Telma na Luta

15 Sentindo um vazio


— Está triste, Renata?

A colega de estágio riu, acanhada. Telma vinha notando que ela andava meio pensativa desde o susto por que passara. Mas pelo menos não estava mais pagando de poderosa, e parecia genuinamente agradecida pela ajuda que Telma lhe prestara. Agora parecia mesmo uma amiga.

— Vem comigo que hoje de tarde eu vou te levar a um lugar com gente legal, para você se sentir melhor.

— É na sua igreja?

— É.

— Ai, eu não curto muito ficar ouvindo sermão de pastor...

— Sua boba, igreja não tem só sermão! Tem encontro de jovens, tem eventos, muita gente legal!

Renata acompanhou Telma meio reticente. Mas em poucos minutos já estava enturmada com o pessoal da igreja, que falava sobre todos os assuntos e escutava pacientemente tudo o que ela tinha para dizer. Lá pelas tantas estava até a fim de escutar o sermão do pastor.

— Tem também um coral aqui, você tem boa voz, que tal?

Renata ficou animada, e pôs-se a conversar com o pessoal do coral. Telma voltou para casa satisfeita, com a sensação de haver feito a boa ação do dia. Mas sentia um vazio por dentro. Era estranho não ter mais Ronaldo esperando para sair com ela. Também não o tinha visto na igreja, melhor assim, ainda estava meio machucada e não queria vê-lo. Mas sentia ânsia de preencher aquele vazio. Sentou, pensou e decidiu que devia dedicar-se mais aos assuntos caseiros, cumprindo a obrigação de ajudar tia Vitória, que tivera tanta boa vontade ao recebe-la. Vinha notando a casa meio bagunçada ultimamente, e perturbava-a cada vez mais aqueles risinhos que Carla e Vitinho vinham trocando. Ali tinha coisa, com certeza, e ela haveria de descobrir.

Carla chegou de repente com seu conhecido ar de sonsa, e interrompeu os pensamentos de Telma.

— Prima, você me dá uma força para a tia liberar para mim um vestido para eu ir à festa com o Caio esse sábado? Ah por favooor...

Carla era assim mesmo, abusada. Não sabia conquistar etapa por etapa. Tia Vitória mal havia concedido que ela pudesse sair, e agora ela já queria escolher a roupa. Mas a tia só liberava calça jeans comprida. Irritada, Telma respondeu:

— Primeiro você tem que melhorar o seu comportamento! Quer ficar bem sexy? Pode deixar que eu vou te dar umas saias bem curtinhas para você fazer o serviço direito!

— Ah Telma, legal... eu não vou fazer nada errado, não! Você está achando que eu vou fugir com o Caio?

— Estou achando que você tem que ir devagar! Já fez besteira uma vez! Confiança é uma coisa que leva um só instante para quebrar, e muito tempo para refazer!

Carla voltou a armar sua cara de sonsa, e fingiu não estar ligando. Telma sentia que ainda não podia confiar nela, assim como não confiava naquele novo namorado dela, chamado Caio. No dia seguinte, cumprindo a promessa, deu a Carla um vestido bem curtinho para ela fazer a faxina. De longe notou como ela passou rebolando as cadeiras ao lado de Vitinho, que riu. Pensou consigo, as coisas estavam mudando. Já com onze anos, Vitinho começava a ficar malicioso. Aproximou-se do garoto, e comentou fingindo pouco caso:

— Você está interessado no corpo da sua prima, hein!

— Ué, a mamãe não falou que eu tinha que botar o olho nela? Eu estou botando HAHA.

Telma calou-se. O garoto era inteligente, e dera-lhe uma boa derrubada naquele diálogo. Teria que escolher bem as palavras antes de falar com ele.

Naquele sábado Telma não saiu. Ficou assistindo Netflix, sentindo falta de Ronaldo.