Technocracy

9 Kapitel 8 - Ruinen


— Você e eu... somos os únicos ingleses que sobreviveram à guerra — ele continuou a explicação depois que Helene se acalmou. — Quinze anos antes da guerra, havia grupos de pesquisadores de genética divididos entre Licht e Empire. O objetivo deles era criar humanos artificialmente. Seu pai era um dos pesquisadores de Licht — ele olhou para a jovem por um instante, depois desviou o olhar, respirando fundo. — Ele traiu ambos, o próprio país e sua mãe. Vendeu as informações de pesquisa de Licht para os ingleses e usou você como cobaia no projeto.

— Ah...! — Helene pensou em falar algo, mas não conseguiu, apenas voltou a olhar pela janela, esperando pelo resto da história.

— Mas... — ele observou a garota, que olhava ao longe, por um instante — é por causa dele que você ainda está viva — Helene olhou para o moreno, surpresa. — Se ele não tivesse feito a experiência com você, as toxinas teriam a matado antes que eu pudesse tratá-la.

— Me tratar... do que você está falando? E-Eu...

— Uma patrulha de Licht encontrou você perto do domo, quando ainda era uma criança. Eles cuidaram de você pela possibilidade de ser humana, mas como você não respondia a nenhum dos tratamentos eles decidiram matá-la antes que pudesse espalhar doenças pelo domo — Helene mordeu o lábio inferior. — Felizmente eu consegui tirá-la de lá antes que eles fizessem qualquer coisa.

— Você... está mentindo... não está? — O moreno não respondeu. Apenas se levantou e saiu do quarto, deixando a garota imaginando o que poderia ter acontecido nesse meio tempo. — Isso não... — e os murmúrios dela terminaram ali, embora continuassem em sua cabeça.

Os pensamentos atacavam sem trégua a cabeça de Helene. Ela pensava sobre o pai dela, sobre o que poderia ter acontecido com ela quando criança. Mas nada lhe vinha à mente, isto é, além de sua imaginação tentando pregar-lhe peças.

Era um calmo final de tarde quando eles chegaram à Empire — o que sobrou dele, na verdade. O moreno pousou em uma pista cercada pelos destroços dos prédios, mas que ainda era utilizável.

Helene não conseguia acreditar no que via. Ela sabia que a guerra havia destruído completamente o “mundo anterior”, mas ela não imaginava que a destruição tinha chegado àquele ponto, já que o falso céu do domo de Licht fazia bem seu papel de encobrir os resultados da catástrofe. Agora que ele não estava ali ela podia ver até onde chegava a estupidez humana.

Pela janela da nave ela podia ver, além dos óbvios destroços que já eram por si vexatórios, os vários corpos deformados pela radiação. Alguns deles ainda tinham algo que lembrava remotamente uma pele — algo disforme que ela só imaginava sendo a pele de alguém por estar cobrindo os ossos.

Sentiu vontade de vomitar, e agradeceu aos céus pelo moreno tocar seu ombro e fazê-la olhar para longe daquele cenário assustador.

— Está na hora de irmos.

— Nada vai me fazer pisar nesse lugar — ela disse tirando a mão do moreno de seu ombro e caminhando para dentro da cabine.

O homem apenas observou ela andar até a porta, com um olhar de desgosto — Eu não perguntei se você queria ir ou não — e Helene congelou.

Ele caminhou para perto dela com passos pesados e a entregou uma máscara, encarando Helene até ela pegar a máscara. Ela tinha o pressentimento de que se não seguisse aquele homem seria morta — não, torturada. Ao que ela podia entender da situação atual, aquele moreno precisava dela para alguma coisa.

Helene clamou por Jürgem em sua mente, esperando que algum milagre levasse seu grito de socorro ao seu amado. Bem, não que eles fossem realmente um casal, mas a relação deles já havia passado de amizade há muito tempo.

Mas no fim ela foi forçada a ver aquele cenário novamente — pior, caminhar perto daquelas coisas. E ela teve que se segurar para não vomitar a cada passo que dava. Falhando miseravelmente quando eles viraram na rua que dava para o prédio central.

Teve vontade de pular no pescoço do homem que cravava seu olhar frio nela. Mas no fim ela ficou somente na vontade, não tinha outra opção a não ser seguir o homem, por enquanto — afinal, da última vez que tentou ela pôde sentir a dor de levar um tiro no ombro, e a arma agora não saia da mão do moreno.

— Até quando você vai ficar brincando? — ele disse irritado, empurrando a garota que não teve outra escolha a não ser continuar andando.

Ela derrubou o homem com uma fúria além do comum, pegou a arma na mão dele e descarregou na cabeça do desgraçado. Na mente dela, claro. A triste realidade é que eles estavam agora em frente ao prédio central — o que sobrou dele, na verdade — de Empire. Helene não tinha percebido antes, mas comparando a destruição do domo com a destruição do prédio central, ele parecia mais um monumento arquitetônico prestes a ser inaugurado em uma bela metrópole.

— Finalmente... — ele deu um sorriso despreocupado, quebrando toda a atmosfera pesada que se formou quando os dois desceram da nave. Helene não conseguiu segurar a pontada de sorriso que surgiu em seu rosto também, muito embora ele não tenha durado muito tempo.

O moreno olhou para ela com a mesma expressão fria de antes, o que fez Helene desviar o olhar para o chão e amaldiçoar o jovem em sua mente. E ele pareceu ler a mente da garota, já que sua expressão ficou mais fechada.

