Templo das Bacantes Vol. 2
60 Hoje é festa lá no meu iate
Notas iniciais

Santuário de Atena, Casa de Aquário, 10:00am
Hyoga, vestido com uma sunguinha azul marinho com estampa de graciosos patinhos de borracha, esperava de pé sem muita paciência — as perninhas agitadas denunciavam a euforia que o consumia por dentro — Maman Di lhe espalhar protetor solar pelas costas. Fazia uma manhã quente e ensolarada na Grécia, e na sala do Décimo Primeiro Templo todos já estavam prontos para a festa no iate Vênus, que já havia começado nas primeiras horas da manhã.
— Vamo logo, Maman Di. O Kiki já deve tá lá e eu quelo nadá com ele na piscina. — disse o garotinho russo com uma animação que poucas vezes Camus havia presenciado. Só o fato de ver o filho tão feliz já era motivo suficiente para o francês ter decidido ir àquela festa.
Quando Afrodite disse a Camus que faria uma festa no Vênus para todos os cavaleiros, amazonas, alguns amigos e as bacantes do bordel, mas principalmente para Geisty que passava por uma fase bem depressiva, e que estava fora de cogitação o aquariano não ir e levar Hyoga, este já começou a mexer seus pauzinhos para comparecer sem levantar suspeitas, afinal era de conhecimento geral que tinha todo tipo de implicância e desentendimentos com Peixes, então como ir a uma festa dada por ele?
Fácil.
Juntos Camus e Afrodite redigiram um texto, que foi impresso em vários convites e distribuídos aos convidados, incluso o Patriarca. Nele era dito que o motivo da comemoração era celebrar a vitória do Santuário e o fim de sua subordinação frente à poderosa Vory v Zakone, que agora chefiada por Camus de Aquário passaria a ser aliada e ambos andariam lado a lado. As festividades também tinham o caráter de exaltar o poder do Santuário de Atena, comemorar a vida, honrar a memória das vítimas e dar graças aos deuses. No final havia uma nota de rodapé assinada pelo próprio cavaleiro de Peixes onde era dito que as presenças do Patriarca e do novo Vor eram muito bem vindas, e seriam entendidas como um tratado de paz e mútua cooperação.
Daquela forma, a ausência de Camus na festa passaria a ser muito mais suspeita que sua presença, e seus disfarces estariam assegurados.
Enquanto comia algumas uvas encostado em uma das colunas de mármore da ampla sala, o Santo de Aquário observava os cuidados do namorado com Hyoga. Já estava pronto para descer ao Vênus. Camisa branca de tecido leve e mangas curtas, bermuda e chinelos de couro.
Para Peixes fora um tanto mais complicado se vestir, já que tinha que manter o disfarce para Hyoga, mas não podia se caracterizar totalmente como mulher ou chamaria a atenção dos amigos e cavaleiros; somado a isso havia ainda a se considerar a nova mentira contada por Camus ao pobre do garoto, que acreditava que por ser “mulher” Afrodite precisava se disfarçar de homem para poder ocupar um posto no alto escalão do exército de Atena, o qual não permitia “amazonas” na patente dourada.
— Pronto. — disse o pisciano ao terminar de espalhar protetor solar no narizinho do menino — Agora vai pegar o Dudu no seu quarto e aproveita para fazer xixi para não batizar a minha piscina.
Nem bem o sueco terminou de falar já via Hyoga correndo para quarto aos gritos de euforia, então guardou a bisnaga na bolsa com os outros pertences da criança e a entregou a Camus.
— Não se esqueça que precisa passar outro tanto de protetor nele a cada duas horas. Não quero meu loirudinho virando torresmo e chorando a noite, viu? — disse ao aquariano enquanto prendia os cabelos em um coque no alto da cabeça.
— Pode deixar. — Camus respondeu correndo os olhos pelo namorado e não resistindo o puxou pela cintura e lhe deu um beijo rápido — Você está lindo... mas onde achou essa camisa vinte vezes maior que o seu tamanho? — referiu-se à peça que Peixes usava, uma camisa de botões masculina de algodão num tom de verde cipreste toda estampada com rosas em tons de rosa bebê, e que de tão grande ia até metade das coxas. A usava aberta sobre um short de brim branco que cortou as pernas para ficar mais curto porque nem seu era, era de Mu, o escolheu por ser o mais larguinho que tinha em seu closet, e camiseta no mesmo tom, assim escondia suas formas que não podiam parecer nem muito masculinas tampouco femininas.
— É do Aldebaran. — disse o pisciano sorrindo — Ele me emprestou há... — fez uma pausa parecendo pensar — Sabe que não me lembro? Só sei que é de uma escola de samba lá da terra dele, o Rio de Janeiro. Bonita né? Tem rosas! Não é a minha cara?
— Achei cafona, mon amour. A sua cara é bem mais bonita. — respondeu o francês tomando a boca do namorado com um beijo ardente que logo foi interrompido quando Hyoga surgiu ali de volta trazendo consigo o patinho Dudu e um coração que era pura empolgação.
— Plonto, Maman Di. A gente já pode i.
Camus afastou-se de Afrodite e colocando a bolsa em um dos ombros agachou-se na frente de Hyoga para poder olhar bem em seus olhos.
— A Afrodite non vai com a gente, petit. Lembra o que conversamos ontem à noite? Non pode dizer a ninguém que já esteve no Vênus, você entendeu?
