Templo das Bacantes Vol. 2
22 O Sentinela.

Albânia, 1:20am
No camarote à meia luz de decoração démodé e estofados vermelho sangue desbotados que mais causava desconforto visual que aconchego, a nostalgia dos velhos anos áureos do Socialismo que regia aquele país era perceptível. Possivelmente, muitos dos acordos escusos de seus antigos aliados, como os chineses, foram tratados ali, naquele inferninho, mas agora somente um dos inúmeros bajuladores da realeza do Qatar, um aspirante a SCheik, frequentava o local para seus acordos particulares.
Enquanto dois dos quatro homens ali presentes conversavam, o pequeno espaço tinha seu ar contaminado pelo cheiro forte da fumaça do cigarro barato que era soprada à baforadas nervosas pelo capanga albanês do quase Sheik, um homem mal encarado de cabelos oleosos que batia incessantemente a ponta do lápis que trazia em uma das mãos contra a mesa de granito.
— Você entendeu tudo nos conformes? — disse o capanga ao lançar um olhar dardejante ao homem loiro que negociava com eles.
— Sim, mas vou recapitular para que não fique nenhuma dúvida. — o loiro respondeu nem um pouco intimidado — O senhor quase Sheik aí deseja oito esposas para seu harém, entre indígenas, polinésias, latinas, tailandesas, albinas, ruivas, negras, loiras... desde que sejam jovens e virgens... Bom, eu devo dizer que sinto muito, mas eu não sou a pessoa indicada para essa negociação. Sei que me procuraram dado meu profissionalismo, e porque só trabalho com “material de primeira”, mas devo deixar uma coisa bem clara aqui, senhores. Eu não sou cafetão. Não sou aliciador, explorador de mulheres, muito menos canalha... Todas as minas para quem eu arrumei um “trampo” já estavam na prostituição e aceitaram o trabalho de livre e espontânea vontade porque lhes ofereci melhores condições e garantia de liberdade, de poderem sair a hora que quiserem. Nunca forcei mulher nenhuma a nada, então eu não vou arrumar virgens para você deflorar, nem mulheres para você abusar. Tô fora!
Nervoso, o aspirante a Sheik franziu a testa, inclinou-se sobre a mesa e aproximando seu rosto vermelho ao do negociante o encarou firme nos olhos.
— Seus serviços me foram muito bem recomendados. Não por qualquer um, não... Pelos russos, e também pelos gregos, mas o que vejo aqui é um homenzinho que pensa pequeno e que está trocando uma negociação milionária por questões de... De quê? De direitos humanos? — deu um tapa na mesa e soltou uma gargalhada sonora — Ora não me faça rir. Você aceitou vir aqui para fechar acordo comigo porque disse que este serviço seria pago diretamente a você. Que não está negociando pela Vory v Zakone nem pela máfia grega para a qual você trabalha. Você vai embolsar uma quantia que raramente veria em toda sua vida e está preocupado com o bem estar das vadias que quero foder? Não seja imbecil, eu vou dar uma vida de luxo a elas, com muito ouro, comida da melhor qualidade, viagens, as melhores roupas... Terão uma vida de rainhas, e tudo que têm que fazer em troca é trepar comigo, e somente comigo, e assim, quem sabe, até serem úteis e me darem herdeiros. Não acha uma troca justa?
— Não, eu não acho. — o outro respondeu inclinando-se também para frente, encarando com os olhos azuis faiscantes a face contorcida do Sheik — Porque não sou eu quem tem que achar alguma coisa aqui. Se é uma troca justa ou não, não cabe a mim decidir, mas a essas mulheres. Mas... não acho que você seja o tipo de homem que permite a uma mulher fazer suas próprias escolhas, não é mesmo? Você não passa de um egocêntrico que não tem pudores para satisfazer os seus caprichos, porque eu duvido que algum membro graúdo da família Thani precise comprar escravas sexuais. — estreitou os olhos ameaçadoramente — Já disse que tô fora... Mesmo precisando muito dessa grana.
Antes que o aspirante a Sheik pudesse se manifestar, o capanga que o acompanhava atirou ao chão o lápis que batia incessantemente contra a mesa num gesto visivelmente furioso, atraindo para si a atenção dos dois homens que discutiam.
