Teacher's Pet

2 Venha, Josephine


Notas iniciais
oi, gente! agradeço aos comentários, favoritos e acompanhamentos. espero que vocês continuem gostando da história e, caso contrário, sintam-se à vontade para expressarem suas sugestões de melhoria! neste capítulo, teremos a apresentação de uma nova personagem: Josephine. Um link para a representação da imagem dela estará no texto e isso seguirá para todos os personagens - exceto os principais, Matthew e Meredith, cujos photoplayers estão na capa da fanfiction (Alex O’Loughlin e Victoria Pedretti). é isso, nos vemos lá embaixo!

Quando o café estava morno em meu corpo, impulsionando-me até a porta do modesto e caótico apartamento que havíamos adquirido recentemente, retirei-me da mesa — montada em apuros pelas nossas imagens sempre desfiguradas desde a partida de nosso bebê. Diante daquela morte, nós precisávamos de concretude, mesmo que por meio de uma única mobília decentemente montada ao centro do cômodo principal do que deveria ser uma residência familiar. Nossa mesa simplista, num ato ilusório, simbolizaria a união. Era ali que se formariam os diálogos entre refeições, as risadas entre confusas feições enquanto tentaríamos repetir os tutoriais de revistas que ensinavam casais recém-formados a construírem suas próprias moradias; ali seria também o local em que pousaríamos, ao lado de Josephine, sobre a madeira, panfletos de possíveis escolas para o nosso filho. Entretanto, nós não tínhamos um filho. Tínhamos uma mesa.

É pressuposto que tenhamos uma visão analítica da vida. Sintática jamais poderia ser, de certo. Ora, tenhamos gozado de todos os momentos críticos e também satisfatórios de uma específica jornada, seria justo condensá-los numa única vistoria? Sob minha ótica, não. Contudo, quando próximo de Jo, eu não desfrutava desse direito inevitável de reflexão do ser humano. Seria isso porque ela controlava essa perspectiva? Pelo contrário: minha esposa estava em estado de negação há meses, quase para completar um ano; isso significava que ela sequer trocava cinco palavras comigo durante o dia inteiro.

— Vejo você mais tarde, Josie — passei minha mão pela sua, fragilmente posta sobre a própria perna. Quis resgatar um momento nosso ao chamá-la pelo apelido que apenas eu utilizava. O olhar distante dela dizia para mim, mais uma vez, o quão quebrada ela estava por dentro. — Tente abrir algumas caixas e arrumar nossas coisas, o que acha?

— Acho que não devo fazer isso — duramente sincera, revelou. Seus lábios ressecados se colaram quando ela os juntou para evitar falar mais do que deveria. — Boa sorte no seu primeiro dia.

— Obrigado — beijei sua testa para me despedir e deixei a cadeira na qual eu havia me sentado novamente.

É uma recorrência, minha querida Josephine: pessoas morrem. Enxergue-me, eu estou vivo. Embora vivo, eu sei, permaneço egoísta. Meu dever, como marido, era apoiá-la incansavelmente por seu luto. Porém, quando há apenas duas pessoas nessa equação de apoio mútuo e temos de excluir a reciprocidade, repentinamente uma dessas almas é jogada em direção a mais simples das travessias: a do corpo, e eu não queria ser somente matéria. Eu desejava também suporte incondicional. Era duro pensar no individualismo que ronda o ser humano em sofrimento e eu não podia, como mero mortal em estado depressivo, escapar dele. Por favor, Jo, dê-me sua atenção também. Dê-me “bom dia” e um abraço, apenas diga que eu posso chorar, caso eu queria. Por favor, meu amor.

— Tem certeza que vai ficar bem? — antes de sair, virei-me para seu corpo inerte sobre a cadeira, tentando estabelecer contato visual. — Eu posso chamar sua mãe para ficar com você.

— Certo — o canto de sua boca se elevou a um nível crítico de zombaria. — É por isso que viemos para cá, não é? Para você poder jogar a responsabilidade à minha mãe.

— Jo, eu estou tentando ajudar — ajeitei a alça comprida da pasta que carregava em um dos ombros. — Eu estou com você, lembra-se disso?

— Eu me lembro de uma coisa, Matt — seus dedos apertaram o próprio joelho e ela suspirou, fechando os olhos cansados. — Eu me lembro de você prometer que seríamos felizes. — uma de suas sobrancelhas se ergueu e, do semblante repleto de sinais, surgiram lágrimas discretas. Qualquer coisa podia fazê-la chorar ultimamente.

— Estou tentando cumprir essa promessa novamente, querida — tentei ser o mais doce possível, dirigindo-me cada vez mais para a porta. A verdade é que eu precisava sair dali. — Um dia, eu fui capaz — sorri para ela e, sem retribuição, deixei o apartamento, trancando a porta logo em seguida.

Josephine sempre fora vívida. Assim nos conhecemos, há dez anos, em um típico clichê de primeiro encontro no bar da faculdade. Ela era espontânea nessa época. Ela era espontânea antes deste trágico episódio. Em meus sonhos, ainda era a mesma. Apesar disso, eu não podia cobrar imutabilidade de uma pessoa, embora pudesse desejar. Talvez meu entendimento acerca do casamento tivesse finalmente aflorado: duas pessoas, em seus conflitos internos, unem-se. De repente, esses conflitos se transformam em um. As expectativas são jogadas no lixo e o fogo das descobertas se apaga. Perder uma parte minha nunca seria fácil e eu sabia disso.