— Sim papa. Não vô dizê. — falou sério o menininho erguendo os olhos para Afrodite que acariciava seus cabelos.
— E non se esqueça de que non deve dizer a ninguém que a Afrodite é minha namorada, nem sua Maman, certo?
— Sim papa. — afirmou fazendo um gesto positivo com a cabeça, mas em seguida perguntou queixoso: — Não vô podê ficá lá na piscina com você, Di?
Com o coração partido Afrodite também agachou-se e lhe fez um carinho no rosto.
— É só hoje, e porque vai estar todo mundo lá, meu amor. Você sabe que eu tenho que fingir para os outros cavaleiros que sou mulher... digo, que sou homem, ou eu perco a noção... quero dizer, ou eu perco a minha armadura. — franziu a testa confuso — Enfim, teremos muitos outros dias para ir ao Vênus só nós três e ficarmos juntinhos o dia todo. — abraçou com força o garotinho e se pôs de pé junto com Camus — Agora vão. Vocês precisam chegar primeiro. Dentro de uns trinta minutos eu tô lá.
Despediram-se rapidamente ali mesmo, e enquanto Camus descia com Hyoga, Afrodite voltava a seu Templo para dar cabo dos últimos preparativos para sua chegada triunfal.
***
Cabo Sunion, 10:40am
A temperatura alta e o céu sem nuvens deixava ainda mais azul as águas do mar Egeu que circundavam aquele pedaço da península ática. Ali, ao pé do monte que abrigava as ruínas do antigo Templo erguido em louvor a Poseidon, e cerca de 500 metros em direção nordeste do Santuário de Atena, estava ancorado o iate Vênus, em toda sua majestade e grandiosidade.
Na costa do cabo uma estrutura com heliporto e dois helicópteros já havia sido montada nas primeiras horas da manhã para receber os convidados para as festividades que durariam o dia todo, e quase todo mundo que recebeu um convite já havia passado por ali. Menos uma família, e justamente aquela mais aguarda pelo anfitrião.
— Madonna mia, olha o tamanho daquilo, Mu! — disse Geisty com a mão direita a balançar no ar enquanto olhava perplexa pela janela do helicóptero que ainda estava em terra firme no cabo. O amigo ariano a ajudava apertar o cinto de segurança — Quando Afrodite disse que tinha ganhado um iate do tal Batman eu imaginei que fosse uma coisa mais... — sem conseguir achar a palavra que buscava Mu completou a frase para a amiga.
— Modesta. Eu também. — disse Áries rindo. Também estava surpreso com o tamanho e grandeza da embarcação. Afrodite havia dito que Camus tinha lhe dado um iate de presente e que estava ansioso para leva-lo lá, mas como Geisty, e talvez como qualquer um que estava ali naquele dia, não imaginou que fosse algo tão extraordinariamente grande. Aquário de fato era um homem muito poderoso, além de rico — O Batman pelo jeito tem mais bala na agulha que a gente imagina, né?
— Fala a verdade para mim. Você sabe quem ele é. — disse Geisty agarrando o braço do lemuriano e o encarando com olhos felinos.
— Quem? — Áries respondeu fingindo naturalidade enquanto apanhava um eufórico e agitado Kiki das mãos de Shaka e o ajeitava em seu colo para que o virginiano pudesse subir na aeronave junto das duas bolsas abarrotadas de coisas que trazia consigo.
— Ora, quem. Como assim, quem? Quem interessa né: o Batman! — Geisty disse a última palavra com dramaticidade — Você sabe quem é ele. O Afrodite com certeza te contou, você sempre foi o melhor amigo daquele viado e pelo histórico de língua solta que ele tem com certeza já te contou. Anda, me diz quem é. — insistiu.
Mu deu uma risada alta e divertida.
— E você acha que eu já não perguntei a ele? Que não insisti? Não adianta, ele não fala nem sob tortura.
— Mentira! — Geisty estreitou os olhos violetas.
— Verdade. — quem falou foi Shaka, que acabava de ajeitar as bolsas com mil quinquilharias, entre elas fraldas, mamadeiras, água, potes e mais potes de papinha vegetariana caseira, brinquedinhos, todo tido de remédio para enjoo, cólicas e resfriado, toalhas, umas mudas de roupas para Kiki e também para Mu, e até um guarda-chuva — Se Mu soubesse já teria me falado. No nosso casamento não existe espaço para segredos. Nem nossos, tampouco alheios. — disse apertando o cinto, e pouco depois o helicóptero levantou voo.
— Sim. No nosso casamento impera a verdade! — disse Mu que agora encarava Shaka de um modo nada amistoso — Não apenas a verdade, mas a intolerância, a intransigência, a teimosia...
Virgem, que tinha os olhos fechados até ali, os abriu para encarar o marido de volta com igual firmeza.
— Vai continuar com essa patacoada até quando, Mu de Áries? Posso saber? Faz três dias que você está me azucrinando, me evitando, me dando patada atrás de patada feito um carneiro caturra por causa daquela bosta de luta de boxe, que eu, inclusive, já comprei em VHS para você assistir quantas vezes quiser.
— Bosta de luta? — responderam os arianos em uníssono, e enquanto Geisty tinha o rosto contorcido e resmungava para si impropérios em italiano, Mu erguia a voz.