— Vem cá seu babaquinha da calça apertadinha. — roncou ao se levantar da cadeira de supetão e encarar a face do negociante — Você, por um acaso, veio até aqui ou acha que estamos aqui para fazer caridade? Se quer fazer caridade vá procurar o padre da paróquia mais próxima, porque aqui é a porra de um bordel e nós a porra de uma máfia. Você está me fazendo perder meu tempo e o do árabe endinheirado aqui, seu merda! Se ofereceu para fazer um serviço e agora vem querer dar lição de moral? Ah, vai se foder! Quer também que a gente pague um jantar antes de trepar com uma puta? — deu uma risada debochada sendo acompanhado pelo outro capanga que estava sentado à mesa.
Enfastiado de tudo aquilo o homem loiro empurrou a cadeira na qual estava sentado para trás e sem se intimidar levantou-se para encarar os olhos pequenos e fundos do capanga.
— Um jantar não seria má ideia. Apesar de sempre quererem ser magras e negar até a morte que adoram comer, mulheres apreciam muito a boa arte da gastronomia. — devolveu o sorriso debochado ao homem que lhe encarava — Porém eu duvido que elas fossem querer passar mais horas do que são necessárias na companhia de homens como vocês. Esse sacrifício cabe às suas esposas. — deu as costas e antes de se retirar olhou por cima dos ombros para os três homens ali — Como eu disse, não faço esse tipo de serviço, então não sou quem vocês procuram.
— Isso, vai! — bradou o capanga do aspirante a Sheik — Volta para os maricas dos russos ou para os frouxos dos gregos, seu pau mandado... Vai lá ganhar aquela esmola que eles te pagam para você fazer caridade. Se é que estão te pagando, porque se aceitou vir até aqui, em território rival, é porque nem isso aqueles russos miseráveis devem estar te pagando. — soltou mais uma risada debochada que espalhava ao mesmo tempo fumaça — Dimitri está sem o braço direito dele, então aproveita que eles estão desfalcados e não vão dar falta de um babaca como você e vá oferecer seus serviços ao clã Zemun. Quem sabe lá na Sérvia eles não adotem putas!
Súbito o loiro parou de andar e franziu a testa preocupado. Por sorte já estava de costas para os outros três que não puderam notar a apreensão em seu olhar por conta daquela informação. Preferiu não responder à provocação e seguiu em frente deixando o camarote, mas antes ainda pode ouvir um comentário do outro albanês que lhe deixou ainda mais preocupado.
— Quer dizer que o Dimitri está sem um dos seus homens de confiança, é? Desde quando?
— Pelo que eu soube, mais tempo do que alguém que está vivo deveria ficar sem dar às caras. — respondeu o capanga enquanto acendia outro cigarro.
— Será que morreu o sujeito? — questionou o quase Sheik.
— Não faço ideia... Só sei que aquela merda deve estar mais bagunçada que uma zona. Todo mundo sabe que o velho decrépito do Dimitri não aguenta nem o peso das próprias calças mais, que ele é o mandante, mas o executor de tudo é o tal braço direito que tá sumido.
— Hum... Então o velho está sem o lacaio faz tudo dele... Hora boa essa, heim! — disse o Sheik.
— Sim, hora boa para gente escorraçar a Vory do Qatar de vez... Sem aqueles russos desgraçados vai ficar fácil tomar o controle dos negócios com a Sérvia para nós de novo... Quando notarem nossa movimentação já seria tarde. — disse estalando a língua em sinal de satisfação.
Impaciente o loiro desceu os dois lances de escada indo direto para o bar que ficava um pouco mais isolado do salão. Ao sentar no banquinho e se acomodar sinalizou ao barman e pediu uma dose de whisky, depois retirou do bolso interno de sua jaqueta de couro um aparelho celular.
Enquanto lhe era servida a bebida discou os números que só bem poucos tinham acesso, apenas alguns dos cavaleiros de Ouro do seleto exercito de Atena, e já no terceiro toque ouviu a voz seca e grave, de carregado sotaque francês, do outro lado da linha.
