Templo das Bacantes Vol. 2

5 Nenhum doce e muitas travessuras! - parte 2.


Notas iniciais
Olá amores, antes de irmos para a segunda parte dessa festa gostaria de dar um pequeno esclarecimento. Todos os cavaleiros do santuário são poliglotas. Desde criança eles aprendem a falar no mínimo cinco idiomas diferentes de escolha pessoal + grego, afinal são uma organização internacional. Não colocamos esse detalhe na fic, mas achamos que havia ficado subentendido esse lance de que eles falam vários idiomas. Alguns falam ainda mais, Mu por exemplo é especialista em idiomas antigos e exelênte tradutor de línguas mortas. Hyoga fala até o momento 2 idiomas, francês e russo mas já está aprendendo grego. E não , não é demais. Tenho um vídeo de uma criança pequena que deve ter nao sei, entre 5 a 7 anos que fala FLUENTEMENTE SETE IDIOMAS. Quando se aprende desde novo, é muito mais fácil. Então sim Hyoga logo logo estará se comunicando em grego com os demais. O mesmo com as bacantes, cada uma tem seu idioma natal, mas por trabalharem em um bordel de LUXO, elas precisam aprender no mínimo o grego e o inglês. ;) A imagem de capa mais uam vez é obra da nossa amanda Rosenrot/Ju *-*

Ao se aproximar do namorado esse a recebeu com um sorriso e um olhar curioso.

— O que aconteceu, Geisty? — perguntou Saga — De repente você sumiu, depois te vi de longe falando com Mu? Aconteceu alguma coisa? O Buda já aprontou alguma, né? Estava demorando!

— Não... Não amore mio.

— Então foi o Afrodite? Esses dois sempre foram as pedras nos meus sapatos!

— Saga, se acalme! Está tudo bem! — a amazona respondeu rindo da apreensão do geminiano — A festa está linda, está tudo tranquilo, nenhuma confusão até agora. Relaxa. Eu que fui correr com o menininho de Batman e acabei perdendo o equilíbrio e cai...

— O que? Você está bem? Se machucou?

— Estou bem. Claro que estou bem, que pergunta! Só me desequilibrei. Mu veio me ajudar, mas o pobre coitado já está tão bêbado que não está falando coisa com coisa. — dizia às gargalhadas sendo acompanhada por Saga.

— O dia em que Mu participar de uma festa e não ficar bêbado Baco vai ser destituído de seu posto. — brincou o geminiano, depois fez uma carícia no queixo dela e a trouxe para um abraço — Então você gostou do pequeno Batman?

— Ele é uma fofura! Mas uma criança aparecer aqui, assim do nada, é bem estranho.

— Não vai acreditar quando souber filho de quem ele é... — disse Saga, recebendo um olhar curioso da namorada.

Ao que as luzes da pista de dança se apagaram e apenas uma luz azulada se acendeu no palco onde um DJ comandava a festa, os acordes do tango “Por una cabeza” começaram a tocar e Gêmeos puxou Geisty para mais junto de si, colando seus corpos.

— Pedi para o DJ tocar essa música para nós. — Saga sussurrou no ouvido da namorada enquanto pegava em sua mão a conduzindo para o início da dança — Estou louco para dançar com você.

— Adoro esse tango! — disse a amazona com voz sedutora, olhando fundo nos olhos do grego.

— E eu adoro dançar esse tango com você. — respondeu o grego com volúpia na voz rouca, enquanto a mão que tinha livre corria ávida pelas curvas da silhueta sexy da morena lhe arrancando um suspiro.

Quando começaram a dançar não houve um par de olhos sequer que não tivesse desviado sua atenção momentaneamente para eles no meio do salão. Mesmo porque não era todo dia que se via Coringa e Arlequina fazendo uma exibição de tango com extrema desenvoltura e sincronia.

Entre os muitos burburinhos que eram ouvidos, um em especial era de total insatisfação e inconformismo.

Encostados em uma das pilastras da decoração, Shina e Milo bebericavam seus champanhes enquanto observavam o casal.

Escorpião, com um semblante de desagrado, resmungava para Ofiúco:

— Fala sério cara. Quem curte isso? Mó música de velho!

— Pois é. — respondeu desanimada Shina, não querendo alimentar a insatisfação do outro.

— O que o Saga pretende com isso? Matar Geistynha de tédio?

— Ah Milo, nem é para tanto. Tango é uma dança sensual, artística, dramática. — disse a moça fechando os olhos e balançando o corpo em uma dança solitária.

— E daí?

— Dá pra dar uma... como é mesmo que você diz? Dar uma sarrada! — disse pertinho do rosto do cavaleiro — E de encoxada nos entendemos.

— Hum... — Escorpião fez um queixume.

— Você está é com inveja... E por que não dizer, ciúmes?

— Se liga, Shina. Ciúmes? Eu? Não viaja.

— Você sim! Você queria estar ali dançando com ela. Pode enganar até a si mesmo, Escorpião, mas a mim você não engana.

— Nada me impede de dançar com ela. — Milo respondeu com um sorriso malicioso.

— Ai Milo, não procura problema não. Será possível que você não desiste? O pior cego é o que não quer ver.

— Ver o que? Que Saga está monopolizando a Geistynha? Isso eu já vi. Já notei há muito tempo, inclusive. Fica obrigando a mina a ficar do lado dele o tempo todo...