— Você está ouvindo isso, Geisty? Um marco na história do boxe! Um momento épico do qual fomos privados de ver e sentir ao vivo por conta do seu egocentrismo. — falou Mu indignado com uma bufada — Se acha que a bosta de uma fita VHS pode apagar o seu erro e me amansar como um cachorro que recebe um petisco pode ter certeza de que a patacoada vai continuar por muito tempo!
Diante de outra discussão que se iniciava entre os dois cavaleiros, Geisty soltou um suspiro longo, fez um carinho nos cabelos de Kiki que sorria animado para ela e olhou novamente pela janela. A aeronave já se preparava para pousar no Vênus.
Em poucos minutos já haviam descido, amazona, dois cavaleiros emburrados, e um neném que era a própria personificação da alegria. Quando a nave levantou voo para voltar à costa, Mu passou Kiki para a amiga para poder ajudar Shaka com uma das bolsas de quinquilharias. Estava ainda aborrecido com o indiano, mas não deixaria de cumprir seu papel e ajuda-lo a carregar tudo aquilo, ainda que achasse um despautério sem tamanho ele ter trazido tanta coisa.
Quando desceram as escadas do heliporto já havia ali embaixo uma estrutura para recepciona-los com direito a um grande arco coberto por rosas brancas e tapete vermelho, então ao chegarem ali uma jovem muito bonita trajando uma túnica grega e uma coroa de flores na cabeça veio até eles e colocou em seus pescoços colares em estilo havaiano feito com rosas brancas, em seguida um rapaz também jovem e incrivelmente belo vestindo um saiote grego aproximou-se trazendo uma bandeja com três taças do melhor champanhe encontrado na Grécia.
Mu e Geisty aceitaram a bebida animados, mas Shaka recusou, pois além de não beber achava um absurdo consumir álcool àquela hora da manhã.
— Sejam bem vindos ao Vênus. Tenham um dia agradável e alegre. — disse a jovem com um sorriso que esbanjava carisma — Eu vou acompanha-los até sua mesa.
Enquanto eram conduzidos pelo convés, amazona, cavaleiros e neném deslumbravam-se a cada novo passo que davam para dentro daquele universo tão pitoresco.
No colo de Geisty, Kiki tinha os olhões lilases arregalados e a boquinha banguela aberta a emitir fracos sons desconexos, atento a todo aquele exagero de tamanhos, formas e cores nunca antes vistas, enquanto a amazona olhava para tudo absorta e admirada.
Aquilo nem parecia um iate, mas um resort de luxo flutuante.
— Pela deusa! Olha para tudo isso!... Eu não sei o que esse viado faz na cama, só sei que preciso aprender porque para ter deixado o Batman tão generoso assim deve ser melhor que a ambrosia servida aos deuses, não acha Mu?
— Deve ser a borboleta paraguaia. — Mu falou e trocou um olhar cúmplice com Geisty que logo o acompanhou em uma sonora gargalhada.
Alheio à conversa Shaka não tinha sequer se lembrado de que deveria manter os olhos fechados. Com eles bem abertos fitava cada detalhe daquele colosso náutico e tinha a sensação de estar em um cenário dos filmes bollywoodianos que tanto gostava. Para todo lado que olhasse haviam rosas e velas aromáticas, e ao longe já era possível ouvir uma batida dançante.
Logo chegaram ao centro do convés onde estavam dispostas as mesas em um espaço amplo ao lado da enorme piscina e seus famigerados coqueiros, que não davam coco; no lugar destes grandes arranjos com rosas vermelhas pendiam do alto até quase tocar o chão.
Garçons vestidos em túnicas gregas serviam bebidas e petiscos, e cada grupo de convidados foi acomodado em uma mesa cujo tamanho e número de cadeiras variava de acordo com o número de pessoas. Assim, ao lado esquerdo da mesa onde a bela jovem levou os recém-chegados estava aquela reservada aos cavaleiros de ouro, onde Aldebaran e Shura animados bebiam cerveja enquanto saboreavam finíssimas iguarias preparadas por cinco chefs renomados. Aiolia e Máscara da Morte chegariam mais ao fim da tarde, assim as Doze Casas não ficariam desprotegidas.
Do lado direito outra mesa havia sido posta, esta para os líderes da máfia grega e russa, Saga e Camus. Vazia ela abrigava um balde de inox com gelo, três garrafas de vodca russa, diversas caixas de variadas marcas de whisky, e também frutas, vários petiscos e a bolsa de Hyoga.
Camus estava na piscina com o filho, e Saga...
Ninguém sabia se o Grande Mestre viria à festa, essa era a verdade, mas Afrodite preparou tudo com esmero para recebe-lo.
Na mesa de Mu, Shaka e Geisty havia uma cadeirinha de bebê, toda sorte de bebidas com e sem álcool, e também petiscos vegetarianos para o indiano que não comia carne.
Assim que chegaram ali, na mesma hora Mu se dirigiu à mesa ao lado para cumprimentar Aldebaran e os outros, enquanto Shaka e Geisty ajeitavam as coisas de Kiki.
— Olha só, Shaka. Tem cardápio especial para você. Até nisso aquele safado pensou!... Ma che! E tem Chianti para mim! — disse Geisty enfim deitando os olhos na garrafa de seu vinho preferido deixada sobre a mesa.
— Hum... Não sei para que tanta ostentação. — disse o virginiano que tinha no rosto uma fisionomia desdenhosa.
