou seu dejejum. Comiam juntos na cozinha enquanto esperavam por Afrodite que desceria assim que Gêmeos deixasse o Templo do Patriarca.
— A gente vai passeá, papai? — o pequeno perguntou enquanto devorava o cereal que lhe era servido.
— Sim, nós vamos. — o francês respondeu com um sorriso.
— E vamo pá onde? — continuou curioso o loirinho.
— Isso só quem pode dizer é a Afrodite. Foi ela quem preparou o nosso passeio de hoje. — respondeu o ruivo enquanto servia um pouco de suco de laranja ao filho, depois segurou em sua mãozinha e olhou firme em seus olhões azuis — Hyoga, quero que aproveite o dia de hoje, está bem? Eu não pude te falar antes, mas nós voltaremos à Rússia no final do dia.
O menininho arregalou os olhos e deixou a colher cair dentro do pratinho, esparramando um tanto de leite ao redor. Logo sua expressão mudou drasticamente e a surpresa passou a uma estranha sensação de medo que o fez marejar os olhos e querer chorar.
— Eu... eu não quelo i. — disse num murmúrio baixinho e lamurioso.
— Hyoga...
— Eu não quelo i.
— Filho...
— Eu não quelo fica longe da Di. — o murmúrio foi ainda mais sofrido quando ele revelou a razão de seu temor.
— Não faz assim, meu filho, não precisa chorar. Você não vai ficar longe dela. — disse Camus tentando acalma-lo — Ela vai nos visitar em Moscou.
— Não.
— Hyoga, já tínhamos conversado sobre isso, filho. Já tínhamos combinado que íamos ficar aqui só por um tempo e voltaríamos para nossa casa, não foi? É isso que vamos fazer, e a Di vai nos visitar sempre que ela puder.
— E se ela não fô? — perguntou apreensivo.
— Mas é claro que ela vai. — levou uma das mãos ao rosto do menino para enxugar as lágrimas.
— Ela vai mesmo?
— Vai, ela me prometeu... E falando nela, olha quem acabou de chegar.
Camus apontou para a porta de entrada da cozinha por onde Afrodite adentrava todo festeiro vestido com o que parecia ser uma saída de banho, um longo chemise azul turquesa que ia até a metade de suas coxas roliças. Por baixo, dada a transparência sutil do tecido, Peixes parecia usar um maiô preto de lycra todo fechado. Tinha os longuíssimos cabelos presos num rabo de cavalo e pela primeira vez usava pequenos enchimentos no peito para simular seios. Trazia em uma das mãos um enorme chapéu de palha e na outra uns óculos escuros, no pescoço o inseparável lencinho branco que usava para esconder o pomo de Adão.
O sorriso alegre e acolhedor disfarçava com excelência a melancolia que assolava sua alma. Não seria nada fácil para o sueco separar-se do namorado e do pequeno russo que em tão pouco tempo ganhara seu coração. Mesmo sabendo que essa separação era simplesmente uma questão de logística, visto que suas manhãs não seriam as mesmas sem que pudesse dividir a mesa do café com Camus e Hyoga. Suas noites também não teriam a mesma alegria, pois não poderia cantar para o menininho dormir, nem poderia amar Camus até cair em exaustão em seus braços.
No entanto, como dissera-lhe o francês, essa era a vida que tinha, e iria leva-la da melhor forma que conseguisse.
— Diii! — Hyoga rapidamente desceu da cadeira para correr animado em direção à “amazona”, que assim que o viu foi a seu encontro já estendendo os braços para pegá-lo no colo.
— Bom dia, meu loirudinho! — Peixes beijou a bochecha do pequenino e recebeu outro beijinho carinho na sua em resposta — Dormiu bem?
— Sim! — ele balançou a cabeça efusivamente.
— Que bom, porque vai precisar de muita energia hoje!
— Di, o papai disse que vamos embola... Você vai também? — fez um biquinho, preocupado — Vem com a gente, Di. Po favô!
— Meu amor, eu não posso ir. — Afrodite respondeu com o coração partido olhando para aqueles olhos enormes azuis que o encaravam suplicantes — Eu sou uma amazona, lembra? Eu não posso sair do Santuário.
— Mas, se o papai pode saí, po que você não pode?
Afrodite olhou para Camus sem saber o que responder, mas este parecia ainda mais absorto.