— Sim sou eu... Ora, não ligaria se não julgasse importante... — girou a cabeça para o lado e correu rapidamente os olhos pelo salão, certificando-se de que ninguém ouviria a conversa, mesmo que ali fosse bem difícil alguém falar grego fluente —... Albânia, estou na Albânia... — baixou a cabeça e o tom de voz —... Não é mais seguro você continuar tirando suas férias ai na Grécia, longe do seu posto na Vory... Não importa, já sabem que Dimitri está sem o faz tudo dele, e sabe o que isso significa, né?... Não precisa me agradecer.
A ligação foi encerrada e o celular recolocado no bolso da jaqueta. Pegou de cima do balcão o copo com whisky e derramou a bebida garganta abaixo num só gole.
Enquanto concentrava-se no amargor em sua língua, uma espécie de fuga para afastar os pensamentos constantes de sua mente preocupada, observava o movimento ao redor sem nada ali prender sua atenção. No entanto, por mais que tentasse evitar as lembranças que tanto lhe perturbavam, através da bebida, esta parecia torna-las ainda mais recorrentes. Queria que só por algumas horas elas evaporassem de sua cabeça como o álcool evapora do copo, mas ao contrário ficavam cada vez mais marcantes como o alcatrão daquele whisky falsificado que a casa oferecia como um doze anos.
Encheu mais uma vez o copo e deu um gole fixando em seguida o olhar perdido na garrafa que reluzia o líquido dourado em contraste com a luz colorida do ambiente. Perguntava-se como faria para conseguir tanto dinheiro. Não sabia sequer a quantia exata que precisaria, mas isso também não fazia diferença, já que teria que arrecadá-la de qualquer maneira. Tinha pouco mais de algumas centenas de dólares, mas isso não era nada comparado às cifras na casa dos milhões que precisaria arrecadar para cumprir seu plano.
O desespero da situação ia lhe consumindo aos poucos e a cada vez que pensava que acabara de recusar um serviço onde ganharia alguns milhões... Mas a que custo? Ao de arrancar moças ingênuas de seus lares com falsas promessas e joga-las em um verdadeiro terror.
Não podia, e não iria fazer isso. Não era esse tipo de patife.
Não podia ceivar a vida de tantas outras para salvar apenas uma.
Geisty...
Soltou um suspiro ao quase murmurar o nome da amazona por quem tinha nutrido, até sem se dar conta, uma forma estranha de sentimento, quase inexplicável. Nesses seus vinte e poucos anos de vida nunca havia se apegado a mulher alguma da forma como se apegara à Geisty, e nem sabia dizer a si mesmo como e quando isso aconteceu, só sabia que quanto mais tentava se desvencilhar parecia que a vida o prendia mais a esse sentimento confuso.
Deu mais um gole generoso na bebida a matando de uma vez do copo e logo o enchendo de novo...
Talvez tenha baixado a guarda de seus sentimentos e se deixado fisgar pelo olhar triste e gestos confusos daquela jovem amazona na primeira noite que estiveram juntos. Talvez tenha sido a satisfação de conseguir fazer brotar um sorriso nos lábios pintados de carmim que o viciara na sensação de poder fazer a diferença para alguém. Mesmo que fosse por algumas poucas horas a fez esquecer da realidade de merda na qual havia sido atirada sem prévia autorização... Era o que pensava.
Baixou os olhos para o líquido dourado que reluzia no copo e as lembranças daquela primeira noite com Geisty logo foram substituídas pelas do fatídico dia do churrasco. Bufou de raiva, de desgosto, e pediu outra garrafa ao garçom, pois aquela já estava quase vazia.
A decisão que tomara era tão certa e altruísta quanto distante e difícil de ser concretizada, mas de uma coisa ele estava convicto, mesmo que levasse a vida tentando iria libertar Geisty daquela realidade que acreditava oprimi-la.
Quando o garçom lhe serviu a segunda garrafa sentiu o cheiro forte de almíscar lhe invadir o olfato. O aprazível perfume veio acompanhado de um toque suave em seu ombro, e quando pensou em se virar para trás para olhar de quem era aquele contato gentil, uma voz melodiosa dita num inglês carregado em sotaque sérvio lhe sussurrou ao ouvido em tom sensual.