— Gente rica tem que gastar seu dinheiro em alguma coisa, né? E gastou bem porque é tudo tão lindo que nem sei por onde começar a aproveitar... Vi que tem até jet ski. Vi do alto quando estávamos chegando. — disse com empolgação a amazona.
— Sabe que uma vez eu vi em um filme uma mulher que era casada com um executivo indiano do ramo portuário, ele era infiel a ela. Ele era muito rico e tinha vários iates. Um dia ele estava passeando de jet ski com a amante quando uma baleia enorme o engoliu, com jet ski e tudo.
— Credo! — disse Geisty com os olhos arregalados — E amante se salvou?
— Ficou no mar à deriva por sete dias... até que foi comida por um tubarão martelo. A esposa traída herdou toda a fortuna do biltre e passou a dar festas regadas à fornicação nos iates do falecido.
— Que coisa trágica!
— Sim. Muito trágica.
Aquela conversa insana de baleias que engolem canalhas, amantes à deriva em alto mar, jet skis e esposas vingadas foi interrompida de súbito quando ambos foram abordados por um pequeno russo que vinha correndo todo esbaforido em suas direções, todo molhado e com euforia a lhe saltar dos olhos brilhantes.
— KIKI! — disse Hyoga fazendo festa — Eu tava espelando você pá gente nadá junto!... Oi tio Shaka... Oi tia Geisty. — disse abraçando as pernas do virginiano que lhe fez uma carícia nos cabelos encharcados.
— Olá Hyoga. — disse Virgem sorrindo para ele.
Como se entendesse, já que partilhava da mesma euforia do loirinho ao vê-lo ali, do colo de Geisty, Kiki dava saltinhos agitando no ar as perninhas, batendo palminhas e dando gritinhos, então a amazona agachou-se para permitir que as crianças se cumprimentassem a seus modos.
— Como vai Hyoga? Faz tempo que não o vejo. Você cresceu! — disse Geisty admirada com o grego quase perfeito já falado pelo menino.
— Eu vo bem. — ele respondeu educado e sorridente, mas ansioso como estava não se prolongou nos cumprimentos — Eu posso nadá com o Kiki na piscina? — perguntou após abraçar o nenê.
— Pode sim. Só precisa esperar o papai dele troca-lo e por a fralda de piscina, aí com alguém acompanhando podem nadar o quanto quiserem. — a amazona respondeu sorrindo, mas seu sorriso se desfez quando levantou o olhar percebendo a aproximação de alguém, e vendo de quem se tratava prontamente se ergueu e foi até o cavaleiro de Virgem — Shaka, o ar vai ficar meio irrespirável aqui para mim. Pega teu filhote. — disse entregando o bebê para o pai indiano — Eu vi que Shina e as meninas estão na piscina e vou até lá dar um oi para elas e pôr a conversa em dia. Tchau Hyoga! A gente se vê na piscina. — fez um carinho nos cabelos do loirinho e saiu sem nem esperar resposta do indiano.
Shaka estranhou a urgência da amazona em sair dali, mas quando a viu passar por Camus apressada e claramente evitando olhar para ele entendeu seus motivos. Não devia ser de fato fácil para ela ter de lidar com a presença do aquariano ali, especialmente depois de tudo que acontecera envolvendo a máfia da qual agora ele era o líder.
— Bom dia, Shaka. — Camus cumprimentou o indiano com cordialidade, sem retirar os óculos escuros que usava.
— Bom dia, Aquário. Cheguei a pensar que não viria, dado seu histórico vergonhoso de implicância com o anfitrião dessa festa. — Virgem respondeu com a tranquilidade de um pescador paciente — Vejo que o tempo e as circunstâncias enfim colocaram algum discernimento nesse seu juízo torto.
Chocado com o despautério do virginiano Camus chegou a abrir a boca para dar uma resposta no mesmo nível daquela afronta, mas no momento exato Hyoga lhe cutucou as pernas eufórico.
— Olha papa, olha! É o batcóptelo! É o batcóptelo! — dizia a plenos pulmões, exultante, enquanto apontava no céu uma aeronave que se aproximava ao longe.
— O... quê? — Camus perguntou alarmado e confuso, então olhou para a direção em que o filho apontava e eis que, incrédulo, viu: Era mesmo o batcóptero — Mas que... merde é essa! — resmungou num murmúrio.
Naquela altura todas as atenções estavam voltadas para a aeronave que agora fazia um sobrevoo pelo Vênus. Ela era bem menor que um helicóptero comum e cabiam só duas pessoas dentro, o piloto e o passageiro. Tratava-se de uma réplica idêntica do batcóptero usado no seriado do Batman da década de 1960. Vermelho, com asas de morcego customizadas nas laterais e o símbolo do herói dos quadrinhos bem pomposo na frente em preto e amarelo bem vivo, e quando esta se alinhou no céu com o heliporto no convés a música dançante que animava a festança foi substituída pelo icônico tema do seriado do Batman, então de duas portas laterais que ficavam na popa saíram vários homens e mulheres trajando obscenos trajes de banho que mal cobriam o necessário, exibindo corpos besuntados em óleo aromático tão perfeitos que dariam inveja a qualquer fisiculturista fanático e os rostos cobertos por máscaras do homem morcego. Em duas filas indianas em paralelo atravessaram o convés sendo observados por todos que ali estavam, arrancando suspiros das bacantes que estavam na piscina, dos garotos do Olho do Oráculo, o inferninho de Polifemo, e do próprio Polifemo — que por sinal era um dos convidados ilustres do pisciano — de cavaleiros e amazonas de Prata, incluso Misty, que desde que chegara ali tinha a inveja e a raiva estampadas em sua fisionomia dura.