— Como é? — perguntou surpresa com os olhos verdes arregalados.

— É pô, ele enseba só pra manter ela ali do lado dele o tempo todo, mas eu sei do que ela gosta... Sei que ela queria estar livre, voando por ai.

— Será que queria mesmo, Milo?

— Tá de palhaçada? Claro que queria!

— Hum... E se Saga a deixasse livre, voando por ai, você a fisgaria na mesma hora né?

— Exato! Por isso o Saga prende ela, eu pesquei qual é a dele.

— E desde quando surgiu essa súbita vontade de “fisgar” alguém, Milo? Justo você? Não me diga que... está apaixonado!

— Se liga, Shina. Não disse nada.

A amazona caiu na risada subitamente.

— Acho que você chegou tarde, querido. Essa você perdeu. — disse firme atraindo a atenção do escorpiano — Você está totalmente fora da realidade... Tá maluco da cabeça se acha que ela estando livre correria para você.

— Eu? Maluco da cabeça? Maluca da cabeça está você, Shina. Onde já se viu um cara que gosta de uma mina fazer ela de puta dentro de um bordel? É desse cara que ela gosta? Então maluca da cabeça é ela!

Nesse momento, enquanto Shina e Milo trocam olhares pouco amigáveis, Aldebaran se aproximou sorridente.

— Fala aê cambada, beleza?

— Fala, Debão, beleza nada. — respondeu Milo — Essa ai tá de papo torto. — apontou para Shina.

— O que tá acontecendo afinal de contas? — perguntou o taurino angustiado pela curiosidade.

— Essa besta teimosa do Milo que botou na cabeça dele que o chefe obriga a Geisty a ficar com ele... Que ela é uma pobre coitada de uma vítima. — gesticulava a amazona no mais clássico estilo italiano — Já falei pra ele que não é bem assim...

— Ê, Ê... Procura chifre em cabeça de cavalo não, Milo. — disse Aldebaran já dando meia volta — Anda no sapato ai e segue teu rumo. Serião, cara! Deixa quieto esse bagulho!

— Quer saber? Vocês são tudo uns paga pau do chefe. Bando de puxa saco. Tô cheio de ficar abaixando a cabeça para ele.

— Pensa o que tu quiser, Milo, mas quem avisa amigo é. Não se mete. — disse Touro ao acenar para eles — Desse papo eu tô é fora.

— Tá vendo que certos assuntos são proibidos, né Miluxo. — disse Shina — Que tal por um ponto final nessa história e vir dançar agarradinho comigo? Assim a gente aproveita e dá umas... sarradas? — deu uma mordidinha na orelha do grego o deixando todo arrepiado.

Mesmo injuriado, Escorpião conduziu Ofiúco até a pista de dança onde se embrenharam entre os outros dançarinos ao ritmo do tango.

No fundo da tenda, Mu já havia regressado à companhia de Shaka, e depois de Afrodite praticamente expulsar as bacantes que enchiam o virginiano de perguntas e seguir junto delas até onde estavam os canapés e docinhos, Áries e Virgem voltaram a ficar a sós, para alegria do lemuriano e alívio do indiano.

Pegando na mão de Shaka, Mu o conduziu até um amplo sofá aconchegante onde se sentaram lado a lado. Estava eufórico com a descoberta de momentos antes, a gravidez de Geisty, a qual nem mesmo a própria amazona tinha conhecimento, mas pensando que prometera guardar segredo achou melhor ainda não contar ao amado.

Enquanto fazia sinal para o garçom lhes trazer mais duas taças de coquetéis, viu quando no salão Hyoga correu serelepe até Camus, que aos sorrisos pegou o menino no colo e ganhou um forte abraço. Depois Aquário serviu a Hyoga um copo de refrigerante e enquanto bebia o pequeno também falava pelos cotovelos, talvez contando das peripécias que aprontara naquela noite. Camus o ouvia com atenção e carinho e vez ou outra lhe dava um beijo afetuoso nas bochechas.

Vendo que Mu parecia distante e distraído, Shaka chamou sua atenção para o garçom que na frente aguardava com a bandeja a postos para que ele pegasse o drink solicitado.

Mu então piscou algumas vezes e agradeceu ao rapaz apanhando a taça.

— Obrigado.

Assim que o rapaz se afastou, Shaka, que não havia pego a outra taça, pois julgara já ter bebido em demasia, pegou na mão do lemuriano e chamou sua atenção.

— Está distraído ou está bêbado? — disse o indiano — Cuidado com gênio ruim que mora no álcool. Esses drinks coloridos são fracos, mas você está bebendo um atrás do outro.

— Eu estou bem... — Mu respondeu voltando a prestar atenção em Camus e Hyoga ao fundo — Ele é muito bonitinho, né?

— Hum? Ele quem?

— Hyoga. O filho do Camus. — indicou com a cabeça, então Shaka voltou seu rosto para a mesma direção que Mu olhava e mesmo de olhos fechados podia ver o que ele via — Dá para ver na aura deles o quanto se amam. O quão longe o Camus iria por essa criança.

— Natural, o amor que liga pais e filhos não pode ser comparado a nenhum outro. É único. — Shaka respondeu com o rosto sereno.

— Sim. Deve ser bom ter uma criança por perto... Camus parece até mais leve. — Mu continuou — Veja, quem imaginaria o sisudo Cavaleiro de Aquário usando pantufas?

