Templo das Bacantes Vol. 2
7 As escolhas que fazemos
Notas iniciais

Santuário de Atena
Casa de Virgem, 07:11am
Shaka passou o resto da madrugada em claro. Sentia mais necessidade de meditar e tentar acalmar seu espírito inquieto após aquela conversa desagradável que tivera com Mu na festa de Halloween do que a necessidade de sono, comida ou bebida, mas a presença de Hyoga ali, em sua casa e a seus cuidados, exigia sua atenção plena, e meditação estava fora de cogitação.
Tudo que queria quando viu Mu chegar bêbado da festa e se enfiar numa banheira sem água para dormir, impossibilitando qualquer conversa, era desligar-se desse plano terreno, já que sua cabeça só pensava em uma coisa: era culpado pela extinção da raça muviana!
Pior que esse pensamento era a ideia que martelava insistentemente em sua cabeça de que Mu um dia iria deixá-lo para procriar com uma lemuriana. E como se sentia mal em condenar o amado por isso... Por querer cumprir a missão de perpetuar sua espécie. Sentia-se egoísta e pequeno. Exatamente o contrário de tudo que levara anos treinando para ser.
Meditar, colocar as emoções nos seus devidos lugares, seria o mais sensato a se fazer, mas não quando uma criança desconhecida de apenas quatro anos estava dormindo bem no meio de sua cama.
Sentado em uma poltrona de bambu trançado, cujo estofado vermelho possuía graciosos desenhos com motivos orientais, como flores de lótus e elefantes, Shaka velava o sono do menininho que ressoava baixinho entre os lençóis brancos.
Mais cedo tinha até pensado em ir para sua sala de meditação e deixá-lo ali sozinho, mas temeu que ele acordasse assustado ou caísse da cama, afinal crianças eram imprevisíveis.
Seu nervosismo era notório, fosse através das pernas inquietas que chacoalhavam ou pelas repetitivas consultas ao relógio sobre a penteadeira ao fundo do aposento.
Quando finalmente os primeiros raios de sol da manhã atingiram seu rosto através de uma fresta na janela, foi que se levantou e seguiu para a cozinha para preparar algo de comer para Hyoga, que não deveria demorar a despertar.
Não foi tarefa muito fácil para o virginiano decidir o que faria, visto que não tinha a menor familiaridade com crianças, tampouco as queria perto de si, e depois de muito pensar preparou suco fresco de laranja, bolinhos doces com manteiga, frutas diversas cortadas em pedaços bem pequenos e leite.
Não levou mais de meia hora, mas quando voltou ao quarto tomou um susto ao ver Hyoga acordado e sentado na cama com um semblante assustado no rosto de olhos inchados e bochechas coradas.
Surpreendido, Shaka parou na porta com seu rosto voltado para ele, e após uma breve pausa ensaiou uma aproximação, ainda que desajeitada.
— É... Olá! — disse em tom extremamente sério, em grego mesmo, enquanto adentrava o quarto a passos lentos indo em direção à cama.
Não houve resposta.
Hyoga estava assustado demais com o semblante sério do cavaleiro, e somando ao fato de estar em um local estranho, sobre uma cama estranha e sozinho, sem Camus ou Afrodite por perto, aquilo lhe parecia extremamente assustador.
Contudo, algo naquele homem intrigava o pequeno russo. Corria seus olhões azuis curiosos pelo rosto dele se perguntando por que seus olhos estavam fechados, mas nem de longe aquela era a adversidade.
O problema era que aquele era o Ra's Al Ghul, o temido mestre do Batman! Em uma túnica laranja, com longuíssimos cabelos louros que caiam por seus ombros, e de cavanhaque feito, mas ainda assim era ele, e isso indicava perigo!
— Está com fome? — Shaka fez uma nova tentativa.
— Cadê o papai? — disse Hyoga com voz chorosa. Toda sua coragem da noite passada havia escorrido pelo ralo diante da imponente figura à sua frente.
— Ah! Você fala francês! Claro! — disse Shaka meio atrapalhado, improvisando um francês carregado em sotaque indiano — Perguntei se está com fome.
— Você é o Ras? — Hyoga perguntou arregalando os olhos.
— Quem? — Virgem balançou a cabeça ao modo indiano reforçando a pergunta.
— O Ras... É você. Você só tilo a ropa, mas você é o Ras. — disse bravo — Cadê o papai? Você me sequestô? Você vai pidi dinhelo po papai?
— Eu? Não!... Buda!
— CADÊ A DI? — gritou quase em desespero.
— Quem é Di? — Shaka perguntou confuso.
— PAPAI? — agora sim gritou em desespero pleno e convicto, já com os olhinhos marejados.
— Shiii... Ei Não chora. Eu... — disse Virgem atabalhoado, com as mãos projetadas para frente num sinal de quem pede calma.
— Cadê o Dudu? — lágrimas já escorriam pela lateral do rosto corado do menininho.
— Dudu! — Shaka deu um giro em torno de seu próprio eixo levando a mão até a nuca onde passou as unhas nervosamente — Ah! Dudu! O pato! — correu até a bolsa que Camus havia deixado consigo e pegando às pressas a colocou sobre a cama, em frente a Hyoga — Está aqui. Está vendo? Está tudo aqui... É... mamadeira? Você ainda usa isso nessa idade? — franziu a testa voltando-se para Hyoga.
— Essa bolsa é do papai. — disse o menino, agora muito sério.
— Sim, são suas coisas. O seu pai deixou aqui comigo porque ele teve de sair no meio da noite e me pediu para cuidar de você até ele voltar.
— Mintila! O meu papai não ia me entegar po Ras. — falou bravo.
Shaka então parou o que fazia e direcionou seu rosto a Hyoga, assumindo um semblante severo.
— Eu não sou o Ras... Mas que criança limitada! — disse, depois soltou um suspiro.
Hyoga fez um muxoxo e deu uma fungada.
— Não é?