Da piscina Shina e Geisty, que conversavam animadas sentadas em uma das espreguiçadeiras, olhavam para tudo aquilo em choque. Ofiúco ria e cutucava a amiga italiana já escolhendo qual dos rapazes saradões iria pegar naquele dia, e não seria apenas um; Serpente de boca aberta olhava para tudo aquilo absorta.
Quando desceu da aeronave, sorridente e acenando para todos, Afrodite caminhou por aquele corredor de homens e mulheres em trajes de banho minúsculos e com máscaras de Batman até uma estrutura montada no centro do convés onde ficava a mesa de som comandada por um DJ ateniense. Ali ele apanhou um microfone e deu boas vindas a seus convidados.
— Sejam bem vindos ao Vênus cavaleiros, amazonas, meus queridos amigos e a baixa patente! — disse lançando um olhar a Misty, a quem vira na mesa destinada aos cavaleiros de Prata, logo em seguida abriu um sorriso exultante e acenou para a mesa ao lado onde estava Polifemo, distintíssimo vestido num terno branco e com seu indefectível tapa olho de couro negro com taxas de metal — Oi Polly, querido! Que bom que vieram!... Bem, estamos reunidos aqui hoje nessa maravilha dos sete mares, que ainda vai me levar à Bora Bora, para celebrar a vida! Em especial a minha e da amazona de Serpente, minha querida amiga. — apontou para Geisty na espreguiçadeira e deu uma piscadinha recebendo de volta um sorriso que exibia todos os dentes — Afinal a gente merece comemorar já que quase batemos as botas. E como a gente tem que seguir em frente, por que não tentar fazer isso da melhor maneira que conseguimos? Eu quero também oferecer essa celebração a uma pessoa muito especial, meu grande amigo, irmão, conselheiro e pau para toda obra, pois não fosse por ele eu não estaria aqui hoje... É de você que estou falando, Mu. — apontou sorrindo para o ariano, e nessa hora seus olhos brilharam de emoção — Eu devo minha vida a você. Jamais me esquecerei o que fez por mim... E para mostrar que não sou uma pessoa rancorosa e ingrata, aqui diante de todos vocês quero agradecer também ao Cavaleiro de Aquário que doou seu sangue para que Mu conseguisse me salvar. — apontou rapidamente para Camus não fazendo muito alarde e logo desviou o foco — Bebamos em honra à Atena, aos bravos guerreiros que somos, e também em honra às prostitutas, aos marinheiros veteranos, aos michês e gogo boys, garçons e garçonetes, às crianças e à baixa patente. Bebamos a todos que estão aqui hoje!... E um brinde especial ao Batman! — nessa hora um dos rapazes de sunga veio lhe entregar uma taça de champanhe, a qual ele ergueu puxando o brinde — Pois sem ele e o amor que sentimos um pelo outro nada disso seria possível, e vocês nem aqui estariam para encher a pança! Agora chega de falação e vamos ao que interessa! Divirtam-se!
Feito seu discurso Afrodite devolveu o microfone à mesa do DJ. Os homens e mulheres seminus espalharam-se pelo convés, e quando a música voltou a tocar estes passaram a dançar entretendo quem quisesse olhar.
Peixes deu uma rápida olhada para a mesa onde estava Mu e os outros cavaleiros e vendo Camus ali por perto achou melhor não ir até lá por enquanto, mesmo que quisesse dar um forte abraço no lemuriano. Ficou apreensivo também por não ter visto Gêmeos ali. Pelo jeito ele não viria à festa, como já imaginava. Tomou o rumo oposto e caminhou até a mesa onde estavam Polifemo e os garotos do inferninho. O homenzarrão, que na juventude servira à marinha grega, o recebeu com um forte abraço.
— Quando você disse que tinha ganhado um iate do teu macho eu imaginei que fosse uma lancha. — rio alto o cafetão — Você sempre foi exagerado, mas não dessa vez. Isso aqui é um transatlântico, viado! O que faz na cama com esse velhote?
Afrodite riu com ele antes de apartarem o abraço.
— Ah, ele não é Irene* não. Tá achando que eu dei o golpe no bofe, né, seu safado. — Peixes respondeu — E eu já te disse, é amor de verdade.
— Tô vendo... — Polifemo sorriu dando dois tapinhas no ombro do pisciano, e em seguida correu o único olho pelo convés até fitar outro cavaleiro bem conhecido por ele também, já que quase todo mês ia ao Olho do Oráculo fazer compras para o Templo das Bacantes — Tô vendo também pela primeira vez... o padre.
— Que padre? — Afrodite perguntou em seguida olhando para a direção que o grandalhão apontava discretamente.
— Como que padre, viado? O tal marido do Mu. — disse Polifemo agora mais sério — Ele não é casado com um padre gay?
— Aquenda a lôca! — riu olhando para o casal ao longe que parecia discutir —Já te falei que ele não é padre, santa. É monge. Na verdade ele é Buda... ou quase isso... era para ser, mas o Karma colocou um carneiro no caminho dele para a iluminação.