— Boa noite!
Milo virou o rosto para o lado e encontrou um lindo par de olhos azuis turquesa a encarar os seus.
— Boa noite. — respondeu com um leve sorriso no canto dos lábios, nitidamente desanimado, mas não o suficiente para afastar a prostituta.
— Por que um cara tão bonito como você está aqui sozinho?
— Por que eu não vim aqui em busca de companhia. — respondeu seco.
— Não? Não mesmo? E o que faz aqui se não quer companhia, justo em um bordel?
A prostituta não havia se dado por vencida, e ao perceber que o loiro não lhe dava atenção se virou de frente para ele apoiando os cotovelos no balcão e arqueando as costas. Sabia bem de seus atributos físicos, e um belo par de seios estufados em um corpete preto de cetim e rendas era algo difícil de ser ignorado pela maioria dos homens.
E com ele não foi diferente.
O loiro correu os olhos pela figura da jovem esguia, de pele muito branca, cintura delgada apertada em um espartilho e seios que quase pulavam do decote rendado. A saia curtíssima de couro deixava à mostra as pernas finas enfiadas em meias arrastão sete oitavos. O rosto era miúdo e magro, carregado em uma maquiagem extravagante, e chamava a atenção para os olhos azuis muito claros que contrastava com os cabelos castanho escuro na altura dos ombros.
Não podia negar que a moça era bonita. Estava longe da beleza das garotas que fornecia para os bordeis mais exigentes, mas ainda assim era bonita.
Em outros tempos a mesma jovem nem precisaria aborda-lo, ele mesmo faria esse papel, mas naquela noite estava exaurido, física e mentalmente, e preferia ficar sozinho curtindo os seus problemas.
— Vim tratar de negócios. — disse frio desviando o olhar e se concentrando em encher o copo novamente.
— Mas você só trabalha, não se diverte também? — disse ela correndo a mão pela coxa do loiro que apenas a olhava enquanto sorvia sua bebida.
— Hoje não estou no meu melhor dia, logo não sou uma boa companhia. — ele respondeu engolindo o resto da bebida e já se preparando para encher o copo de novo, mas parou no meio da ação quando a moça novamente falou consigo.
— Deve ter sido uma decepção amorosa e tanto essa, heim?
— Como disse? — ele perguntou surpreso.
— Só mulher deixa um cara assim... desse jeito aí que você está.
Ele novamente soltou um suspiro profundo e ruidoso.
— Bebida não vai adiantar, querido. Só uma boa trepada pode espantar essa tristeza que está pairando sobre sua cabeça... Pelo menos momentaneamente. — aproximou o rosto e sussurrou insinuante ao ouvido dele enquanto corria a mão por sua coxa a apertando de leve — E se a vida é feita de momentos, como dizem, eu garanto a você que espanto essa sua tristeza com muito prazer. — por fim sugou lhe o lóbulo da orelha, provocante.
Para ele foi impossível ser indiferente a todo aquele estímulo. Uma onda de calor subiu-lhe pelo corpo lhe causando certo tremor, e a mente, já ligeiramente entorpecida pelo efeito etílico, agiu automática o fazendo laçar a cintura da jovem com um de seus braços para colar seu corpo ao dela, a olhando nos olhos com desejo.
— Onde fica seu quarto? — perguntou já segurando a garrafa de whisky pelo gargalo.
Com um sorriso satisfeito no rosto a moça o puxou do banquinho do bar para juntos subirem para o quarto, e de lá não desceria tão cedo.
***
Não sabia ao certo quantas horas passou ali. A única coisa de que tinha certeza era que pouco se lembrava do que havia feito. Talvez porque o álcool minara toda sua capacidade de memória, ou talvez porque em sua mente só havia espaço para um só pensamento: o que faria para tirar Geisty do julgo cruel de Saga.
Sentou na beirada da cama redonda de lençóis vermelhos com os cotovelos apoiados nos joelhos. Sua cabeça girava levemente e sentia o estômago meio enjoado. Suspirou fundo, levantou-se e caminhou, nu e trôpego, até uma pequena janela que havia nos fundos do cômodo. Talvez um pouco do ar fresco da noite levasse aquela náusea incômoda embora.