— Ora, não! Aquilo era só uma fantasia... Igual a sua. — disse Virgem retirando o pato de pelúcia da bolsa para entregá-lo ao menininho — Você por acaso é o Batman? Não né?
Hyoga pegou o patinho e o apertou com força contra si enquanto encarava o rosto do virginiano, agora não mais com medo, porém ainda mais curioso.
— Olha, o meu nome é Shaka, e eu sou... colega de trabalho do seu pai... — procurou a melhor explicação, depois sentou-se na beirada da cama abrandando seu semblante — Não precisa ter medo. Você está seguro aqui. Estamos no Santuário e essa é minha casa, que fica algumas casas abaixo da do seu pai.
— Você é cavalelo também?
— Sou.
— E você faz gelinho também?
— Não.
— O que você faz?
Virgem pensou por alguns segundos e achou melhor omitir o fato de que mandava as pessoas para um Inferno no qual julgava ser mais indicado a ela conforme seus erros, isso privada de todos os seus sentidos. Também não seria bom dizer ao menino que podia invocar demônios decrépitos, ou que podia afogar alguém em um mar de sangue borbulhante, tampouco derreter cérebros com o uso de ilusões insanas.
— Olha, é melhor você não saber, tudo bem? — disse por fim, novamente arranhando a nuca.
— O papai vai demola pa volta?
— Eu não sei.
— Você é cego?
— Eu? Não.
— Pu que tá de olho fechado?
— Olha, Hyoga, esse é seu nome né?
— Sim.
— Vamos parar com tanta pergunta?
— Pu quê?
— Por que eu fiz um monte de coisas gostosas para você comer. Você quer?
— Papai disse pá eu nunca comê nada de gente estanha. Nada di nada. — disse fazendo um biquinho.
— Mas eu já te disse quem sou, já te disse meu nome, não sou mais um estranho. Você pode comer. — levantou-se e estendeu a mão ao garotinho — Não estará infringindo nenhuma ordem do seu pai, te garanto. Anda, venha.
Ainda meio ressabiado, porém vencido pela fome, Hyoga desceu da cama e abraçado ao pato de pelúcia esticou o bracinho e segurou na mão que Shaka lhe oferecia.
Caminharam juntos, lado a lado, até a cozinha, ambos meio sem jeito, em silêncio e analisando um ao outro. Shaka em toda sua imponência nata, e Hyoga a passinhos curtos, atento a tudo à sua volta, já que aquela casa era bem diferente da casa onde morava seu pai. Não tinha a sobriedade de tons e formas do Templo de Aquário, mas o refinamento da arquitetura oriental indiana em toda sua majestade de cores quentes e formas exóticas.
Quando chegaram à cozinha Hyoga se viu diante de uma mesa enorme para lá de convidativa. Shaka o ajudou a se sentar em uma das cadeiras e puxou outra para acomodar-se ao lado do menininho para poder lhe servir.
O pequeno russo comeu um pouco de tudo. No início ainda se fazia meio tímido, porém foi só o virginiano despejar um fio de leite condensado sobre uma taça com morangos, uvas e grãos de cereais diversos que o menino desandou a falar, estimulado por aquele festival de sabores, cores e perfumes diversos.
E como aquela casa toda diferente tinha um cheiro bom!
Melhor que o cheiro da casa do tio Shaka só mesmo o cheiro da casa da sua querida Afrodite.
E como Hyoga estava sentindo falta dela...
Quase não pode falar com Afrodite na festa, depois a esperou por um bom tempo em Aquário antes de pegar no sono no colo de seu pai, e agora tinha acordado em uma casa estranha e nem podia perguntar sobre ela, uma vez que fora instruído por Camus a nunca falar de Afrodite para quem quer que fosse.
Assim, um pouco amuadinho, Hyoga terminou o dejejum, agradeceu e enquanto Shaka recolhia a mesa do café ficou parado no batente da porta o observando.
Aquele cavaleiro era tão diferente dos outros que conhecera na festa... Era sério, parecia bravo com algo e parecia também evitar olhar para si. Não porque estivesse sempre de olhos fechados, e sim pelo fato de que, diferente dos outros, nunca sorria ou fazia gracinhas.
Hyoga achou melhor deixá-lo quieto. Esperou que ele terminasse de recolher tudo e não aguentando mais segurar caminhou até ele e lhe puxou a barra da túnica.
Shaka virou-se para o menino enquanto enxugava as mãos em um guardanapo branco.
— O que foi? — disse o loiro.
— Tio, eu quelo fazê xixi. — pediu já cruzando as perninhas. Estava apertado.
— Ah!... Claro. — Shaka respondeu, então pegou novamente na mão do menino e o levou até o banheiro que ficava em um dos corredores de seu Templo, já que no banheiro do quarto Mu ainda dormia o sono dos ébrios.
No entanto, quando chegaram lá, Virgem abriu a porta, esperou que Hyoga entrasse e fechou a porta novamente deixando o menino sozinho do lado de dentro, enquanto esperava do lado de fora.
Não demorou um minuto sequer para dois toques fracos na porta serem ouvidos.
— Mas já? — disse Shaka ao abrir a porta e direcionar seu rosto para baixo. Hyoga, abraçado a Dudu, o encarava com uma expressão confusa.
— Você vai ficá ai fola? — perguntou convicto.
— Como? — Shaka disse surpreso.
— Você não vai entá comigo?
— Você... você quer que eu entre com você?
— Sim. Eu quelo fazê os dois. — explicou o loirinho.
— Que dois? — perguntou Virgem inocentemente, mas logo em seguida se deu conta do que o outro falava, então meio sem jeito coçou a lateral do rosto corado em agitação — Ah! Sim! Buda!... Claro... entendi... Bem... Tem certeza de que não pode fazer isso sozinho?
Hyoga acenou com a cabeça negativamente e sem outra alternativa Shaka o acompanhou entrando no banheiro e fechando a porta atrás de si.
E a manhã no Santuário estava apenas começando...
