Na manhã que se procedeu após o meu sequestro, onde eu tive minha identidade revelada aos Titãs, acordei tarde. Por alguns momentos, dei pequenas abertas de olho antes de amanhecer e vi que Dick não havia saído de lá, até então. Ele não dormiu por um instante sequer naquela noite, ficou acordado, pensando em algo. Imagino que ele só saiu do meu quarto quando o sol já havia nascido, mas eu estava cansada demais para de fato reparar em algo, por isso, só fui de fato acordar por volta de meio dia. Ainda fiquei um pouco na cama, pensando no que tinha acontecido, preocupada. Slade, após perceber que estava derrotado por Robin e que não conseguiria mais lutar, fugiu. Eu não conseguia parar de me preocupar e de pensar em qual seria a próxima atitude que ele tomaria para tentar me eliminar. Por mais que ele soubesse que eu ainda conseguiria ser heroína sem meus poderes, por algum motivo eles queria os arrancar de mim, por isso, comecei a montar um mapa especulativo em minha cabeça, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão concreta.

Minha cabeça começou a doer fortemente, de tanto pensar nisso. Eu não queria levantar, mas levantei, e morta de fome. Me dirigi à cozinha, e quando cheguei lá, tinha uma bandeja, com torradas, ovos e bacon e um suco de laranja, com um bilhete assinado por todos os Titãs, com palavras de carinho. Ao lado do café, tinha uma jarra com um lindo lírio. Nela tinha um bilhete especial, bem escondido, assinado pelo Dick (não preciso nem dizer que me derreti toda, né?), falando para nos encontrarmos após o treino dos Titãs, que acabava por volta das 17h naquele dia, no terraço da torre para conversarmos sobre tudo o que tínhamos que conversar.

Não consegui conter minha ansiedade e fui assistir o treino. Obviamente, só assistir, porque treinar estava fora de questão naquele momento. Quando cheguei perto do vidro, todos pararam e começaram a olhar para mim. Eu era a Victoria, não a Donzela de Ferro. Peguei o microfone que era ligado do outro lado do vidro, onde eu estava, e falei para eles não se distraírem, continuarem a treinar. Eles continuaram, mas de relance, sempre soltavam uns olhares para mim. Quem mais olhou, como já esperado foi Robin. Ao final do treino, vieram todos falar comigo. Perguntando se eu estava bem. Ravena fez uma análise na anatomia de meu corpo para garantir que não havia nenhum dano à saúde ou a meus poderes, de fato, não tinha, era apenas o cansaço mesmo que estava me dominando.

Algo que eu não esperava, mas que começou a ocorrer foi uma chuva de perguntas a respeito de como era morar na mansão Wayne e, acredite, era uma melhor que outra:

— Deve ser glorioso ter um escravo particular a sua disposição, não é? — perguntou Estelar.

— Não, Estelar hahaha, o Alfred não é um escravo, é um mordomo. — respondi a ela, morrendo de rir.

— O que é mordomo? Seria por acaso algum tipo de escravo sexual? — perguntou ela, ingênua, na maior naturalidade do mundo.

Todos se explodiram de tanto rir da pergunta, inclusive eu, até meio constrangida.

— Não, ele só faz algo se eu pedir, mas não esse tipo de coisa! — tentei explicar.

— Então ele é um escravo! -insistia ela.

— Ele é pago, Estelar!!! — todos responderam em coro.

Após esse momento, Robin logo saiu e foi tomar um banho. Enquanto isso, fui esperá-lo no lugar combinado. Fiquei observando o pôr do sol, e como ele era lindo. Logo ele chegou, antes mesmo do sol se pôr totalmente. Sentou ao meu lado e foi bem direto:

— Por que não me falou antes?

— Acho que eu tive medo... — respondi.

— Medo? Medo de que, Victoria? -perguntou ele, meio irritado.

— Acho que eu queria tanto que você soubesse que era eu, queria tanto que fossemos do mesmo jeito que antes, mesma amizade, mesma sintonia, mesma parceria, que fiquei com medo de contar e não ser a mesma coisa. Ter uma expectativa e quebrar ela, logo de cara. — respondi, da forma mais profunda que eu pude, mais sincera.

— Eu senti muito a sua falta... Foi duro me distanciar de você, você sabe disso! — disse ele, ficando cada vez mais irritado.

— Dick, você sabe que foi difícil para mim também. Não complique as coisas... — eu ia falar mais, mas ele me interrompeu, furioso.

— Não, você que complicou as coisas fazendo isso!!! Me deixou confuso sobre tudo. Não consegui dormir, muito menos me concentrar em qualquer coisa hoje! — respondeu ele, irado.

— Dick! Para com isso! Confuso? Com o que? Eu achei que você estaria no mínimo feliz de saber que eu estou viva, que eu existo, que... Que eu estou aqui, com você. -falei.