Encostou-se no parapeito, inclinou o tronco levemente para frente e de olhos fechados puxou o ar para dentro dos pulmões, uma, duas vezes, concentrado, mas aquela brisa fria parecia carregar consigo lembranças indesejadas, lembranças da Grécia...
Baixou a cabeça e esfregou o rosto com ambas as mãos, irritado, cansado. Foi quando sentiu uma mão delicada tocar sua cintura e deslizar sorrateira para seu peito. Retirou as mãos do rosto e olhou para ela.
— A melhor forma de não sofrer uma ressaca é não parar de beber. — disse a mulher que agora lhe oferecia uma dose de gin tônica enquanto já colava seu corpo esguio ao dele — Já que o álcool em nada parece afetar seu desempenho, vamos aproveitar. Tenho muitas opções aqui.
Ele apanhou a bebida, mas não se interessou em provar. Ao em vez disso ficou olhando como que em transe para o balé das pequenas bolhas que subiam até eclodir na superfície do fino vidro da taça.
— Não, obrigado... Eu acho que... já bebi o suficiente... por hoje... — disse arrastado, entre um soluço e outro —... Na verdade... eu só quero ficar quieto aqui, na minha.
Milo não se deu conta de que falava em grego e muito do que dizia sua acompanhante não era capaz de entender... Ou será que era?
— Hum... Qual é? — a mulher sorriu desdenhosa — Você está em um quarto de bordel, e acompanhado de uma puta... Tudo o que você não quer nesse momento é ficar quieto. — disse num grego carregado de sotaque árabe e meio embolado.
Ele desviou o olhar da janela para encara-la com um olhar inexpressivo. Não que tivesse se surpreendido ao ouvi-la falar em grego, mesmo que fosse um grego quase incompreensível, não tinha ainda se dado conta, mas porque de fato não queria estar ali, não queria estar com ela, mas sentia-se tremendamente sozinho, triste, magoado, derrotado. Aquela mulher era sua única companhia em dias, e com a mente entorpecida e o coração partido tudo que queria era conversar, falar e ser ouvido, mesmo que fosse para alguém que não conhecia e provavelmente não entenderia nada do que dissesse.
— Pois é exatamente isso... isso que eu quero... ficar quieto... quietinho... — suspirou mais uma vez e segurou na mão que a prostituta tinha sobre seu peito, aconchegando-se mais ao corpo dela enquanto olhava com os olhos azuis vidrados para fora da janela um letreiro que piscava incessantemente em luzes de um tom vermelho vibrante —... Eu cansei dessa vida de farra... dessa vida onde... se tem tudo e nada ao mesmo tempo...
A mulher encostou a fronte no ombro do cavaleiro piscando os olhos algumas vezes, depois entrelaçou seus dedos aos dele como quem oferece apoio.
E era esse apoio que ele buscava.
— Nunca imaginei que um dia iria ficar na fossa por causa de uma mulher... — disse o grego ainda com os olhos fixos no letreiro luminoso em vermelho, concentrado, hipnotizado pelo pisca-pisca — Já fiquei quebrado de grana, já tive que sair fugido, já tive que ficar sem dar as caras em alguns lugares, em vários lugares, mas nunca tudo isso ao mesmo tempo... e por causa da mesma garota... — usava de um tom baixo, como se estivesse em um confessionário e não em um quarto de zona.
A mulher o ouvia sem esboçar reação alguma.
— Eu nem sei se eu tô fazendo a coisa certa... Bem capaz que só esteja pagando de trouxa... — suspirou ruidosamente, quase numa bufada — Mas não consigo simplesmente ignorar o fato de que ela está grávida e aquele crápula ainda a faz se prostituir para pagar uma dívida astronômica para aqueles russos cretinos... Dívida essa que ele também tem culpa no cartório, mas joga tudo nas costas dela... E pior... Ela caiu direitinho no papo furado dele, acreditou quando ele disse que a ama... Mulher quando dá pra ser ingênua... Queria matar todos eles e levar ela para longe, bem longe da Grécia... ela e os bebês que ela espera... — baixou o rosto e olhou novamente para as bolhas que dançavam dentro da taça de gin —... Os bebês... Essa merda de gravidez pode nem ser verdade... Ele bem pode tê-la coagido a confirmar essa história só para tê-la exclusivamente para ele... mas... por que ele faria isso? Afinal que cafetão vai querer perder sua joia mais rentável?... Miserável, patife...