***
Casa de Peixes, 09:05am
Afrodite também tinha passado o resto da madrugada em claro e boa parte da manhã debaixo do chuveiro praguejando contra sua sorte infeliz.
Pouco antes das oito e meia desligou a ducha e seguiu para o quarto sem nem ao menos se enxugar, deixando um rastro de poças d´água pelo caminho.
Peixes levou tanta água na cabeça que todo o pigmento vermelho que havia passado no cabelo na noite anterior saiu completamente e seus fios azul piscina voltaram a dar as caras.
Sentou de frente para o espelho de sua penteadeira e ficou um longo período analisando seu reflexo no espelho, sem se mover.
Ouvia os passarinhos saudarem a manhã ensolarada do lado de fora, mas dentro de si apenas as palavras de Camus eram ouvidas repetidas vezes em sua mente.
“Non precisa mais voltar.”
Suspirou pesadamente.
— De que adianta ser tão bonito por fora e todo torto por dentro, Afrodite? — disse para seu próprio reflexo — O que tinha que ter ido lá? Fosse derramar o cafuçu no banco da praça, na porta da sorveteria, na capela das carmelitas descalças... Mas, não! Não!... Você teve a brilhante ideia de ir pedir conselhos para o Polifemo no puteiro dele. Que mente magnífica você tem, Afrodite! — pegou a escova e passou a escovar os cabelos com raiva, em movimentos nada delicados — É claro que o Camus ia aparecer lá, afinal sorte não faz parte da sua vida, Afrodite... bicha burra.... Agora como você vai explicar para aquele viado turrão que focinho de porco não é tomada?
Largou a escova sobre a penteadeira e grunhindo de raiva passou a perambular pelo quarto.
— E tudo culpa de quem? Daquela cria mal parida do Tejo! Daquele réptil de ventosas. Que ódio!
Foi até o closet e chafurdando nas gavetas vestiu uma cueca velha, que nem era sua. Tinha os elásticos da cintura frouxos e pequenos furinhos na parte de trás. Pertencia a Máscara da Morte e deveria estar ali há anos, mas nem se lembrava mais. Vestiu também um abadá do carnaval carioca de 1993, o qual tinha pego de Aldebaran e esquecido de devolver, e quem em seu corpo mais parecia um vestido.
Queria descer até Aquário, mas àquela hora além de perigoso ainda podia criar algum conflito com Camus e não desejava expor Hyoga a uma briga entre eles, as quais quase sempre acabavam em baixaria.
Estava morrendo de vontade de ver o garotinho, mas também estava com medo, raiva e vergonha de Camus. Com certeza o francês pensava que havia transado com Diógenes.
Suspirou novamente enquanto caminhava até a cozinha pensando em como resolveria aquele dilema, então descascou duas laranjas murchas e colocou num pratinho junto com um pedaço de pão amanhecido e um copo de refrigerante sem gás. Puxou uma das graciosas cadeiras de madeira pintadas de branco com estofado de veludo rosa claro e sentou-se apoiando a cabeça em uma das mãos.
Engoliu o pão borrachento com a ajuda do refrigerante e chupou uma laranja murcha.
Estava definhando de tristeza, assim como aquela comida velha.
Cuspiu o bagaço da laranja fora decidido a jogar fora também todo o medo e insegurança que Misty de Lagarto plantara em sua cabeça.
Precisava ver Hyoga, pois aquele pedacinho de gente já era parte crucial de sua existência, assim como Camus de Aquário.
***
Casa de Gêmeos
No Terceiro Templo, a intimidade da área residencial era mantida pelo eficiente labirinto erguido por seu guardião, o qual mantinha ocultos os Cosmos de Saga e de Geisty.
Na sala, de arrumação e mobílias impecáveis e tradicionais, o imponente relógio de jacarandá do século XVIII trabalhava incessante marcando onze horas e quarenta e dois minutos daquela manhã de Outono.
Já no quarto que era ocupado pelo casal a desordem parecia ter sido instaurada durante a madrugada. Uma garrafa de champanhe vazia tombava sobre o criado mudo enquanto outra caía sobre o carpete ao lado da cama formando uma pequena poça alcoólica.
Na cama os lençóis de algodão branquíssimos, agora manchados de toda a sorte de cores das pinturas faciais dos dois foliões, mal cobriam seus corpos nus, os quais estavam dispostos em sentidos opostos um ao outro.
Exaustos, ambos estavam entregues a um sono pesado, decorrente dos excessos etílicos e sexuais da noite passada, porém não tão pesado ao ponto de fazer a amazona de Serpente ser indiferente ao reboliço que acontecia em seu corpo, e que a fez despertar de súbito.
Geisty nem bem conseguiu entender o que se passava quando uma sensação de desordem lhe abateu o corpo provocando um arrepio gélido que lhe percorria a pele de forma intensa, acompanhado de uma contração abdominal involuntária que lhe subiu quente em direção à garganta.
Saltou da cama em agito, dando passadas largas e desalinhadas em direção ao banheiro que ficava no quarto, o invadindo em desespero e já se atirando em direção ao vaso sanitário. Levantou aflita a tampa junto com a tábua, na destreza ímpar dos que estão em apuros, e deixou sair de dentro de si uma avalanche quente e ruidosa de vômito que lhe passou pela garganta sentido esta queimar.
Geisty mal tinha se recuperado da primeira contração abdominal quando outra, ainda mais forte, lhe arrancou um gemido de dor que fora acompanhado de mais uma estrondosa onda de vômito.
Seu mal estar era tão intenso que sentia o corpo perder as forças, e para não ceder à vertigem e aos tremores se sentou no chão debruçando-se sobre a louça sanitária enquanto mais uma vez vomitava.
Os ruídos que vinham do banheiro eram tão perturbadores que Saga, mesmo entregue ao sono pesado proveniente do álcool, acordou.
Atordoado Gêmeos correu os olhos pelo ambiente já notando que a namorada não estava ao seu lado, então se levantou rapidamente e seguiu para o banheiro que tinha a porta aberta. Nem pensou duas vezes em entrar, só não imaginou se deparar com a cena que viu. A amazona debruçada sobre o sanitário, pálida, trêmula, visivelmente abatida e com uma crise de vômito intensa.