— É, não dava para imaginar. — Shaka esboçou um sorriso.

— Eu sempre desejei ter filhos, sabe... — o ariano deixou escapar um queixume — Mestre Shion sempre frisou a importância de se ter uma família e transmitir seus genes para gerações futuras... Ele falava muito isso por causa da cultura de procriação que envolve a raça muviana. É ela que impele machos e fêmeas, vamos assim dizer, a se encontrarem e procriarem. É um senso de dever que carregamos. Parece estranho falando assim, mas foi essa cultura que manteve nossa raça até hoje, já que somos poucos... Mas, para mim, ter filhos é muito mais que apenas perpetuar a espécie para evitar nossa extinção... É uma dádiva, um presente que os deuses nos dão!

Um silêncio pesado se fez entre eles.

A música tocava em um volume altíssimo, as risadas no salão se repetiam, os festejos e a algazarra se avolumavam, mas ali, naquele sofá, o mundo parecia ter caído em um silêncio de morte.

Calado, Mu ainda viu quando Camus colocou o filho no chão e de mãos dadas a ele o conduziu até o banheiro. Só quando suas figuraram desapareceram do seu raio de visão foi que Áries deixou escapar um suspiro e então virou o rosto para o lado.

Tomou um susto ao dar de cara com Shaka de olhos abertos e semblante confuso a lhe encarar com aflição.

— Pela deusa! Que foi, Sha, algum problema? Que cara é essa? — perguntou o ariano surpreso.

— Por que nunca disse que... Que desejava tanto assim ter filhos?

Mu reprimiu um soluço e engoliu em seco. Os olhos verdes divisavam os azuis do virginiano sem ao menos piscar. Não tinha se dado conta da gravidade do que acabara de dizer ao marido, mas também pudera, nem ele mesmo conseguia entender o que o levara a ter dito aquilo.

— Porque... Ora, porque não. Porque estou dizendo agora... Agora que nossa relação está estável, que... que o Santuário está começando a andar com as próprias pernas, ainda que lentamente... Ora, Shaka, porque estou dizendo agora.

— Sim, mas... Nesses anos todos, e até antes, você nunca mencionou nada sobre esse seu... desejo.

— Não, mas era algo totalmente previsível, não acha? Você nunca desejou ser pai também?

— Não. Nunca. — Shaka respondeu convicto, surpreendendo o ariano tamanha sua decisão.

De fato o único desejo de Virgem desde que se entendera por gente era atingir a iluminação, se tornar uma divindade e não ter que voltar a reencarnar em mais uma existência mundana. Porém, tudo mudou quando escolheu ficar com Mu e pode perceber que havia como ser feliz tanto na vida quanto na morte.

Shaka ficou completamente incomodado com aquela conversa.

Aquela nova faceta de Mu surgira como um punhal afiado que fora cravado em seu peito sem prévio aviso. Tinha plena consciência de que Mu não expusera seu desejo de ser pai por mal, nem tivera a intenção de lhe ofender, já que sendo homens jamais poderiam gerar um filho, mas não pode evitar deixar-se abater por mais aquele dilema.

Até porque, Mu queria ser pai, Shaka não.

Virgem era muito feliz e pleno com o ariano, e nunca sentira a necessidade de ter filhos. Porém, via agora como descabida, egoísta e irresponsável a escolha do ariano, e também a sua, em não perpetuar sua espécie, a qual corria risco de ser extinta já que jamais permitira que lemuriana nenhuma na Terra, e nem fora dela, procriasse com seu marido.

Soltando um suspiro, Shaka desamarrou a capa da fantasia livrando-se dela ao jogá-la sobre o sofá, depois soltou os cabelos que estavam presos por um rabo de cavalo e massageou a fronte.

A seu lado, Mu, que agora também amargurava a resposta dada pelo companheiro encostou-se nas almofadas e cabisbaixo deu um gole no drink que tinha em mãos.

— Shaka... Crianças são o futuro... E filhos são a consequência do casamento... É natural eu pensar em tê-los. — o ariano mantinha a cabeça baixa enquanto falava.

— Bom, se quiser tê-los certamente que não será comigo, não é Mu? Deveria ter pensado nisso quando se casou com um homem. — disse Virgem se levantando.

— Não fala besteira. — respondeu o ariano encarando o outro — Eu sabia que jamais geraríamos uma criança, mas é claro que só penso em ter filhos com você, afinal podemos adotar. Infelizmente não será um muvianos, mas...

— Eu já disse que não quero ser pai. — disse num tom sereno o virginiano, mas internamente a angústia e o desconforto que sentia só cresciam — Olha, Mu, aqui não é o lugar e nem a hora mais adequada para termos essa conversa. Outra hora, tudo bem?

— Tudo bem.

— Eu... Vou tomar um ar do lado de fora. — disse Shaka, depois seguiu para fora da tenda sem olhar para trás.

Mu afundou-se entre as almofadas, perdido em pensamentos e sentimentos ainda inexplorados.

A festa havia acabado ali para ambos.

Um pouco mais à frente Afrodite, que caminhava apressado até o banheiro, já que tinha visto Camus e Hyoga entrarem a pouco e pensava em aproveitar a deixa para dar um beijinho em cada um, foi abordado no meio do percurso pelo Robin, o fiel escudeiro de Batman, que entrara na sua frente de supetão impedindo-lhe a passagem.