— Bem... é porque... o seu pai é homem. Homem pode sair, mulher não. — disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça — Aprenda uma coisa, meu amor. A vida é cruel com nós, mulheres. As leis não são as mesmas para nós, as regras também não, nem a diversão é a mesma... A vida para as mulheres é bem mais difícil e sem graça, então, meu narizinho de batata mais lindo desse mundo, trate muito bem as mulheres que cruzarão o seu caminho, viu? Porque a gente come o pão que Hades amassou!
Camus não acreditava no que ouvia, muito menos no que via.
Apressado, antes que mais asneiras saíssem da boca do sueco, o francês se apressou em se juntar a eles para pegar o filho no colo e coloca-lo no chão.
— Pronto, agora que já sabe por que ela não pode ir com a gente, corre para o banheiro, escove os dentes e depois vá para o quarto pegar as suas coisas. Daqui a pouco o papai vai lá te ajudar. Quanto mais cedo terminar, mais cedo saímos.
— Tá.
Hyoga respondeu animado com a ideia do passeio e saiu em disparada pelo corredor.
Assim que viu o filho a uma distância segura, Camus franziu a testa e puxou Afrodite pelo braço até o fundo do aposento.
— Vem cá! Mas, por Dieu! Que merde é essa que você está usando, Afrodite? Ficou doido? Como quer se passar por mulher usando um maiô? — sussurrou com voz firme e alterada.
— Ué, não foi você que disse para eu usar minhas habilidades, gata? Pois bem, já que vamos seguir com a mentira, eu que não vou deixar de fazer as coisas que gosto, nem que acho que farão bem para Hyoga. Hoje quero leva-lo à praia. Está um dia lindo, quente, ensolarado, e já que ele vai ter que voltar para aquele país frio e careta, quero que ele leve uma lembrança gostosa da Grécia. Quero que ele saiba que aqui é o seu porto seguro, um lar de verdade. Quero leva-lo à praia, fazê-lo sentir o calor gostoso do sol, o cheiro do mar, o som das ondas... E para ir à praia eu preciso de um maiô, né santa? — colocou o chapelão e os óculos em cima do sofá e começou a desabotoar o chemise — Eu sei o que você deve estar se perguntando, com o que você deve estar preocupado, mas minhas habilidades vão muito além do que a senhora imagina, meu amor. — deu uma piscadinha e com um só movimento tão rápido quanto uma rajada de vento abriu o chemise revelando seu corpo apenas com o maiô — Tcharãn! E ai? O que você achou?
Camus soltou o braço do namorado direcionando o olhar diretamente para o meio de suas pernas.
Os olhos do francês se abriram tanto que pareciam querer pular das orbitas, tamanho o susto que tomou.
— Non de Dieu! Cadê seu pau, Afrodite?
O volume que sempre estivera ali havia desaparecido por completo. No meio das pernas de Afrodite não havia absolutamente nada, nenhum sinal de seus genitais.
O ruivo sentiu a garganta secar, os músculos de seu corpo inteiro tremer, o coração disparar dentro do peito. Estava estupefato, desacreditando no que seus olhos viam, até que, num gesto instintivo, levou uma das mãos à região genital do pisciano como que para constatar que não estava delirando, então ao encostar no local e comprovar que de fato não havia volume nenhum ali a recolheu num gesto brusco, assustado, recuando um passo para trás.
— Putain de merde! O que você fez com seus bagos?
Peixes deixou escapar uma gargalhada.
— Você devia ver a sua cara! — o pisciano riu ainda mais — Tá tudo aqui, santa. — abriu ligeiramente as pernas e colocou a própria mão entre elas — Pau, bolas, toda a sua área de lazer está aqui, mon amour, do jeitinho que você gosta... Bem, nem tanto como você gosta, né. Aliás, é bom você ficar meio longe de mim hoje, Camy, porque se você me deixar com tesão vai ser bem desconfortável... Vem cá, me dá sua mão.
Sem aviso algum, Afrodite agarrou o pulso de Camus e com um puxão posicionou a mão do francês em seu baixo ventre, o fazendo tocar na região onde se localiza o canal inguinal.
— Toca... mas com cuidado, essa região é sensível... Aprendi o truque com um cara que trabalhava para o Polly. Ele era strepper, mas hoje é uma das mais famosas Drag Queens de Atenas. Virou até cantora! Nunca achei que um dia fosse ter de trucar* meu pau. Alôca! — riu de maneira divertida — A vida é mesmo uma caixa de sapato.