Percebendo que o outro se alterava, a mulher beijou delicadamente seus ombros e usou a mão que tinha livre para acariciar seu rosto.
— Shiii... tome um gole da bebida... Você está muito tenso. — ela disse em voz mansa e sussurrada.
— Eu tô é muito fodido, isso sim. — ele respondeu, depois deu um gole na bebida quase sorvendo todo o líquido borbulhante da taça — Preciso de muita grana pra pagar a maldita divida dela e tira-la de lá, e mais um tanto pra fugir com ela e manter os bebês que ela vai ter... Também tenho que pensar no que fazer com o outro puto lá, porque eu tenho certeza que ele virá atrás dela... Hump... Grande Mestre de merda... Preferia que aqueles bebês não fossem dele. Gente ruim não tinha que reproduzir.
— Venha, se acalme... Vamos voltar para a cama. — disse a prostituta o puxando pelo braço.
O grego girou a cabeça e olhou para ela com um semblante enfastiado no rosto corado pela bebida.
— Você não entendeu patavina do que eu disse né? — ele falou em grego deixando escapar um sorriso, depois puxou a mulher para um abraço terno e lhe beijou a testa delicadamente — Obrigado por ter me ouvido mesmo assim... Eu realmente tenho que ir. Tenho outros assuntos para resolver e não será dormindo e trepando que eles se resolverão, infelizmente.
— Ah, qual é? Você não vai sair assim, bêbado desse jeito, descanse um pouco primeiro. — ela devolveu o gesto afetuoso com um beijo no pescoço do loiro.
— Acredite, estou acostumado com coisas bem mais fortes. Alguns litros de álcool no meu sangue não são o suficiente para me derrubar não.
— Coisas mais fortes? Do tipo, pó? Heroína?
— Não. Do tipo veneno de escorpião! — sorriu, e com um selinho nos lábios da acompanhante desfez o abraço e foi apanhar suas roupas espalhadas pelo chão.
Vestiu-se apressado, e antes de deixar o quarto retirou a carteira do bolso interno da jaqueta de couro e pagou para a mulher o valor do programa mais um adicional pela “conversa”, certo de que ela não falava seu idioma e não tinha entendido nada, mas mesmo assim sentia-se aliviado em poder desabafar com alguém.
— Tchau gata, valeu pela noite. — disse antes cruzar a porta do quarto.
***
No salão do bordel a música tocava em um volume tão alto que chegava a ferir os ouvidos de quem ainda perambulava por ali. Não que os frequentadores, já acostumados, se importassem com o volume da música, tampouco se sentissem desconfortáveis, na verdade nem se davam conta, já que suas atenções eram todas voltadas para as beldades que serviam sexo e que desfilavam pelo recinto exibindo seus corpos.
Assim que desceu do quarto Milo de Escorpião cruzou o salão direto para a saída do estabelecimento. Não restavam muitos frequentadores naquela hora. A comitiva do aspirante a Sheik já havia se retirado há tempos, frustrada e irritada com o fracasso da negociação, e agora ali restavam alguns homens que ainda bebiam no bar e outros grupos em algumas das mesas no centro do salão a farrear com as prostitutas entre gargalhadas e amassos salientes.
A saída de Milo teria passado despercebida, não fosse por um par de olhos atentos que acompanharam seus passos até que cruzasse a porta que levava à rua. Depois que o viu sair, sua atenção passou a ser voltada exclusivamente para a entrada do corredor que dava para os quartos das prostitutas.
Logo avistou quem esperava e de pronto lhe fez um sinal levantando o braço no ar e estalando os dedos.
A mulher que tinha passado a noite com Milo respondeu ao gesto com um leve menear de cabeça, e antes de seguir até a mesa no fundo do salão, onde o homem que lhe fizera o sinal estava sentando, correu os olhos por todo o local para certificar-se de que o grego havia mesmo ido embora. Certa que sim seguiu até ele caminhando lentamente entre as mesas.