— Ah-hã! Eu não iria até lá se fosse você, Venenosa! — disse o garoto prodígio encostando o dedo indicador no peito coberto por folhas vivas do pisciano.

Afrodite estreitou os olhos, porém aquela voz esganiçada e o cheiro enjoado de lírio eram inconfundíveis.

— Quer sair da minha frente, Lagartixa? — disse o pisciano.

— É sério. Máscara da Morte e Shura estão lá dentro. Não vai querer que o menino entregue o seu disfarce, não é peixe piranha? — disse Misty com seu típico risinho cínico no rosto mascarado.

Estava vestido de Robin. Obviamente que a escolha da fantasia já tinha o propósito inicial de irritar Peixes, mas também tinha mais um propósito, o de agradar ao pequeno Batman.

Afrodite reprimiu um grito de espanto ao levar ambas as mãos à boca.

Não imaginava que Misty já soubesse da existência de Hyoga.

— Como... Como é que é? — baixou o tom de voz e aproximou-se mais do cavaleiro de Prata — Você sabe do Hyoga, sabe... De que disfarce você está falado, exú do pântano?

— Ora, Afrodite, me poupe! Você nasceu ontem, não eu. — disse imponente — O seu disfarce de mamãe do pobre filho órfão do Camus, qual outro seria? — deu uma gargalhada sonora.

O Santo de Peixes, completamente aterrorizado e atônito perdeu a voz e o ar.

Ninguém, ou pelo menos imaginava que ninguém, poderia saber de seu pacto com Camus, então como Misty sabia?

A verdade era que Lagarto não sabia.

Como das outras vezes Misty blefava.

Porém, seus blefes eram sempre minuciosamente estudados, já que Misty era um ótimo observador, e ao fim era só juntar as peças do quebra-cabeça e jogá-las para Afrodite, em sua nata ingenuidade, juntá-las.

No começo da tarde Lagarto havia visto o cavaleiro de Peixes chegando no Santuário vestido com roupas femininas. Esse fato por si só já era bem curioso, uma vez que Afrodite não tinha o habito de se vestir daquela forma, nem quando queria provocar os clientes do bordel logo que este fora inaugurado.

Por que, afinal, Afrodite estava vestido de mulher em plena luz do dia?

No entendo, bastou pouco mais de trinta minutos passados para que Misty tivesse sua resposta.

Quando um taxi encostou nas ruinas que ficavam próximo à entrada do Santuário, Lagarto viu Camus descer do automóvel, e qual não fora sua surpresa ao ver o aquariano trazer consigo uma criança no colo!

Intrigado, e já fazendo a ligação do fato de Afrodite estar vestido de mulher a Camus ter uma criança nos braços, Lagarto não perdeu tempo e se aproximou do francês antes de ele caminhar para as imediações do Santuário.

Aquário e o filho vinham do centro de Atenas onde passaram a manhã fazendo compras para Afrodite. Hyoga carregava um pacote azul nas mãos e Camus tinha um semblante cansado e melancólico.

Após poucos minutos de conversa, e aproveitando-se de sua figura muito bonita e oratória impecável, Misty conseguiu a confissão de Camus que lhe dissera que Hyoga era seu sobrinho.

Por mais que Aquário, todavia, tivesse tentado fugir daquele assunto, Hyoga acabara falando demais e entregara Afrodite, dizendo que agora tinha uma nova amiga na Grécia que cantava lindas canções para ele dormir.

Aflito, porém sem poder negar, Camus pediu o sigilo de Lagarto, que de pronto lhe prometera fidelidade, como sempre, e subiu apressado para Aquário.

Eufórico, e também com muita raiva, já que mais uma vez Afrodite parecia conquistar cada vez mais a admiração e a confiança do aquariano, Misty arquitetou um novo plano para desestabilizar o pisciano e afastá-lo do francês, o qual começou a colocar em prática quando escolheu a fantasia de Robin para ir à festa.

Nesses dois anos que se passaram, Misty de tudo fizera para conseguir uma reaproximação com o Santo de Aquário, já que a frágil “amizade” e confiança que conquistara com muito custo havia sofrido um abalo depois do episódio das cuecas roubadas. Desde então, de forma cuidadosa, estudando cada passo dado com minúcia e muita estratégia, Lagarto tinha gradativamente conseguido restabelecer a amizade com o aquariano através de favores prestados, informações sigilosas sobre clientes russos influentes e outras artimanhas.

Apesar dos queixumes de Afrodite, o francês não deixou de falar com Misty, mesmo que este muitas vezes lhe vencia mais pelo cansaço.

E todo esse trabalho em reconquistar a confiança de Camus um dia tinha que dar frutos.

Lagarto não desistira do intento de separar Peixes de Aquário, e mais uma vez armava um de seus botes indo à festa vestido de Robin para cair nas graças de Hyoga e tirar o máximo de informações possíveis do pequeno russo que lhe ajudassem a derrubar o pisciano.

E era para essa figura vestida de menino prodígio que Peixes olhava com terror estampado nos olhos aquamarines.

Pela primeira vez na vida sentiu medo de Lagarto. Não do que ele pudesse fazer para si, mas do que pudesse fazer para Hyoga.

Absorto, não viu quando Camus e o pequeno russo saíram do banheiro e Hyoga, eufórico, vinha correndo em sua direção.