— Que seja... É aquele loiro com cara de marra ali?
— É sim. O próprio.
Polifemo analisou Shaka por alguns instantes e no final deixou escapar um riso malicioso enquanto coçava levemente o queixo quadrado.
— Hum... Não é que o safado tem mesmo perfil de dominador? Olha só, nem faz questão de esconder... O carneirinho deve sofrer deliciosamente na mão dele. — disse o cafetão.
— Ah meu amigo, sofre sim viu. E não é pouco não! O coitado nem ver televisão pode. — disse distraído o pisciano.
— Hum que tesão! Assim que eu gosto! Esse loiro é um mestre cruel! Mas eu seria mais... Ah, pode ter certeza que seria bem mais cruel! Se eu pegar o Mu eu...
— Acorda Alice! É disso que você tá falando? — Peixes o interrompeu ás gargalhadas dando um tapa em suas costas — Volta pra Terra, Polly! O dia que eu pegar a Shina você pega o Mu, fechou? Ou seja, nunca, meu bem.
***
Na mesa onde estavam Shaka, Camus e Kiki, que parecia tentar manter algum tipo de comunicação primitiva com Hyoga fazendo biquinhos e soltando sons pela boquinha afoita, o francês apertava a fronte com as pontas dos dedos, visivelmente incomodado com algo.
A verdade era que quando Afrodite lhe disse que iria dar uma festa no Vênus com homens de sunga frontal a esbanjarem saúde Camus não o levou a sério, por isso tinha liberado uma boa quantia em dinheiro para o namorado, mas agora, depois daquela cena toda do batcóptero, e com o convés de seu iate cheio de homens sarados a rebolarem a bunda em indecentes sungas fio dental, o que considerava uma afronta pessoal, já estava completamente arrependido de ter concordado com aquela festa. Sentia-se também um pouco ofendido, já que aquilo lhe soava como uma grande piada de mal gosto, uma chacota.
Percebendo o incômodo do aquariano, e aproveitando que Hyoga estava distraído com Kiki que estava na cadeirinha, Shaka aproximou-se de Camus parando a seu lado enquanto corria os olhos azuis celeste pelo convés.
— Sabe, a mim também não agrada nada esse circo obsceno e mundano. — disse chamando a atenção do ruivo que o fitou de imediato — Mas agrada ao Peixes, e isso precisa ser levado em consideração. — agora Virgem também olhava firme para Aquário — Especialmente por você.
Camus estreitou os olhos encarando firme o indiano.
— O que quer dizer com isso? Especialmente eu? Está me dizendo que tenho que aceitar, que tenho que aplaudir essa... essa... abominação? Essa coisa ridícula que o Peixes quer enfiar por nossa goela abaixo? Um show de promiscuidade e viadagem? Há crianças aqui, por Dieu! O que elas vão pensar? — disse verdadeiramente nervoso, pois achou uma péssima influência para Hyoga todos aqueles homens de micro sungas desfilando pelo convés.
Iria ter uma conversa séria com o sueco a respeito desse despautério. Porém Shaka logo o encarou ofendido por suas palavras.
— Isso que você chama de abominação e viadagem é parte da essência humana. Se não pode conviver com ela então devo lhe dizer para virar um macaco. — disse em tom baixo, porque o que tinha a dizer a ele ninguém mais precisava ouvir — Aquário, muita coisa aconteceu nesses últimos dias, e é lamentável que mesmo diante de tanto sofrimento você continue com essa sua mentalidade retrógrada e preconceituosa... Repetindo: a mim também não agrada nada esse circo, mas isso não me dá o direito de ofender Peixes e todos os outros homossexuais presentes. Agora você é líder de um grupo de pessoas igualmente primitivas como você, e tem um filho... É esse ódio que vai ensinar a ele? Acho que você é melhor que isso. Acho que tem lições melhores a deixar como legado a Hyoga, mas... se mesmo assim você ainda preferir educa-lo com sua parte podre eu terei que pedir que não o leve mais à minha casa, e impedirei qualquer contato que ele possa vir a ter com o meu filho... Sabe o apreço que tenho por Hyoga, pela criança pura e maravilhosa que ele é, e pela forma como seu jeito doce tocou meu coração e abriu minha mente em relação à paternidade, mas na minha casa Mu e eu sempre ensinaremos a ele que se deve respeitar a todos, sem distinção de cor, raça, religião e principalmente orientação sexual. Sabe, eu já suspeitava que era gay desde criança... e mesmo sendo gay eu nunca fui, nem nunca serei, como Afrodite. Não concordo com a postura dele, mas ele é feliz assim, e por mais contraditório que pareça devemos admitir que ele não prejudica ninguém com sua alegria e extravagância, não dissemina ódio, já você... Você, sim é nocivo. E por Buda, Kiki nem sabe o que é um homem de sunga, e Hyoga não tem malícia nenhuma em seu coração infantil.
Camus ouviu tudo calado, com um misto de vergonha e indignação.
Tinha consciência de que merecia parte do que estava ouvindo, mas outra parte não, e nem podia se defender, afinal não podia dizer a Shaka que estava irado porque aquele iate era seu, era ele quem estava bancando aquela maldita festa para agradar o namorado e este o tinha ridicularizado comparando-o com um monte de homem sarado de sunguinha, além de convidar toda a patota de Polifemo, que ele sabia muito bem terem sido frequentadores assíduos da cama do Cavaleiro de Peixes. Portanto, além do atual problema com a sexualidade exagerada do namorado, Camus sentia que sua relação com Afrodite estava balançada, tudo fruto do seu ciúmes.