— Abra a porta — ele disse como uma ordem para um robô.

Helene apenas olhava para o moreno sem entender. Como raios você quer que eu abra essa porta?! Ela queria dizer, mas ficou calada. Podia até mesmo imaginar o que aconteceria se ela abrisse a boca para dizer aquilo; e ela não gostava da idéia de ter seu outro ombro destruído. Quando seus olhos recaíram sobre o mecanismo da porta ela percebeu que era um simples sistema de segurança usando informações biométricas — reconhecimento retinal, ao que parecia.

Ela aproximou seu rosto da área de reconhecimento, sentindo um pouco do desconforto causado pela luz varrendo as veias em seus olhos. Mas a tortura durou apenas uma fração de segundos, quando um som agudo confirmou a aceitação da “chave”, seguido do barulho da porta se abrindo. A garota ainda olhava bestificada o corredor escuro, cercado por auto-bots desativados, quando o moreno começou a puxá-la pelo braço.

No fim do corredor, eles desceram por uma escada espiral, que dava em mais um longo e escuro corredor — desta vez sem qualquer traço de robôs. Eles tomaram o elevador ao final de um corredor que se estendia à direita e depois de uma descida que parecia atingir o centro da Terra — e talvez o fizesse — as portas do elevador se abriram, revelando um corredor aparentemente desprovido de qualquer aparato tecnológico, com algumas portas ao longo dele.

O moreno puxou Helene pelo braço até o fim do corredor, colocou-a contra a parede e empunhou a arma contra ela. A jovem Agente só conseguiu esboçar uma expressão de extrema surpresa. Ela sabia que o moreno só estava mantendo-na viva porque precisava dela para alguma coisa, e ao que tudo indicava Helene já servira a seu propósito. Agora ela era apenas uma ferramenta inútil, prestes a ser descartada.

— Ah... — a voz que escapou de seus lábios contra sua vontade. Ela estava com tanta raiva que podia se ver matando o homem à sua frente de diversos modos diferentes, e mesmo assim seu rosto mostrava apenas um sorriso doce. — Eu... ainda não perguntei seu nome — ela disse, em um tom suave que desafiava a situação em que estava.

O homem bufou, desviando o olhar.

E tudo o que se seguiu foi um alto barulho de tiro.

———oOo———

Ele estava em uma sala cercada de hologramas. Kirstin, que estava sentada ao seu lado, não tinha dito uma palavra até o momento. Os dois apenas ouviam as palavras dos chefes do conselho.

— Como você pôde deixá-la escapar?! — o homem que gritava devia ter por volta de seus 40 anos, o longo cabelo castanho cobria o lado esquerdo do seu rosto e seu tom era deveras autoritário. De longe, ele era o mais intransigente dos sete. — Você percebe o perigo que ela representa para nós!? Você deveria ter feito seu trabalho há muito tempo e se livrado dela de uma vez!

Jürgem escutava em silêncio. Ele tinha várias coisas para falar, mas decidira que só perderia tempo tentando convencer aquelas pessoas. Afinal, as pessoas do Conselho, formado pelos sete chefes dos Estados sobreviventes, se consideravam deuses, e não ouviriam nada da boca de um “simples humano”.

— Acalme-se, Adolf — a voz feminina trouxe um silêncio de certa forma constrangedor. Jehanne, normalmente chamada de la Pucelle, a chefe de Loire, era normalmente calma e racional, embora fosse a última pessoa que qualquer um desejaria encontrar no campo de batalha. — O desaparecimento de Helle é um problema, mas você sabe o quanto ela é uma peça importante nesse jogo — o homem bufou em desagrado, mas compreendia bem o que ela queria dizer.

— O filho de Adão está desaparecido também — a voz forte e rouca veio do lado da Pucelle. Ieyasu, chefe de Mikawa, estava em seus 60, embora nada escapava de seu olhar aguçado. — Pode ser um problema se os dois se encontrarem.

Adolf se preparou para mais um sermão sem sentido sobre como Jürgem era um completo inútil, mas Jehanne o cortou antes que ele pudesse dizer qualquer coisa — Isso muda um pouco as coisas.

— Eu disse que os alemães não eram confiáveis — o tom sarcástico e ridiculamente frio partiu do lado de Adolf. Ioseb, chefe de Gori, tinha um sorriso malicioso no rosto, e se apressou para concluir seu ponto antes que o irritado Führer se pronunciasse. — De qualquer modo, nós ainda temos a última chave, não é?

Os olhares de todos se dirigiram para o jovem calmo ao fundo da sala. O longo cabelo loiro, a pele pálida e os olhos negros — que pareciam carregar toda a escuridão do mundo — davam a aparência de um deus mitológico. Ele era um homem de poucas palavras, mas as que deixavam seus lábios eram certamente memoráveis.

— Não — e, geralmente, um mau presságio.

Notas finais
———oOo———
Poor Helene, hm?

Os mistérios se acumulam, hm? Mas tudo vai fazer sentido no final (hopefully).

E sim, as pessoas do conselho são personagens famosos de cada país.
- Adolf Hitler, chefe de Licht (Alemanha)
- Ieyasu Tokugawa, chefe de Mikawa (Japão)
- Jehanne D'Arc, chefe de Loire (França)
- Ioseb Besarionis dze Jughashvili (conhecido como Joseph Stalin), chefe de Gori (URSS)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.