— Eu estou feliz por você estar aqui, por estar viva. Mas você confundiu minha cabeça. Eu estava começando...começando a... Ah, esquece! — disse ele, mais furioso ainda.

— A que?! A sentir algo mais???!!! — respondi, acredito que internamente mais furiosa que ele ainda.

— Isso altera tudo. Tudo. — respondeu.

— Altera? Por quê? Você simplesmente deixa de sentir porque sou eu? Porque você achou que estava sentindo pela Donzela de Ferro? Mas deixa eu te contar uma coisa que você já sabe, EU SOU A DONZELA DE FERRO, ok??? A mesma pessoa. E essa pessoa corresponde seus sentimentos, assim como qualquer outra "eu". — falei para ele, enquanto colocava uma mão no rosto dele.

Dick fechou os olhos, colocou a mão dele e cima da minha e ficou sentindo meu toque em seu rosto. Em seguida, quando abriu os olhos de forma serena, começamos a nos aproximar, nossos rostos estavam chegando bem perto. Até que ele se deu conta do momento, apertou um pouco minha mão e a tirou de seu rosto, enquanto me afastava dele. Semicerrou os olhos e disse:

— Me desculpe, eu tenho que ir. A digestão pode ser demorada.

Dick, então levantou e foi embora. Sem dizer uma palavra mais. Me deixou lá, sem chão. Decidi que aquele abalo emocional não me deixaria para baixo a ponto de me afogar na bebida daquela vez, até porque eu tinha acabado de sair de uma situação de extremo risco. Por isso, resolvi dar uma volta voando aos arredores de Jump City. Já era escuro. Tomei minha aparência de combate e levantei voo. Eu devia estar mais ou menos perto do centro da cidade, quando apareceu uma águia verde voando do meu lado. Era Garfield. Era a única pessoa, fora Dick, de quem eu precisava naquele momento.

Encontramos uma boa praça para sentarmos e conversarmos sobre a situação. Ele fez de tudo para me animar e de fato, naquele momento ele conseguiu. Ele me perguntou sobre o que tínhamos conversado e eu contei tudo. Ele ficou perplexo, mas disse:

— Não se preocupe, o Robin é cabeça dura às vezes. De repente, só precisa de um tempo para pensar, digerir a situação.

Estava tudo indo bem, fora o abalo de antes. Até que apareceu um problema. Um leão do zoológico central tinha fugido, causando discórdia ali. Rapidamente, fomos conferir a situação. Era mais um maníaco que havia feito uma experiência com esse animal, o transformando numa besta. O leão estava todo modificado, com presas maiores do que o normal, mais agressivo que o normal (beeem mais) e com o pelo rajado, parecia que havia se arranhado durante o processo. Estava ferido.

Eu ainda me apresentava fraca devido ao ocorrido na noite anterior, por isso, estava sem muitas condições de lutar. Percebendo isso, o leão logo me atacou, me derrubando no chão e abrindo uma ferida de garras enorme entre meu olho e meu rosto. Por sorte, não fiquei cega, foi por muito pouco. O leão ia me atacar de novo, e quando estava vindo em minha direção, logo Mutano se transformou num leopardo e entrou em minha frente para me defender. Praticamente voou em cima do leão. Quando o maníaco ia interferir, soltei um grito sônico, que o fez voar e o manteve ocupado por um tempo. A luta entre Mutano e o outro animal era digna de passar no Animal Planet. Finalmente, numa última patada, Garfield conseguiu fazer o animal desmaiar. Ao acabar, atacou o maníaco, o fazendo contar o que ele tinha feito com o animal e se tinham mais animais sendo submetidos a isso.

Descobrimos que ele tinha um laboratório, onde realizava experiências com animais não-predadores, os transformando em predadores, para mais tarde, caso houvesse êxito, aplicar em predadores para transformá-los em bestas. Fui até o leão e o examinei, conseguindo remover o chip implantado nele e fazendo alguns curativos nele devido à luta e à transformação. Entregamos o laboratório à polícia, que removeu e destruiu todos os chips existentes, devolvendo os animais para seus devidos lugares.

Chegando em casa, estava a caminho de meu quarto. Mutano estava indo comigo para termos uma daquelas conversas de antes de dormir e para tratarmos de meu machucado. O caminho passava pelo quarto de Robin e, quando estávamos em frente, ele saiu. Olhou para a ferida em meu rosto, perplexo e a tocou. Ia dizer algo, mas quando viu que Garfield fazia uma expressão de "deixa comigo, está tudo bem", desistiu. Fomos para meu quarto, Garfield limpou e fez um curativo em meu rosto. E assim terminou a noite. Com eu e Dick de cara virada um para o outro, lutando contra o orgulho para finalmente, assumirmos o que realmente sentíamos um pelo outro.