Por outro lado, as palavras de Shaka lhe despertaram um gatilho.
Por mais que lutasse contra a homofobia esta ainda estava enraizada em si, e uma coisa era certa: não queria deixa-la criar raízes também em Hyoga. Sabia que seria inevitável o filho ser imune a ela, já que cresceria na Rússia e dentro da Vory, mas faria de tudo para não deixar acontecer com ele o que aconteceu consigo.
Quando pensou em responder umas poucas e boas para Virgem, Camus sentiu uma mão suave pousar em seu ombro. Ao olhar para o lado viu Mu ali, que percebendo da outra mesa as auras turvas dos dois cavaleiros prontamente veio intervir. Era incrível como não podia se afastar de Shaka nem por um minuto nestas festas que o indiano já arrumava alguma encrenca com alguém.
— Olá, Camus. Como vai? É bom ter você aqui hoje. Significa que aceitou a trégua proposta no convite de Afrodite. — disse Mu que conforme falava olhava para ambos.
— Darei a trégua como aceita quando o Patriarca pisar aqui. — disse seco o francês ainda encarando Shaka. Como tinha vontade esganar aquele sujeitinho arrogante... Não podia acreditar que além de ter de presenciar aquela cena ridícula de homens de sunga fio dental rebolando em volta de seu namorado ainda teve que ouvir um sermão de Virgem — Bem, se me dão licença e vou até minha mesa. Preciso de uma dose de vodca. Não!... Duas doses... Hyoga! — chamou a atenção do filho que prontamente olhou em resposta — Comporte-se. E não entre na piscina sozinho. — disse recebendo um aceno afirmativo do menino. Não se preocupava com Hyoga por ali, pois já o havia trazido ao Vênus várias vezes naquele mês e o garotinho conhecia aquela embarcação como a palma de sua mão.
Quando saiu, Áries e Virgem o acompanharam com o olhar até que o viram sentar à mesa ao lado e como havia dito servir-se de uma dose de vodca, então Mu chamou a atenção do marido.
— O que disse a ele? Ele me parece irritado.
— E é preciso Shaka dizer algo para que ele se sinta irritado? Olha à sua volta, Mu. — disse apontando para um garotão besuntado em óleo que passava ali esbanjando testosterona e acenando para os dois. Desconcertado Shaka piscou os olhos e deu um cutucão no braço do ariano, que ainda olhava para o rapaz brilhoso — Sabe que não aprovo a postura de Aquário, seu preconceito e ódio velado, mas fica cada vez mais difícil defender aquele Baiacu beijoqueiro.
— Hum... pois eu não entendo a surpresa e indignação de vocês em ter homens e mulheres seminus em uma festa do Afrodite, onde a maioria dos convidados são garotos e garotas de programa. Está tudo até que bem condizente. Por sorte não estão nus e rebolando em um palco. — Mu riu apanhando uma garrafa long neck de cerveja que havia sido posta ali dentro de um balde com gelo — Acho que nós, cavaleiros, é que estamos fora do contexto aqui. — abriu e deu um gole generoso.
Shaka respirou fundo balançando a cabeça.
— Thike he!* — resmungou revirando os olhos — Eu vou levar as crianças à piscina.
— Eu vou com você. Te ajudo a olhar as pestinhas. — disse Mu voltando-se para Hyoga e Kiki na cadeirinha — Vamos molecada! Vamos cair na água, encher a cara de cerveja e depois paquerar umas gatas? Quer dizer, vocês dois podem paquerar porque são solteiros, mas o tio não pode porque o tio é casado. O tio não tem mais vontade própria, não pode nada, nem assistir a luta de boxe, imagina paquerar. — dizia tirando Kiki da cadeirinha para que Shaka pudesse trocar sua fralda por outra adequada para entrar na água, enquanto Hyoga dava saltos de euforia ao lado.
Após ter cumprimentado os amigos e convidados um a um, sem esquecer nem dos garçons e garçonetes, Afrodite apanhou um coquetel de frutas para ele e outro para Geisty e sentou-se na espreguiçadeira junto da amazona, que dessa vez optara por vestir um maiô elegante e discreto no lugar dos minúsculos biquínis caribenhos que usava para tomar Sol. A amazona trazia agora no ventre os sinais discretos da gravidez recém-interrompida e a cicatriz indelével da cesariana, e com ela o peso da lembrança nefasta da morte dos filhos. Uma marca em seu corpo para nunca deixa-la esquecer a dor que carregaria para o resto da vida; não que fosse preciso carregar tal estigma para se lembrar.
Ali também estavam Karina, Rebeca, a qual ainda se recuperava do tiro que levou no atentado ao bordel e Marin, que saboreava petiscos à base de frutos do mar. Shura havia saído dali há pouco apenas para ir ao banheiro, mas isso já fazia cerca de uma hora. Coincidência ou não Shina também havia ido apenas pegar um coquetel de frutas e ainda não regressara.