Assustado correu até a morena segurando seus cabelos e lhe apoiando as costas, ao que sentiu a pele fria e arrepiada.
— Geisty, por Atena! Está tão ruim assim? — perguntou preocupado.
A resposta veio em um leve menear de cabeça e mais uma onda ruidosa de vômito acompanhada de uma crise de tosse.
Ao se recuperar, gotículas de um suor frio brotavam da testa da amazona, e os olhos lacrimejavam pelo esforço.
— Calma, senão você vai se engasgar assim. Respire fundo... — disse o grego apoiando a amada e simulando o movimento de respiração — Isso, se acalme, respire, vai passar...
Mas nem concluiu a fala e mais uma vez ela se jogou para frente em uma ânsia fortíssima, mas sem conseguir vomitar, até que exausta foi amparada pelo namorado que olhava perplexo para a cena caótica enquanto afastava os fios do rosto suado.
— Geisty, respire fundo. — disse tentando passar tranquilidade enquanto observava a namorada inspirar o ar — Isso. Está melhorando? — a resposta foi um balançar sutil e positivo de cabeça — Você estava há muito tempo aqui? — novamente ela respondeu com um gesto, balançando a cabeça negativamente — Venha, vamos. Tente se levantar, eu te ajudo. Vamos para o chuveiro. Você precisa de um banho para recobrar as forças.
Saga se levantou apoiando a namorada em seu corpo. Com calma seguiram para o chuveiro e ficaram debaixo da cascata de água morna abraçados por longos minutos. O geminiano acariciava os cabelos negros da amazona com carinho, um uma tentativa atenciosa de aliviá-la do mal estar, e cerca de alguns minutos depois a melhora de Geisty já se mostrava perceptível.
— Obrigada. — ela disse em voz baixa — Já me sinto melhor. Não sei o que provocou essa... essa reação exagerada...
— Não sabe! — Gêmeos sorriu, depois beijou a fronte da amada carinhosamente — Acordei no susto com o barulho que você estava fazendo. Fiquei preocupado... Você estava tão bem ontem. Vim correndo aqui para te socorrer.
— Desculpa. Não queria que me visse nessa situação.
— Que bobagem, Geisty. — o geminiano riu para ela apertando o corpo languido contra o seu — Quem nunca vomitou depois de um porre?
Ela lhe sorriu de volta.
— Mesmo assim, amazona... — ele deu um selinho nos lábios úmidos dela — Mesmo que não precisasse de ajuda eu não iria te deixar passando mal aqui sozinha. Fiquei preocupado, pensei que fosse sufocar.
— Que exagero, Saga. — ela riu — Eu fiquei tonta de repente, só isso. Mas... obrigada por me socorrer, meu cavaleiro.
— Eu percebi... De nada. — ele falou enquanto esticava a mão para alcançar a esponja de banho para em seguida passá-la pelo corpo da moça em movimentos circulares suaves — Deixa eu te ajudar a tirar toda essa tinta melecada do seu corpo. Depois você tira do meu.
Ao que o cavaleiro disse isso, Geisty olhou imediatamente para o seu rosto, que era uma mistura bizarra de tinta branca com verde, preta e vermelha.
— Sim. Deuses, seu rosto está horrível! — ela disse dando um sorriso e esfregando os dedos com cuidado pela face do grego, que sorria de volta com os olhos fechados.
— O seu não está muito melhor não. — retrucou Saga.
— Não duvido, mas pelo menos eu não tenho marca de batom na barriga... — disse Geisty esfregando a mancha no abdômen do namorado que a olhava curioso — Me da essa esponja aqui.
— Acho que exageramos um pouco na bebida ontem. Até eu me sinto meio tonto ainda. — Gêmeos comentou esfregando o rosto para se livrar de toda aquela maquiagem borrada enquanto Geisty lhe esfregava o peito com a bucha.
— Ah, você acha? Amore mio, ontem bebemos de dar inveja a Baco.
A risada do cavaleiro se espalhou pelo banheiro.
— Sim, e não foi só na bebida que exageramos, não é mesmo, amore mio? — disse o grego puxando a namorada para um abraço — Mas, não me arrependo de nada.
— Nem eu! — ela respondeu com um beijo no queixo do cavaleiro.
— Mas agora você precisa descansar. Vamos acabar esse banho logo e ai você vai ficar deitada ali na cama enquanto eu preparo um dejejum leve para nós.
— Não estou com fome.
— Mas precisa comer. Depois se quiser podemos ir até a enfermaria do Santuário.
— Não precisa, Saga, não é para tanto. Eu estou bem.
— Tem certeza? Eu fico preocupado. Você ainda está bem abatida. Nunca te vi passar tão mal como agora.
— Não! Não preciso, eu já disse que estou bem. Mesmo porque vou chegar lá pedindo o que? Remédio para curar a cara de pau da minha ressaca? Não preciso, eu estou melhorando.
— Tudo bem, você fica aqui hoje, passamos o dia juntos. Hoje é nossa folga.
— Jura? Você não tem nenhum assunto pendente para resolver hoje?
— Não. Nenhum. E caso apareça algo para ser resolvido com o Grande Mestre, meu assessor, Gigars, resolverá para mim. Meu único assunto de hoje é você.
— Ah! Ótimo! — Geisty disse animada, depois puxou o corpo forte do cavaleiro para debaixo da cascata de água enquanto despejava shampoo sobre seus cabelos — Então o meu chá pode ser de hortelã, mas o quero com pouco açúcar, nem muito quente, nem muito frio! E minhas torradas têm que ser ao ponto!
— Chá morno e torradas ao ponto! Seu desejo é uma ordem! — Saga sorriu enquanto sentia os dedos delicados da morena lhe massagear o couro cabeludo — Assim é que se fala, minha enferma. Hoje eu vou cuidar de você e desse seu mal estar.