— É de bombons... A vida é uma caixa de bombons... — Camus o corrigiu, ainda que estivesse meio distraído e absorto, porém logo recobrou a concentração e a seriedade — Isso é o seu testículo? — falou em voz bem baixa, encarando os olhos azuis do pisciano enquanto ainda tateava seu corpo.
— É... e o outro está do outro lado.
— E o pau?... Dieu, Afrodite, seu pau não é nada pequeno, como conseguiu escondê-lo assim?
— O testículo a gente coloca ai dentro. O pau a gente puxa para trás. — indicou fazendo um gesto com as mãos — Por isso eu disse que é melhor ficar longe de mim, inclusive desde já... Tá me deixando com tesão. — afastou a mão de Camus e iniciou um exercício de respiração.
Aquário olhava para Peixes enquanto enfiava os dedos entre as madeixas da farta franja ruiva, ainda meio abalado.
— Isso... é...
— Truque. Está tudo aqui, mas escondidinho!
— Dieu! Você é maluco!... Alors, com truque ou sem truque acho que essa ideia de ir à praia non é muito adequada. Esqueceu que a mãe de Hyoga morreu afogada? Que ele próprio quase morreu afogado? Ele viu tudo, Afrodite. Non sei se Hyoga vai gostar da água.
— Como acha que eu iria me esquecer de uma coisa como essa? — deu um passo à frente aproximando-se de Camus até poder tocar seu rosto, onde fez uma leve carícia — Para alguma coisa importante a Afrodite tem que servir, não acha? Ou acha que ela só existe para servir salsichas com calda de chocolate no jantar, ou para afastar pesadelos horríveis cantando para ele dormir? Eu aceitei essa loucura, Camus, então eu farei tudo que tiver a meu alcance para fazer de Hyoga uma criança feliz e um homem forte e corajoso... Quem sabe até um cavaleiro de Atena!
— Cavaleiro ou Vor... Sendo meu filho ele non escapará desse destino. — respondeu com um suspiro cansado.
Camus não estava muito convencido, mas uma coisa era certa, sabia melhor que ninguém do poder que Afrodite tinha de despertar sentimentos nos outros, como despertou em si, e com Hyoga sabia que não seria diferente.
— Bien. Só vamos com calma, está bem? Se ele reagir mal, se ficar triste ou apavorado, iremos para outro lugar. — disse o aquariano.
— Feito. — o sueco respondeu com um sorriso e um beijo ligeiro nos lábios do namorado.
— Bom... Agora a parte prática. Como iremos à praia? — Camus perguntou em tom sério — As praias da Grécia são muito povoadas, principalmente as que ficam por aqui, em Atenas.
— Abafa! Eu já pensei em tudo, mon amour. A praia menos frequentada por civis é a que fica no Cabo Súnion...
— Porque a vigilância do Santuário é mais concentrada lá, espertão. Eu non acredito, Afrodite.
— Eu que não acredito, santa! Você não confia mesmo em mim, né? Ah, tá boa! — apanhou o óculos e o chapéu que havia deixado sobre o sofá, depois voltou a encarar os olhos de Camus — A Leste do Cabo Súnion, uns 5 quilómetros, existe uma pequena passagem entre os rochedos que leva a uma trilha. Pouca gente conhece esse lugar. Eu o descobri quando era adolescente enquanto estava dando uns pega escondido no... Abafa... Bom, com uns 40 minutos de caminhada se chega a uma pequena praia paradisíaca.
— Hum... non sei... pode ser arriscado demais acessar essa região.
— Não quando se é um Cavaleiro de Ouro, mon amour! — deu uma piscadinha — Uma das nossas maiores habilidades não é ser invisível aos olhos dos inimigos? Tão rápidos quanto a velocidade da Luz! Tão silenciosos quanto a propagação do som no vácuo? Eu sei que você pode passar tranquilamente pela vigilância do Cabo Súnion.
— Dieu! Por que eu ainda dou ouvidos a você?
— Porque você não vive sem mim. — sorriu enquanto colocava os óculos e o chapéu — Eu vou na frente. Disse ao Saga que hoje passaria o dia em Atenas fazendo compras para o Templo das Bacantes, já que Mu está de férias e delegou essa tarefa à mim. Quando você e Hyoga cruzarem a passagem pelos rochedos e chegarem à trilha, eu fecharei a entrada com um roseiral. Estaremos seguros.
— Como vou saber como chegar nessa passagem pelos rochedos?