O trajeto até o colégio de Port Angeles me deixou aflito; não pelo típico desassossego que assola alguns dos professores em início de carreira, meus anos de magistério serviram para me deixar cada vez mais frio em relação a isso. A aflição se dava pelo fato que já se tornara corriqueiro em minha vida: tentar a mudança e sempre cair em mesmice. Lá estava eu, novamente, dirigindo até uma escola onde contaria as horas para ir embora. Mesmo que Washington, em geral, fosse naturalmente triste, as ruas pacatas e chuvosas daquela pequena cidade em específico foram capazes de me deixar ainda mais sombrio — ao menos aquilo soava diferente.

— Matthew falando — atendi o celular que tocava pela segunda vez depois de eu já o ter desligado.

— Bom dia, Sr. Burke — uma voz feminina, do outro lado da linha, saudou-me enquanto eu finalizava a árdua tarefa que era a de estacionar um sedã em um único e apertado espaço disponível entre dois outros enormes carros. — Lembra-se de Karina Young?

— Claro, Sra. Young — assegurei com o máximo de simpatia possível. Karina era a solícita diretora do colégio de PA.

— Eu apenas liguei para avisar que você deve chegar somente para a segunda aula. Houve um erro no nosso cronograma, peço desculpas por isso — com pesar na voz, Young pediu. Eu ri por dentro quando notei que já estava dentro do colégio.

— Não se preocupe.

— Oh, obrigada, Matthew — aliviada, Karina me agradeceu. — E me desculpe por isso, é certo que não acontecerá novamente.

— Tudo bem, Sra. Young — tranquilizei-a e esperei que a porta do carro sendo fechada não fosse um som extremo aos ouvidos da diretora do outro lado da linha. — Vejo-a mais tarde.

Encontrar o vento gélido do estacionamento do colégio me fez ponderar vantagens e desvantagens de esperar pelo fim da primeira aula ali mesmo. Adentar a instituição me obrigaria a trombar a Sra. Young e outros funcionários que fariam parte do meu possível comitê de boas-vindas, mas eu ainda não estava pronto para me tornar o Matthew sociável, precisava de mais alguns minutos para aprender a esconder meus reais motivos de estar ali.

— Está perdido, big boy? — em uma linguagem espirituosa, certa voz feminina me convenceu a parar a poucos passos de meu carro e virar em sua direção.

A silhueta divertida de uma garota magra estava parada em minha frente, apoiada, figuradamente, em um de seus calcanhares que pousou no chão, dando a ela um perfil totalmente pachorrento. Suas botas arreganhadas e casacos postos desajeitadamente uns sobre os outros faziam com que ela perdesse qualquer toque de performance da feminilidade, exceto pelos cabelos pouco grossos e muito lisos, quase oleosos senão pelo clima frio de Port Angeles. Os dedos indicador e médio só eram visíveis pois carregavam um cigarro amassado quase em seu fim.

— Não — respondi ao seu questionamento curioso e me encostei no carro. — E você?

— O que você acha? — ela abriu seus braços e deu um rodopio rápido, permitindo-me avaliá-la.

Céus, eu não sabia o que eu achava. O que eu deveria achar de uma abordagem como aquela?

— Que os aparentemente perdidos são, possivelmente, os que mais se identificam com si mesmos.

Seu maxilar se alargou quando os dentes — alguns retos e previsíveis, outros pontiagudos e certeiros — foram exibidos em um sorriso surpreendentemente espontâneo; até então, achei que sua postura fosse se nivelar ao agressivo. Aos poucos, os cantos adoráveis de seu nariz se franziram, anunciando sua risada incômoda e também deleitosa. Meus olhos se encheram ainda mais de zelo pela imagem em minha frente quando a garota bateu suas mãos contra as pernas, desatenta aos cabelos esvoaçados sobre o céu cinza da cidade.

— Você é o novo professor? — ela cruzou os braços quando a corrente de vento cruelmente gelada a atingiu mais intensamente. Suas orelhas proeminentes foram, então, reveladas. — Que substituirá a Srta. Rodriguez — a boca rosada se tornou também entreaberta, como se a conclusão recém-tomada fosse óbvia há algum tempo.

— Culpado — ergui uma das mãos, o que também a divertiu. Uma criança. — E você deverá ser uma das alunas das minhas classes?

A pequena e desajeitada moça dos cabelos quase amarelos saltou dois passos a mais, a fim de encontrar a mim, já bem apoiado no capô do meu veículo. De perto, seu rosto não parecia tão doentiamente branco quanto a uma distância maior, porém, ainda era pálido como gelo. Os olhos dela eram bonitos, plenamente azuis ou, a qualquer ameaça de luz, talvez pudessem ser misturados com qualquer outra cor facilmente associada ao melancólico.

— Meredith Giordano, ao seu dispor — estendeu sua mão de dedos finos e eu a apertei, selando nosso primeiro cumprimento.

Era engraçada aquela Meredith, eu suponho. Seu funcionamento dinâmico poderia ser composto por algumas fases, certamente, mas eu só descobriria aquela. As próximas estavam escondidas pela pouca idade e posição de minha estudante. Eu quero dizer, uma pessoa… ela era uma pessoa que eu nunca poderia conhecer em totalidade, como quando você conhece um amigo ou seu futuro desafeto.

— Matthew Burke.

Come, Josephine in my flying machine
Going up all on "Goodbye"

Come Josephine in My Flying Machine — Fred Fischer e Alfred Bryan

Notas finais
espero que vocês tenham gostado! deixem-me saber suas opiniões e sugestões. agradeço por lerem e até mais! um grande beijo ♥