Tempestade

1 Pressentimento.


Notas iniciais
Esse capitulo faz parte da primeira semana do Desafio: A primeira vez que nós falamos.

Eu estava entrando no bar e fechando a porta atrás de mim, alguns homens olharam curiosos, me virei até o balcão e pedi uma cerveja qualquer.

Tinha sido um erro ir até ali. Malditos juramentos ao Estige que tinha de cumprir. Malditos monstros que apareciam toda hora pelo cartaz que eu exibia com meu cheiro, cartaz não. Placa de neon escrito: Semideusa deliciosa aqui. Maldito Zeus que tinha me colocado naquele mundo porque não sabia usar a porra de uma camisinha. Maldita Hera que tinha me infernizado desde que nasci, não duvidava que tivesse dedo dela ali também. Sempre tinha em toda merda que dava na minha vida.

Não percebi quando a cerveja acabou, uma lata inteira, em pensamentos ruins, que ótimo jeito de começar, pedi outra para o companheiro, ele não recusou, passava um jogo na tv, BrasilXArgentina, por isso aquele boteco estava lotado. Todos vestidos com camisa de futebol azul e branca, torcendo contra seu maior rival da história. Mesmo que o jogo estivesse 2x1 para o Brasil. Culpavam um tal de Neymar.

Sentei no banco e fingia assistir ao jogo, era engraçado como ficavam putos com a marcação do juiz, soltavam um hijo da puta, e carajos, aleatórios, confesso, entendia pouco de futebol, nunca tive o interesse, mas ao menos me fazia não pensar na minha vida de merda, e como eu voltaria para a Irlanda, onde teoricamente teria um lugar seguro, talvez Truce ficaria melhor comigo longe. Talvez eu não devesse voltar, tinha sido um milagre o que tinham feito, não queria foder com tudo.

— Belas espadas. — Uma voz falou atrás de mim, era grave, masculina. Possivelmente um monstro. Até na porra da Argentina esses putos vinham encher a merda do saco.

Girei num movimento rápido para pular e me afastar para observar o infeliz que tinha me pego num péssimo humor e iria virar churrasquinho, tinha olhos claros, mas que tinha algo que tudo dentro de mim gritava “ se afasta desse porra” . Barba que cobria as bochechas junto a um bigode, os braços fechados em tatuagens, ele usava uma camiseta do Pink Floyd escura, os cabelos castanhos desciam até as costas, lisos, e ele tinha um sorriso me olhando.

— Vão ficar mais bonitas quando encher elas com sangue de monstro. Escolheu o local e a semideusa errada para atacar. — Falei já puxando a espada, mas ele ergueu os braços para cima.

— Ow! Ow! Calma...

Mas antes que qualquer coisa pudesse ser dita pelo maldito monstro, o amiguinho dele chegou ali para a festa.

Um caranguejo gigante, vindo do que só podia ser o inferno, fez um tremor no chão e tentava avançar pinçando as janelas do bar, eu não tinha tempo para lidar com dois bichos de uma vez, mas não podia deixar aquele bando de humanos que deviam achar que estava acontecendo um terremoto, ou sabe-se lá o que a Névoa devia estar mostrando na mente deles.

— Melhor não ficar de gracinha, ou eu acabo com o seu couro também. — Eu avisei para o cara, sabia que ele ia tentar me atacar em algum momento da luta, isso se não fosse ele mesmo que tinha invocado aquela merda.

Vasculhei na memoria onde teria um caranguejo gigante... E para variar, Hercules e Hera, a deusa tinha mandado para foder meu irmão de mais de mil anos e ele claro tinha vencido, porque Hercules era tipo, o que derrotou uma par de coisa, quando eu digo que essa puta fode a minha vida sempre, as pessoas falam que eu sou paranoica, antes que fosse isso.

Esse bicho gigante, estava atormentando logo ali, eu olhei ao redor e vi uma janela propicia para ser pulada, e foi o que eu fiz, ao menos estava aberta, deixei o que quer que fosse aquele cara para trás e corri até a frente onde tava o que iria virar ensopado.

— Ow! Caranguejo! Tem mais merda nenhuma para fazer da vida não?