— Olhe para o chão. — disse o pisciano enquanto caminhava para a porta de saída.
Camus balançou a cabeça de um lado para o outro em negação, mas nos lábios havia um sorriso.
— Peixinho... Só você mesmo para me convencer a fazer esses disparates...
***
As pétalas de rosas deixadas no caminho pelo Santo de Peixes guiou Aquário e o filho até a tal praia. Afrodite não tinha exagerado quando disse que o lugar era paradisíaco. Uma pequena orla, de não mais que dois quilómetros que guardava um paraíso de areia branca e água cristalina.
Já estavam ali há pouco mais de uma hora. Hyoga havia ficado encantado com a areia fina quentinha e a gostosa sensação de enterrar os pezinhos nela, mas nem quisera chegar perto da água.
Tinham levado alguns comes e bebes, toalhas e uma muda de roupa para cada um, já que não podiam chegar ao Santuário no final da tarde exibindo um look praiano.
Apesar do clima brando do outono, fazia um dia quente, ensolarado, propício para mandar embora medos obscuros e traumas ainda recentes.
— Vamos filho. Não há perigo nenhum, estou segurando você.
Camus estava na margem segurando Hyoga pelos braços. Com toda calma do mundo tentava mergulhar os pezinhos do filho na água do mar, mas cada vez que abaixava o menininho ele encolhia as perninhas em completo desespero. Não era a temperatura da água, já que, criado na Rússia desde o nascimento, o frio jamais seria um empecilho para o pequenino. Era o medo!
— Não... me tila daqui papai, não queloo. — o pequeno protestava quase aos prantos.
— Por deus, filho, estamos na beiradinha, olha... Não tem perigo nenhum. Vamos só molhar os pezinhos. O papai está te segurando firme, está vendo? — Camus apertava o braço do filho com cuidado, demonstrando que não iria solta-lo, e mais uma vez tentava abaixar o loirinho até a água — Vou abaixar você bem devagar...
Para azar do pequeno russo, e agora também do pai, quando Hyoga finalmente encostou a pontinha dos pés na água uma pequena onda veio e o acertou em cheio o molhando até pouco acima dos joelhos. Foi o suficiente para desencadear um gatilho negativo na criança que começou a gritar e chorar descontroladamente, fazendo com que Camus o levantasse e o segurasse no colo com força tentando acalma-lo.
— NÃO QUELO ENTÁ, EU QUELO I EMBOLAAA, EU TO COM MEDO, VAMO EMBOLAAA...
— Está bem, filho, calma, o papai está aqui. Nada de ruim vai acontecer, Hyoga, fique calmo, está no meu colo.
Com certa dificuldade o ruivo fez o pequeno parar de chorar, mas em compensação, o filho se agarrou em seu pescoço, demonstrando não querer soltar tão cedo.
De testa franzida, olhar analítico e feições preocupadas, Afrodite observava a cena. Sabia que não seria tarefa fácil mandar embora o medo enraizado na alma pueril do pequeno menino russo, e que Camus não seria, de fato, a pessoa certa a cumprir essa tarefa. Não que o francês não estivesse verdadeiramente empenhado, mas o próprio Camus tinha também seus medos enraizados, traumas infantis a serem faceados, e uma vida dura a seguir pela frente.
Ambos precisavam de ajuda, e ele era o único que podia ajuda-los.
Com Camus ele já havia conseguido grande progresso, e não desistiria até fazer o homem que amava libertar-se por completo das amarras impostas por sua própria mente e pelo meio que o cercava. Exigir-lhe-ia tempo. Tempo e dedicação. Mas agora era a vez de Hyoga.
— Deixe-me tentar. — o sueco disse num sussurro ao pé do ouvido do francês, enquanto lhe colocava a mão sobre o ombro imprimindo leve pressão.
Aquário virou o rosto para o lado e encontrou o par de olhos aquamarines a lhe divisarem com ternura e decisão. Não pensou duas vezes. Recuou um passo e entregou, confiante, Hyoga aos braços de Afrodite. O menininho logo soltou o pescoço de Camus para atracar-se ao da “amazona”.
— Heeey, meu loirudinho. Por que está chorando? — Peixes fazia uma voz doce, melodiosa, enquanto assumia a postura ereta trazendo o pequeno em seu colo.
— Eu não quelo i na água, Di. — disse o loirinho entre uma fungada e outra.