— Boa noite, Berta. — disse o homem sentado à mesa, que não contava com mais de quarenta anos, mas já possuía no rosto as marcas de uma vida dura, o que lhe dava um ar muito mais velho do que possuía. Vincos profundos e olheiras escuras dividiam espaço com algumas cicatrizes e tatuagens de símbolos, especialmente no pescoço enrugado. Tinha cabelos ralos, num tom de terra, uma barba espessa e usava luvas negras de couro no mesmo tom da jaqueta para esconder as tantas tatuagens que tinha em ambas as mãos.
— Spokoynoy nochi! — a mulher respondeu ao puxar uma cadeira para se sentar.
— Shii... Não fale em russo. — repreendeu o homem.
— Ah, justo agora que estou ficando boa nisso? Hum... deixa vai, Sentinela... Deixa. — inclinou-se para frente quase tocando os lábios do homem com os seus.
— Para com isso, mulher. — ele afastou-se se encostando ao encosto da cadeira — Não estou para brincadeiras. Já é um saco ter que vir aqui quase todo dia e ainda tenho que te lembrar das regras toda hora.
— Hum... tá nervosinho? Aposto que não deve achar tão ruim ter de vir aqui todo dia, Sentinela. Você trepa, você bebe, você arruma briga... Aqui tem tudo que você gosta que eu sei. — riu divertida.
— Você não sabe de nada de mim, Berta... Nem é paga para saber de mim, é paga para saber da movimentação dos albaneses. Então, faça seu trabalho e não torra a porra do meu saco.
A mulher deu um leve sorriso, cruzou as pernas torneadas e também encostou-se no encosto da cadeira, encarando o rosto sombrio do homem.
— Quer saber por que o cara das Arábias veio aqui, né?
— Eu sei que ele veio comprar escravas, isso não é novidade. — o homem disse logo depois de dar um gole na bebida que tinha como companhia, uma dose de vodca pura — Quero saber quem era o homem que negociava com ele, o loiro do cabelo de cantor de conjunto de rock americano.
— Humm... o loiro tesudo você quer dizer. — a mulher sorriu maliciosa, depois apanhou o copo de vodca do homem sentado à mesa e deu um gole farto fazendo uma careta em seguida.
— Poupe-me da sua opinião. Ela não me interessa. — disse ele inclinando-se para frente — Ele nunca veio aqui antes. Tem pinta de estrangeiro...
— Grego. — ela disse ao interrompê-lo — Precisamente falando.
A expressão do homem se transfigurou numa carranca séria, misto de confusão e surpresa.
— Grego? Nessas bandas?
— Sim. Ele ficou enchendo meus ouvidos lá em cima com a dor de cotovelo dele. Falava em grego achando que eu não entendia nada.
— O que ele disse?... A negociação com o Sheik foi concluída?
— Me parece que não. — ela informou enquanto abria uma embalagem de goma de mascar e jogava dentro na boca — Ele falou algo sobre trabalhar por conta própria, que precisava levantar uma grana aí para fugir com uma puta que se meteu com uma dívida em um bordel grego... pelo menos foi o que eu entendi. — mascava o chiclete enquanto encarava um ponto qualquer no centro da mesa, como se estivesse procurando na memória as palavras exatas que Milo havia dito dentro do quarto momentos antes.
— E o que mais ele disse? — o homem perguntou sem muito ânimo.
— Sei lá... ele estava bem na merda... Parece que veio até aqui para negociar com o Sheik, mas por algum motivo a negociação não deu certo, e agora está correndo contra o tempo porque a tal puta lá da Grécia está grávida, e ele quer tirá-la da vida antes que ela tenha os bebês. — interrompeu-se para soltar uma gargalhada sonora — Ai... esse cara não existe. A puta está grávida do cafetão, pelo que entendi, e ele quer tirá-la do bordel e fugir com ela e os filhos do cara... Pobre coitado. O que a paixão não faz com a gente.
— Hum... — grunhiu o homem ao dar um gole na vodca, pensativo —... E ele disse o nome dessa vadia que está grávida? Ou o nome da zona onde ela trabalha?... Ele disse algum nome?