Lobin! Lobin! — o menininho gritava entusiasmado com os bracinhos abertos. Já havia brincado com Misty, sem que Camus percebesse, boa parte da noite e, presa fácil como era frente à inteligência velhaca do cavaleiro de Prata, lhe dado informações mais que suficientes para por seu plano em prática.

Assim, entre uma corrida e outra, entre risos, gracejos e muita folia, Lagarto soube da morte da Natassia, do seu lúgubre sepultamento no ermo gelado do Baikai, e do disfarce de Afrodite.

Misty tinha todas as jogadas na mesa, agora era só dar o xeque-mate!

Oh! Olá, Batman! Eu o estava procurando! — disse Lagarto agachando-se para ficar no mesmo campo de visão do garotinho — Trouxe mais batorangues para jogar nos vilões! — tirou do bolso da fantasia um punhado de batorangues, entregando alguns a Hyoga — Vamos?

Di! Posso i? — pediu o menino para Afrodite, que estava bem à sua frente e em sua cabecinha infantil já representava uma figura de autoridade tanto quanto Camus.

Mas Afrodite não respondeu.

Tudo que Peixes conseguia fazer era olhar para o garotinho, em choque.

Vendo que Di não respondia, Hyoga voltou-se para Camus que chegava ali acendendo um cigarro, alheio a todo o conflito que ocorria com o pisciano.

Papai, posso i com o Lobin pegá mais vilões?

Vá, mas fique por aqui. Não quero você de novo fora da minha vista. — disse o aquariano, e mantendo uma distância considerável de Afrodite, também evitando olhar diretamente em seus olhos e disse em tom mais baixo assim que Batman e Robin se afastaram — Nossa você está deslumbrante, mon amour! Mal posso esperar pela hora de te tocar, te beijar...

Não houve reação do pisciano.

— Pintou o cabelo de verdade? — deu um trago no cigarro enquanto observava Hyoga brincar com o Robin.

— Você contou para ele? — Peixes perguntou quase num sussurro.

Pardon? — Camus ergueu uma sobrancelha.

— Você contou sobre... Sobre o nosso truque?

— Que truque? Do que você está falando, ma fleur?

— Da Lagartixa, Camus, tô falando da Lagartixa da fossa do Tejo! Pela sandália de palha de Dadá! Será que meu coágulo saiu da minha cabeça e pulou para sua, santa? Você contou que estou me passando por mulher?

— É claro que non. Non seja besta, Afrodite. — soltou a fumaça que mantinha presa nos pulmões dando um suspiro em seguida — Hyoga contou... Infelizmente ele falou antes de eu poder evitar. Misty estava passando pelas ruinas quando eu cheguei do centro da cidade na hora do almoço. Ele se empolgou e acabou falando de você... Merde...

Afrodite sentia as mãos formigarem de nervoso.

— Eu não... acredito... — falou num fio de voz o sueco.

— Nem eu...

— De novo estamos nas mãos desse... desse... — agora o pisciano tremia todo, num misto de raiva, indignação e também de medo. Por que Misty sempre tinha que saber mais do que deveria?

— Tenha calma. Eu o fiz prometer que vai guardar segredo... E se ele non nos entregou até hoje, non tem por que achar que fará isso agora.

Peixes virou o rosto para Aquário o encarando de forma severa.

— Você não conhece esse demônio de ventosa, eu já te disse!

— Mon amour... Hoje non. S'il vous plaît! Veja como Hyoga está alegre e feliz! Você tinha toda razão, essa festa fez muito bem a ele.

— Não vê que ele veio de Robin só para me afrontar? — rosnou o pisciano.

Ma fleur, todos os seus amigos vieram a essa festa hoje vestidos para te afrontar. Non me enlouqueça, Afrodite. E eu já disse que tem que parar com essa mania de achar que tudo que o Lagarto faz é para te provocar. Eu já conversei com ele e já pedi para ele te deixar em paz. Faça sua parte.

Virando-se de frente para o salão, Afrodite olhou para o menininho brincando com o cavaleiro de Prata e sentiu seu coração apertado dentro do peito.

Com as mãos juntas à frente da boca, dedos entrelaçados e respiração pesada, Afrodite fixou febrilmente os olhos naquela dupla. Durante um momento ficou imóvel, sentindo como se lhe arrancassem o coração de dentro do peito.

Camus deu a última tragada no cigarro, jogou a bituca no chão e a apagou com a sola de borracha da pantufa.

— Já está bem tarde. Hyoga já se divertiu bastante e já está ficando com sono. Eu vou subir para Aquário e espero você lá. — disse o aquariano ao iniciar uma caminhada lenta, passando por Peixes sem olhá-lo nos olhos — Pode cantar para ele dormir e depois o resto da noite toda é nosso, ma belle rose. Você vem?

— Sim... Eu vou. Pode me esperar. — respondeu Afrodite após uma breve pausa.

Camus então foi até onde Misty e Hyoga brincavam, aproveitando que Shura, Máscara da Morte e Marin também estavam ali, e ficou mais alguns minutos no salão antes de subir para Aquário levando o filho no colo.

Afrodite, atormentado por um turbilhão de ideias e pensamentos desconexos, juntou-se a Mu no sofá aconchegante, mas ambos estavam tão quebrados por dentro que mal trocaram algumas palavras.