— Vou te contar uma história... Você sabia que existe um cara, um senhor barbudo que usa um Tridente, que controla toda essa água aqui e também a que existe nos mares de todo o mundo? — disse enquanto avançava para dentro da orla, com a água já batendo em seus tornozelos — E que esse cara, que se chama Poseidon, é um deus e é tio da deusa Atena, aquela para quem o seu pai e eu juramos lutar?
Hyoga fungou, olhando para o rosto sereno e belo da “amazona”, capturado totalmente.
— Sabia que ele, o Poseidon, tem um filho que é um cavalo branco com asas de águia? Quer dizer, asas bem maiores que as de águia, já que ele é um cavalo, né! Seriam, então, asas de condor? — Peixes continuou pensativo.
— Mas cavalo não tem asa, Di. — disse Hyoga, que tinha parado de choramingar.
— Ah, mas esse tem! Ele se chama Pégaso, e ele ajudou um moço muito bonito e valente, chamado Perseu, a derrotar um dos monstros mais terríveis que já existiu nesse mundo. O malassombrado Kraken! Um cafuçu que comia gente e que morava no fundo do mar.
Hyoga arregalou os olhos e engoliu em seco.
— Ah! Não, não! Não se preocupe! O Kraken não mora mais no mar. Ele foi derrotado pelo Perseu e pelo Pégaso, mas o Poseidon sim, ele existe e mora no mar, controlando as ondas, as marés, as correntes marítimas e todas as criaturas que vivem nos oceanos. Sabe por quê?
— Po que, Di?
— Porque ele descobriu que não era ele quem devia temer as águas, por mais revoltas, profundas e misteriosas que elas fossem, mas sim as águas que deveriam temê-lo, porque ele era dono de suas próprias vontades, ele era o senhor de seus medos, e sendo o deus de si próprio, quem poderia botar medo nele?
Quando Hyoga se deu por si a água do mar batia-lhe nos joelhos dobrados em paralelo ao tronco de Afrodite, que tinha avançado até a água lhe bater um pouco acima da cintura.
Camus seguia logo atrás deles, admirado pela cena que via. Parecia que Afrodite tinha mesmo o poder de despertar nele e no filho coragem para enfrentarem todos os medos.
Tão mergulhado o pequenino estava na história que a “amazona” lhe contava, que estranhamente não temeu. Ainda com as imagens de cavalos de alados, senhores barbudos, peixes e outras criaturas moldadas por sua fértil imaginação infantil a lhe dançarem graciosas na mente, curvou ligeiramente o corpinho para baixo, sempre segurando com firmeza na alça do maiô de Afrodite para se apoiar, e tocou a água cristalina, vendo seus dedinhos imersos naquele espelho translucido.
Afrodite sorriu, com os olhos marejados de emoção.
— Você também é um menino dono de suas vontades, Hyoga. Você é o senhor dos seus medos, meu amor, por isso, nem água, nem nada desse mundo pode te impedir de ser quem você quiser, nem de alcançar o que você sonhar... — levou uma das mãos até a mãozinha que Hyoga tinha submersa e segurou em seus dedinhos delicadamente —... Não tenha medo da água... Seja mais bravo que ela, a domine!
— Mas... ela levou a mamãe. — disse o russo assumindo um semblante tristonho.
Afrodite então segurou no rostinho do pequeno e o fez olhar para si.
— Você ainda é muito pequenininho para entender certas coisas da vida, meu loirudinho, mas um dia você vai entender. Por enquanto, só tem que confiar em mim. Você confia?
— Confio, Di.
— Não foi a água que levou sua mamãe. Foram pessoas. Pessoas ruins. O mundo está cheio desses cafuçu do mal. A água é inocente, e você não deve ter medo dela, ela quem deve ter medo de você... Um dia você vai dominá-la sozinho, mas enquanto você for essa coisa fofa de nariz de batatinha eu vou te ajudar a dominá-la. Sempre vou estar junto de você, combinado? — disse com um sorriso belo e impossível de ser ignorado.
— Combinado! — Hyoga respondeu com o mesmo sorriso empolgado, já que aquela era um promessa que colocava Afrodite sempre por perto de si.
Quando se deram conta novamente estavam com a água a bater na cintura de Hyoga e no peito do Santo de Peixes, então Afrodite retirou os pés do chão de areia e passou a nadar de costas com o loirinho apoiado em seu peito, que aos poucos foi abrindo os bracinhos e batendo as perninhas ensaiando as primeiras movimentações na água.