— Hum, e eu vou adorar! — disse Geisty correndo as mãos pelos ombros fortes do grego para em seguida abraçá-lo com ternura.
Aquele dia seria dedicado aos cuidados de Saga à Geisty, que ainda sentia leves enjoos intermitentes, os quais julgava ser resultado da ressaca da festa.
Para Saga, cuidar e mimar a namorada não seria tarefa penosa, visto que tudo que desejava era aproveitar um dia inteiro na companhia da amada, fosse apenas desfrutando da presença doce e carinhosa dela, assistindo a um filme qualquer na televisão ou mesmo alternando as horas entre cochilos e carícias mais ousadas.
***
Casa de Virgem, 15:05pm
Hyoga sentia a água geladinha lhe correr pelos tornozelos, pés e dedinhos, os quais ele contraia enfiando por debaixo da terra fofa sob os pés nus.
Fazia uma tarde quente na Grécia, e após assistirem televisão, comerem uma torta deliciosa de vegetais com batatas fritas, conversarem sobre elefantes, macacos e outros dos tantos animais que habitavam a milenar terra natal de Shaka, agora ambos estavam no jardim secreto da Sexta Casa Zodiacal brincando com a mangueira de regar as plantas.
No intervalo entre o almoço e a pausa para assistirem ao canal de desenhos animados, o Santo de Virgem foi até o banheiro de seu quarto e com cuidado tirado Mu da banheira para carregá-lo até a cama. O hálito morno do lemuriano ainda exalava um odor forte de álcool e Shaka teve pena dele, pois sentia que a conversa que tiveram na festa não tinha afetado negativamente somente a si, mas também ao ariano, uma vez que nunca o tinha visto em tal estado de embriaguez, nem nos excessos que ele cometera no passado quando ainda namoravam.
Com carinho e dedicação lhe tirou o bigode ainda colado debaixo do nariz, as meias e a gravata. Ajeitou Áries entre os travesseiros e o deixou ali para voltar sua atenção a Hyoga.
Shaka havia dado banho no menino logo após o almoço e vestido a roupa que Camus tinha colocado na bolsa, mas, pelo andar da carruagem, Hyoga teria que tomar outro banho no final da tarde, já que tinha terra até nos cabelos.
Com as barras da calça de moletom erguidas até acima dos joelhos, e Shaka a barra da túnica dobrada na mesma altura, criança e cavaleiro agora conversam sobre botânica, bem a seus modos distintos.
— Tio Shaka, pu que você tem duas ávoles iguais? — perguntou o sempre curioso garotinho russo.
Shaka não queria dizer a verdade, já que esta era um tanto quanto fúnebre demais para uma criança, então se ateve somente à parte lúdica.
— Por que elas são gêmeas e não queriam crescer separadas uma da outra. — disse entregando a mangueira para Hyoga — Toma. Dê água para elas. As plantas precisam de luz e de água para viver.
— Como você sabe?
— Você não sente sede?
— Sim.
— E você conseguiria viver sem a luz do Sol? Em noites gélidas e intermináveis?
— Eu acho que não.
— Então. As plantas são iguais a você. Precisam de água, luz, adubo e amor, para crescerem bonitas e fortes.
— Eu sempe vou dá água pá elas.
— Isso mesmo. Mas, agora elas já beberam bastante água. — disse Virgem indo fechar a torneira — Vamos tomar outro banho que se o seu pai aparecer aqui para te pegar, e espero que apareça logo, vai achar que Shaka é um porco. Olha seu estado!
— Não! Banho não! — Hyoga largou a mangueira e num tom de brincadeira saiu correndo pelo jardim aos risos chamando a atenção de Shaka, a quem ele queria que fosse atrás de si numa brincadeira de pega-pega.
— Ei! Volte aqui! — gritou o loiro ao vê-lo correr — Buda! E a parte que as crianças obedecem aos mais velhos? Será que esse veio com defeito? Eu não sirvo pra isso... — esfregou o rosto, cansado, depois saiu correndo atrás do loirinho — Hyoga! Vai tomar banho sim! Volte aqui!
Ficaram naquela brincadeira de gato e rato por um tempo ainda, até que Hyoga finalmente foi “capturado” e mergulhado em uma banheira de águas límpidas e mornas com essências aromáticas de sândalo, alecrim e camomila.
Enquanto ensaboava as costas e lavava o cabelinho de Hyoga, que brincava com pequenos raminhos de alecrim que boiavam sobre a água, Shaka pensava novamente na conversa que tivera com Mu na festa, até que o pequeno russo o trouxe de volta para o presente.
— Tio Shaka, você é um cavalelo fote igual meu papai? — o menino perguntou em seu francês de sotaque russo acentuado.
— Eu creio que sim. — Shaka respondeu junto com um leve balançar de cabeça, como fazem os indianos ao afirmarem uma sentença.
— Quem é mais fote?
— Todos somos iguais. — disse o virginiano — Seu pai é um cavaleiro muito forte. Uma lástima que use tanto poder e potencial para tratar de propósitos mundanos e escusos, disseminando o crime, a depravação, a contravenção, a promiscuidade, a corrup... — interrompeu-se ao se dar conta do que falava, então percebeu que Hyoga o encarava confuso, com os olhões arregalados — Por Buda! A água está ficando fria! Está com frio? — encheu as mãos com um tanto de água e jogou no rosto do menino, torcendo para que ele não conhecesse nenhuma daquelas palavras que havia dito.
Hyoga quase se engasgou, mas achou divertido o modo como o virginiano agora batia as mãos contra a água para fazer mais espuma. Era uma tentativa de desviar o rumo da conversa.
E de fato ele conseguiu.
— Quem é Buda, tio Shaka? — perguntou Hyoga.
— Ah... Buda? — Virgem suspirou aliviado — Buda é o nome de um príncipe muito bonzinho que viveu há muitos anos na Terra. Ele renunciou a tudo que tinha para se tornar um deus e ajudar as pessoas a entenderem melhor a si mesmas e aos seus semelhantes.