Áries, triste e surpreso com a reação de Shaka à sua confissão sobre desejar ter filhos, procurava no álcool algum alento, e na mesinha de centro à sua frente uma coleção de copos, taças vazias de champanhe, cálices de batidas e tudo que lhe era oferecido se formava.

No meio do salão, outro casal também passava por um dilema.

Saga e Geisty dançavam, agora ao ritmo de uma batida mais lenta. Ela pousava a cabeça no ombro dele, ele abraçava a cintura dela, mas em nenhum momento trocaram um selinho sequer.

Deixar no ar que eram um casal era uma coisa, escancarar sua relação proibida já era outra totalmente diferente.

Assim sobravam carícias discretas, afagos, olhares, mas nenhum beijo. Até que o Santo de Gêmeos, não aguentando mais, se deu por vencido.

— Não aguento mais de vontade de te beijar. — o grego sussurrou no ouvido da amazona, que esboçou um leve sorriso.

— É nessas horas que têm que mostrar porque é um cavaleiro, Saga. Seja forte! Ou eu também fraquejo. — Geisty brincou, rindo baixinho.

— Eu não sou forte quando o assunto é você. — agora ele quem ria — Assumo minha fraqueza de bom grado... Camus já foi embora.

— Acha que se ele souber de nós, digo... Se ele provar que estamos juntos ele nos entrega para Vory? — a morena perguntou assumindo um semblante sério.

— Eu não sei. Camus se tornou uma incógnita para mim. Não confio nele. — Saga respondeu esfregando seu rosto ao de Geisty, aspirando o perfume suave amada — Ah... eu preciso te beijar... Vamos para meu Templo? – sussurrou sedutor ao seu ouvido, aproximando mais seus corpos.

— Não é arriscado com Camus no Santuário? — ela disse fechando os olhos, delirando com a provocação do grego.

— Passamos a noite em Gêmeos. Na Terceira Casa posso sublimar nossos Cosmos com ilusão. Ninguém saberá que estamos lá. — disse o geminiano.

— Hum... Mas assim não tem como eu dizer não. — Geisty sorriu convidativa.

Animado, e por que não dizer eufórico, Saga pegou na mão de Geisty e juntos deixaram a pista de dança.

Antes de sair da festa, Gêmeos passou no bar e pediu duas garrafas de champanhe.

Para Gêmeos e Serpente a noite de Halloween continuaria madrugada adentro regada a champanhe, luxúria e muito amor.

Já não se podia dizer o mesmo de outros dois cavaleiros.

Quando saiu da tenda para tomar um ar, Shaka de Virgem tinha um nó amargo na garganta seca. Abatido encostou-se em uma coluna em ruinas e esfregou o rosto com ambas as mãos.

“Mais essa agora!” — pensou acabrunhado.

Após alguns minutos, intencionou voltar à tenda, mas deteve-se no meio do caminho, imóvel, indeciso.

“Será que Mu vai procurar uma fêmea para procriar? Ou... uma fêmea muviana vai vir atrás dele? Eu não quero ter filhos, mas também não posso impedir Mu de tê-los... Seria egoísta agir assim, mesquinho.... Seria... humano... Buda, por que é sempre tão difícil para Shaka lidar com seu lado humano? Seria tão mais fácil dizer: — Vá, Mu! Procrie! Tenha seus trinta filhos em paz, porque o amor de Shaka é elevado, é incondicional e divino... Argh! Merda!”

Irritado, nervoso, inconformado mais consigo mesmo do que de fato com Mu, Shaka resolveu deixar a festa sem nem avisar ao ariano, que do lado de dentro da tenda sentiu quando o indiano voltou à Casa de Virgem sozinho.

Áries deixou escapar um suspiro enfastiado. Aquele foi o golpe de misericórdia para acabar de vez com sua noite.

Sensitivo como era, Mu percebia a aura do amado se distanciando carregada em melancolia, o que o deixou ainda mais deprimido, culpado e confuso.

Queria muito poder tranquilizar Shaka quanto àquela sua súbita revelação sobre o desejo de ser pai. Assegurá-lo de que era feliz ao lado dele, que não iria procurar fêmea lemuriana nenhuma, mas sabia que não seria capaz, ou pelo menos não agora que sentira de fato o desejo visceral de ser pai queimar seu peito de dentro para fora.

Se nem conseguia lidar com esse desejo, como poderia tranquilizar o virginiano?

Sem ânimo para lidar com aquele conflito naquele momento, Mu caminhou até o bar e sentou-se num dos banquinhos que ficavam no balcão. Iria enfiar o pé na jaca e voltaria para a casa altas horas da madrugada. Quem sabe assim Shaka já estivesse dormindo e evitaria um conflito. Pelo menos por aquela noite.

***

A festa ainda seguia animada quando Afrodite deu um último gole no drink que bebia, pousou a taça na mesinha e pensou em se levantar do sofá para deixar a tenda e seguir para a Casa de Aquário, onde Camus e Hyoga o aguardavam ansiosos, mas Misty abortou a ação do pisciano jogando uma das almofadas sobre seu colo e antes de ir sentar-se a seu lado.

— Ah, já vai? Está cedo ainda, peixe piranha. Nem te disse qual foi a maior gafe dessa festa. — disse o cavaleiro de Prata ao encostar-se no estofado e esticar as pernas para descansar os pés na mesinha à frente — Aposto que você não percebeu.

Irritado, Afrodite olhou para ele jogando-lhe a almofada de volta.