Ele não respondeu, só jogou a pinça gigante da minha direção, tentando agarrar com os pequenos espinhos que tinham dentro dela, se tomasse aquilo, era hit kill na certa. Por isso eu dei um salto usando o vento para me impulsionar para cima e deixar no vaco as garras mortais.

Eu puxei as espadas e passei eletricidade por elas, sabia que ia ter que atingir um ponto especifico para passar a carcaça dura, mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa ouvi alguém repetindo uma palavra em frente ao caranguejo gigante.

Era o mesmo rapaz de antes, ele dizia encarando fixamente o caranguejo “dor”. E o bicho começou a se contorcer, como se estivesse queimando por dentro, aproveitei a oportunidade para enfiar a espada na cabeça dele e jogar as ondas de eletricidade para o queimar de verdade por dentro, não demorou para o enorme bicho virar pó.

O rapaz apenas assistiu com um sorriso no rosto, satisfeito com o que acabara de ver. Eu apontei minha espada para ele, mesmo que soubesse que se ele jogasse aquele feitiço em mim, eu não tinha chance alguma, mas obvio que não iria demonstrar medo algum, já tinha enfrentado muita merda na minha vida para me importar com uma simples magia.

— Vou repetir a pergunta: Quem ou o que é você? — Ele ergueu as mãos, mas os olhos eram sagazes, como se me analisasse, ele não tinha medo algum, e estava bem claro.

— Diego. Diego Gómez. Filho de Mania, um semideus como você. Pode abaixar a espada? Não quero virar o caranguejo ali. — Ele falava sorrindo, Mania era a deusa da loucura, não estava enganada, eu abaixei a espada devagar e a coloquei nas costas junto com a outra.

— Meu nome é Celine. Celine Strom. Filha de Zeus. — Falei para ele, e lá estava o olhar de surpreso quando falava o nome do senhor todo poderoso do olimpo, minha vontade era de revirar os olhos.

— Bem que deu para sentir que você era... Diferente. Esperava uma filha de Ares, mas da para perceber que é mais que força bruta ai.

— É. Pode ser. Bom, prazer Diego, mas agora eu tenho que...

— Voltar a beber no bar? Eu paguei a sua conta para não acharem que era uma criminosa. — Ele falava ainda sorrindo. — Está sem saber para onde ir? Achou que a Argentina fosse um lugar livre de monstros?

— Por um segundo eu pensei, agradeço por ter pago, mas não precisava. E talvez eu vá mesmo para outro bar beber, e eu tenho para onde ir. Tenho que ir ver uma amiga... Na Irlanda. — Hesitei, mas não tinha certeza ainda se deveria voltar, tinha se passado nove meses, ela devia achar que eu estava morta a uma hora dessas.

— Você não me parece convencida disso. — Ele falava ajeitando o longo cabelo para trás. — Olha, eu conheço a região e ficar por aqui é ruim. Eu tenho um grupo, nem todos são semideuses, mas eles sabem do nosso mundo. Se você quiser...

— Não estou interessada. — Falei rapidamente para cortar aquela conversa. Não dava para me meter em outro grupo de sobreviventes por ai, eu ficava melhor sozinha... Não por mim, mas pelos outros, eu só iria foder quem estivesse perto de mim. — Valeu a ajuda Diego, prazer em conhece-lo, mas eu tenho mesmo que sair daqui, antes que mais monstros apareçam.

Eu não esperei uma resposta do rapaz, não importava, só me virei e saltei num voo para o céu, o deixando ali no chão.

Não. Eu não precisava me envolver com mais ninguém, eu precisava ficar sozinha, e achar outro local para encher a cara de uma vez e esquecer todas as merdas que tinha acontecido desde que eu sai da Irlanda.

Mas parece que o destino não seria tão gentil assim comigo para variar, ele nunca era, não sabia o porquê esperar disso.

Eu devia ter pego o primeiro voo de volta aos Estados Unidos, se eu soubesse tudo o que viria depois daquela simples conversa, eu teria corrido para longe. Mas não foi o que eu fiz. Mesmo sendo a filha do senhor dos céus, eu não senti a tempestade se aproximando.

Ele seria a pior tempestade da minha vida.

Notas finais
Obrigada por ler!