— Legal... Tio Shaka?
— O que?
— Aquele que tá na sua cama é o Comissálio Gódon? — perguntou, já que tinha visto Mu na cama do virginiano quando este o trouxera para o banheiro do quarto do casal.
— Quem? — Shaka respondeu atrapalhado.
— O Comissálio Gódon. O moço das pintinha na testa. Ele tá domindo na sua cama. Você me disse que aquela é sua cama... Poque ele tá domindo na sua cama? A Di dome na cama com meu papai, mas eles são namolados. Você e o Comissálio Gódon são namolados?
Shaka parou o que fazia com ambas as mãos congeladas no ar.
Estava completamente atônito diante daquelas perguntas. Todos no Santuário sabiam que Camus era extremamente homofóbico, e que certamente já tinha começado a doutrinar o filho para pensar como ele, então entrar naquele assunto não seria muito inteligente.
Engoliu em seco, pela primeira vez sem ter uma resposta para um questionamento que lhe faziam, até que finalmente sentiu o Cosmo do Santo de Aquário se anunciar na porta de seu Templo.
— Buda seja louvado! — disse Virgem em voz baixa mergulhando ambas as mãos rapidamente na água para terminar de enxaguar os cabelos de Hyoga — Seu pai chegou! Anda, vamos terminar logo esse banho antes que Shaka desencarne aqui antes da hora! Vai, enfia a cabeça ai na água.
Terminado o banho, Virgem vestiu rapidamente Hyoga, juntou as coisinhas dele espalhadas pelo quarto, colocou tudo dentro da bolsa, pegou o menininho pela mão e o conduziu até a entrada da Sexta Casa, onde Camus já os aguardava enquanto fumava um cigarro.
O Santo de Aquário foi outro que passou o resto da madrugada em claro e metade do dia recluso em seu Templo, remoendo tudo que havia acontecido na noite anterior, até que conseguiu juntar um mínimo de ânimo para enxotar de seus pensamentos a visão de Afrodite naquele quarto junto de Diógenes, tomar um banho, mudar de roupa e descer até Virgem para buscar o filho, afinal agora era pai e teria que dividir sua dor de cotovelo com sua obrigação para com Hyoga.
Havia chorado pela manhã. Usou gelo pouco antes de descer para amenizar os olhos inchados, mas mesmo esforçando-se ao máximo para disfarçar a raiva e a tristeza, Shaka pôde notar seu abatimento assim que o viu ali.
Quando avistou Camus, Hyoga soltou da mão de Virgem e correu sorridente para ele.
— Papai! — dizia no percurso.
Camus se abaixou e abriu os braços para receber o pequeno com um abraço forte e saudoso, o pegando no colo em seguida.
— Merci Shaka. E me perdoe o incomodo e a demora. — disse o aquariano ao estender a mão para apanhar a bolsa que Virgem lhe devolvia.
— Tudo bem. Não foi incomodo. Ele é uma boa criança. — disse Shaka — Um tanto quanto tagarela demais. — sorriu sutilmente — Cuide bem dele. Seja para ele tudo o que mais sentiu falta em sua vida.
— Eu serei. — disse o Santo de Aquário ao levantar os olhos e divisar a face serena do virginiano — Agradeça ao tio Shaka, Hyoga.
O menino tombou o corpinho para o lado e pegou Shaka de surpresa ao dar um beijo estalado em seu rosto.
— Obigado tio Shaka! — disse com seu mais sincero sorriso no rostinho alegre.
Shaka respondeu com um aceno tão somente. Ficou ainda algum tempo ali os vendo subir as escadas lentamente enquanto repassava em seus pensamentos tudo que vivera aquela manhã. Baixou a cabeça e deixou escapar um riso que surpreendeu até a si mesmo.
Não tinha sido uma experiência de todo ruim. Cansativa, sim, mas não incômoda.
Entrou em seu Templo o percebendo silencioso e vazio como nunca.
Caminhou até a sala e se surpreendeu ao ver o par de chinelinhos azuis ao pé do sofá. Hyoga os deixara ali quando foram assistir televisão, logo depois Shaka propôs a brincadeira no jardim e ambos seguiram descalços até a parte externa do Sexto Templo.
Sentou-se no sofá e apanhou o par de chinelos os pousando em seu colo, sobre a túnica laranja. Eram tão pequenos que sorriu achando graça, então curiosamente levou um até seu rosto e o cheirou.
Tantos pensamentos desconexos passavam pela cabeça do virginiano que de tão distraído não percebeu que estava sendo observado por um par de olhos verdes ainda meio inchados pelo sono prolongado.
Mu aproximou-se lentamente do sofá, intrigado pelo que via. Shaka tinha um par de chinelinhos de criança nas mãos e cheirava um deles.
Quando estava já nas costas do sofá, curvou-se para frente e aproximou a boca do ouvido de Shaka.
— Um chinelinho de criança, luz da minha vi...
Foi interrompido de supetão por uma pancada no queixo que Shaka lhe dera com o susto usando o chinelo de Hyoga.
— MU DE ÁRIES! — Virgem gritou se levantando do sofá com o coração palpitando dentro do peito — POR BUDA! QUER ME MATAR DE SUSTO?
— Auuw! — Mu levou ambas as mãos ao queixo fazendo uma careta, mas o que mais lhe doeu na verdade foi a cabeça, essa sim, parecia que ia explodir a qualquer momento!
Com uma ressaca horrível aquela pancada foi sentida como marteladas fortes em seu cérebro, as quais lhe fez contrair os olhos apertando com força as pálpebras.
— Shaka... — resmungou encostando-se no braço do sofá — Por tudo que é mais sagrado, fale baixo, ou minha cabeça vai explodir.
Virgem rapidamente foi acudir o marido.
— A culpa foi sua. — disse, agora num sussurro, enquanto apressou-se a verificar se tinha ferido Mu com a pancada — Quem mandou chegar assim, todo sorrateiro. Quase me mata de susto.