— E quem te disse que eu estou interessado em qualquer coisa que você tenha para me dizer, cria do Aqueronte? Vai te lascar, despacho mal feito. E vou te falar só uma vez: fica longe do Batman e do mini Batman também, ou eu acabo com tua raça. — disse com convicção apontando o dedo para a face de Lagarto, depois fez menção em se levantar, mas Misty o impedira o segurando pelo punho.

— Ah, eu não duvido que você vá acabar com a raça de alguém não, Afrodite, mas esse alguém não serei eu. — o francesinho disse entre dentes assumindo um semblante severo — Você não percebeu o que você fez? Seu viado burro e sádico.

— Do que você tá falando? — livrou-se do agarrão com um safanão na mão de Lagarto.

— Então o seu namoradinho sofre uma perda enorme, e num ato de desespero e dor profunda ele sepulta a própria irmã, sua única família nesse mundo, num lago congelado. A bela e delicada Natassia se torna uma escultura mórbida de gelo, e o que você faz para confortar o pobre do seu namorado? Você veste ele de Mr. Freeze! — jogou o corpo para trás dando uma gargalhada escandalosa — O cara que congelou a própria esposa morta! Que coincidência não, Afrodite? Coitado do Camus... Deve ter passado a noite toda imaginando a irmã flutuando congelada dentro de um vidro em um laboratório igual no filme. Você não dá uma dentro!

Peixes estava atônito.

Mais do que seu disfarce, mais do que a mentira que estava ajudando Camus a contar para Hyoga, Misty também sabia na morte de Natassia e de como ela fora sepultada no ermo de gelo siberiano.

Como ele sabia? Camus teria lhe contado? Não. Aquário nunca faria isso, ou... A amizade do francês com aquele cavaleiro de Prata desprezível era mais séria do que imaginava.

Afrodite estava sem chão, sem reação, sem saber o que dizer ou fazer.

Engoliu em seco, porém não iria deixar Misty lhe desestabilizar, apesar de já estar desestabilizado não tanto pela coincidência mórbida da história do personagem Mr. Freeze com a de Camus, mas pelo fato de estar nas mãos de Lagarto novamente.

— Isso, Lagartixa, só você, que tem um coração cheio de maldade e ventosas que ficam sugando a felicidade alheia é quem viu problema. — disse em voz baixa.

— Ah, mas não foi mesmo! Camus ficou arrasado com sua falta de sensibilidade. — Lagarto disse aproximando-se de Peixes para encará-lo nos olhos, fazendo o que sabia fazer de melhor, mentir — Sim! Ele me disse! Não notou como ele estava calado a festa toda? Ah, sim... Eu me esqueci que você não pode ficar perto dele, porque ele tem vergonha de você. Que coisa, né Escamosa! Hyoga brincou com todo mundo hoje nessa festa, todo mundo. Até com Máscara, que é um sujeito bem perigoso, até Geisty, a quem Camus detesta declaradamente, e com nenhum deles o ruivão fez qualquer objeção... Já com você...

Afrodite fez uma pausa, expirando devagar.

De fato Camus não se opusera a ninguém, deixando Hyoga livre para interagir com todos, menos consigo...

Muito antes de o fato lhe causar estranheza, lhe causava ciúmes.

Não podia negar que em poucos dias já amava aquele menininho como se o tivesse conhecido desde o dia em que Natassia lhe colocara no mundo, e ver todos os cavaleiros interagindo com ele sem precisarem fingir ser outra pessoa lhe doeu, doeu muito.

Talvez tivesse errado em ter aceito fingir-se de mulher, errado em aceitar aquele plano maluco de Camus.

Seria tarde para voltar atrás?

— Sério Afrodite... — continuou Misty vendo que seu plano começava a surtir algum efeito e o pisciano agora parecia perdido, desorientado — Acha que está fazendo um bem para essa criança fingindo ser a mãe dela?

Peixes encarou o rosto de Lagarto em assombro durante um momento, com raiva surda devido ao teor e o rumo que a conversa tomava.

— Eu não estou fingindo ser a...

— Está sim! Admita, idiota! — Misty avançou sobre o pisciano inclinando o tronco para frente e fazendo Afrodite tombar o seu para trás — É isso que você está fazendo sim! Está dando uma de mãe postiça para Hyoga, iludindo a pobre criança com a figura de uma mulher que não existe, que é um embuste, uma farsa!

— Não... Não vai ser... por muito tempo...

— A não? E o que você vai fazer quando a farsa acabar, Afrodite? Vai lhe tirar a mãe de novo? Fazer o menino sentir a mesma dor? Você acha que vai enganar esse pobre coitado por quanto tempo até ele perceber que você na verdade é uma bicha suja e mentirosa? Olha pra você... Desde quando você é qualificado para ser mãe de alguma coisa. — soltou uma risada de puro deboche — Você... Um garoto de programa, um viado pervertido e inconsequente, para não dizer egoísta e sem nada de bom a oferecer a uma alma pura e inocente como a de Hyoga. O que você sabe sobre criar e educar um filho?

— Cala a boca... Você não sabe de nada. — Peixes sussurrou com os olhos marejados.

— O que você tem de bom para ensinar a ele? Vai ensinar ele a fazer a Borboleta Paraguaia?... Imbecil... Camus correu para você num momento de desespero, e não me diga que você aceitou fazer parte dessa farsa sórdida por amor, porque não foi mesmo... Você aceitou por vaidade! Sim, porque é ótimo ganhar joias e roupas caras não é? A mim você não engana.