Riam e conversavam, distraídos e felizes, enquanto eram observados por Camus, que maravilhado pela cena se aproximou dos dois para também partilhar daquele momento de alegria.
Era tão raro para o ruivo um momento de paz e tranquilidade como aquele que mal acreditava que de fato estava ali, curtindo dos pequenos prazeres da vida, de momentos familiares dos quais nunca se julgou digno.
O tempo passou depressa e logo as brincadeiras na água e os castelinhos de areia se tornaram uma lembrança prazerosa na memória dos três.
Naquela noite, no Santuário, as rosas do jardim da sagrada Casa de Peixes não exibiam o viço e a exuberância costumeira.
Camus e Hyoga já haviam partido para Moscou, e Afrodite chorava de saudades.
***
Moscou, Rússia, 21:20pm
— Hum, então finalmente está voltando... Entendo!... O seu lugar sempre foi aqui, com sua família de verdade, Camus. — a voz grave e pigarrenta de Dimitri soou baixa, um tanto severa. Falava com os lábios pálidos quase pregados ao telefone enquanto raspava a unha suja contra uma marca antiga feita com lâmina na madeira escura de sua escrivaninha —... Faça isso então, organize-se, acomode o garoto, mas quero você as 02:15 em ponto no Cassino. Estarei lá para a negociata e quero você a meu lado... Sim, o aguardo no local de costume... Seja bem vindo de volta.
O Vor máximo da perigosa Vory v Zakone retornou o telefone ao gancho soltando um suspiro enfastiado. O telefonema de Camus havia lhe trazido certo alívio. Na verdade tinha lhe tirado um peso e tanto das costas, já que um homem com o poder e a liderança de Camus lhe fazia grande falta quando era preciso lidar com assuntos de alta periculosidade, como a negociação daquela noite no Cassino.
— Já não era sem tempo... — resmungou o velho patriarca enquanto coçava a pele flácida abaixo do queixo.
Levou a mão até uma das gavetas da escrivaninha e de lá retirou uma caixa dourada, fina, um porta charutos. Apanhou um e o acendeu pacientemente, dando uma longa tragada enquanto recostava as costas largas no encosto da luxuosa cadeira de couro negro e analisava os dizeres na caixa.
O escritório na cobertura do Hotel Leningradskaya, localizado na Praça Vermelha, tinha um cheiro forte, misto de fumaça de charuto, whisky, mofo e corrupção. Havia uma parede de tijolo colonial que abrigava uma grande janela, coberta por pesadas cortinas de veludo bordô, onde ao lado uma estante de madeira abrigava algumas peças de arte e três graciosos vasos de Rosa Canina, popularmente conhecida como Rosa Brava, planta nativa da Ásia Ocidental.
Dimitri levantou os olhos dos dizeres na caixa de charutos com um semblante pensativo, intrigado, então levantou-se vagarosamente e caminhou até a estante ao lado da janela soltando baforadas de fumaça fétida pelo caminho.
Frente à antiga peça de madeira puída, apanhou uma tesoura de jardinagem que jazia sobre uma das prateleira e com a delicadeza de um ourives passou a podar os galhos de uma das pequenas roseiras. A jardinagem ornamental era um de seus mais apaixonados hobbies, e as Rosas Bravas, como eram popularmente conhecidas na região, seus xodós. Uma planta de delicadeza e poder único, usada tanto para fins medicinais quanto para agradar os olhos até do mais duro e cruel dos homens.
Enquanto cortava os finos galhos da roseira, o Vor pensava no telefonema de Camus, até que ouviu o som de pancadas ligeiras na porta.
Ficou a escuta por um momento, sem abandonar a poda da adorada planta.
— Entre. — disse finalmente, ainda concentrado no que fazia.
Quando a porta se abriu um homem alto, semblante firme, vestido em um terno negro de corte impecável que só deixava à mostra as mãos muito tatuadas e a cabeça raspada, anunciou:
— Meu Vor, um tal de Sentinela deseja falar com o senhor. — disse firme. Era um de seus seguranças particulares — Ele diz que porta um material que pode ser de seu interesse.
Dimitri arqueou uma das grossas sobrancelhas grisalhas, congelando no ar o movimento que fazia com a tesoura de jardinagem.
— Mande entrar. — disse por fim, continuando a podar a rosa enquanto mastigava a ponta do charuto em sua boca entre uma baforada de fumaça e outra.