Vendo que fora apenas um esbarrão sem gravidade, e que o problema de Mu estava longe de ser o golpe que lhe dera, Shaka o pegou pela mão e lentamente o conduziu pela sala em direção à cozinha.
— Desculpa... Ai... minha cabeça dói tanto... — o ariano reclamou.
— Pudera né, Mu. Espantoso seria se depois de beber feito um ébrio boêmio você acordasse vendendo disposição. Anda, eu te fiz um chá para curar essa ressaca.
— Obrigado. — Áries agradeceu seguindo o marido até a cozinha, onde puxou uma cadeira e se sentou à mesa — Ontem eu passei da conta... Sabe o quanto fico triste quando discutimos. Além disso, você saiu para tomar um ar e foi embora sem dizer nada...
Mu parou de falar dando um suspiro melancólico.
O fiasco da noite anterior ainda pairava sobre eles.
Calado, Shaka deixou os chinelinhos de Hyoga sobre uma das cadeiras e foi até o fogão, onde apanhou um bule com o chá que já havia feito e o serviu em uma xícara de porcelana indiana para o ariano.
— Beba tudo. É para ser bebido morno mesmo e não quente. — devolveu o bule ao fogão e quando voltou à mesa para se sentar trouxe também uma travessa com bananas cortadas, mel e um pedaço da torta que havia feito para o almoço — E coma alguma coisa, vai te ajudar a melhorar... A festa acabou para mim quando você enfim me revelou o seu desejo de ter filhos. — disse baixando o rosto.
Mu nada disse.
Uma pausa silenciosa se fez entre eles enquanto o Santo de Áries, de olhos baixos e semblante acabrunhado, pegou a xícara e deu um gole no chá. Depois, ainda em silêncio, Mu comeu um pedaço de fruta e terminou de beber a infusão.
O clima estava tão estranho e denso que nem apetite tinha, mas se esforçava pelo virginiano.
Foi então que viu o par de chinelinhos infantis na cadeira e se lembrou da cena inusitada na sala.
Cautelosamente esticou o braço e os apanhou na mão, curioso.
— De quem são? — perguntou quebrando o silêncio entre eles.
— São do filho do Camus. — disse Shaka sem muito entusiasmo — Ele passou a manhã e boa parte da tarde aqui. Parece que Aquário teve de resolver algum problema externo e não tinha com quem deixá-lo... Procurou por você, mas você estava dormindo na banheira.
— Na banheira? Isso explica as dores que sinto nas costas. — Áries constatou enquanto levava uma mão ao pescoço dolorido — Poxa que pena. Hyoga me pareceu uma criança maravilhosa. Realmente fiquei encantado com ele. Adoraria ter ajudado a cuidar dele... Quem sabe... brincado, passar um tempo tipo família, sabe?
Quando percebeu a besteira que tinha acabado de dizer, Mu se calou de imediato.
Notou que havia entrado em um looping, pois tudo o que falava trazia à tona o assunto que tanto tentava evitar.
Mas o estrago já estava feito.
Um pouco abatido, Shaka pegou a xícara que servira o chá ao marido, que agora estava vazia, se levantou e foi até a pia.
— Eu achei que já éramos uma família. — murmurou enquanto lavava a porcelana. Quando terminou voltou à mesa, mas não se sentou, permanecendo de pé ao lado do ariano — Mas, pelo jeito eu me enganei.
— Shaka, por favor, me perdoa. Não foi isso que eu quis dizer. — Mu ergueu os olhos e olhou para a face tristonha do marido, visivelmente aflito, depois buscou a mão dele fazendo uma pequena carícia — É claro que somos uma família, luz da minha vida. É só que...
— Que?
— Eu... Eu não consigo impedir essa sensação de que nos falta algo... Ontem eu vi Hyoga com Camus, passei algum tempo reparando na cumplicidade de um para com o outro e...
— E?
— E esse desejo antigo de ter filhos aflorou muito forte em mim. Foi inevitável!
— Hum.
— Shaka, eu não quero brigar com você. Estou odiando esse clima ruim entre nós dois.
Como não era de guardar as coisas para si por muito tempo, tampouco ficar remoendo dilemas, aborrecimentos e dúvidas, Shaka achou que deveria abrir logo o jogo.
— Eu também detesto esse clima, Mu, mas precisamos conversar sobre isso. — sentou-se novamente e abriu os olhos, encarando firmemente o olhar aflito do ariano enquanto segurava sua mão com força — Não dá mais para simplesmente fingir que está tudo bem, ou que ficará tudo bem. O seu desejo de ter filhos é totalmente compreensível, eu o entendo... A raça muviana está quase extinta, e não será comigo que você irá manter o legado do seu povo.
— Shaka, não fala assim, eu...
— Mu... nós dois... — Virgem o interrompeu, mas depois fez uma breve pausa, sentindo a garganta lhe apertar a ponto de quase sufocar — Nós somos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes... Eu nunca pensei em ter filhos, não tenho esse desejo, portanto não acho certo privá-lo dele, mas... Por Buda, Mu de Áries, por que não considerou isso antes de... Antes de se casar comigo? Você foi leviano, você foi... Imprudente! O que devo fazer agora, me diz? O que devo fazer? Shaka deve abrir mão do Mu para deixar ele livre para procurar uma mulher, ou uma lemuriana, que lhe dê o filho que ele tanto deseja? É isso que Shaka deve fazer? Por que ele não sabe se consegue fazer isso, Mu, e é isso que está enlouquecendo Shaka, porque ele não quer ser egoísta, mas ele é! — angustiado, Shaka recolheu as mãos, mas manteve seus olhos cravados aos do lemuriano.
Mu ao notar o estado do marido, a aura perturbada e confusa, os olhos azuis lhe encarando cheios de aflição, sentiu o peito doer repleto de culpa.
Imediatamente se levantou da cadeira para poder se aproximar mais, então se agachou à sua frente e levou ambas as mãos ao rosto do amado.