Num impulso de raiva, Afrodite agarrou na gola da fantasia de Misty e o trouxe para perto de si com um tranco.

— Cala a sua boca seu desgraçado! Não fale do que você não sabe!

— Mas eu sei! Eu sei que você vai destruir esse menino como você destrói a todos que cruzam seu caminho... Você vai ser a maior desgraça da vida dessa criança e a prova disso é que já começou errado fingindo ser mãe quando não sabe nem o que significa o amor entre duas pessoas adultas... Você é ridículo, e Hyoga está fadado a ser como você. – Misty o encarava nos olhos com veemência.

Aldebaran, que passava por ali abraçado à Rebeca e Ághata, ao ver Misty e Afrodite perigosamente perto um do outro tratou logo de intervir, já que não queria que a festa acabasse em um novo barraco.

Pedindo licença às meninas, Touro retirou a máscara que lhe cobria o rosto e aproximou-se dos dois no sofá.

— Ei, que tá pegando aí? — disse elevando a voz, sua figura por si só já era intimidadora sem muito esforço — Afrodite, vambora rapaz, circulando! Circulando! — gesticulou com a mão — Tu também, Misty, vamos, puxa teu bonde! Esqueceram a ordem do chefe? Ele não quer vocês dois perto um do outro, vamos! Chispa daí os dois.

Com um risinho debochado no rosto, Misty esperou que Peixes lhe soltasse a fantasia e então se levantou, desamarrotando o tecido da gola.

— Eu já estava de saída, Touro. Boa noite, senhores! — disse Lagarto antes de deixar o local.

Vendo que Peixes parecia meio perturbado dado seu semblante sério e irritado, Aldebaran lhe estendeu a mão.

— Bora viado. Desfaz essa cara de bunda e vai curtir a festa que tá boa à beça. Anda, vamo! — apanhou a mão do pisciano e o puxou do sofá — Aconteceu alguma coisa?

Afrodite olhou para ele meio desorientado.

As palavras de Misty apesar de distorcidas e venenosas tinham algum fundamento, e era isso que perturbava o pisciano.

Lagarto tinha razão em diversos pontos, o principal deles era de que estava mentindo para uma criança que acabara de sofrer uma perda irreparável.

— Não... Não aconteceu nada, Touro Chifrudo. — respondeu para Aldebaran num fio de voz — Está... Tudo bem.

— Bem, então se você tá dizendo... Vai curtir a festa que a noite é uma criança! — sorriu-lhe o brasileiro antes de deixá-lo para voltar às garotas que o aguardavam na pista de dança.

Sozinho, num doloroso desânimo, Afrodite sentiu um peso esmagador sobre os ombros, que acompanhado de uma angustia sufocante que lhe comprimia o peito fazendo o ar lhe faltar o fez afundar num oceano de dúvidas, inseguranças e temores.

Por mais que tentasse e quisesse negar, sentia-se muito culpado em estar enganando Hyoga fingindo ser o que não era, mesmo a pedido de Camus. Peixes não era tão ingênuo, e sabia que de certa forma já estava substituindo a figura materna no coraçãozinho do menino, que jamais se esqueceria de Natassia, mas que a cada dia estava mais e mais apegado a si.

Inseguro, triste e com a cabeça cheia de duvidas e perguntas ainda sem respostas, Peixes deixou a festa abatido e seguiu para as Doze Casas.

Pensava em conseguir algum conforto nos braços e palavras sempre acolhedoras de Camus, e também no riso e nos beijinhos de Hyoga, mas deteve seus passos assim que galgou alguns degraus do Templo de Áries, olhando para o alto do monte enquanto sentia as mãos trêmulas e o coração apertado.

— Atena... Está errado... Está tudo errado...

Aflito, sentou-se em um dos degraus apoiando os cotovelos nos joelhos e levando ambas as mãos ao rosto febril.

As palavras de Misty reverberavam em seus pensamentos, o julgando, o condenando.

Se subisse as escadas, se fosse até Aquário, encontraria conforto e seria acolhido pelos dois homens que mais amava em sua vida, mas seria mesmo isso o certo a se fazer? Seria isso o melhor para Hyoga?

Era inegável o fato de que com o passar do tempo se tornaria uma figura materna para o pequeno russo, mas e depois? E o que tinha de bom, como Lagarto dissera, para ensinar a Hyoga agora?

Levantou a vista e viu pesadas nuvens no céu.

Uma fina chuva começava a cair, aumentando gradativamente de intensidade até tornar-se um chuvisqueiro denso.

Afrodite então se levantou, perturbado e desorientado, mas não seguiu subindo as escadas.

Ao em vez do Templo de Aquário, dos braços acolhedores de Camus e do cheirinho gostoso de Hyoga, Peixes decidiu procurar alento em um lugar bem menos familiar, o Olho do Oráculo, o inferninho sadomasoquista no centro de Atenas dirigido por Polifemo.

Negrito— traduzido do francês.

Notas finais
Parece que o caldo entornou pros nossos amados... e o que aconteceu nessa festa ainda vai trazer muitos resultados =x Não esqueçam de acessar nosso grupo do face, fics trio ternura, lá tem imagens das fantasias, perfil dos personagens e muita coisa extra dessa fic e de outras ;) https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/