Teatro de Sombras
1 No grande palco da vida…
I
No grande palco da vida várias histórias são contadas, muitas nem conheceremos. Neste palco as cortinas se abrem e fecham no momento mais inusitado, quando ninguém espera.
Às vezes se é coadjuvante, às vezes protagonista, oras diretor, algumas organizador, outras nós encontramos nos bastidores dos bastidores, somos costureiros, o revendedor, o ajudante, não importa a posição, ninguém fica de fora desse teatro.
Seria alguém irrelevante? Ou desnecessário?
Em um teatro onde todos querem ser protagonistas é difícil responder essa pergunta. Onde todos querem no mínimo estar no palco. Receitas relatando sobre sete passos para ser o primeiro, método infalível para ser protagonista, ou mesmo os que gritam que para estar no palco só depende de você; como uma peça totalmente ensaiada, somos induzidos como bonecos de sombra, reflexos de um script pronto e inalterado. Com um curto jato de luz iluminam o que querem e obscurecem o que querem. É difícil encontrar o prazer em fazer nesse palco de sombras, pois não ser protagonista e ser inadequado, fora de eixo, antiquado. Neste teatro de sombras não há espaço para o diretor, narrador ou sonoplasta, não há vaga para ajudante, auxiliar, ou para o simples e importante faxineiro que organiza o palco para a próxima peça, para assim abrilhantar os olhos do público que olha fixo. Não existe nem mesmo espaço para o público; quem se deleitará, no tão suado e ensaiado teatro das sombras, quem terá o prazer de somente deleitar no belo visto e apreciado?
Neste teatro de sombras nem mesmo o talento é visto. “É salve se quem puder”. Não há mais espaço para a degustação; “que venha o próximo sucesso e talento”.
Para quem mesmo? Se nem o público se deleitará?
Não obstante, os pobres homens talentosos, além de lutar loucamente uns contra os outros, agora tem que lutar também com uma nova donzela: as bonecas perfeitas de porcelana, que não erram, não vacilam, não balbuciam, são programadas para serem perfeitas; codificadas, embaladas e endereçadas. E no palco da vida invade cada vez mais o palco e os bastidores, calando os que ainda tentam gritar, gritar por um suspiro, por um tempo, por menas pressa, menos comércio e mais degustação.
Neste teatro onde tudo funciona de forma louca e desregulada, tudo se torna também comum. Aqueles que compõem o palco nunca estão de fato satisfeitos com seu papel e importância, por esse motivo as peças que eram suaves e leves, se tornaram brutas e insensíveis, sendo tudo permitido neste palco, desde que seja assegurado sua permanência no mesmo.
Os bastidores se tornaram vergonha e chacota, algo a ser ignorado e esquecido. Os diretores e organizadores, mantém toda a peça por alto preço, pensam, repensam, planejam, mas no fim, o mérito e de quem está somente no palco, não importa a mente por trás; o que importa são os bonecos de sombra no palco, com suas falas decoradas e estabelecidas. Igualmente os diretores são regulados, ajustados e enquadrados no ideal a ser estabelecido e repassado ao público.
O que aconteceu com este teatro? Me pergunto, onde e como esta peça irá se encerrar?
Mas atônitos o público ao meu lado parece hipnotizado perante o show de bonecos de sombra. No fim, todo o ambiente parece ter se tornado um teatro de sombras.
Quando as cortinas estiverem prestes a se fechar, só então, nos daremos conta, do teatro de sombras a qual participamos, então, levantaremos devagar de nossa poltrona, procuraremos a saída, e se com sorte encontramos, nossos olhos não conseguirá ficar aberto perante o brilho da luz, só então daremos conta do tempo que perdemos, da sombra a qual habitamos e fizemos parte. Por que no final dessa peça, todos descobriremos quem ninguém foi de fato protagonista, ninguém esteve de fato no palco, ninguém estava de fato nos bastidores, no fim éramos todos meros observadores.
...Anne...
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