Quando o Sentinela entrou na sala ainda trazia consigo uma pequena bagagem de mão. Havia acabado de chegar da Albânia e pegara um taxi direto do Aeroporto Internacional de Sheremetyevo para o Hotel Leningradskaya.
— Sente-se. Fique a vontade. — disse Dimitri dando uma olhada rápida para o homem que adentrava a sala, depois podou mais dois ramos da roseira e devolveu a tesoura para a prateleira — Enfim parece que pegamos algum peixe naquele pardieiro albanês? Não me agrada pagar informantes se nunca me trazem nenhuma informação pertinente. — resmungou enquanto caminhava de volta à escrivaninha.
— Se é pertinente ou não só quem pode dizer é o senhor. — disse o Sentinela, que já sentando abria apressado o zíper da jaqueta que vestia — Eu só posso dizer que é, no mínimo... incomum.
O patriarca da Vory v Zakone puxou a cadeira da escrivaninha e se sentou, pousando o charuto em um cinzeiro de bronze.
— Vejamos... — falou recostando-se à cadeira e cruzando as pernas.
O Sentinela então retirou o gravador do bolso e o colocou sobre a escrivaninha.
— Parece que um homem grego andou tentado fazer negócios com gente graúda em território nosso, claro, sem nosso conhecimento. — disse o Sentinela.
— Você disse, grego? — Dimitri descruzou as pernas e inclinou o corpo ligeiramente para frente, olhando para o gravador com a testa franzida, verdadeiramente curioso.
— Sim, e pelo visto a negociação envolvia grana alta, mas por algum motivo o grego deu para trás... Ou os albaneses estão querendo nos passar a perna, ou o nosso pessoal da Grécia não é tão confiável quanto o senhor acredita.
Dimitri respirou fundo, pesado. Sentiu um estranho aperto no peito.
— Me dá isso aqui. — falou o Vor apanhado nas mãos o gravador e já apertando play.
A voz suave da prostituta soou pela sala, e por alguns minutos era só isso que se podia ouvir. Durante todo o áudio gravado Dimitri ficara sério, concentrado, e quando a reprodução terminou o Sentinela não sabia decifrar o sentimento que via estampado no rosto cheio de vincos do Vor.
— Meu senhor? A informação é relevante? — arriscou-se em perguntar o homem.
Dimitri então abriu uma das gavetas e nela depositou o gravador, trancando com uma pequena chave, a qual guardou dentro do bolso de seu colete de alfaiataria.
— Seus serviços serão muito bem recompensados, Sentinela. Está dispensado, pode se retirar. Procure Romanov no restaurante. Ele irá lhe pagar a passagem aérea e a estadia na Albânia. Quero que volte para lá o quanto antes. Agora saia. — foi tudo que disse o patriarca.
Assim que o Sentinela deixou sua sala, o rosto de Dimitri contorceu-se em uma carranca grotesca. Irritado deu uma pancada contra a madeira e voltou o charuto à boca, o acendendo com as mãos ainda meio trêmulas.
— Malditos gregos... — rosnou mastigando o charuto.
Enfiou a mão no colete e de um bolso interno na lateral retirou um aparelho de celular. Discou um número sendo prontamente atendido no instante seguinte.
— Tenho um serviço para você... Não, é para agora... Você irá para a Grécia, Atenas, eu lhe darei as coordenadas precisas... Não, não envolva o ruivo, você vai se reportar direto a mim... Aliás, não quero que ele te veja, nem saiba que está por lá... Sim, terá que ser invisível... Não venha ao meu escritório, não me procure pessoalmente, não quero que ninguém o veja comigo... O bordel grego... Preciso saber tudo o que anda acontecendo por lá... Você será meus olhos, Chernyy Yastreb(1)... Se provar sua eficácia e lealdade, eu mesmo tatuarei suas estrelas nos ombros... Não falhe.
(1) Chernyy Yastreb = falcão negro
Dicionário Afroditesco
Cafuçu — sujeito grosseiro, estúpido, limitado, mal educado.
Malassombrado — pessoa ruim, malvada, com más intenções.
Trucar — esconder.
Truque — ato de esconder as genitais masculinos.
NEGRITO – traduzido do francês nas partes que compreendem os diálogos entre Hyoga, Camus e Afrodite.
Traduzido do russo nas partes que compreendem os diálogos entre Dimitri e Sentinela.
Fale com o autor