— Ah, sei lá... Espera!... Sim... ele disse algo... Hum... Poderoso Chefe?... Não... Grande Chefe? Espera, não era isso... Uhm... Grande Mestre! Sim! Grande Mestre.
— Grande Mestre? — o homem repetiu erguendo uma das sobrancelhas.
— Sim, Isso mesmo! Grande Mestre. Foi a única coisa mais perto de um nome que ele disse... Pode nem ser um nome, né? Grande Mestre, que brega.
— Sim, pode nem ser um nome, como pode ser uma informação pertinente. — disse o homem enquanto metia a mão dentro do bolso do paletó que vestia para retirar um pequeno gravador que já estava acionado desde a chegada da mulher à mesa — Um homem grego que despencou da Grécia até aqui para negociar escravas com um Sheik, o que já o coloca em uma situação suspeita, visto que se trata, então, de um atravessador em um território sob nosso comando. Não fechou o negócio porque estava com dor de cotovelo por causa de uma puta que está grávida de um cafetão grego...
— Ah! Ele citou outra coisa que acho que vai gostar de saber também... Ele disse que a tal vadia que está gravida é obrigada a se prostituir para pagar uma dívida do cafetão grego aos... russos. — mandou um beijo no ar para o homem que a encarava curioso e atento — E ele também falou algo sobre consumir veneno de escorpião... Olha, vou te falar, Sentinela, aquele lá tudo que tem de lindo, fogoso e competente na cama tem de maluco e ingênuo. Coitado, vai sofrer ainda muito na vida por causa de mulher.
O homem acionou o botão ao lado do gravador interrompendo a gravação.
— Bom trabalho, Berta. Já tenho o suficiente. — disse com voz pigarrenta.
***
Santuário de Atena, Grécia.
Casa de Aquário, 05:12am
Camus cruzou o corredor que levava ao quarto de Hyoga a passos lentos e silenciosos. Havia passado a madrugada acordado desde que atendera ao celular, pensando no que faria assim que o Sol despontasse no horizonte anunciando um novo dia.
Tinha que tomar uma atitude nada fácil, mas não tinha escolha.
Entrou no quarto piscando os olhos algumas vezes para se acostumar com a penumbra, então caminhou até a cama sentando-se na estreita beirada. Olhou pesaroso para as duas pessoas que dormiam abraçadas e tranquilas entre os lençóis de fino tecido francês com estampas de cristais de gelo e graciosos pinguins. Soltou um suspiro pesado.
Inclinou ligeiramente o corpo para o lado até seus lábios tocarem a face pálida do homem que dormia, então a beijou com ternura antes de lhe acordar sussurrando em seu ouvido.
— Afrodite... Mon amour... Acorde. — deu outro beijo no rosto do pisciano, no cantinho dos lábios ligeiramente pintados de rosa —... Ma belle rose... acorde.
Afrodite franziu a testa e remexeu-se na cama. No movimento Hyoga fez o mesmo virando-se para o lado, mas sem despertar.
— Hum... Camy... Já é de manhã? — murmurou o pisciano entreabrindo os olhos e se espreguiçando — Não ouvi o despertador... já vou subir para Peixes...
— Non... non te acordei para subir para sua casa antes do Sol nascer. — o francês sussurrou acariciando a franja do namorado, aproveitando para correr os olhos pelos traços belos de seu rosto para contemplar a beleza única do homem que tanto amava.
— Não? Então me acordou pra trepar? Hum... Nossa Camus, eu adoro ser acordado no meio da noite pra trepar! — sussurrou o sueco já fazendo menção em se levantar.
— Shiii... para com isso, seu safado. Eu te acordei porque preciso conversar com você e non posso esperar o Sol nascer.
— Conversar? — Afrodite perguntou apreensivo, já apoiando os cotovelos no colchão para encarar o rosto de Aquário — Hyoguinha está aqui, então não é nada com ele. Aconteceu alguma coisa?
— Oui, aconteceu. — trocaram um olhar apreensivo, tenso, ansioso — Afrodite... Eu e Hyoga vamos partir... Hoje ainda, se possível.
— O... o que?
— Vou voltar para Moscou e levarei meu filho comigo.
***
*Negrito — traduzido do árabe
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