— Nunca mais repita isso. — disse baixo, com o rosto muito próximo ao de Shaka, encarando-o de volta — Você não é egoísta, você só é humano! E eu não fui leviano. Imprudente talvez, mas não leviano... Eu escolhi você, Shaka, porque eu o amo, e não vai abrir mão de mim, pois não quero ser livre. — fez uma pausa e respirou fundo — Entenda uma coisa de uma vez por todas, quando decidi me casar com você, eu estava absolutamente ciente de nossa situação delicada. Não pense que o sacrifício que fez por mim passou despercebido, Shaka. Você abriu mão da sua iluminação, da eternidade, da divindade... por mim. — o lemuriano então deu um sorriso triste e acariciou carinhosamente o rosto do virginiano, que o olhava com brandura.
— Mas, a minha escolha afeta somente a mim e a ninguém mais, Mu. Já a sua escolha afeta toda uma raça que está à beira da extinção. — Virgem disse num murmúrio fraco e sentido.
— Então nós dois estamos sendo egoístas, luz da minha vida. — disse o ariano colocando uma mecha do cabelo de Shaka atrás de sua orelha, aproveitando o gesto para lhe afagar com carinho as madeixas loiras — Porém, essa foi a nossa escolha... Eu escolhi por mim mesmo. Eu também fiz uma troca, Shaka. Abandonei a minha raça, troquei o futuro dos meus descendentes por amor a você... Me perdoe se fomos imprudentes, como disse, mas escolhemos nós ao invés do bem maior, e não vejo pecado nisso. E agora não há volta. Não a essa altura. Eu não sei se você se arrepende, mas eu não me arrependo.
— Não. Eu não me arrependo. Se tivesse que escolher de novo, por mil vezes eu escolheria você. — disse o virginiano delineando os traços do rosto do lemuriano com as pontas dos dedos.
— Eu não vou mentir para você, eu desejo sim ter um filho. Uma criança que preencha essa lacuna que falta em nossa pequena família, mesmo que para você essa lacuna não exista. — disse o ariano — Uma criança que alegre nossa casa com seu riso e brincadeiras... Mas, assim como você carrega o peso de sua escolha, eu também carregarei o peso da minha... Por favor, Shaka, me perdoe. Não quero que sofra por conta do meu desejo tolo. Eu te amo e não tem que abrir mão de mim para fêmea muviana alguma, porque eu sou seu, eternamente seu.
Shaka deixou livre um suspiro, misto de cansaço, apreensão, mas também alívio, ainda que esse fosse brando e frágil.
Esboçando um sorriso melancólico em seu rosto pálido, o virginiano puxou Mu para um abraço e lhe deu um beijo terno nos lábios, depois encostou sua testa a dele e ambos de olhos fechados ficaram ali por um breve tempo em silêncio, refletindo sobre as escolhas que tomaram e suas consequências.
***
Casa de Aquário, 20:30pm
Na sala da parte interna do Templo de Gelo, Camus tinha os olhos avelãs fundos e cansados fixos a um ponto qualquer na parede. Sentado no sofá, em uma das mãos segurava um copo de cristal que guardava um último fio da generosa dose de vodca com a qual se servira depois de dar um rápido lanche a Hyoga.
O menino estava sentado no tapete felpudo no centro do aposento, concentrado em um quebra-cabeças que Camus lhe oferecera para distrai-lo. Talvez, com a mente focada no enigma das pequenas peças o filho não lhe fizesse tantas perguntas sobre o paradeiro de Afrodite.
“Afrodite...”
Aquário quase verbalizou seus pensamentos, e com os lábios já entreabertos deixou escapar um suspiro e sorveu o último fio da vodca em seu copo.
Foi quando sentiu seus pensamentos ganharem forma e percebeu o Cosmo do Santo de Peixes nas imediações de seu Templo. Seu rosto se contorceu numa expressão de raiva, misto de mágoa e rancor.
Achou que o sueco se anunciava apenas para passar, mas de repente ouviu três toques na porta.
Hyoga arregalou os olhos e olhou para o aquariano, ansioso. Camus, porém, pousou o copo na mesinha ao lado do sofá e se levantou.
— Não saia dai. — ordenou ao pequeno antes de deixar sala em direção ao corredor.
Camus ficou durante algum tempo apenas olhando para a grande porta de madeira escura antes de abri-la. Não sabia se queria ver Afrodite, tampouco falar com ele, não ainda. Estava confuso, magoadíssimo, sentindo-se traído, mas a vontade de esclarecer tudo com o pisciano, para o bem ou para o mau, foi mais forte, e com o coração aos pulos dentro do peito agarrou a maçaneta e abriu a porta lentamente.
O coração de Camus bateu ainda mais forte quando seus olhos avelãs cruzaram com os aquamarines do Santo de Peixes e o perfume de rosas que exalava dos cabeços azuis, presos em uma graciosa trança que pendia de um dos lados de seu corpo, lhe arrebatou os sentidos impiedosamente.
Não bastasse o perfume inebriante e aqueles olhos extasiantes que lhe olhavam suplicantes, Afrodite estava deslumbrantemente vestido num Dior de seda italiana azul marinho com estampas delicadas de rosas brancas, cintura bem marcada, saia rodada até os joelhos, decote alto e mangas longas. As costas nuas era uma exigência à parte, já que não poderia usar decotes na frente, visto que não tinha seios e nem usava enchimentos.
A franja longa estava presa com uma presilha prateada de cristais, nos lábios tinha um batom brilhante e nos pés uma sapatilha baixinha branca.
— Oi, Camus. — disse Afrodite, sem sorrir, sem gracejar como sempre fazia.
— O que está fazendo aqui? — Aquário sussurrou fechado o rosto numa expressão sóbria e sisuda — Non há mais nada para você aqui. Vá embora.
— Eu quero ver o Hyoga, e quero te dizer o que fui fazer no inferninho do Polifemo... Me deixa entrar?
Negrito— traduzido do francês.
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