Próximo às 14:00 horas quase todo mundo que estava na piscina desde a manhã agora saboreavam deliciosas iguarias da culinária grega nas mesas. Afrodite havia se sentado com Geisty, Shaka e Mu, e vez ou outra, e muito discretamente, dava uma olhadinha para a mesa ao lado e uma piscadinha marota para Hyoga que todo feliz ria baixinho enquanto comia junto do pai. Havia percebido que Camus estava com um semblante nada agradável. Teria que dar um jeito de falar com o francês, e sua mente já começava a traçar um plano.
Já ali na mesa em que estava a descontração e alegria imperavam.
Aldebaran havia pego seu balde com cervejas e migrado para a mesa ao lado, onde Mu o acompanhava na bebida e nas gargalhadas enquanto dava mamadeira a Kiki, que de tanto brincar na piscina estava quase dormindo. Geisty degustava seu Chianti, que já estava na metade; naquele dia nem havia tomado os antidepressivos que lhe foram receitados para poder beber à vontade.
— Vocês já foram no deck do piso? Lá tem uma plataforma de mergulho, dá para nadar no mar. E tem jet ski! — disse Afrodite jogando algumas tâmaras dentro da boca.
— Eu comentei dos jet skis! Shaka até contou uma história maluca do cara que foi comido por um tubarão com jet ski e tudo. — disse Geisty que junto do vinho comia um bombom belga de alta concentração de cacau.
— Ah, mas aqui não tem tubarão e nem maridos infiéis para fazer o karma se cumprir, fique tranquila. Eu conheço esse filme. Fui obrigado a vê-lo três vezes. — disse Mu colocando a mamadeira vazia sobre a mesa e pondo Kiki para arrotar.
— Mas que absurdo! Você viu porque quis, Mu de Áries. — disse Shaka que um pouco mais afastado deles secava os cabelos molhados com uma toalha. Parou o que fazia só para encarar o marido.
— Eu vi porque não tive escolha, como eu nunca tenho escolha em nada nessa vida, já que no seu templo é você quem manda, praga. — resmungou o ariano chacoalhando o neném. Este ao ouvir a voz do pai fez um biquinho tentado dizer algo — Já pensou a decepção, Debão? Você se preparar todo para assistir à final do campeonato carioca e bem na hora mudarem o canal?
— HOMEM RAPAZ! — o taurino arregalou os olhos que mais pareciam um par de jabuticabas graúdas, em indignação — Aí enfraquece a amizade, né! Porra, final do meu Mengo é sagrado. Com o Mengão e com a Mangueira não se brinca! Nem se for o rabudo do Hades chamando pra guerra. Ele que sossegue aquele fogo no cu dele e espere o jogo terminar... E te digo mais, carneirinho: Se o Mengão for campeão eu ainda saio pra manguaçar que isso também é prioridade. Foda-se a guerra, e o Hades que se carregue pro ... pra casa dele de volta. — disse soltando uma risada.
— Modere o linguajar na presença do seu afilhado, Touro... E quer saber? Quem vai andar de jet ski agora sou eu! — disse irritado o virginiano, que não aguentava mais aquela marra do marido — E tomara que um tubarão faminto venha e coma Shaka com máquina e tudo! Só que aí não adianta o Mu chorar ao lado da pira dele e nem com as cinzas dele nas mãos. — jogou a toalha molhada sobre a mesa e sem se preocupar com o pudor que em uma situação normal certamente teria atravessou o deck principal descabelado e de sunga mesmo em direção à plataforma de mergulho.
— Que cinzas? Se o tubarão te comer não sobra praga nem para petisco. — resmungou o lemuriano para si mesmo revirando os olhos enquanto olhava para o marido caminhando a passos duros já afastado.
Na mesa Afrodite e Geisty tinham os olhos arregalados e as faces aturdidas, enquanto Aldebaran tinha o rosto vermelho e os lábios contraídos, o que deixava suas bochechas inchadas.
— Isso, pode rir da minha desgraça. — disse Mu sem muita animação ao olhar para Touro, e a gargalha se fez instantânea.
— Pô compadre, foi mal, mas como que eu vou segurar o caboclo risadinha nessas horas? Num dá, cara!... Tu não viu aquele lutão do Tyson, né? Ah não. Que saco de vacilo que é o Shaka! — ria de ter os olhos marejados.
Logo Afrodite e Geisty acompanhavam o brasileiro, e Mu, vendo que não havia outra saída riu junto dos amigos por um momento, depois respirou fundo e resoluto virou-se para Aldebaran.
— Bom, eu acho que tenho que ir atrás dele, porque ele pode ser uma praga, mas é a minha praga, e não quero que um tubarão bobalhão coma minha pragona loira. Vai com o dindo, filhote. — disse entregando o Kiki ao taurino — Olha ele para mim, Debão.
— Vai lá, sangue bom. Vai se acertar com o teu chassi de grilo. Pode deixar que eu cuido do dimenor... Vô ensinar pra ele como se paquera umas gatinhas, né mulecão? Quem é o mulecão do dindo? — com o bebê sorrindo e mexendo as perninhas o taurino ria dando corda para a festa que ele fazia — Isso aê, garoto! Ah lá, aquela lá loirinha... Tá olhando pra gente, Kikizão. — apontou para uma das dançarias que estavam ali perto — O dindo vai te levar lá pra tu dar um “oi” pra ela.
Thike he! – expressão da língua indiana usada como gíria com significado de: Tá bom, Ok ou Beleza.
Dicionário Afroditesco
Irene— homossexual idoso.
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Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
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