— Poderíamos ser um novo conto de fadas...

— Cale a boca... Merda

Ele a afastou de seus pensamentos, o que era inútil. Ele não podia controla-la. Ela era uma tempestade. Vinha quando queria, derrubando tudo o que ele acabara de construir. E tudo pelo simples prazer de bagunçar seu mundo.

— Não seja grosso!

Dean levantou bruscamente a cabeça. Aquela voz... Com certeza era ela. Não havia duvidas. Não seria apenas o álcool fazendo seu efeito? Não, com certeza ela estava lá.

— Cat?

Ele ouviu a risada doce vindo de algum lugar. Mas onde?

— Droga, Cat! Isso não tem graça!

A cabeça de Dean girava. Ele adentrou o parque um pouco mais. As copas das árvores pareciam mais altas agora que tentava enxergar alguma figura por entre os galhos. Ela e sua maldita mania de criança de se esconder nas árvores.

— Que tal a Bela e a Fera?

A voz parecia vir de todos os lados. Dean riu. Riu pela frustração que aquela garota lhe dava. Riu por estar bêbado. Cat riu junto. Uma risada pura e alegre demais. Sua cabeça ainda girava, talvez não deveria ter se afastado tanto do baile de formatura. Entretanto, não tinha muita escolha, então sentou-se e resolveu continuar o diálogo.

— Está me chamado de monstro?

Um ruído veio de uma árvore, mas de qual delas? Impossível distinguir.

— Você se acha demais, Dean! Você realmente pensou que conseguiria me prender?

Ela estava certa. Sempre que tentava agarra-la, ela desfazia-se em seus braços, deixando-lhe apenas o vento o envolver. Ela era uma menina muito inconstante, sempre experimentando e nunca se cansava de explorar. Dean acendeu um cigarro e pendeu a cabeça para a direita.

— Ei, Dean...

Ele suspirou, soltando a fumaça. Ela mudara o tom, a voz estava serena e manhosa. Apesar de melancólico, não pôde conter um sorriso. Ele sabia que era o único que conhecia aquele lado frágil, aquela calmaria repentina que ela demonstrava quando tudo estava dando errado. Cat prosseguiu depois de uma longa pausa:

— Eu estou indo.

Dean arregalou os olhos. É claro que ele sabia, mas uma parte dele ainda acreditava que ela mudaria de ideia. Que ela ficaria com ele. Que o abraçaria e diria que era mentira e como ele tinha sido bobo em pensar que o abandonaria.

— Droga, Cat...

Ela demorou a responder, estalou a língua e esbravejou:

— Isso é tudo o que diz? Sempre droga, Cat nunca um boa sorte, Cat? Já disse que venho lhe visitar.

Que direito ela tinha de arruinar tudo sempre. Por que ela tinha de ser tão egoísta? Ela não podia culpa-lo por seu mau humor. Não era ele quem ia para outro continente desbravar o mundo. Não era ele quem resolveu que aquela cidade não bastava.

— Pelo menos, faça-me um último favor... — murmurou — Dance comigo.

Ouviu o baque surdo dos sapatos aterrissando na grama logo atrás dele. Dean virou-se pisoteando o cigarro.

Cat estava deslumbrante. O vestido dourado, remetia a uma princesa. O cabelo em um semicoque destacava o ruivo dos fios. Ele não lembrava de que as sardas desciam-lhe pela bochecha até se encontrarem novamente em seus ombros brancos. Os seios pareciam um pouco sufocados, mas aquilo fazia parte do drama. Ela era dramática até nos mínimos detalhes. Os olhos de jabuticaba brilhavam olhando para Dean. E claro, os lábios carnudos haviam sido encharcados com batom de morango.

Dean a puxou pela cintura e dançou ao som do vento em uma sinfonia invisível. Com ela, a música era dispensável. A dança era conduzida pelo aroma de baunilha em sua nuca e pelas ondulações da grama. Ela se inclinou sobre seu pescoço e sussurrou pausadamente:

— Obrigada, meu amor...

De primeira, as palavras fizeram cócegas, mas o peso delas logo atingiu seu peito. Lágrimas rolaram por suas bochechas, enquanto abraçava desesperadamente a menina a sua frente. Ele demorou para reparar na falta que ela fazia. Demorou demais para declarar seu amor, para torna-la dele. Já era tarde, ela ia partir, conhecer novas pessoas e ter novas experiências. Era o ambiente perfeito para esquecê-lo. E enquanto isso, ele voltaria à sua rotina, agora, ainda mais vazia.

— Droga, Cat. Eu te odeio.

Dean a beijou...

Era o primeiro e último beijo...

Ela era quente...

Ela era uma tempestade...

Cat deslizou de seus braços tão rápido que não houve tempo para reagir. Dean simplesmente caiu de joelho no gramado, fitando-a desaparecer pelo parque. Sem saber para onde ela ia e quem se tornaria. Apenas com a dor de saber que poderiam ter sido sim um conto de fadas.

Assim que a menina desapareceu por completo, ele olhou para o chão. A sapatilha de Cat tinha ficado para trás. Ele a agarrou, derramando as lágrimas em cima do objeto. Talvez fossem mesmo um conto de fadas. Ele só precisava espera-la. Só mais um pouco... Ela voltaria para vê-lo, ela prometeu.

Naquela noite, as estrelas brilharam mais forte. Os sapos coaxaram mais alto. Porque naquela mesma noite, Cat embarcou em um navio rumo ao seu destino. Ela olhou para a foto de Dean e chorou. Chorou por sentir saudades. Chorou por ouvir o barulho da tempestade do lado de fora. Chorou por saber que nunca mais o veria. Chorou por sentir as ondas quebrando por cima da frágil estrutura do velho barco. Mas, não deixou de dar um último sorriso por lembrar-se de seu primeiro beijo. E quando o mar a abraçou, ela envolveu a foto com mais força e fechou os olhos, deixando as ondas apossarem de seu corpo.

Cat estava fria...

Cat mais uma vez tornou-se uma tempestade.

Já para Dean, sobrou apenas a árdua tarefa de recolher os cacos e reconstruir seu coração, esperando para que um dia, uma nova tempestade venha e arraste tudo.

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